Paciência, uma Chave para a Felicidade
Joseph B. Wirthlin
Uma das maiores frases já ouvidas por ouvidos humanos vem do Livro de Mórmon: "Adão caiu para que os homens existissem; e os homens existem para que tenham alegria" (2 Néfi 2:25). Essa frase capta as maiores possibilidades da vida. Permitam-me acrescentar: só teremos verdadeira alegria e felicidade à medida que aprendermos a paciência. ¶
Os dicionários definem paciência em termos como suportar dor ou tristeza com calma ou sem queixa; não ser precipitado nem impetuoso; ser firme apesar da oposição, da dificuldade ou da adversidade. ¶
Numa passagem do Livro de Mórmon, Alma nos ajuda a compreender a paciência. Depois de falar sobre o plantio de uma semente que pode crescer até se tornar uma árvore, ele acrescenta estas palavras perspicazes: "E eis que, à medida que a árvore começar a crescer, … se a tratardes com muito cuidado, criará raiz e crescerá e dará frutos. … ¶
"E por causa de vossa diligência, e vossa fé, e vossa paciência … colhereis o fruto dela, que é precioso acima de tudo, que é doce mais do que tudo o que é doce, … e vos banqueteareis com esse fruto até vos fartardes, de modo que não tereis fome, nem tampouco tereis sede. ¶
"… Colhereis a recompensa de vossa fé, e de vossa diligência, e de vossa paciência" (Alma 32:37, 42–43). ¶
Não sei se nós, membros da Igreja, apreciamos plenamente o Livro de Mórmon, uma de nossas escrituras sagradas, como realmente deveríamos. Uma das explicações mais claras de por que precisamos de paciência para suportar as provações da vida é apresentada por Néfi nestas palavras marcantes: "Pois é necessário que haja oposição em todas as coisas. Se não fosse assim, … a retidão não se poderia realizar, nem tampouco a maldade, nem a santidade nem a miséria, nem o bem nem o mal. Portanto, todas as coisas devem necessariamente ser um composto único. … ¶
"E se disserdes que não há lei, também direis que não há pecado. Se disserdes que não há pecado, também direis que não há retidão. E se não há retidão, não há felicidade. E se não há retidão nem felicidade, não há punição nem miséria. E se essas coisas não existem, não existe Deus. E se não há Deus, nós não existimos, nem tampouco a Terra; pois não poderia ter havido criação de coisas, nem para agir, nem para ser agida; portanto, todas as coisas devem ter desaparecido" (2 Néfi 2:11, 13). ¶
O apóstolo Paulo expôs o propósito da paciência em sua epístola aos santos em Roma: "E não somente isso, mas também nos gloriamos nas tribulações … : sabendo que a tribulação produz a paciência, ¶
"E a paciência, a experiência; e a experiência, a esperança" (Romanos 5:3–4). ¶
Há apenas quarenta anos, o Presidente J. Reuben Clark Jr., membro da Primeira Presidência, proferiu um discurso intitulado "Afastando-nos de Nossas Antigas Amarras". Ele descreveu como havíamos nos afastado da prática dos Dez Mandamentos (ver Church News, 8 de março de 1947, pp. 1, 8–9). ¶
Se já nos havíamos afastado então, onde estamos quarenta anos depois? Em 1947, a televisão e os computadores estavam em sua infância. Não tínhamos transmissões via satélite nem fitas de vídeo, e não havia fraude computadorizada. Certamente nossos padrões morais de decência e decoro se afastaram de onde estavam em 1947. A obscenidade, a nudez e outras formas de pornografia que nos teriam feito corar e desviar o olhar de vergonha em 1947 hoje nos são impostas abertamente em material impresso e audiovisual. Elas até desfilam por nossos lares, a menos que tenhamos o cuidado de mantê-las afastadas. Como povo, estamos hoje nos afastando ainda mais de nossas antigas amarras porque não estamos seguindo nossos profetas. ¶
