A Lei do Jejum
L. Tom Perry
As grandes lições das escrituras nos ensinam repetidas vezes como é insensato para a humanidade abandonar os caminhos do Senhor e confiar no braço da carne. Uma das certezas da vida é que a humanidade, individual e coletivamente, passará por sua experiência mortal em ciclos de períodos bons e difíceis. Quantas de nossas histórias familiares contêm parágrafos semelhantes a este? ¶
"Economicamente, nossa família teve altos e baixos. Como muitos americanos, prosperamos durante a década de 1920. Meu pai começou a ganhar muito dinheiro no ramo imobiliário, além de seus outros negócios. Por alguns anos, fomos de fato ricos. Mas então veio a Depressão. ¶
"Ninguém que viveu aquilo pode jamais esquecer. Meu pai perdeu todo o seu dinheiro, e quase perdemos nossa casa. Lembro-me de perguntar à minha irmã, que era alguns anos mais velha, se teríamos de nos mudar e como encontraríamos outro lugar para morar. Eu tinha apenas seis ou sete anos na época, mas a ansiedade que sentia em relação ao futuro ainda está vívida em minha mente. Os tempos ruins são indeléveis — ficam com você para sempre." (Lee Iacocca e William Novak, Iacocca: An Autobiography, Nova York: Bantam Books, 1984, p. 7.) ¶
Mas, tão certo quanto podemos contar com a mudança como parte da vida, há também a certeza absoluta de que somos filhos de um Pai Celestial eterno. Como o exemplo supremo de um pai bondoso e amoroso, Ele traçou um caminho bem definido para que Seus filhos o sigam, cujo destino é a bênção de retornar à Sua presença. ¶
Ele marcou o caminho com verdadeiros princípios, que resistirão ao teste do tempo. Nesta sessão da conferência geral, hoje à tarde, temos revisado os princípios de bem-estar tal como nos foram revelados para nossa aplicação ao longo dos últimos cinquenta anos. ¶
Há um princípio adicional, básico para todo este plano de bem-estar, que gostaria de discutir com vocês esta tarde. É a lei do jejum. Sempre me maravilho, ao estudar os princípios que o Senhor projetou para que sigamos, com quão simples eles são em conceito, quão fáceis são de administrar, e como a observância deles sempre traz bênçãos adicionais. ¶
A lei do jejum é básica na Igreja. Isaías declarou: ¶
"Porventura não é este o jejum que escolhi: ¶
"… que repartas o teu pão com o faminto?" (Isaías 58:6–7.) ¶
Como muitas outras práticas bíblicas, foi restaurada pelo Senhor em nossos dias por meio do Profeta Joseph Smith. ¶
A lei do jejum tem três grandes propósitos. Primeiro, ela oferece assistência aos necessitados por meio da contribuição de ofertas de jejum, consistindo no valor das refeições das quais nos abstemos. Segundo, o jejum é benéfico para nós fisicamente. Terceiro, seu propósito é aumentar a humildade e a espiritualidade de cada indivíduo. ¶
Um motivo importante para jejuar é contribuir com a quantia economizada com as refeições não consumidas para cuidar dos pobres e necessitados. Uma das mais fortes admoestações que o Senhor deu a Seus filhos na Terra é que temos a responsabilidade e a obrigação de cuidar daqueles que estão em necessidade. Foi o rei Benjamim quem disse em seu grande discurso: "E agora, por causa das coisas que vos disse — isto é, para conservardes a remissão de vossos pecados, dia a dia, a fim de que andeis sem culpa diante de Deus — quisera que repartísseis vossos bens com os pobres, cada um de acordo com o que possui, alimentando os famintos, vestindo os nus, visitando os doentes e aliviando-lhes os sofrimentos, tanto espiritual como materialmente, conforme as carências deles." (Mosias 4:26.) ¶
Precisamos ser lembrados de que, incluído em nosso convênio batismal, está nosso compromisso de carregar os fardos uns dos outros para que fiquem leves, de chorar com os que choram e de consolar os que necessitam de consolo? (Ver Mosias 18:8–9.) ¶
Quanto mais vivo, mais impressionado fico com o sistema do Senhor para cuidar dos pobres e necessitados. Certamente ninguém pensaria numa forma tão simples e, ao mesmo tempo, tão profunda de satisfazer as necessidades humanas — crescer espiritual e materialmente por meio do jejum periódico e depois doar ao bispo a quantia economizada por deixar de participar dessas refeições, para ser usada em atender às necessidades dos pobres, dos enfermos, dos oprimidos, que precisam de ajuda e apoio para seguir adiante na vida. ¶
