"Pois Eu Vos Guiarei"
Neal A. Maxwell
Obrigado, Presidente Benson, por esse sermão sobre o primeiro mandamento e, mais ainda, pela maneira como o senhor o coloca em prática por meio das expressões de seu amor por todos nós. ¶
Irmãos e irmãs, ao longo de toda a história cristã, alguns crentes, ao concentrarem-se em algumas profecias e negligenciarem outras, esperaram prematuramente a Segunda Vinda. Hoje, embora estejamos obviamente mais próximos daquele grande momento, corremos o mesmo perigo. ¶
Por outro lado, a presunção também é um perigo real. A respeito do primeiro advento de Jesus, os presunçosos disseram: "Não é razoável que venha alguém como um Cristo" (Helamã 16:18). Declarou Jesus a respeito de Sua segunda vinda: "acautelai-vos... não aconteça... e venha sobre vós inesperadamente aquele dia" (Lucas 21:34; ver também Mateus 24:37-38; Lucas 21:35; Apocalipse 3:3; D&C 45:26). ¶
Pedro escreveu a respeito dos céticos presunçosos que diriam: "Onde está a promessa da sua vinda?", pois não "permanecem todas as coisas como desde o princípio"? (2 Pedro 3:4). ¶
Algumas profecias, como o retorno do povo judeu a Israel, levaram décadas para se cumprir (ver Ezequiel 39:27). Outras profecias podem cumprir-se em um período de tempo mais curto. Levar o evangelho restaurado "em testemunho" a todas as nações do mundo envolve gerações (Mateus 24:14), mas um "flagelo assolador" pode cobrir a terra rapidamente (ver D&C 5:19). Infelizmente, já existe mais de uma possibilidade que se qualifica para tais flagelos (ver Marcos 13:10; D&C 5:19). O florescer do deserto "como a rosa" envolveu tempo considerável, mas uma decadência moral significativa pode ocorrer dentro de uma única geração — seja numa nação ou numa família (ver Isaías 35:1; Helamã 6:32; 11:36; 12:4). ¶
O Oriente Médio esteve tantas vezes na encruzilhada da história humana! No entanto, em nossos dias, as palavras de Zacarias são especialmente descritivas, ao dizer que Jerusalém será "um cálice de tremor" para "todos os povos em redor" e "por pedra pesada a todos os povos" (Zacarias 12:2-3). ¶
Daí a necessidade de manter os olhos em mais do que algumas poucas folhas da figueira, a fim de saber quando "o verão está próximo" (Mateus 24:32). Por analogia, uma coisa é notar fortes ondas oceânicas quebrando na costa, anunciando outra tempestade que se aproxima, e outra bem diferente é discernir os poderosos movimentos no fundo abalado do oceano, que prenunciam um terrível maremoto. ¶
No contexto de tais advertências, não hesito em dizer que existem alguns sinais — mas certamente não todos — que sugerem que "o verão está próximo" (Mateus 24:32). Faríamos bem em notá-los e ponderá-los, mas sem nos tornarmos preocupados demais nem ignorarmos qualquer folha brotando por estarmos "sobrecarregados" com os "cuidados desta vida" (Lucas 21:34). ¶
Somos informados, a título de exemplo, que algumas condições que precedem a segunda vinda do Salvador serão como nos dias de Noé (ver Mateus 24:37-39) e "também como foi nos dias de Ló" (Lucas 17:28). O tempo de Noé foi um tempo de desobediência e maldade. As pessoas não compreendiam e "não perceberam, até que veio o dilúvio" (Mateus 24:39; ver também Gênesis 6:5; 1 Pedro 3:20). Os cuidados e prazeres sufocantes desta vida levaram à rejeição geral da mensagem profética de Noé. Duas palavras especialmente interessantes são usadas na Bíblia para descrever o tempo de Noé: violência e corrupção (ver Gênesis 6:11). Violência e corrupção, raramente estranhas à cena humana, parecem estar aumentando hoje. ¶
Parte da rudeza e da crueldade presentes no tempo de Noé será reproduzida, pois "o amor de muitos esfriará" (Mateus 24:12). Além disso, a paz terá sido "tirada da Terra" (D&C 1:35). ¶
Pedro escreveu sobre como "a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé", até que, como outras escrituras advertem, a maldade excedeu a de todas as criações de Deus (1 Pedro 3:20; ver também Moisés 7:36). Existia uma sociedade muito cruel, "sem afeição", na qual as pessoas odiavam "seu próprio sangue" (Moisés 7:33). Diante dos abusos dos seres humanos uns contra os outros, em Sua longanimidade, Deus esperou o quanto pôde. ¶
Os habitantes dos dias de Ló comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam em meio à grosseira maldade (ver Lucas 17:28), afligindo Ló com sua "vida dissoluta" — ou, como diz o grego, eles o "oprimiam com seu comportamento ultrajante" (2 Pedro 2:7). Em sua grosseria, havia também grande negligência para com os pobres (ver Ezequiel 16:49). ¶
