“Respondei-me”
Neal A. Maxwell
Junto-me à saudação de boas-vindas a todos os novos Irmãos, inclusive o Élder Richard Scott, ao Conselho dos Doze. ¶
Anos atrás, o Élder Scott foi chamado como presidente de missão. O distinto almirante para quem ele trabalhava ficou intrigado e até contrariado com o fato de o Élder Scott ter aceitado aquele chamado. Mais tarde, esse mesmo almirante, um distinto servidor público, escreveu um livro intitulado Why Not the Best? Sugiro que a pergunta do almirante a respeito daquele chamado seja respondida no próprio título de seu livro, o que também tem certa aplicação nos dias de hoje, pois o Senhor chamou um dos “melhores”. ¶
Esforçar-nos sinceramente para seguir Jesus porá à prova nossa fé e nossa paciência — algumas vezes duramente. (Vide Mosias 23:21.) Mesmo com toda a sua tribulação, contudo, é a trilha das trilhas. ¶
Como todos sabemos, o evangelho restaurado de Jesus Cristo nos dá respostas abundantes. Mas Jesus também fez algumas perguntas penetrantes que nos revelam ainda mais sobre a jornada expansiva do discipulado. Àqueles que indagaram sobre sua autoridade, Jesus, por sua vez, fez uma pergunta incisiva, dizendo: “Respondei-me.” Eles não puderam. (Vide Marcos 11:29–30.) A todas as suas perguntas aplicáveis, o convite “Respondei-me” permanece até hoje. ¶
“Onde estão os nove?”, indagou Jesus a respeito dos leprosos curados que não voltaram para agradecer. (Lucas 17:17; itálico acrescentado.) Quantas vezes somos como os nove? Receber as bênçãos de Deus sem reconhecer sua Fonte é tão irreal quanto ingrato. ¶
Ofendemos a Deus não apenas por nossa ingratidão, irmãos e irmãs, mas também por não reconhecermos sua mão competente ao realizar seus propósitos transcendentes na Terra. (Vide D&C 59:21.) Muitos, na verdade, duvidam de que os planos de Deus finalmente prevalecerão. Não somente nos anos vindouros, mas já agora, a autossuficiência mortal será desconcertada. Um temor profundo há de permear, por fim, este planeta perplexo. (Vide D&C 63:33; 88:91.) Quisera a humanidade poder viver na fé, não no temor — e na gratidão, não no esquecimento. ¶
Além disso, todos nós somos mendigos de qualquer forma (vide Mosias 4:19), mendigos resgatados pelo Criador do universo, que viveu humildemente como alguém “sem reputação”. (Filipenses 2:7.) Em contraste, às vezes ficamos tão preocupados com nossa própria imagem, quando é a imagem dEle que deveríamos ter em nosso semblante. (Vide Alma 5:14.) ¶
“É lícito fazer o bem no sábado?”, indagou Jesus, em contradesafio. (Marcos 3:4; itálico acrescentado.) Não poderíamos manter o espírito da lei sem deixar outras coisas por fazer? Sem esse equilíbrio espiritual, permanecer no caminho estreito e apertado será uma grande provação para nós. (Vide 2 Coríntios 3:6.) ¶
Até mesmo a busca por coisas louváveis ou dignas de amor é acelerada quando cremos em todas as Regras de Fé anteriores à décima terceira. Da mesma forma, os que seguem os Dez Mandamentos não se dividem em dois grandes pelotões — um especializado nos “farás” e o outro nos “não farás”. ¶
A verdadeira ortodoxia consiste em manter em devido equilíbrio as doutrinas, ordenanças, convênios e programas da Igreja, bem como o serviço cristão. Nesse processo diário de equilíbrio, não estamos isentos de exercer bom senso — depois de tudo o que manuais e guias podem fazer. ¶
De quem é esta efígie e esta inscrição?, perguntou Jesus, usando uma moeda hoje extinta, e expondo os que buscavam apanhá-lo em erro, ao mesmo tempo em que dava um conselho válido enquanto houver governantes mortais. (Vide Mateus 22:20.) Sim, a César devemos impostos. Mas a Deus, em cuja imagem fomos cunhados, devemos a nós mesmos! ¶