Certa dose de impaciência pode ser útil para nos estimular e motivar à ação. Contudo, creio que a falta de paciência é uma das principais causas das dificuldades e da infelicidade no mundo atual. Com demasiada frequência, somos impacientes com nós mesmos, com os membros de nossa família e amigos, e até mesmo com o Senhor. Parecemos exigir o que queremos imediatamente, independentemente de o termos merecido, de isso ser bom para nós, ou de ser correto. Alguns buscam a gratificação imediata ou o entorpecimento de todo impulso recorrendo ao álcool e às drogas, enquanto outros buscam riqueza material instantânea por meio de investimentos duvidosos ou da desonestidade, com pouco ou nenhum cuidado com as consequências. Talvez a prática da paciência seja mais difícil, e ainda assim mais necessária, hoje do que em qualquer época anterior. ¶
As Escrituras Ensinam a Paciência
Aos Santos dos Últimos Dias, o Senhor deu a paciência como um dos atributos divinos que qualifica uma pessoa para o ministério (ver D&C 4:6); ele os aconselhou a serem pacientes em suas aflições (ver D&C 24:8; 31:9; 54:10; 98:23–24); e os admoestou a tomarem suas decisões com paciência (ver D&C 107:30). O Salvador nos ensinou a sermos perfeitos (ver Mateus 5:48; 3 Néfi 12:48) e disse: "Não podeis suportar a presença de Deus agora nem o ministério de anjos; portanto, continuai pacientemente até que sejais aperfeiçoados" (D&C 67:13). ¶
Exemplos de Paciência
O Senhor, Jesus Cristo, é nosso exemplo perfeito de paciência. Embora absolutamente inflexível na adesão à verdade, ele demonstrou paciência repetidamente durante seu ministério mortal. Foi paciente com seus discípulos, inclusive os Doze, apesar da falta de fé deles e de sua lentidão em reconhecer e compreender sua missão divina. Foi paciente com as multidões que se comprimiam ao seu redor, com a mulher surpreendida em pecado, com aqueles que buscavam seu poder de cura, e com as criancinhas. Por fim, permaneceu paciente durante os sofrimentos de seus julgamentos simulados e de sua crucificação. ¶
Durante o ministério de cerca de trinta anos do apóstolo Paulo, entre sua conversão e seu martírio em Roma, ele foi açoitado cinco vezes, espancado severamente pelo menos três vezes, encarcerado várias vezes, naufragou três vezes e foi apedrejado e dado como morto em uma ocasião (ver 2 Coríntios 11:23–27). Através de toda essa aflição, ele continuou seu poderoso ministério. Escreveu aos romanos que Deus "recompensará cada um segundo as suas obras: ¶
"A saber: a vida eterna aos que, com perseverança em fazer o bem, procuram glória, e honra e incorrupção; ¶
"Mas a indignação e a ira, aos que são contenciosos [impacientes], e desobedientes à verdade e obedientes à injustiça, ¶
"Tribulação e angústia" (Romanos 2:6–9). ¶
As aflições e sofrimentos do Profeta Joseph Smith se assemelharam aos de Paulo em muitos aspectos. Além de encarceramentos, tumultos e espancamentos, ele sofreu a angústia da traição de associados desleais e infiéis. Mas ele lhes ofereceu a mão da amizade e da comunhão mesmo depois de eles o terem se oposto e traído. ¶
Há alguns anos, o Presidente Roy A. Welker, da Missão Alemã-Austríaca, um dos notáveis presidentes de missão da Igreja, precisou designar um missionário para trabalhar em Salzburgo, na Áustria, a fim de resolver um problema no ramo de lá. Oito novos missionários estavam prestes a chegar à missão. Ele orou para que um deles tivesse o visto e a moeda adequados para trabalhar na Áustria. Continuou a orar e esperou duas semanas por uma resposta. Na noite anterior à chegada dos oito, o Espírito do Senhor sussurrou ao presidente o nome do missionário que deveria ser designado para Salzburgo. Aquele cujo nome ele recebeu era o único que possuía as credenciais adequadas para ir à Áustria. Eu era aquele élder. ¶
