Uma Celebração Significativa
L. Tom Perry
Acabamos de concluir um verão em que comemoramos vários eventos de grande significado histórico. No dia vinte e quatro de julho, celebramos o 140º aniversário da chegada dos pioneiros mórmons ao Vale do Lago Salgado. Ao mesmo tempo, comemorávamos o 150º aniversário da chegada dos primeiros missionários SUD à Grã-Bretanha. Por fim, cidadãos destes grandes Estados Unidos, membros da Igreja e não membros igualmente, celebraram recentemente o 200º aniversário de sua Constituição. ¶
Cada um desses eventos teve um impacto marcante e duradouro na história da Igreja. Enquanto participava de muitas das festividades que pontuaram este verão histórico, refleti sobre o propósito das celebrações. ¶
Celebrar eventos do passado concentra nossos pensamentos em nossa história. Aproveitamos a oportunidade para rever o passado. Extraímos das experiências do passado enquanto antecipamos o futuro. Cícero escreveu isto sobre a história: ¶
“Não saber o que se passou em tempos anteriores é ser sempre uma criança. Se não se faz uso do trabalho de eras passadas, o mundo deve permanecer sempre na infância do conhecimento” (em The International Dictionary of Thoughts, comp. John P. Bradley, et. al., Chicago: J. G. Ferguson Publishing Co., 1969, p. 362). ¶
Este verão reacendeu em mim um interesse por nossa herança e história. Fiquei intrigado com as semelhanças encontradas ali e estou especialmente fascinado com o paralelismo entre a nação hebraica e a história de nossa própria Igreja. ¶
O homem preparado pelo nosso Pai Celestial para ser o líder da nação hebraica foi Moisés. Seu ilustre nome adorna as páginas da história antiga. O Senhor revelou por meio de Moisés as festas e os eventos que os israelitas deveriam realizar como lembretes perpétuos de sua libertação da escravidão e do nascimento de sua nova nação. Essas celebrações assumiam duas formas. Primeiro, eram celebrações dos próprios eventos históricos, como a Páscoa, para lembrar ao povo de Israel a mão do Senhor em sua libertação. Depois havia tradições ligadas a períodos de tempo determinados por vários múltiplos do número sete. ¶
É claro que o sétimo dia era o sábado, um dia de descanso, o sétimo mês uma época de colheita. Então, como lemos no vigésimo quinto capítulo de Levítico, havia instruções especiais referentes ao sétimo ano e ao quinquagésimo ano: ¶
“Seis anos semearás a tua terra, e seis anos podarás a tua vinha, e colherás o seu produto; ¶
“Porém, ao sétimo ano será sábado de descanso para a terra, um sábado ao Senhor; não semearás o teu campo nem podarás a tua vinha. … ¶
“Também contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos; de maneira que os dias das sete semanas de anos te serão quarenta e nove anos. ¶
“Então no mês sétimo, aos dez do mês, farás soar a trombeta do jubileu; no dia da expiação fareis soar a trombeta por toda a vossa terra. ¶
“E santificareis o ano quinquagésimo, e apregoareis liberdade na terra a todos os seus moradores; ano de jubileu vos será, e retornareis, cada um à sua possessão, e retornareis, cada um à sua família” (Levítico 25:3–4, 8–10). ¶
A cada quinquagésimo ano, a terra deveria ser devolvida aos donos originais ou a seus descendentes; todos os israelitas vendidos à escravidão por dívida deveriam ser libertados; e a terra, como no sétimo ano ou ano sabático, deveria ficar em pousio. Mesmo em nossos dias, a tradição dos anos sabáticos é perpetuada pelas universidades, que incentivam os membros do corpo docente a tirar licenças sabáticas, aproximadamente a cada sete anos. A palavra jubileu, interpretada de modo geral, significa “carneiro” ou “chifre de carneiro” e refere-se ao chifre usado para proclamar o início do Ano do Jubileu, ou o quinquagésimo ano. ¶
Parece haver quatro propósitos para as celebrações e tradições do antigo Israel, cada um dos quais poderia ser aplicado como um guia e uma influência sobre a maneira como celebramos e os significados que damos às nossas celebrações. ¶
Primeiro, as tradições preservavam a fé religiosa e fortaleciam a fibra espiritual do povo de Israel. Como exemplo, examinemos as mensagens implícitas na celebração do Ano do Jubileu. Um trecho de The International Standard Bible Encyclopedia nos diz que “o quinquagésimo ano deveria ser um tempo de proclamar liberdade a todos os habitantes da terra. Deus havia redimido Seu povo do cativeiro no Egito (Levítico 25:42); e nenhum deles deveria voltar à condição de … escravo. … O filho escolhido de Deus não deveria ser oprimido. … De fato, como cidadãos do reino teocrático, senhores e servos haviam se tornado irmãos entre si. … Assim, vista em sua aplicação mais ampla, somente por sua lealdade a Deus Israel, como nação, poderia jamais esperar ser livre e independente de outros senhores. … ¶