Nas diversas e por vezes estressantes situações de nossos membros ao redor do mundo, não poderíamos seguir a décima segunda Regra de Fé, dando a Deus e a César o que lhes é devido? Afinal, o público imediato de Jesus era um povo reprimido, vivendo sob um protetorado militar que sustentava uma autoridade civil corrupta. ¶
Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas, quanto mais dará vosso Pai? (Vide Mateus 7:11.) Embora imperfeitos, nós, mortais, fazemos o bem, algumas vezes muito bem. Mas conseguimos manter a bondade mortal em perspectiva? Comparativamente, somos muito mais rápidos em retribuir favores e pagar nossas dívidas a outros mortais — e devemos ser receptivos e gratos. Mas que dizer dEle que nos deu a própria vida mortal, que em breve nos dará a todos a imortalidade, e que oferece aos fiéis o maior de todos os dons, a vida eterna? ¶
Somos, de fato, péssimos contadores! ¶
Por que pede esta geração um sinal?, indagou Jesus com um profundo suspiro. (Vide Marcos 8:11.) Quanto mais ímpio e adúltero for o povo de determinada época, mais exigirá sinais como condição para crer. Os indivíduos sensuais anseiam por sensações e vivem delas. Os discípulos, ao contrário, caminham e “vencem pela fé” (D&C 76:53), aceitando com gratidão a evidência das coisas que não se veem e que são verdadeiras (vide Hebreus 11:1; Alma 32:21) e utilizando discretamente os dons espirituais de Deus. ¶
Que desejas de mim?, indagou Jesus ressuscitado, um a um, aos Doze nefitas. (Vide 3 Néfi 28:1.) Ele conhece a capacidade individual de cada um de nós. Ele nos conduzirá, não nos apascentará como rebanho. (Vide D&C 78:18; 50:40.) Antes de tudo, o evangelho pode até mesmo educar nossos desejos; então esses desejos podem operar afirmativamente em nós e por nós. ¶
Estaremos nós, porém, realmente prontos para a responsabilidade e a grande aventura de sermos tutelados por Aquele que genuinamente deseja honrar nossos desejos individuais, se não desejarmos de modo equivocado? ¶
Quanto ao que Deus concede diferentemente a outros, não precisamos nos preocupar. Pedro, ao indagar sobre o papel futuro de João, foi questionado por Jesus: “Que te importa a ti? Segue-me tu.” (João 21:22.) Às vezes, irmãos e irmãs, comparamos demais e seguimos de menos. Às vezes também alguns poucos ressentem-se por Deus ter escolhido outra pessoa; sentindo-se preteridos, acabam por soçobrar espiritualmente. ¶
“Que pensais vós do Cristo?” (Mateus 22:42.) Seja como for que o mundo a ignore ou lhe responda, esta é a pergunta retumbante e magna! (Vide Alma 34:5–6.) Podemos responder, tanto com a vida quanto com a língua: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”? (Mateus 16:16.) Até que possamos fazê-lo, tudo o mais que dissermos e fizermos fará, no final, pouca diferença. ¶
“Quereis vós também retirar-vos?” (João 6:67), perguntou o Mestre a Seus discípulos, depois que muitos de seus seguidores de ocasião voltaram atrás e “não andaram mais com ele”. (V. 66.) O próprio processo do viver diário forma e desfaz seguidores. As estações e tempestades rigorosas da vida derrubam os que não estão arraigados e fundados. (Vide Efésios 3:17; Colossenses 1:23; 1 Pedro 5:10.) Contudo, os que “creem e sabem” (João 6:69) da divindade de Jesus não entram em pânico, por exemplo, diante de uma nova saraivada de dardos inflamados; eles apenas erguem o escudo extintor da fé. ¶
Essas são apenas algumas das perguntas penetrantes de Jesus. ¶
Permitam-me acrescentar várias perguntas muito menores, de minha própria lavra? Algumas são dirigidas a todos, e outras aos membros, ao seguirmos o conselho de um antigo profeta de “considerar os [nossos] caminhos”. (Ageu 1:7.) ¶
Por que nosso estilo de vida está, por vezes, borrado e fora de foco, quando já nos foi dito claramente que “maneira de homens” e mulheres devemos ser? (3 Néfi 27:27; vide também 2 Pedro 3:11.) É claro que, como indivíduos, somos livres para escolher! Mas escolhas erradas nos tornarão menos livres. Além disso, o erro corrosivo gradualmente torna a pessoa cada vez menos um indivíduo. Deus e seus profetas gostariam de nos poupar dessa diminuição. ¶
