O Dom Supremo da Expiação
James E. Faust
Meus queridos irmãos, irmãs e amigos, há dezesseis anos fui chamado para ser Autoridade Geral desta Igreja, e há dez anos, nesta mesma conferência, fui sustentado como membro do Quórum dos Doze Apóstolos. Estes anos têm sido desafiadores e, de muitas maneiras, difíceis, mas também têm sido gratificantes. Minha esposa e eu temos procurado, com humildade, servir ao Senhor da melhor maneira que sabemos. Viajamos por grande parte da terra em meu ministério. Isso nos deu a oportunidade de testificar do Salvador em muitos países. ¶
Durante esses anos, tendo usado como manto espiritual o conhecimento de que Jesus é o Cristo, sinto-me hoje impelido a dar meu testemunho pessoal a respeito de Jesus de Nazaré e de sua missão. Desejo testificar da mediação, da expiação e da ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Falo desses acontecimentos transcendentes à luz de meu conhecimento espiritual de que Jesus é o Redentor e o Filho de Deus. Testifico também de Sua divindade e daqueles acontecimentos relacionados ao ofício, ao sacerdócio, ao chamado e à autoridade do santo apostolado com que eu e meus Irmãos fomos investidos. ¶
Por meio da Expiação e daqueles acontecimentos singulares que a envolveram, todos os terríveis pecados individuais e coletivos de toda a humanidade foram colocados sobre os ombros do Senhor. O resultado maravilhoso desse grande sofrimento foi que Ele pôde redimir da morte física tanto os crentes e obedientes quanto os incrédulos e desobedientes. (Ver D&C 46:13–14; Atos 24:15; 1 Coríntios 15:22.) Toda pessoa que já nasceu ou que ainda nascerá é beneficiária tanto da mediação quanto da expiação do Salvador. (Ver Alma 11:42.) ¶
O ato da Expiação é, em seus termos mais simples, uma reconciliação do homem com seu Deus. A palavra expiação significa tornar-se um. "É literalmente at-one-ment [tornar-se um]." (James E. Talmage, The Articles of Faith, 12ª ed., Salt Lake City: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1924, p. 75.) Por causa de sua transgressão, Adão e Eva, tendo escolhido deixar seu estado de inocência (ver 2 Néfi 2:23–25), foram banidos da presença de Deus. Isso é chamado, na cristandade, de Queda, ou transgressão de Adão. É uma morte espiritual, porque Adão e Eva foram separados da presença de Deus e receberam o arbítrio "para agir por si mesmos, e não para serem coagidos" (2 Néfi 2:26). Também lhes foi dado o grande poder da procriação, para que pudessem cumprir o mandamento de "multiplicar-vos e encher a terra" e ter alegria em sua posteridade (Gênesis 1:28). ¶
Toda a sua posteridade foi igualmente banida da presença de Deus. (Ver 2 Néfi 2:22–26.) No entanto, a posteridade de Adão e Eva era inocente do pecado original, pois não teve parte nele. Era, portanto, injusto que toda a humanidade sofresse eternamente pelas transgressões de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Tornou-se necessário resolver essa injustiça; daí a necessidade do sacrifício expiatório de Jesus, em seu papel de Salvador e Redentor. Por causa do ato transcendente da Expiação, é possível a toda alma obter o perdão dos pecados, tê-los lavados e esquecidos. (Ver 2 Néfi 9:6–9; Talmage, Articles of Faith, p. 89.) Esse perdão, porém, vem mediante o arrependimento e a retidão pessoal. ¶
Há uma distinção entre imortalidade, ou existência eterna, e vida eterna, que é ter um lugar na presença de Deus. Por meio da graça de Jesus Cristo, a imortalidade vem a todos os homens, justos ou injustos, retos ou iníquos. Já a vida eterna é "o maior de todos os dons de Deus" (D&C 14:7). Obtemos esse grande dom, segundo o Senhor, "se guardares meus mandamentos e perseverares até o fim." Se assim perseverarmos, a promessa é: "terás vida eterna" (D&C 14:7). ¶
O presidente Joseph Fielding Smith explica: "Essa distinção entre vida eterna, recebida pelos fiéis, e imortalidade, obtida tanto pelos fiéis quanto pelos infiéis, é mostrada nas palavras do Senhor a Moisés: 'Pois eis que esta é minha obra e minha glória — realizar a imortalidade e a vida eterna do homem.' A conjunção separa claramente os dois pensamentos. Ela explica que o Senhor está dando à vasta maioria dos homens, aqueles que não serão obedientes, a bênção da imortalidade; e àqueles que o servirem, a bênção da vida eterna." (The Way to Perfection, Salt Lake City: The Genealogical Society of Utah, 1946, p. 329.) ¶