A paciência do presidente não apenas ajudou a resolver um problema no ramo, mas também abençoou a mim e a minha família de uma maneira que jamais poderia ter previsto. Pouco depois de eu chegar a Salzburgo, aquela parte da Missão Alemã-Austríaca foi transformada na Missão Suíço-Austríaca. Mais tarde, fui transferido para Zurique, na Suíça, onde conheci o Irmão Julius Billeter, um membro caloroso e amigável que era genealogista. Ele conhecia os registros genealógicos de meus progenitores. Pesquisou os nomes de 6.000 de meus antepassados, para os quais mais tarde foi realizada a obra do templo. ¶
A Paciência Hoje
Devemos aprender a ser pacientes conosco mesmos. Reconhecendo nossos pontos fortes e nossas fraquezas, devemos nos esforçar por usar bom senso em todas as nossas escolhas e decisões, aproveitar bem cada oportunidade e fazer o melhor possível em cada tarefa que empreendermos. Não devemos ficar indevidamente desanimados nem em desespero em nenhum momento em que estivermos fazendo o melhor que pudermos. Antes, devemos estar satisfeitos com nosso progresso, ainda que às vezes ele venha lentamente. ¶
Devemos ser pacientes ao desenvolver e fortalecer nossos testemunhos. Em vez de esperar manifestações imediatas ou espetaculares, embora estas venham quando forem necessárias, devemos orar por um testemunho, estudar as escrituras, seguir o conselho de nosso profeta e de outros líderes da Igreja, e viver os princípios do evangelho. Nossos testemunhos então crescerão e amadurecerão naturalmente, talvez de modo imperceptível às vezes, até se tornarem forças motrizes em nossa vida. ¶
A paciência com os membros da família e com outras pessoas próximas a nós é vital para termos lares felizes. Contudo, com frequência parecemos mais dispostos a ser corteses e educados com estranhos do que com aqueles do nosso próprio círculo familiar. Por alguma razão, a crítica, a linguagem áspera e as brigas com demasiada frequência parecem ser aceitáveis em casa, mas não fora dela. ¶
Maridos, sejam pacientes com suas esposas; e esposas, sejam pacientes com seus maridos. Não esperem a perfeição. Encontrem maneiras amigáveis de resolver as diferenças que surgirem. Lembrem-se do sábio conselho do Presidente David O. McKay a respeito do casamento: mantenham os olhos bem abertos antes do casamento e meio fechados depois (ver Conference Report, abril de 1956, p. 9). Talvez, em certas ocasiões, nossas esposas pudessem entrar no carro e buzinar enquanto nós, como maridos, arrumamos as crianças. ¶
Pais, sejam pacientes com seus filhos. Leiam para seus filhos pequenos e os ajudem com as tarefas escolares, mesmo que seja preciso dizer-lhes ou mostrar-lhes a mesma coisa muitas vezes. O Élder Richard L. Evans disse: "Se eles perceberem que podem confiar a nós suas perguntas triviais, mais tarde poderão confiar-nos as mais importantes" (Ensign, maio de 1971, p. 12). Aproveitem a curiosidade natural deles e ajudem-nos a desenvolver o amor pelo aprendizado. Ensinem-lhes os princípios do evangelho em termos simples. Sejam pacientes com eles se perturbarem a noite familiar ou as orações em família. Transmitam-lhes a reverência que vocês sentem pelo evangelho, pelos líderes da Igreja e pelo Salvador. ¶
Sejam pacientes com seus jovens, especialmente enquanto fazem a transição da adolescência para a idade adulta. Muitos deles têm aparência de adultos e pensam que são adultos, mas tiveram pouca experiência com a qual fazer julgamentos de adulto. Ajudem-nos a adquirir a experiência de que precisam e a evitar as armadilhas que podem prejudicá-los. ¶
