Meu Próximo — Meu Irmão!
David B. Haight
Certa vez, um perito na lei fez a Jesus uma pergunta instigante: "Quem é o meu próximo?" (Lucas 10:29). Deveras, essa é uma pergunta que todos nós deveríamos fazer — "Quem é o meu próximo?" ¶
O Salvador deu ao perito uma resposta penetrante e inesperada. Ensinou-o por meio de uma parábola — a parábola do bom samaritano. ¶
Um infeliz viajante que ia a Jericó caiu nas mãos de salteadores. Foi roubado, espancado e deixado como morto. ¶
Um sacerdote, a caminho do templo, viu-o e passou de largo. Da mesma forma, um levita, que naquela época auxiliava os sacerdotes, passou por ele sem se deter. Para os judeus da época de Jesus, essa indiferença para com a vítima da parábola era considerada um comportamento religioso apropriado. Seu ensinamento rabínico declarava: "Não devemos tramar a morte dos gentios, mas, se estiverem em perigo de morte, não somos obrigados a socorrê-los, … pois tal pessoa não é o teu próximo" (em A Commentary on the Holy Bible, ed. J. R. Dummelow, Nova York: The Macmillan Co., 1936, p. 751). ¶
O samaritano, embora desprezado pelos judeus, viu a vítima sofredora e fez três coisas: (1) teve compaixão dele, (2) aproximou-se dele e atou-lhe as feridas, e (3) cuidou dele (ver Lucas 10:30–35). ¶
Depois de relatar a parábola, Jesus perguntou ao perito qual dos três havia sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores — o sacerdote, o levita ou o samaritano. O perito não pôde evitar a verdade evidente. "O que usou de misericórdia para com ele", respondeu. Ao que o Salvador disse: "Vai, e faze da mesma maneira" (Lucas 10:37). ¶
Não se poderia conceber parábola mais perfeita para ensinar a verdade eterna de que Deus é o Pai de todos nós e que, portanto, somos irmãos uns dos outros. ¶
Essa verdade é o fundamento de nosso inspirado esforço missionário em todo o mundo — compartilhar as gloriosas verdades do evangelho restaurado com nossos próximos, que são nossos irmãos e irmãs. ¶
Desde os primórdios, nossos profetas — a começar por Joseph Smith — têm ensinado que se espera que todo membro digno testifique e advirta o seu próximo. Muitos portadores do sacerdócio foram chamados para o campo missionário com pouca antecedência. Alguns ouviram seus nomes anunciados como missionários na conferência geral sem qualquer aviso prévio. Milhares responderam ao chamado para servir. ¶
Já ouvimos o Presidente Benson relatar o chamado da "Caixa B" que chegou a seu pai. Naquela época, uma carta da "Caixa B" era um chamado da Primeira Presidência para servir em uma missão. O pai do Presidente Benson atendeu a esse chamado — deixando esposa e filhos — o que resultou em um poderoso espírito missionário naquele lar, que tem abençoado inúmeras vidas. ¶
Hoje, esse chamado — no espírito da "Caixa B" — foi estendido a todos os rapazes. Eles são preparados desde cedo para servir ao Senhor. Milhares e milhares têm respondido. O espírito da "Caixa B" — o chamado para servir — não recai apenas sobre todos os rapazes e sobre as dedicadas moças que desejam servir, mas agora também tem sido estendido — e já o é há algum tempo — aos casais maduros. ¶
Há onze anos, o Presidente Spencer W. Kimball anunciou: ¶
"Poderíamos aproveitar centenas de casais, pessoas mais velhas como alguns de vocês, cujos filhos já foram criados, que se aposentaram de seus negócios, que podem ir e gastar seu próprio dinheiro para ensinar o evangelho. Poderíamos aproveitar centenas de casais. Basta ir falar com o bispo de vocês", continuou ele, "isso é tudo o que precisam fazer. Digam a ele: 'Estamos prontos para ir, se puderem nos aproveitar.' Creio que provavelmente vocês receberão um chamado" (Discurso proferido na dedicação do Centro de Estaca de Fair Oaks, Califórnia, 9 de outubro de 1976, citado em Edward L. Kimball, org., The Teachings of Spencer W. Kimball, Salt Lake City: Bookcraft, 1982, p. 551). ¶