Já se passaram quase dois mil anos desde aquela ocasião maravilhosa em que a morte foi vencida. Ainda não sabemos como o Salvador conseguiu tomar sobre si e carregar nossas transgressões, nossas insensatezes, nossa dor, nossas tristezas e nossos fardos. Isso era indefinível e insondável. Era quase insuportável. A angústia indescritível foi tão grande em Getsêmani que "o seu suor fez-se como grandes gotas de sangue, que corriam até o chão" (Lucas 22:44). O clamor angustiante na cruz, em alta voz, em seu aramaico nativo — "Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Marcos 15:34) — nos dá apenas um leve vislumbre de Seu sofrimento e humilhação. Não se pode deixar de pensar em quantas daquelas gotas de precioso sangue cada um de nós pode ser responsável. ¶
Ainda que, como homem ou mulher, nasçamos, vivamos um breve momento e depois morramos, por meio da expiação de Jesus Cristo todos nós viveremos após a morte. Por meio da divindade que está dentro de nós como dom do grande Criador, podemos chegar à plena realização como herdeiros de Deus, com poderes eternos, domínios e progresso sem fim. Paulo disse que esse dom é um dom gratuito. (Ver Romanos 5:15.) Por meio da Mediação e da Expiação, nós mesmos seremos ressuscitados sem passar por qualquer parte da agonia expiatória pela qual passou o Filho de Deus. ¶
Os ensinamentos de Jacó no Livro de Mórmon explicam ainda mais: "se a carne não mais se levantasse, nossos espíritos estariam à mercê daquele anjo que caiu da presença do Eterno Deus e tornou-se o diabo, para não mais se levantar" (2 Néfi 9:8). ¶
Os testemunhos daqueles fiéis seguidores que viram, ouviram e tocaram o Senhor ressuscitado permanecem incontestados até hoje. Depois da crucificação, Maria Madalena, Maria mãe de Tiago, e Salomé haviam comprado especiarias aromáticas para ungir seu corpo. (Ver Marcos 16:1.) ¶
Mas as devotadas mulheres estavam preocupadas com quem removeria a grande pedra diante do sepulcro. Quando chegaram, descobriram que a pedra já havia sido removida. (Ver Marcos 16:3–4.) Um grande terremoto havia intervindo, e um anjo havia removido a pedra da porta e sentado sobre ela, fazendo com que os guardas tremessem de medo e ficassem como mortos. (Ver Mateus 28:2–4.) O anjo instruiu as mulheres a dizerem rapidamente aos discípulos a respeito da ressurreição do Senhor, assegurando-lhes que "ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis" (Mateus 28:7). Enquanto iam contar aos discípulos, "Jesus lhes saiu ao encontro, dizendo: Eu vos saúdo. E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram" (Mateus 28:9). ¶
Durante os quarenta dias em que o Salvador esteve com os Apóstolos e outros, eles ouviram e viram muitas coisas indizíveis. Esse ministério especial transformou os Apóstolos, de um grupo incerto, confuso, dividido e fraco, em poderosas testemunhas do Senhor. Marcos registra que o Salvador repreendeu os onze, "por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado" (Marcos 16:14). ¶
Talvez os Apóstolos não devessem ser excessivamente criticados por não acreditarem que Jesus, tendo sido crucificado e sepultado num túmulo, havia voltado à terra como um ser glorificado. Em toda a experiência humana, isso jamais havia acontecido antes. Era completamente sem precedentes. Foi uma experiência diferente da ressurreição da filha de Jairo (ver Marcos 5:22, 24, 35–43), do jovem de Naim (ver Lucas 7:11–15) ou de Lázaro (ver João 11:1–44). Todos eles morreram novamente. Jesus, porém, tornou-se um ser ressuscitado. Ele jamais morreria de novo. Assim, para os Apóstolos, o relato de Maria Madalena e das outras mulheres que testemunharam a Ressurreição "pareciam como desvario, e não creram nelas" (Lucas 24:11). ¶
Disse o presidente David O. McKay a respeito dessa experiência: "O mundo jamais teria sido movido por homens com mentes tão vacilantes, duvidosas e desesperançadas quanto as que os apóstolos possuíam no dia da crucificação. ¶
"O que foi que subitamente transformou esses discípulos em pregadores confiantes, destemidos e heroicos do evangelho de Jesus Cristo? Foi a revelação de que Cristo havia ressuscitado da sepultura. Suas promessas haviam sido cumpridas, sua missão messiânica se realizara. Nas palavras de um eminente escritor, 'O selo final e absoluto da autenticidade foi colocado sobre todas as suas reivindicações, e o carimbo indelével da autoridade divina, sobre todos os seus ensinamentos. A escuridão da morte havia sido banida pela gloriosa luz da presença de seu Senhor e Salvador Ressuscitado e Glorificado.' ¶
"Com base no testemunho dessas testemunhas imparciais, incrédulas e sem expectativa, a fé na ressurreição tem seu fundamento inabalável." (Treasures of Life, compil. Clare Middlemiss, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1962, pp. 15–16.) ¶