Por outro lado, exorto vocês, filhos, a serem pacientes com seus pais. Se eles parecem desatualizados em questões tão vitais como namoro, estilos de roupa, música moderna e uso dos carros da família, ouçam-nos assim mesmo. Eles têm a experiência que vocês não têm. Muito poucos, se algum, dos desafios e tentações que vocês enfrentam são novos para eles. Se vocês acham que eles não sabem nada sobre as questões vitais que acabei de mencionar, deem uma boa olhada em seus anuários do ensino médio e da faculdade. Mais importante ainda, eles os amam e farão tudo o que puderem para ajudá-los a ser verdadeiramente felizes. ¶
Aconselho vocês a serem pacientes em questões financeiras. Evitem decisões financeiras precipitadas ou apressadas; tais decisões exigem paciência e estudo. Esquemas de enriquecimento rápido raramente funcionam. Cuidado com as dívidas. Sejam especialmente cuidadosos com créditos facilmente obtidos, mesmo que os juros sejam dedutíveis do imposto de renda. Vocês, casais jovens, não devem esperar começar a vida de casados com casas, automóveis, eletrodomésticos e conveniências comparáveis àqueles que seus pais levaram anos para acumular. ¶
Por fim, uma palavra sobre a paciência com nosso Pai Celestial e seu plano de progresso eterno. Como é incrivelmente tolice ser impaciente com ele, o Pai de nossos espíritos, que tudo sabe e cuja obra e glória, por meio de seu Filho, Jesus Cristo, é "levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem" (Moisés 1:39). Como disse o Élder Neal A. Maxwell: "A paciência está intimamente ligada à fé em nosso Pai Celestial. Na verdade, quando somos indevidamente impacientes, estamos sugerindo que sabemos o que é melhor — melhor do que Deus sabe. Ou, ao menos, estamos afirmando que nosso cronograma é melhor do que o dele. De qualquer forma, estamos questionando a realidade da onisciência de Deus" ("Patience," Ensign, outubro de 1980, p. 28). ¶
O Élder Richard L. Evans disse: "Parece haver poucas evidências de que o Criador do universo alguma vez estivesse com pressa. Em toda parte, nesta terra generosa e bela, e até os confins mais distantes do firmamento, há evidências de propósito paciente, de planejamento, de trabalho e de espera" (in Conference Report, outubro de 1952, p. 95). ¶
Citando o Élder Marvin J. Ashton: "Não precisamos nos preocupar com a paciência de Deus, porque ele é a personificação da paciência, não importa onde tenhamos estado, o que tenhamos feito, ou o que nós, até este momento, tenhamos permitido pensar de nós mesmos. … ¶
"Deus não [nos] abandonará" ("Patience Is a Great Power," in Speeches of the Year: BYU Devotional Addresses, 1972–73, Provo: Brigham Young University Press, 1973, p. 104). ¶
Sou verdadeiramente grato pela paciência do Senhor com seus filhos. Sou infinitamente grato por sua paciência comigo e pelo privilégio que tenho de servir como testemunha especial da divindade de Jesus Cristo. ¶
Fico grato, ao viajar entre os membros da Igreja, de ver quantos realmente vivem os princípios do evangelho. A eles, cito uma promessa dada pelo Senhor: "Aqueles que viverem herdarão a Terra e os que morrerem descansarão de todos os seus labores … ; e nas mansões de meu Pai, que lhes preparei, receberão uma coroa. ¶
"Sim, bem-aventurados aqueles … que obedeceram a meu evangelho; pois receberão como recompensa as coisas boas da terra. … ¶
"E também serão coroados com bênçãos do alto" (D&C 59:2–4). ¶
Oro para que possamos ser pacientes, especialmente na adversidade, ao enfrentarmos nossos desafios de incerteza, provações, pressão e tribulação no mundo de hoje. ¶
Encerro com meu testemunho a vocês de que a paciência é um atributo divino. Testifico que nosso Pai Celestial vive e ama cada um de nós, e que Jesus é o Cristo, nosso Senhor e Salvador. Joseph Smith é o profeta por meio de quem o Senhor restaurou o evangelho nestes últimos dias. O Presidente Ezra Taft Benson é o profeta do Senhor que dirige esta obra hoje. Presto este testemunho em nome de Jesus Cristo, amém. ¶