“Uma segunda característica do Jubileu era a restituição de todas as propriedades imobiliárias. O propósito era demonstrar que a terra está sujeita fundamentalmente à lei de Deus, e não aos desejos do homem. … A legislação específica de Deus dizia respeito à inalienabilidade dos títulos de terra de Israel. Ela exigia a reversão de toda propriedade hereditária à família que originalmente a possuía e o restabelecimento do arranjo inicial referente à divisão da terra feita por Deus. Não ensinava nem a teoria econômica socialista de que uma pessoa tem direito à posse de bens com base em sua necessidade … nem o sistema de livre empresa que permite uma expansão ilimitada da propriedade privada. Pelo contrário, estabelecia um título fixo sobre a propriedade designada por Deus” (Geoffrey W. Bromley, ed., 4 vols., Grand Rapids, Mich.: William B. Eerdmans Publishing Co., 1968, 2:1142). ¶
Que mensagens poderosas são estas — de que os israelitas eram os filhos escolhidos de Deus, de que tudo o que possuíam era de Deus, e de que somente Ele podia conceder permanentemente o título sobre a terra. Verdadeiramente, essas mensagens, expressas na tradição do Ano do Jubileu, lembravam ao povo de Israel sua genealogia espiritual e sua dívida para com o Senhor. ¶
As celebrações do Natal e da Páscoa, nossa observância anual do Dia dos Pioneiros, os eventos que comemoram a restauração dos sacerdócios Aarônico e de Melquisedeque, as festas de aniversário da Sociedade de Socorro e os espetáculos históricos — tudo isso nos faz lembrar de nossa herança espiritual e aumenta nossa gratidão ao Senhor por tudo o que Ele faz por nós. ¶
Segundo, as celebrações e tradições de Israel tinham um componente político. Eram ocasiões de unir as tribos para formar uma união mais estreita. ¶
As celebrações que comemoram eventos importantes em nossas terras natais devem receber nosso apoio e atenção. Fiquei impressionado com o vigor e a propriedade com que os membros da Igreja residentes nos Estados Unidos celebraram o 200º ano da Constituição. ¶
Afinal, declaramos no décimo segundo Artigo de Fé: “Cremos na submissão a reis, presidentes, governantes, e magistrados; na obediência, honra, e manutenção da lei.” Constatamos que esse conselho é continuamente necessário na Igreja hoje. Todos os membros da Igreja devem estar comprometidos a obedecer e honrar as leis da terra em que vivem. Devemos ser exemplares em nossa obediência aos governos que nos governam. A Igreja, para ser útil às nações do mundo, deve ser uma influência saudável na vida dos indivíduos que a abraçam, tanto nos assuntos temporais quanto nos espirituais. ¶
Em Mateus, capítulo vinte e dois, lembramos o relato dos fariseus que tentaram enredar o Salvador no conflito que percebiam entre Igreja e Estado em Seus ensinamentos: ¶
“Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo a César, ou não? ¶
“Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas? ¶
“Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um denário. ¶
“E ele disse-lhes: De quem são esta efígie e esta inscrição? ¶
“Disseram-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus” (Mateus 22:17–21). ¶
Como membros da Igreja, vivemos sob a bandeira de muitas nações diferentes. Como é importante que compreendamos nosso lugar e nossa posição nas terras em que vivemos! Devemos estar familiarizados com a história, a herança e as leis das terras que nos governam. Naqueles países que nos concedem o direito de participar dos assuntos de governo, devemos usar nosso arbítrio e nos engajar ativamente em apoiar e defender os princípios da verdade, da retidão e da liberdade. ¶
Terceiro, as celebrações e tradições de Israel tinham um impacto cultural. Seus festivais e festas eram ocasiões de compartilhar talentos e realizações. Eram um tempo de compartilhar conhecimento prático associado aos avanços nas artes e nas ciências. ¶
Uma parte importante de nossa herança pioneira é a apreciação de todas as artes culturais. Nossos antepassados pioneiros literalmente dançaram e cantaram por todo o seu caminho pelas planícies. Foi uma maneira de manterem o ânimo elevado diante de dificuldades tremendas. ¶