Nossos dias já refletem mais uma profecia: "angústia das nações em perplexidade" (Lucas 21:25). Antes dos tempos modernos, a perplexidade global simplesmente não era possível. Hoje há uma rápida transmissão de algumas crises e problemas de uma nação para outras — as consequências das economias assoladas pela dívida, a disseminação de doenças, o abuso de entorpecentes e, talvez acima de tudo, um sentimento compartilhado de quase impotência diante de tais perplexidades. Hoje, as agonias reunidas do mundo desfilam, num lembrete constante, no noticiário da noite. ¶
Nos últimos dias, felizmente, a Igreja crescerá extensamente, com seus membros sendo "espalhados sobre toda a face da Terra" (1 Néfi 14:14). No entanto, seus domínios ainda serão comparativamente "pequenos" por causa da "iniquidade", que fechará os ouvidos de muitos à mensagem do evangelho (1 Néfi 14:12). ¶
Também haverá "uma grande divisão entre o povo" (2 Néfi 30:10; ver também D&C 63:54). Essa polarização estressante ajudará, ironicamente, na sacudidela final daquela estranha confederação, o "reino do diabo", para que os honestos de coração, mesmo em seu meio, possam receber a verdade (2 Néfi 28:19). ¶
Essa "grande divisão" é o que o Presidente Brigham Young também previu, ao dizer: "Foi-me revelado no início desta Igreja que a Igreja se espalharia, prosperaria, cresceria e se estenderia, e que, na proporção em que o Evangelho se espalhasse entre as nações da Terra, assim também se elevaria o poder de Satanás" (em Journal of Discourses, 13:280). ¶
Felizmente, ainda que o mundo piore ao nosso redor, haverá muitos e muitos homens e mulheres bons e admiráveis, de todas as raças e credos — e sem credo religioso algum — que continuarão a levar vidas dignas e proveitosas. Além disso, como disse Mórmon, o comentário das escrituras sobre condições em declínio não é comunicado "para vos oprimir", mas, sim, para nos ajudar a viver de tal maneira que Cristo possa "vos exaltar" (Morôni 9:25). ¶
Assim, o que disse não foi dito com nenhum alarme, mas, sim, para que possamos observar e nos preparar. As profecias são dadas, em parte, para que "soubéssemos e lembrássemos" que essas coisas "haviam sido anunciadas de antemão, para que acreditássemos" (Helamã 16:5). As pessoas desatentas de hoje serão como um povo anterior, insensibilizado, que "começaram a esquecer os sinais e as maravilhas de que haviam ouvido falar, e admiravam-se cada vez menos, … e começaram a duvidar de tudo quanto haviam ouvido e visto" (3 Néfi 2:1; ver também 1 Pedro 3:17). Se formos fiéis, irmãos e irmãs, nada perderemos, mesmo que, felizmente, como os antigos ninivitas, os mortais de hoje viessem a se arrepender. ¶
Assim, olhemos para nós mesmos. Para a Igreja, as escrituras sugerem tanto uma peneiração acelerada como um crescimento espiritual e numérico acelerado — precedendo tudo isso o tempo em que o povo de Deus estará "armado de retidão" — não de armas — e quando a glória do Senhor será derramada sobre ele (1 Néfi 14:14; ver também 1 Pedro 4:17; D&C 112:25). O Senhor está determinado a ter um povo experimentado, puro e provado (ver D&C 100:16; 101:4; 136:31), e "nada há que o Senhor teu Deus se proponha a fazer que não faça" (Abraão 3:17). ¶
Como podemos, como membros individuais da Igreja, sobreviver espiritualmente se não honrarmos nossos convênios? Como podemos sobreviver espiritualmente se rompermos abertamente os convênios feitos no batismo ou nos santos templos? Como podemos estar do lado do Senhor durante a "grande divisão" se refletirmos o materialismo e o egoísmo do mundo (2 Néfi 30:10)? ¶
Os membros da Igreja não precisam nem devem ser alarmistas. Não precisam ser desviados de prosseguir tranquila e retamente sua vida diária, "porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação" (2 Timóteo 1:7). ¶
Em 1836, o Profeta Joseph suplicou ao Senhor "que confundas e surpreendas e tragas vergonha e confusão a todos os que espalharam relatos mentirosos por toda parte, sobre o mundo" (D&C 109:29). Como povo, fomos tão abençoados recentemente, e sê-lo-emos novamente. ¶
É verdade que os inimigos e os críticos da obra do Senhor não cederão; apenas se reagrupam. Mesmo entre o rebanho, aqui e ali, de tempos em tempos, há alguns lobos, vestidos com vários estilos de pele de ovelha — ironicamente, pouco antes da época da tosquia! Alguns desertores e traidores "presunçosos" (2 Timóteo 3:4) chegam a ir diretamente ao "edifício grande e espaçoso" para nele se empregar (1 Néfi 8:26). Ali, os recrutas são celebrados e festejados até que — como seus predecessores — desapareçam nos pântanos sombrios da história. Como disse o Presidente Heber C. Kimball, a justiça divina exigirá, por fim, que eles "paguem toda a dívida de [toda] a aflição que causaram aos inocentes" (em Journal of Discourses, 5:94). ¶
