Unidos na Edificação do Reino de Deus
L. Tom Perry
Presidente, estou começando a ter a nítida impressão de que temos estado ouvindo o senhor. Eu também tomarei meu texto do Livro de Mórmon, esse grande e antigo registro que nos oferece uma perspectiva especial, que só vem do estudo de aproximadamente mil anos de história humana. Vemos os ciclos das nações à medida que se voltam para a retidão e depois dela se afastam. Vemos a união que provém da fé em Deus e do desejo de edificar Seu reino. E vemos a dissensão que resulta quando o coração do povo se volta para desejos e vontades egoístas, para os prazeres da carne, para as riquezas e as posses mundanas. ¶
Uma das primeiras advertências dos profetas na América antiga encontra-se no segundo capítulo do livro de Jacó. Jacó denuncia o amor de seu povo pelas riquezas e o orgulho que se instalara em seu coração. Ele os implora que voltem o coração novamente para o Senhor. Ele começa com estas palavras: ¶
“E a mão da providência favoreceu-vos mui agradavelmente, de modo que obtivestes muitas riquezas; e porque alguns de vós obtivestes mais abundantemente do que vossos irmãos, enchestes o coração de orgulho e andais com dura cerviz e cabeça levantada devido aos vossos custosos trajes; e perseguis vossos irmãos, porque supondes que sois melhores do que eles. ¶
“E agora, meus irmãos, supondes que Deus vos justifica nisto? Eis que vos digo: Não. Ele, porém, condena-vos; e se persistirdes nestas coisas, seus julgamentos cairão rapidamente sobre vós” (Jacó 2:13–14). ¶
Vemos, então, que esse afastamento do Senhor muitas vezes acompanha a prosperidade. Aqueles que são mais prósperos podem encher-se de orgulho e olhar com desdém para os irmãos e irmãs que têm menos, considerando-os inferiores. Embora Jacó não o diga, esse processo também pode ocorrer de modo inverso. Os menos afortunados começam a sentir-se privados. Tornam-se consumidos pelo que não têm, culpando os outros por sua situação e culpando o Senhor. Eles também afastam o coração dEle. ¶
O ponto importante é que o Senhor condena tanto a preocupação com as posses mundanas quanto a falta de ocupação em edificar Seu reino, seja isso consequência de se ter demais ou de menos. ¶
Jacó aconselha ainda: “Pensai em vossos irmãos como em vós mesmos; e sede amáveis para com todos e liberais com vossos bens, para que vossos irmãos sejam ricos como vós” (Jacó 2:17). ¶
Aqui vemos uma aplicação direta do segundo grande mandamento de amar o próximo como a nós mesmos. Jacó diz a seu povo que não discrimine os irmãos e irmãs que têm menos do que eles, mas que compartilhem com eles o que possuem. ¶
“Mas antes de buscardes riquezas, buscai o reino de Deus. ¶
“E depois de haverdes obtido uma esperança em Cristo, conseguireis riquezas, se as procurardes; e procurá-las-eis com o fito de praticar o bem — de vestir os nus e alimentar os famintos e libertar os cativos e confortar os doentes e aflitos” (Jacó 2:18–19). ¶
Tantas vezes é a ordem das coisas que é fundamental nas instruções que o Senhor nos dá. O Senhor não está nos dizendo que não devemos ser prósperos. Isso seria incoerente com os muitos registros que temos dEle abençoando Seu povo com prosperidade. Mas Ele está nos dizendo que devemos buscar a prosperidade somente depois de tê-lO buscado e encontrado. Então, porque nosso coração está correto, porque O amamos antes e acima de tudo, escolheremos investir as riquezas que obtivermos na edificação de Seu reino. ¶
Como nossos profetas nos disseram, uma das razões importantes pelas quais o registro do Livro de Mórmon foi mantido e, por meio de circunstâncias milagrosas, colocado nas mãos de Joseph Smith para ser traduzido, foi servir de advertência ao povo desta geração. Por isso, precisamos levar a sério o conselho de Jacó. Devemos ler esta escritura como se tivesse sido escrita expressamente para nós, nestes dias, porque de fato foi. Suas palavras devem levar-nos a fazer a nós mesmos perguntas que examinam a alma. A ordem das coisas está correta em nossa própria vida? Estamos investindo, antes e acima de tudo, nas coisas de natureza eterna? Temos uma perspectiva eterna? Ou caímos na armadilha de investir primeiro nas coisas deste mundo e depois esquecer o Senhor? ¶