Desde que o Presidente Kimball fez esse apelo, a demanda tem continuado a aumentar, e hoje poderíamos aproveitar não apenas centenas, mas milhares de casais preparados. ¶
Há muitas centenas de casais experientes e dedicados — aqueles cujos cabelos talvez estejam grisalhos e que talvez tenham uma ou outra ruga — vocês sabem, aquelas características distintivas da maturidade — que estão se aposentando de suas carreiras profissionais, mas ainda com vários anos produtivos pela frente antes de seus anos dourados, cujos filhos já constituíram vida própria, que gozam de boa saúde e que sonham com aquele momento marcante em que dirão ao seu bispo: "Estamos prontos — prontos para fazer algo realmente importante — para servir em uma missão, para ir a qualquer lugar em que o Senhor precise de nós." ¶
Essa era a situação de Hollis e Gwen Kersey, que venderam sua casa, compraram uma pequena chácara, reformaram a casa para que ficasse quente e confortável, limparam o terreno e plantaram uma horta. "Nós nos instalamos para viver a aposentadoria", disseram eles. ¶
Eram batistas e não tinham a menor intenção de mudar de religião àquela altura da vida. Mas missionários e uma família vizinha tocaram suas vidas, e eles se batizaram. Em seu quadragésimo aniversário de casamento, foram selados no Templo de Atlanta. Logo foram chamados como missionários de estaca e, mais tarde, chamados para servir em uma missão de tempo integral. ¶
Ao chegarem ao Centro de Treinamento Missionário, os Kersey comentaram: ¶
"Demos as galinhas, os perus, os coelhos, levamos o pônei e os dois cachorros … [para o nosso] filho, … esvaziamos os freezers e demos os gatos, … tapamos as janelas, pregamos os galpões, desligamos tudo, fomos beijar nossos dez netos para nos despedirmos, e aqui estamos!" ¶
Que atitude maravilhosa! ¶
Àqueles de vocês que têm adiado essa decisão — talvez por causa de sentimentos de apreensão e inadequação —, procurem o seu bispo, conforme sugerido por nossos profetas, e deem esse primeiro passo que poderá levá-los à inspiradora atividade missionária de proclamar o evangelho de nosso Senhor e Salvador. ¶
Uma das lições mais importantes que aprendi é que nossa capacidade como filhos de Deus se torna aquilo que precisa ser. Nunca devemos minimizar ou subestimar nossa capacidade de lidar com os desafios que se apresentam diante de nós. O tamanho ou a complexidade dos desafios não precisa ser motivo de alarme ou desespero. O potencial humano é talvez o recurso mais desperdiçado da Terra, e possivelmente o menos explorado. ¶
Talvez em segundo lugar apenas depois de adquirir um conhecimento pessoal de Deus, nosso Pai Eterno, e de Jesus Cristo, esteja a nossa liberdade e capacidade de aprender, de enfrentar os problemas com capacidade de compreender e agir! ¶
Muitos de vocês talvez não deem o devido valor ao que podem fazer. Vocês podem se tornar uma grande âncora de força para um ramo novo ou para uma ala fragilizada. ¶
Não é necessário que façam o proselitismo da mesma forma que nossos jovens élderes e irmãs. Os casais estão frequentemente entre os missionários mais frutíferos por causa de sua maturidade, experiência amadurecida, perspicácia e compaixão, que abrem muitas portas de maneira incomum. ¶
Um exemplo disso vem de um presidente de missão, ao descrever um casal inesquecível: ¶
