A Questão de uma Missão
Gordon B. Hinckley
Tenho o dever de falar-lhes. Além disso, é um grande privilégio e uma tremenda oportunidade, e busco a direção do Espírito Santo. ¶
Tenho sido tão grato a este coro de ex-missionários que cantou para nós esta noite. Já os ouvi, e outros como eles, cantar em todo o mundo. Gostaria que houvesse tempo para que nos cantassem "Vós, élderes de Israel, vinde unir-vos a mim." (Hinos, 1985, nº 319.) Poderiam fazê-lo em inglês britânico, inglês americano, inglês australiano, inglês neozelandês, francês, alemão, italiano, português, espanhol, japonês, coreano, mandarim, cantonês e outros idiomas. Obrigado, irmãos, pela música com que nos abençoaram. ¶
O que o Irmão Monson disse, e a presença deste coro, estabeleceram um tema para mim. ¶
Outra noite, conversei com um rapaz profundamente perturbado quanto à pergunta se deveria ou não servir uma missão. Ele descreveu um programa de estudos que seria tremendamente desafiador. Falou de seu amor por uma linda moça e do sentimento de que não poderia deixá-la. Falou de problemas financeiros que exigiriam sacrifício. ¶
Disse-lhe que compreendia seus sentimentos. Disse-lhe que suas preocupações eram semelhantes às de muitos outros, inclusive algumas que eu mesmo havia vivido. Na idade dele, eu estava na universidade. Era a época da pior depressão econômica da história do mundo. O desemprego nesta região era de cerca de 35 por cento, e a maioria dos desempregados eram maridos e pais, já que relativamente poucas mulheres faziam parte da força de trabalho. Bem poucos missionários estavam indo a campo naquela época. Hoje enviamos tantos numa semana quanto então iam durante o ano inteiro. Recebi meu diploma de bacharel e planejava, de alguma forma, cursar a pós-graduação. Então o bispo veio com o que me pareceu uma sugestão chocante. Ele falou de uma missão. Fui chamado para ir à Inglaterra, que, naquela época, era a missão mais cara do mundo. O custo mensal equivalia ao que hoje seriam cerca de US$ 500. ¶
Descobrimos que minha mãe, já falecida, havia estabelecido uma pequena caderneta de poupança destinada a esse propósito. Eu tinha uma poupança em outro lugar, mas o banco em que a mantinha havia falido. Não havia, naquela época, nenhum programa de seguro governamental para cobrir essa falência, como há hoje. Meu pai, homem de grande fé e amor, forneceu os meios necessários, com toda a família cooperando com sacrifício. Ao olhar para trás, vejo tudo isso como um milagre. De algum modo, o dinheiro estava lá todos os meses. ¶
O trabalho em campo não era fácil. Era difícil e desanimador. Mas que experiência maravilhosa foi. Em retrospectiva, reconheço que eu era provavelmente um jovem egoísta quando cheguei à Grã-Bretanha. Que bênção foi deixar de lado meus próprios interesses egoístas em favor dos interesses maiores da obra do Senhor. Tive a companhia de rapazes e moças extraordinários. Eles se tornaram amigos preciosos, que conheço e amo há mais de meio século. ¶
A moça que deixei passou a significar ainda mais para mim enquanto eu estava fora. Na próxima primavera, comemoraremos nosso quinquagésimo aniversário de casamento. ¶
Quão profundamente grato sou pela experiência daquela missão. Toquei a vida de algumas pessoas que, ao longo dos anos, expressaram sua gratidão. Isso tem sido importante. Mas nunca me preocupei muito com o número de batismos que eu tive ou que outros missionários tiveram. Minha satisfação veio da certeza de que fiz o que o Senhor queria que eu fizesse e de que fui um instrumento em Suas mãos para a realização de Seus propósitos. No decorrer dessa experiência, gravou-se em todo o meu ser a convicção e o conhecimento de que esta é, em verdade, a obra verdadeira e viva de Deus, restaurada por meio de um profeta para a bênção de todos os que a aceitarem e vivenciarem seus princípios. ¶
Pode haver alguns rapazes, nesta vasta audiência, esta noite, que estejam se perguntando, com toda seriedade, se devem servir uma missão. Pode haver escassez de dinheiro. Pode haver planos convincentes de estudo. Pode haver aquela moça maravilhosa que vocês amam e sentem que não podem deixar. Vocês dizem a si mesmos: "A escolha é minha." ¶
Isso é verdade. Mas, antes de decidir contra uma missão, contem suas bênçãos, meu caro amigo. Pensem em todas as coisas grandiosas e maravilhosas que vocês têm — a própria vida, a saúde, os pais, o lar, a moça que amam. Não são todas elas dádivas de um Pai Celestial generoso? Vocês realmente as conquistaram sozinhos, independentemente de Sua bênção? Não; a vida de todos nós está em Suas mãos. Todas as coisas preciosas que possuímos vêm dEle, que é o doador de todo dom perfeito. ¶
Não estou sugerindo que Ele retirará Suas bênçãos e os deixará desamparados se vocês não servirem uma missão. Mas estou dizendo que, por um espírito de apreço e gratidão, e por um senso de dever, vocês deveriam fazer todo o ajuste necessário para dedicar um pouco de seu tempo — apenas dois anos — consagrando sua força, seus recursos e seus talentos à obra de compartilhar com outros o evangelho, que é a fonte de grande parte do bem que vocês possuem. ¶