Essas, é claro, são perguntas difíceis de responder. Às vezes, um contraste oferece uma perspectiva que não poderíamos obter de outra forma. As histórias dos primeiros líderes da Igreja sempre me ajudaram como exemplos do que significa colocar o reino de Deus em primeiro lugar. Essas histórias realmente ganharam vida para mim quando eu era um jovem missionário. Naqueles dias, os missionários não eram abençoados com os muitos recursos didáticos que temos hoje. Tínhamos as escrituras e uma grande caixa preta que continha uma vitrola e um conjunto de discos intitulado A Plenitude dos Tempos. (Eu sempre esperava e orava por um companheiro baixinho, porque carregávamos essa grande caixa preta pendurada num cabo de vassoura entre nós dois. Se eu fosse mais alto, o peso sempre recaía sobre meu companheiro!) Esses discos retratavam o relato histórico da história inicial da Igreja, desde a Primeira Visão até o período de Nauvoo. ¶
Havia um episódio retratado nos discos que quase me fazia chorar, enquanto meu companheiro e eu o ouvíamos repetidas vezes. Era o relato de Brigham Young e Heber C. Kimball deixando suas esposas, filhos e humildes lares para viajar à Grã-Bretanha, em resposta aos chamados missionários que haviam recebido para aquela terra distante. Heber C. Kimball registrou o acontecimento nestas palavras: ¶
“‘14 de setembro, … o presidente Brigham Young deixou sua casa em Montrose para partir em missão para a Inglaterra. Estava tão doente que não conseguia ir até o Mississippi, a uma distância de trinta rods, sem auxílio. Depois de atravessar o rio, montou atrás de Israel Barlow em seu cavalo até minha casa, onde permaneceu doente até o dia 18. Deixou sua esposa doente, com um bebê de apenas três semanas, e todos os seus outros filhos também doentes e incapazes de cuidar uns dos outros. Nenhum deles conseguia sequer ir ao poço buscar um balde de água, e não tinham uma segunda muda de roupa, pois a turba no Missouri lhe havia tomado quase tudo o que possuía. No dia 17, a irmã Mary Ann Young conseguiu que um rapaz a levasse em sua carroça até minha casa, para que pudesse cuidar e confortar o irmão Brigham até a hora da partida. ¶
“‘18 de setembro, Charles Hubbard enviou seu filho com uma carroça e uma parelha de cavalos até minha casa; nossos baús foram colocados na carroça por alguns irmãos; fui até minha cama e apertei a mão de minha esposa, que então tremia de calafrios, com dois filhos doentes deitados ao seu lado; abracei-a, e a meus filhos, e me despedi deles. Meu único filho saudável era o pequeno Heber P., e ele mal conseguia carregar algumas medidas de água de cada vez para ajudar a matar-lhes a sede. ¶
“‘Foi com dificuldade que subimos à carroça e começamos a descer a colina, por cerca de dez rods; pareceu-me que minhas próprias entranhas se derreteriam dentro de mim ao deixar minha família naquela condição, como que quase nos braços da morte. Senti como se não pudesse suportar aquilo. Pedi ao carroceiro que parasse e disse ao irmão Brigham: “Isto é bem difícil, não é? Vamos nos levantar e dar-lhes um viva.” Levantamo-nos e, agitando os chapéus três vezes sobre a cabeça, gritamos: “Viva, viva por Israel.” Vilate, ao ouvir o barulho, levantou-se da cama e veio até a porta. Tinha um sorriso no rosto. Vilate e Mary Ann Young nos gritaram: “Adeus, Deus os abençoe!” Retribuímos a saudação e então dissemos ao condutor que seguisse em frente. Depois disso, senti um espírito de alegria e gratidão, por ter tido a satisfação de ver minha esposa de pé, em vez de deixá-la na cama, sabendo bem que não a veria novamente por dois ou três anos’” (Orson F. Whitney, Life of Heber C. Kimball, Salt Lake City: Bookcraft, 1967, pp. 265–66). ¶