"Confesso", disse ele, "que, quando o Élder e a Irmã Leslie chegaram, fiquei imaginando como eles se sairiam. Ele estava seriamente acima do peso e usava aparelho auditivo. Ela tinha limitações, com dois implantes artificiais nos joelhos. Mas o espírito deles era doce, e o entusiasmo, muito forte. Duas pessoas maravilhosamente comuns — cheias de amor. ¶
"Senti-me inspirado a enviá-los a Jamestown, no Tennessee", disse ele, "onde tínhamos um ramo minúsculo e lutando por sobreviver, que estava sem missionários havia anos. ¶
"Eu sabia que eles não conseguiriam pregar de porta em porta, e, durante as primeiras semanas, nada foi registrado em seus relatórios semanais. Suas cartas diziam: 'Estamos conhecendo as pessoas.' ¶
"Depois de algumas semanas, as cartas deles falavam de não membros que passaram a frequentar a igreja com eles — a princípio dois, depois quatro, depois sete. Em certa ocasião, chegaram a ter vinte e quatro pesquisadores na igreja. Logo os batismos começaram a fluir. Nenhuma dupla de missionários, jovens ou idosos, igualou o número de batismos que eles alcançaram." ¶
E o presidente de missão continuou dizendo: "Duvido que qualquer um dos dois conseguisse ministrar as lições missionárias de uma forma que se assemelhasse muito ao modelo sugerido que temos para os missionários regulares. O que eles tinham era um grande amor pelas pessoas. Eles se entrelaçaram no tecido daquela pequena comunidade, conquistando-a com amizade, serviço de solidariedade e corações compreensivos. ¶
"Hoje, o Ramo Jamestown está prosperando, com um novo edifício e mais de 100 membros frequentando. Muitos contribuíram com sua fé e suas obras, mas nenhum de maneira mais significativa ou generosa do que Harry e Frances Leslie." ¶
Compaixão … serviço … cuidado — essas são as qualidades daqueles que verdadeiramente amam o seu próximo como a si mesmos. ¶
Embora já tenham tido muitos anos de vida conjugal juntos, vocês descobrirão novas bênçãos. Nunca trabalharão tão próxima e intensamente um com o outro em um esforço tão compensador. Seu amor se aprofundará, e vocês descobrirão novas e maravilhosas dimensões da alma interior de seu cônjuge e da profundidade de sua compreensão. Vocês terão um maior sentimento de unidade, e um relacionamento celestial será fortalecido. ¶
Quem é o seu próximo? Como o bom samaritano, ao levar o verdadeiro evangelho àqueles que esperam para ouvi-lo, dando compaixão e um ouvido atento — vocês atam as suas feridas e, de maneira especial, dão livremente cuidado amoroso a todos. ¶
Quando Lynn e Dorothea Shawcroft chegaram ao Equador, ficaram em estado de choque cultural durante duas semanas e não conseguiam se comunicar muito bem. ¶
"Pensamos: '[Dezoito] meses [serão] muito tempo.'" ¶
Mas então continuaram dizendo: "Vimos vividamente as condições em que [alguns dos] missionários viviam. … Nossos primeiros pensamentos foram — até aprendermos mais sobre nossos próprios deveres — que poderíamos ao menos tornar a vida mais agradável para os [missionários de tempo integral]. Então compramos panelas e ingredientes para fazer biscoitos e rocamboles de canela. Compramos barras de chocolate e as picamos para fazer biscoitos com gotas de chocolate. ¶
"Aprendemos tanto com os [missionários]. Não importava que eles aprendessem o idioma mais depressa do que nós. Ver a alegria … em seus rostos ao saborearem um biscoito com gotas de chocolate valia todo o esforço. Representávamos um pouco do lar, um pouco de algo de que sentiam saudade. ¶