À medida que os pioneiros colonizavam comunidades, construíam teatros, organizavam bandas e corais, e enviavam artistas em missões para adquirir a experiência e o treinamento necessários para desenvolver plenamente seus talentos. Certamente, honramos nossa herança pioneira ao fazer da beleza e da cultura um dos pontos centrais de nossas comemorações. E, ao fazê-lo, não estamos também oferecendo louvor ao Senhor por meio das belas criações de nossas mãos e de nossas mentes? ¶
Por fim, as celebrações e tradições do antigo Israel tinham um profundo significado social. Eram ocasiões de construir um senso de comunidade, um tempo de reafirmar uma irmandade compartilhada por todos, um tempo de unir famílias. ¶
Na conferência geral de 1880, o Presidente John Taylor anunciou um Ano de Jubileu da Igreja. Ele propôs ao corpo da Igreja várias maneiras de celebrar o Ano de Jubileu — maneiras que uniam mais estreitamente a comunidade dos santos. O Presidente Taylor disse: ¶
“Ocorreu-me que deveríamos fazer algo, como fizeram em tempos anteriores, para aliviar aqueles que estão oprimidos por dívidas, ajudar aqueles que estão necessitados, quebrar o jugo daqueles que possam se sentir pressionados, e fazer disso um tempo de regozijo geral” (em Conference Report, abril de 1880, p. 61). ¶
O Presidente Taylor então propôs que — ¶
Primeiro, metade da dívida dos membros com o Fundo de Emigração Perpétua seria perdoada. ¶
Segundo, os pobres seriam liberados dos dízimos atrasados que haviam se comprometido a pagar. ¶
Terceiro, a Igreja deveria criar um rebanho de mil vacas leiteiras, a serem distribuídas aos pobres e necessitados. A Igreja contribuiria com trezentas vacas, e o restante seria reunido das estacas da Igreja. ¶
E, por fim, a Sociedade de Socorro reuniria alqueires de trigo para serem emprestados aos pobres, a fim de serem usados como semente. Depois, após a colheita, o empréstimo poderia ser reembolsado, estabelecendo assim um estoque permanente de trigo para semente. (Alguém perguntou ao Presidente Taylor se o trigo seria emprestado sem juros. Ele respondeu: “Claro que sim; não queremos esse tipo de disparate; é o tempo do jubileu”) (em Conference Report, abril de 1880, p. 64; ver também pp. 62–63). ¶
Que efeito maravilhoso a proposta do Presidente Taylor deve ter tido sobre a estrutura social da Igreja! Ao reformular as tradições do antigo Israel de modo a responder às necessidades do tempo presente, o Presidente Taylor mostrou aos membros como ser verdadeiros Santos dos Últimos Dias. ¶
Celebrar eventos históricos importantes perpetua tradições, mas não substitui o estudo da história. Pelo contrário, incentiva o estudo. Construímos pontes entre o presente e o passado e trazemos relevância e interesse ao nosso estudo da história. Quando celebramos, lembramos. Às vezes reencenamos o que se passou antes. Quando honramos a tradição, na verdade fazemos o que nossos antepassados fizeram. ¶
Espero que, ao continuarmos a comemorar eventos históricos e resgatar nossas tradições, sempre celebremos com um propósito. Oro para que tornemos nossas celebrações mais significativas ao reafirmarmos nossos valores espirituais, políticos, culturais e sociais. Como membros desta igreja gloriosa, compartilhamos uma rica herança. Literalmente, estamos sobre os ombros dos gigantes de fé, visão e espírito que nos precederam. ¶
Quando os honramos e a seus muitos sacrifícios, preservamos suas realizações e os princípios e valores pelos quais lutaram. E isso nos proporciona uma maneira maravilhosa de louvar a Deus! ¶
Aprendemos com o antigo Israel que há um lugar para os eventos comemorativos. Construamos, em nossas famílias, comunidades e nações, tradições de natureza duradoura que consistentemente nos lembrem das verdades eternas do Senhor e de nossos antepassados que as preservaram para os nossos dias. ¶
Que Deus conceda que possamos sempre manter viva a rica herança que é nossa, especialmente construindo tradições familiares como lembretes constantes de nossos padrões e nossos valores. ¶
Esta é a obra do Senhor na qual estamos engajados. Disso eu testifico. Ele vive. Jesus é o Cristo, o Salvador do mundo. Que possamos estar engajados em Sua obra é minha humilde oração, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