Muitas vezes me perguntei como esses irmãos, por mais valorosos que fossem, conseguiram fazer o que fizeram. Verdadeiramente estavam dispostos a fazer qualquer sacrifício que lhes fosse pedido para edificar o reino de Deus. Estavam ajuntando “tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem” (Mateus 6:20). ¶
Há, porém, algo mais nessa história que sempre me intrigou. Quando Brigham Young e Heber C. Kimball partiram em suas missões para a Grã-Bretanha, parecia haver muito apoio de seus irmãos para ajudá-los em seu caminho. Israel Barlow auxiliou Brigham Young a atravessar o rio Mississippi. Mais tarde, Charles Hubbard enviou seu filho com uma carroça até a casa dos Kimball para auxiliar os dois missionários no início de sua longa jornada. ¶
Se observarmos com atenção essa história, vislumbramos a união que deve ter existido entre os santos naqueles primeiros dias. Quando maridos e pais partiam para o serviço missionário, sua partida era facilitada porque sabiam que irmãos, irmãs, líderes do sacerdócio e amigos interviriam para ajudar a preencher o vazio criado por sua ausência. ¶
Esses irmãos puderam investir na edificação do reino de Deus em terras distantes porque sabiam que outros estariam investindo na edificação do reino em casa, ajudando seus entes queridos sempre que necessário. Havia um vínculo singular, uma fé especial na comunidade dos santos, dedicada a um objetivo comum, a um propósito comum. Se voltarmos ao conselho de Jacó a seu povo, vemos a mesma mensagem comunicada quando ele os instrui a serem amáveis para com todos e a compartilhar livremente de seus bens (ver Jacó 2:17). ¶
O que isso me testifica é que podemos saber se colocamos ou não o reino de Deus em primeiro lugar observando como tratamos nossos irmãos e irmãs na Igreja. Existe um vínculo especial que nos une? Há ausência de inveja e de maledicência? Alegramo-nos com o sucesso de um irmão ou de uma irmã tanto quanto com o nosso próprio? Compartilhamos nossos bens para que todos possam ser ricos como nós? Em última análise, somos os guardiões de nossos irmãos e irmãs? ¶
Ao viajar por toda a Igreja, maravilho-me com todas as coisas positivas que estão ocorrendo. No entanto, nunca sinto que nós, como povo, estejamos vivendo à altura de nosso verdadeiro potencial. Minha impressão é que nem sempre trabalhamos juntos, que ainda estamos demasiadamente interessados em aspirações de honras e sucesso pessoais, e demonstramos pouco interesse pelo objetivo comum de edificar o reino de Deus. ¶
Quando consideramos tudo o que o Senhor nos pede, isso às vezes pode parecer avassalador. É claro que a quem muito é dado, muito se espera. Creio que, diante de um desafio enorme, é útil vê-lo como um processo passo a passo. Começamos dando o primeiro passo e continuamos dando um passo de cada vez. Tenho certeza de que o Senhor se compraz até mesmo com nossos pequenos começos, porque, em Sua infinita sabedoria, Ele sabe que as coisas pequenas frequentemente se tornam grandes. ¶
O primeiro passo sempre envolve o aprofundamento do compromisso com o Senhor e Sua gloriosa obra. Mais uma vez, trata-se de um compromisso de considerar a obra dEle em primeiro lugar. Nossos passos seguintes são guiados por esse compromisso inicial, mas podem, é claro, tomar diversas direções. ¶
Podemos ajudar servindo nossos irmãos e irmãs na Igreja. Podemos ir àqueles que ainda não receberam o evangelho e convertê-los às suas verdades. Podemos ir ao templo e realizar essa grande e redentora obra pelos mortos. À medida que nos engajamos na obra do Senhor, Ele aumentará nossa capacidade à medida que aumentarmos nosso desejo. Aproximar-nos-emos mais uns dos outros como povo engajado num esforço comum. Por meio dos sacrifícios que fazemos uns pelos outros e por Ele, realizaremos nosso potencial como Seus filhos e prepararemos o caminho para Seu eventual e glorioso retorno. ¶
Que cada um de nós aceite o desafio de buscar o reino de Deus em primeiro lugar, antes e acima de tudo o mais, e que, ao fazê-lo, nos aproximemos mais uns dos outros como povo, até que sejamos todos de um só coração e uma só mente, oro humildemente em nome de Jesus Cristo, amém. ¶