"Pode [parecer] que não fazíamos nada além de fazer biscoitos para os missionários. Não é verdade! … [Trabalhávamos] com os líderes [locais da Igreja] em reativação, ensino, música, … genealogia e bem-estar. Tínhamos visitação pública toda semana para os … missionários e seus pesquisadores. Trabalhávamos juntos. … ¶
"No dia de preparação, [os missionários] vinham e faziam biscoitos ou rocamboles de canela. [Nós] … discutíamos as escrituras. Quando … ficavam desanimados, vinham conversar sobre isso. … Como os amávamos! … ¶
"Depois de ensinar um casal jovem a ler, ou de ver a felicidade em uma família [porque] o pai voltara a frequentar a igreja, voltávamos para o nosso [pequeno] apartamento com o coração cantando e os pés quase não tocando as pedras da calçada. Ver uma jovem mãe bater palmas de alegria ao perceber verdadeiramente que estava lendo, ou observar um bebê … e saber que talvez [essa criança] não estivesse viva agora se não [tivéssemos estado servindo naquela cidade naquela época]. Cada uma dessas experiências, sem exceção, fez com que a nossa missão valesse cada minuto. ¶
"Valeu a pena lutar com [outro] idioma? Certamente que sim! … Sentimos que tínhamos de acompanhar o ritmo dos [missionários mais jovens]? Não. Trabalhamos à nossa maneira. … Fomos aceitos? Como fomos!" ¶
A Irmã Shawcroft recomenda que todo casal leve para a sua missão uma boa receita de biscoito com gotas de chocolate, muito amor, uma boa receita de rocamboles de canela, um forte testemunho do evangelho, as escrituras e, depois, mais amor! ¶
Cada um desses casais exemplifica o ensinamento do Salvador de nos entregarmos e alcançarmos as pessoas. Ao fazê-lo, agregaram valor a si mesmos, às suas famílias e à Igreja pelo serviço missionário prestado nos anos dourados de suas vidas. ¶
Alguns casais estão agora servindo em sua segunda ou terceira missão. Outros estão estudando outro idioma para poderem ir a um país onde seus talentos são tão necessários. ¶
Há alguns anos, um homem proeminente da Califórnia me disse, ao saber que a Irmã Haight e eu estávamos deixando nossos afazeres para ir à Escócia servir à nossa igreja: "Gostaria que minha vida tivesse sido vivida de tal forma que alguém me pedisse para fazer algo realmente importante." ¶
No fundo da alma humana, há um anseio de estar identificado e envolvido com algo realmente importante. Chega um momento em nossa vida em que estamos espiritualmente preparados e prontos para ser retirados de atividades confortáveis e, às vezes, mundanas, e para tomar a importante decisão de responder a um chamado de nosso profeta, que enobrecerá nossa alma e também abençoará outras pessoas. ¶
O objetivo de todo casal fisicamente apto na Igreja, assim como de todo rapaz de dezenove anos na Igreja, deve ser servir em uma missão. Nenhum exemplo melhor pode ser dado, nenhum testemunho melhor pode ser prestado por pais a filhos ou netos, do que por meio do serviço missionário em seus anos de maturidade. ¶
Quem são os nossos próximos? São todos os filhos de nosso Pai. Que bênção podemos ser para eles ao levarmos-lhes, com sabedoria e amor amadurecidos, o evangelho de nosso Salvador, com seus convênios e bênçãos eternos. ¶
Convidamos os bispos a analisar em oração possíveis chamados com casais apropriados, os quais, seguindo a promessa de nosso Salvador aos nefitas de "orar ao Pai em meu nome; … acreditando que recebereis, [e] vos será dado", saberão pelo Espírito como responder (3 Né. 18:19–20). ¶
Grande alegria e realização virão a vocês à medida que servirem humildemente em seu mundo recém-expandido de próximos. ¶
Esta obra é divinamente dirigida. Deus vive. Jesus é o Filho de Deus. Assim testifico, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