Foi o Presidente [J. Reuben] Clark quem disse: "O princípio fundamental de toda a obra de assistência da Igreja é que ela deve ser realizada por meio de ofertas de jejum e outras doações e contribuições voluntárias. Esta é a ordem estabelecida pelo Senhor. O dízimo não foi primordialmente concebido para esse propósito e não deve ser usado, exceto em última extremidade." (Citado em Marion G. Romney, "Our Primary Purpose," discurso proferido na Welfare Agricultural Meeting, 3 de abril de 1971, p. 1.) ¶
Ao longo da história religiosa, temos constatado como o Senhor abençoa as pessoas quando estas se dispõem a cuidar dos pobres e necessitados. A respeito dos dias de Ezequias, lemos isto nas escrituras: ¶
"E aos filhos de Israel e de Judá, … também trouxeram dízimos das vacas e das ovelhas, e dízimos das coisas sagradas que foram consagradas ao Senhor seu Deus; e fizeram muitos montões. ¶
"Chegando, pois, Ezequias e os príncipes, e vendo aqueles montões, bendisseram ao Senhor e ao seu povo Israel. ¶
"E perguntou Ezequias aos sacerdotes e aos levitas acerca daqueles montões." (2 Crônicas 31:6, 8–9.) ¶
A resposta foi: "Desde que se começou a trazer esta oferta à casa do Senhor, houve o que comer e do que se fartar, e ainda sobejo em abundância, porque o Senhor bendisse o seu povo, e sobejou esta abastança." (2 Crônicas 31:10.) ¶
Já dissemos muito hoje sobre o Presidente Romney e o que ele declarou a respeito do programa de bem-estar. Permitam-me acrescentar outra declaração: ¶
"Estou plenamente de acordo com o que o Bispo disse sobre nossa necessidade de contribuir liberalmente para o fundo de ofertas de jejum e para todo outro fundo para o qual a Igreja oficialmente nos convoque a contribuir. Sou um firme crente de que ninguém pode dar à Igreja e à edificação do reino de Deus e ficar financeiramente mais pobre por isso. Lembro-me de há muito tempo, há mais de 50 anos, quando o irmão [Melvin J.] Ballard impôs as mãos sobre minha cabeça e me separou para uma missão. Ele disse, naquela oração de bênção, que uma pessoa não poderia dar um pedaço de pão ao Senhor sem receber um pão inteiro em troca. Essa tem sido a minha experiência. Se os membros da Igreja dobrassem suas contribuições de ofertas de jejum, a espiritualidade na Igreja dobraria. Precisamos ter isso em mente e ser liberais em nossas contribuições." (Welfare Agricultural Meeting, 3 de abril de 1971, p. 1.) ¶
Com todas essas promessas do Senhor ao longo da jornada da humanidade na Terra, quão chocante é constatar que, às vezes, é necessário usar os fundos de dízimo da Igreja para suprir déficits em nossas contribuições de ofertas de jejum. Ah, onde está a nossa fé? Ah, como nos privamos das bênçãos do Senhor por não sermos generosos em nossas contribuições de ofertas de jejum. ¶
Tenhamos a fé de comprometer o Senhor a abençoar este povo, porque estamos seguindo Sua ordem de cuidar dos pobres e necessitados entre nós, sendo generosos em nossas contribuições de ofertas de jejum. ¶
O jejum também é benéfico para nós fisicamente. Há algum tempo, li um artigo na Science News, escrito por Charles L. Goodrich, que afirmava que as vantagens dos hábitos alimentares modernos vão muito além do cosmético. Numerosos estudos com animais demonstraram que a restrição calórica no início da vida leva a uma expectativa de vida maior e reduz o risco de certas doenças. ¶
Há também evidências dos efeitos benéficos do jejum periódico para a saúde. Alguns experimentos mostraram que o jejum periódico não apenas promove uma vida mais longa, mas incentiva uma atividade mais vigorosa mais adiante na vida. (Ver Science News, 1º de dezembro de 1979, p. 375.) ¶
O jejum também é uma das melhores formas de desenvolver nossa própria disciplina e autocontrole. Platão disse: "A primeira e melhor vitória é vencer a si mesmo; ser vencido por si mesmo é, de todas as coisas, a mais vergonhosa e vil." (Laws, Livro I, seção 626E.) ¶
O jejum nos ajuda a aprender o domínio próprio. Ajuda-nos a adquirir a disciplina que precisamos para ter controle sobre nós mesmos. ¶
Mais uma vez, podemos concluir que, se formos sábios ao seguir a lei do jejum do Senhor, também receberemos benefícios físicos. ¶