Assim como os Apóstolos de antigamente, esse conhecimento e essa crença deveriam transformar todos nós em pessoas confiantes, tranquilas, destemidas e em paz em nossa vida como seguidores do Cristo divino. Isso deveria nos ajudar a carregar todos os fardos, suportar quaisquer tristezas e também saborear plenamente todas as alegrias e felicidades que se podem encontrar nesta vida. Os discípulos que caminharam com o Salvador no caminho de Emaús disseram um ao outro: "Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho nos falava, e quando nos abria as escrituras?" (Lucas 24:32). Não é de admirar que lhe suplicaram: "Fica conosco, porque já é tarde, e já declinou o dia", e ele "estando com eles à mesa, tomando o pão, o abençoou, e partiu-o, e deu-o a eles" (Lucas 24:29–30). Eles buscaram saborear aqueles momentos e sentimentos preciosos. ¶
O esvaziamento do túmulo transcendeu todos os demais acontecimentos na história do mundo, pois atestou que Jesus não havia morrido, mas que a própria morte fora vencida. ¶
Ao longo de minhas viagens por grande parte da terra, tenho me entristecido repetidas vezes com as legiões de pessoas aleijadas, mutiladas, deformadas, sofredoras e diminuídas que existem em quase toda parte. Que pai ou mãe de uma criança especial jamais se angustiou com o futuro e o bem-estar dessa criança? Por meio da ressurreição individual de cada um de nós, há grande esperança para todos. ¶
Amuleque, no Livro de Mórmon, promete que, após a morte temporal, "o espírito e o corpo serão novamente reunidos em sua perfeita forma; os membros e juntas serão restaurados à sua devida estrutura, ... e seremos levados a apresentar-nos perante Deus, ... e tendo uma viva lembrança de toda a nossa culpa" (Alma 11:43). ¶
O profeta Joseph Smith declarou: "Posso saborear os princípios da vida eterna, e vocês também podem. ... Sei que, quando lhes falo essas palavras de vida eterna ..., vocês as saboreiam, e sei que vocês creem nelas." (Teachings of the Prophet Joseph Smith, sel. Joseph Fielding Smith, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1938, p. 355.) Assim, o crente mais humilde e mais recente — a criança, o jovem ou o adulto — pode chegar a ter uma convicção pessoal da verdade da vida eterna. ¶
João, o Revelador, "vi[u] um novo céu, e uma nova terra" e "ouvi uma grande voz do céu" (Apocalipse 21:1, 3). "Quem vencer herdará todas as coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho" (Apocalipse 21:7). "E Deus enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas" (Apocalipse 21:4). ¶
Não é necessário que ninguém dependa continuamente do testemunho de outra pessoa a respeito da mediação, expiação e ressurreição de Cristo como nosso Redentor e Salvador. Cada um pode saborear a doçura das verdades do evangelho pela obediência aos princípios, ordenanças e convênios. ¶
Ainda se pode ir ao Jardim do Getsêmani, mas o Senhor Jesus não pode ser encontrado ali, nem está Ele no Túmulo do Jardim. Ele não está no caminho de Emaús, nem na Galileia, nem em Nazaré ou Belém. Ele deve ser encontrado no coração de cada um. Mas Ele nos deixou o grande Consolador para sempre (ver João 14:16) e o poder eterno do sacerdócio. Desse poder, Jacó, filho de Leí, testificou: "Podemos verdadeiramente ordenar em nome de Jesus e as próprias árvores ou as montanhas ou as ondas do mar nos obedecem" (Jacó 4:6). ¶
Testifico que, por meio da retidão, esse poder do sacerdócio e esses dons supremos da Expiação e da Mediação podem operar em nossa vida. Por fim, cada um de nós precisa chegar a conhecer essas grandes verdades espirituais seguindo o conselho de Jesus: "Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo" (João 7:17). ¶
Em conclusão, desejo fazer uma humilde declaração e afirmação de que Jesus é o Cristo, nosso Redentor e o Salvador do mundo. Faço isso com toda a solenidade de minha alma. Este testemunho me veio, não apenas de uma vida inteira de estudo, ou de razão ou lógica, mas mais por revelação pessoal, sob o espírito de profecia. ¶
Rogo que nosso Salvador cure nossa alma, enxugue nossas lágrimas e crie em cada um de nós um coração puro. Rogo também que possamos encontrar abrigo na sombra de Seus braços estendidos e que Ele seja misericordioso e perdoador quanto às nossas fraquezas. Que Ele seja pai dos que não têm pai, e conceda aos necessitados segundo suas necessidades, e incline seu ouvido a nossos clamores, rogo humildemente em nome de Jesus Cristo, amém. ¶