Por que alguns poucos membros, que de certa forma se assemelham aos antigos atenienses, estão tão ansiosos por ouvir alguma nova dúvida ou crítica? (Vide Atos 17:21.) Assim como alguns membros fracos atravessam a fronteira de um estado para jogar, alguns poucos se desviam de seu caminho para ter suas dúvidas estimuladas. Em vez de nutrir sua fé, apostam “no exterior” com sua fé frágil. À pergunta “Quereis vós também retirar-vos?” esses poucos responderiam: “Ah, não, apenas queremos um passe de fim de semana para ir a um cassino para céticos ou a um clube para os que apenas seguram os mantos.” Tais membros, facilmente desviados, não são discípulos, mas seguidores de ocasião. ¶
Ao contrário, os verdadeiros discípulos são corretamente descritos como firmes e inabaláveis, prosseguindo com “um perfeito esplendor de esperança”. (2 Néfi 31:20; vide também D&C 49:23.) ¶
Por que resistimos e nos ressentimos das provas de desenvolvimento e obediência da vida? Ao declararmos: “Andarei em meu próprio caminho e farei o que é reto aos meus próprios olhos”, rejeitamos o currículo da escola mortal na qual estamos irrevogavelmente matriculados. (Vide Juízes 21:25; D&C 1:16.) Há apenas um portão de saída que conduz à vida eterna. Infelizmente, poucos o encontram — não porque Deus seja excludente, mas porque eles excluem Deus de suas vidas. Nem mesmo Deus pode realizar uma reconciliação que envolva apenas uma das partes. ¶
Por que alguns pensam que o adultério e pecados semelhantes são permissíveis, desde que qualquer outra coisa que façam seja louvável? O enfoque do Senhor não está na única coisa boa que fazemos, mas sim naquilo, ou naquelas coisas, que ainda nos faltam para termos a vida eterna. (Vide Marcos 10:21; 2 Pedro 1:9.) Compor uma sinfonia, vencer uma batalha ou salvar uma empresa — cada um desses feitos pode ser um lançamento louvável e digno no livro da vida, mas nenhum deles compensa a quebra do sétimo mandamento. Na aritmética dos céus, vários feitos louváveis não anulam um único ato indesculpável! O claro mandamento de Jesus é que neguemos a nós mesmos a imoralidade e “tomemos [a] cruz diariamente”, e não que nos entreguemos aos prazeres e tomemos a cruz apenas ocasionalmente! (Lucas 9:23; vide também 3 Néfi 12:30.) O Antigo Testamento aconselha que “aquele que governa” a si mesmo é melhor “do que aquele que toma uma cidade”. (Provérbios 16:32.) ¶
Por que alguns de nossos jovens arriscam-se a um ritual de perdição, com a intenção de passar uma temporada se rebelando e agindo mal na Babilônia, sucumbindo àquele diabolicamente democrático “todo mundo faz isso”? As multidões não podem tornar certo aquilo que Deus declarou errado. Embora planejem voltar mais tarde, muitos desses retardatários descobrem que o álcool, as drogas e a pornografia não os soltam facilmente. A Babilônia não concede vistos de saída de bom grado. É uma implementação irônica daquela antiga jactância: “Nenhuma alma se perca.” (Moisés 4:1.) ¶
A filosofia do ritual de perdição é “comei, bebei e diverti-vos... [e] Deus nos castigará com uns poucos açoites”. Essa é uma visão cínica e superficial de Deus, de si mesmo e da vida. Deus jamais poderá justificar-nos “na prática de um pequeno pecado”. (2 Néfi 28:8.) Ele é o Deus do universo, não algum juiz de tribunal noturno com quem possamos regatear e negociar uma pena reduzida! ¶
É claro que Deus é misericordioso! Mas Ele conhece as intenções de nosso coração. Ele também sabe qual bem poderíamos ter feito enquanto estávamos ausentes sem permissão. De qualquer forma, o que os outros fazem não é desculpa para o discípulo de quem muito se exige. (Vide Alma 39:4.) Além disso, no caminho estreito e apertado, simplesmente não há atalhos a serem tomados. (Vide D&C 82:3.) ¶