Por fim, examinemos a humildade e a força espiritual derivadas do jejum. O Salvador certamente reconheceu a necessidade desse princípio, pois, depois de Seu batismo, encontramos as escrituras registrando: ¶
"E Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto; ¶
"E quarenta dias foi tentado pelo diabo, e naqueles dias não comeu coisa alguma; e terminados eles, teve fome." (Lucas 4:1–2.) ¶
E o diabo usou toda a sua astúcia para tentar o Salvador a abandonar Sua missão. A isso o Salvador respondeu: "Vai-te, Satanás; porque está escrito: Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a Ele servirás. ¶
"E acabando o diabo toda a tentação, ausentou-se dele por algum tempo. ¶
"Então, pelo poder do Espírito, voltou Jesus para a Galileia, e a sua fama correu por todas as terras em derredor." (Lucas 4:8, 13–14.) ¶
O jejum O havia abençoado com o poder do Espírito. ¶
Há também o relato, no Livro de Mórmon, de Alma, quando viajava para o sul, a caminho de Mânti. Ficou espantado ao encontrar seus amigos, os filhos de Mosias, viajando rumo à terra de Zaraenla. Foi um encontro alegre, enquanto trocavam relatos de suas jornadas missionárias. Alma ficou encantado ao ver como os filhos de Mosias haviam se fortalecido no conhecimento da verdade. A escritura registra: ¶
"Isto, porém, não é tudo; haviam-se devotado a muita oração e jejum; por isso tinham o espírito de profecia e o espírito de revelação; e quando ensinavam, faziam-no com poder e autoridade de Deus. ¶
"E pelo espaço de quatorze anos haviam ensinado a palavra de Deus entre os lamanitas, tendo obtido grande êxito na condução de muitos ao conhecimento da verdade; sim, pelo poder de suas palavras muitos foram levados perante o altar de Deus, para invocar-lhe o nome e confessar seus pecados perante ele." (Alma 17:3–4.) ¶
Estes são apenas dois exemplos, entre muitos que podemos encontrar nas escrituras, em que o jejum e a oração com um propósito trazem um poder espiritual especial. Essa mesma bênção está disponível a cada um de nós, se apenas dela nos aproveitarmos. ¶
Gostaria de acrescentar meu testemunho, nesta tarde, ao dos demais que testificaram das bênçãos daqueles que deram a este grande e inspirado programa de serviços de bem-estar, e dele receberam, ao longo dos últimos cinquenta anos. Meu pai era o bispo de nossa ala na época de seu anúncio à Igreja, na conferência geral de abril de 1936. O mundo se debatia na Grande Depressão. Muitos dos pais de nossa ala estavam desempregados. Naqueles dias, dez centavos de admissão a uma atividade escolar impediam muitos de meus amigos de comparecer, porque seus pais não podiam pagar nem mesmo essa pequena quantia para o divertimento dos filhos. ¶
Por causa do chamado de meu pai como bispo, pude desenvolver uma apreciação pelo programa de bem-estar desde seu início, ao observá-lo atender às necessidades dos pobres em sua ala com grande amor e ternura. Quantas vezes eu corria da escola para casa, ansioso por uma atividade planejada. Ao dobrar a esquina de nossa casa, lá estavam sacos de farinha, açúcar e outros mantimentos. Meu coração se abatia, pois eu sabia que seria mais uma noite fora com meu pai, entregando esses mantimentos aos necessitados. A atividade planejada teria de ser cancelada naquela noite. ¶
Quando ele chegava em casa, eu era sempre convocado a ajudá-lo a colocar os mantimentos no carro e viajar com ele para fazer as entregas. Às vezes eu resmungava baixinho por ter sido tão sobrecarregado, mas então tinha a extraordinária experiência de ver a luz voltar aos olhos de uma família deprimida quando alimentos eram trazidos para dentro de seu lar. Eu sempre voltava dessas experiências com uma sensação de exaltação, por ver a Igreja em ação, cuidando de seus pobres e necessitados por meio das ofertas de jejum e de bons e bondosos líderes do sacerdócio. ¶
Que o Senhor continue a nos abençoar com a fé de seguir a liderança inspirada que Ele nos proporcionou aqui na Terra, para que possamos cumprir nossas obrigações e responsabilidades e sermos abençoados por Sua mão, tanto espiritual como materialmente, ao seguirmos Seu plano, é minha oração, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