Assim, não há necessidade de nos surpreendermos, nem de temer, quando certas condições vierem sobre a humanidade. Além disso, o Senhor nos deu algumas notáveis garantias a respeito do Profeta líder da Restauração e da Igreja restaurada: ¶
"Eis que o Senhor abençoará esse vidente; e aqueles que procurarem destruí-lo serão confundidos" (2 Néfi 3:14) "em meu próprio e devido tempo" (D&C 71:10). ¶
"E os justos não devem temer, pois são os que não serão confundidos. É o reino do diabo … que deve temer, e tremer, e estremecer" (1 Néfi 22:22-23). ¶
Se formos fiéis e obedientes enquanto estivermos neste bom e belo mundo, herdaremos mais tarde "uma terra de promissão muito melhor" (Alma 37:45), "uma cidade … da qual o arquiteto e construtor é Deus" (Hebreus 11:10), uma cidade dentro da qual há "muitas moradas" (João 14:2; ver também João 14:3). ¶
Paulo escreveu: "As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem [ou seja, nem sequer podemos imaginar] são as que Deus preparou para os que o amam" (1 Coríntios 2:9). ¶
Os espiritualmente submissos conseguirão chegar até o fim. A palavra de Deus guiará o homem e a mulher de Cristo "por um caminho estreito e apertado, através daquele abismo eterno de miséria" (Helamã 3:29) e conduzirá suas almas à mão direita de Deus, no reino do céu, "para sentar-se com Abraão, Isaque e Jacó, e os santos profetas que existiram desde que o mundo começou" (Alma 7:25; ver também Éter 12:4). ¶
Aqueles que venceram o mundo serão, por sua vez, vencidos pela generosidade do Pai, à medida que o Pai compartilha "tudo o que [o] Pai possui" (D&C 84:38). Os fiéis ouvirão aquelas palavras especiais: "Entra no gozo do teu Senhor" (D&C 51:19), pois "os que tiverem suportado as cruzes do mundo e desprezado a sua vergonha … herdarão o reino de Deus, … e sua alegria será completa para sempre" (2 Néfi 9:18). ¶
A luz que Lamoni recebeu "havia-lhe infundido tanta alegria na alma" (Alma 19:6). No entanto, uma incandescência incomparável ainda está por vir, pois "dia virá … [em que] todas as coisas serão reveladas … que ocorreram … e que ocorrerão" (2 Néfi 27:11). ¶
Aqui na mortalidade, já conhecemos momentos em que, "em virtude da imensa bondade de Deus", há "muitas lágrimas" vertidas (3 Néfi 4:33). Nossa alegria transborda (ver Alma 26:11). No entanto, isto é apenas uma amostra do retorno definitivo ao lar, quando nossas taças não apenas transbordarão, mas jorrarão sem cessar! ¶
As certas amostras do evangelho já nos falam agora, nas palavras de Jacó, de "coisas como realmente serão" (Jacó 4:13), como belos e convidativos cartões-postais daquela "terra muito melhor"! (Alma 37:45). ¶
Enquanto isso, talvez "o verão esteja próximo" (Mateus 24:32; D&C 35:16; 45:37). Estamos aqui na mortalidade, e o único caminho é atravessá-la; não há como contorná-la! Contudo, nosso Libertador nos assegura: "tende bom ânimo, porque eu vos guiarei. Vosso é o reino e são vossas as suas bênçãos e são vossas as riquezas da eternidade" (D&C 78:18). ¶
Irmãos e irmãs, é meu testemunho à Igreja de que o Senhor nos guiará, exatamente como prometido. Ele equilibra o que dá à Igreja e a seu povo — as orientações específicas necessárias — com as experiências de aprendizado pertinentes, incluindo ter nossa fé e nossa paciência provadas a fim de serem fortalecidas. Assim, Ele nos guia, mas deseja que, durante esse processo, tomemos sobre nós Seu jugo, a fim de aprendermos dEle por nossas próprias experiências pessoais. Certamente sentimos o peso desse jugo em certos momentos, mas o caminho é claro. ¶
Jesus, nosso Pastor, "marcou o caminho e nos guiou, / E cada ponto define" ("How Great the Wisdom and the Love," Hymns, 1985, no. 195). Suas pegadas, claramente marcadas, são fáceis de ver. Estão impressas de maneira distinta e profunda no solo do segundo estado, profunda e distintamente por causa do peso enorme que sobre Ele pesava, incluindo o terrível fardo de todos os nossos pecados individuais. ¶
Somente Ele poderia tê-lo carregado por inteiro. ¶
Agradeço pessoalmente ao Salvador por suportar tudo o que acrescentei ao Seu sangramento por todos os poros, por toda a humanidade, no Getsêmani. Agradeço-Lhe por suportar o que acrescentei aos decibéis de Seu pungente brado da alma no cume do Calvário, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