Por que alguns esmagam e despedaçam os ternos corações de cônjuges e filhos por meio da insensibilidade e até mesmo da infidelidade? Incapazes de sustentar relacionamentos duradouros, gritando, em efeito, “Eu sou meu próprio dono, eu é que mando!”, eles recuam covardemente de suas verdadeiras responsabilidades. (Vide Jacó 2:35.) Em homens ou mulheres tão lamentáveis, é tão forte a disputa entre a autopiedade e a autoindulgência que esses dois impulsos ficam ambos em segundo lugar! Além disso, assim como o gênero não teve significado salvador na corrida autodestrutiva dos porcos gadarenos rumo ao mar, tampouco o tem hoje. ¶
A obra de Deus é a de encontrar, ajudar e reconciliar — não a de abandonar, trair e desertar. Urias, traído e abandonado em meio à batalha, representa muitos. (Vide 2 Samuel 11:15.) ¶
Ao concluir, estas próximas observações ressaltam tanto a majestade quanto a humildade dAquele que simplesmente disse: “Respondei-me.” ¶
Embora tenha sido crucificado brevemente entre dois ladrões, Jesus agora se assenta eternamente à direita de Deus! (Vide Lucas 22:69; 1 Pedro 3:22.) Ele é o Senhor do universo construído, e ainda assim era conhecido apenas como “o filho do carpinteiro”. (Mateus 13:55.) ¶
Ele formou mundos sem número, proporcionando-nos um assombro astrofísico quando contemplamos até mesmo “o menor destes”. (D&C 88:47.) Contudo, para ajudar um único cego — com barro formado de saliva — “Ele, das películas espessas, [purificou] o raio visual, / E sobre o globo ocular sem vista [derramou] o dia.” (Alexander Pope, em Frederic W. Farrar, The Life of Christ, Nova York: E. P. Dutton and Co., 1893, p. 394; vide João 9:6.) ¶
Jesus ficava cansado, mas nunca entediado. Ele estava sempre a ensinar, mas nunca a condescender. Suas doutrinas são como diamantes cintilantes de múltiplas dimensões, exibindo sua verdade e beleza, faceta por faceta, conforme a fé e a preparação de quem as contempla. ¶
Jesus tinha acesso a um poder imenso, mas nunca o usou de modo impróprio. Ele se recusou a fazer um espetáculo para Herodes, que buscava um sinal. (Vide Lucas 23:8.) Legiões de anjos protetores aguardavam a ordem de Cristo, uma ordem que jamais veio. (Vide Mateus 27:42.) ¶
Jesus foi muitas vezes incompreendido e rejeitado. Mas Ele se sentiu mais abandonado e sozinho no Calvário — precisamente quando o ato final da Expiação envolvia a humanidade em seu amor eterno. Ironicamente, nos momentos em que, em agonia, beneficiava bilhões e bilhões de mortais, Ele era acompanhado apenas por uns poucos fiéis. ¶
Sua expiação infinita afetou todas as épocas, todas as dispensações e todas as pessoas. (Vide 2 Néfi 9:7; 25:16.) Daí o simbolismo apropriado de seu sangramento por cada um e todos os poros — não apenas por alguns — para que “assim como todos morrem em Adão, assim também em Cristo todos serão vivificados”. (1 Coríntios 15:22.) ¶
Não haverá fim para as ondas de repercussão da Ressurreição resultantes da Expiação infinita. Tampouco haverá fim para a posteridade daqueles que recebem a vida eterna — eventualmente, mais posteridade do que as estrelas dos céus. (Vide Gênesis 26:3–4.) Quão infinita, de fato! ¶
Essas observações descrevem apenas uma pequena parte dAquele que disse: “Respondei-me”, lembrando-nos de quem partiu esse convite. Que nós, irmãos e irmãs, possamos respondê-lo com a totalidade de nossa vida, cantando sinceramente: "Sentimos que é um prazer servir-te, / E amamos obedecer ao teu mandamento." (Hymns, 1985, nº 19.) Que sejamos gratos por todos os profetas de Deus em cada dispensação, inclusive o Presidente Benson; assim oro, em nome do Senhor de todos os profetas, o próprio Jesus Cristo, amém. ¶