Prometo que, se assim fizerem, chegarão a saber que aquilo que hoje parece ser um sacrifício se revelará, na verdade, o maior investimento que jamais farão. ¶
Que não haja hesitação em sua decisão. Vivam dignos de um chamado e respondam sem hesitar quando esse chamado vier. Saiam com espírito de dedicação, colocando-se nas mãos do Senhor para realizar Sua grande obra. ¶
Aos rapazes mais jovens, gostaria de encorajá-los a economizar dinheiro desde já para uma futura missão. Guardem-no em lugar seguro, não numa conta especulativa em que possa correr risco. Consagrem-no a este grande propósito e não o usem para nenhum outro. Preparem-se. Frequentem o seminário e o instituto. Leiam o Livro de Mórmon com oração. ¶
Ouço falar muito, hoje em dia, de excursões dispendiosas de jovens a lugares exóticos durante as férias da primavera e em outras ocasiões. Por que não ficar perto de casa e colocar o dinheiro em suas futuras contas missionárias? Um dia vocês serão gratos por terem feito isso. ¶
A Igreja precisa de vocês. O Senhor precisa de vocês. O mundo precisa de vocês — sim, de mais dez mil de vocês. Há muitas pessoas lá fora que precisam exatamente daquilo que vocês têm a oferecer. Não são fáceis de encontrar, mas não serão encontradas a menos que haja quem esteja preparado e disposto a procurá-las. Deus os abençoe, a cada um de vocês, para que a missão seja parte planejada e essencial do programa de suas vidas. ¶
Agora, desejo dizer uma palavra a todos os que estão aqui. É simplesmente um lembrete da obrigação, do dever que cada um tem de compartilhar com outros o precioso evangelho de Jesus Cristo. ¶
Eu ia contar-lhes a história de um amigo que recentemente se filiou à Igreja. Em vez disso, vou pedir que ele mesmo a conte. ¶
Permitam-me apresentar o Irmão William Sheffield, que foi batizado em novembro passado. Irmão Sheffield, venha nos contar sua experiência. ¶
William Sheffield: Meus caros irmãos, depois da faculdade de direito em Berkeley, desenvolvi um bem-sucedido escritório particular, principalmente com clientes internacionais, entre eles Indira Ghandi, ex-primeira-ministra da Índia. ¶
Por anos, como advogado, busquei uma nomeação judicial. O dia em que o governador da Califórnia telefonou para dizer que eu havia sido nomeado para o Tribunal Superior foi eletrizante e repleto de visões de, talvez, um dia, até mesmo a Suprema Corte. Mas então, depois de menos de dois anos como juiz e logo após comprarmos uma nova casa, decidimos deixar aquela vida quase idílica. Eu ouvira o Senhor chamar-me para o seminário. Em resposta, minha esposa e eu concordamos que, dali em diante, confiaríamos sempre no Senhor, concordando em ser como folhas num riacho — duas folhas em Seu riacho, obedecendo a Seu chamado, desejando, mais do que qualquer outra coisa, segui-lO. ¶
Mas nem sempre segui a Cristo. Por muitos anos, não tinha certeza de quem Ele era nem de como poderia me aproximar dEle. Quase diariamente, perguntava-me em silêncio: Há um propósito na vida? Por que estou aqui? Para onde vou? O sentido da vida está em buscar a maneira mais prazerosa de atravessá-la — ou há algo mais? Meus amigos cristãos me diziam que tudo o que eu precisava fazer era "bater, e a porta se abriria; buscar, e eu encontraria." (Ver Mateus 7:7.) ¶
Comecei a bater. E, à medida que batia, o Senhor respondia. Como uma semente crescendo dentro de mim, o evangelho começou a tomar conta de minha vida. Senti o Espírito me chamando. Inscrevi-me na Escola de Teologia de Yale e fui aceito. Renunciei ao cargo de juiz, alugamos nossa casa no sul da Califórnia e seguimos para New Haven, em Connecticut. Eu estava na escola de teologia, embora ainda não fosse membro de nenhuma igreja. ¶
Ao chegarmos a New Haven, começamos a procurar uma casa perto do campus. No entanto, o Senhor tinha outros planos. Por mais que tentássemos, não conseguíamos encontrar a casa que queríamos perto de Yale. Olhando para trás, agora sei o motivo. O Senhor nos queria numa ala muito especial, cerca de quarenta milhas ao sul de Yale, a Primeira Ala de New Canaan. ¶
Depois de muitos milagres, encontramo-nos assistindo à nossa primeira reunião sacramental de domingo nesta ala. Fomos recebidos como se fôssemos esperados. Não estávamos dentro do prédio havia mais de cinco minutos quando fomos apresentados ao bispo e a seus conselheiros e convidados para um jantar naquela semana. Mas minha atenção foi capturada, antes de tudo, pela espiritualidade radiante, particularmente, dos membros do sexo masculino. Eu me perguntava: Como podiam viver suas vidas profissionais na mais acelerada de todas as correrias, a cidade de Nova York, e ainda assim continuar a irradiar uma espiritualidade tão profunda? O que era aquilo que fazia as lágrimas brotarem em seus olhos quando testificavam que Cristo vive e que a Igreja é verdadeira? Eu precisava descobrir. ¶
Mas eu não queria particularmente ser mórmon, disse a meus amigos. Já que estava na escola de teologia, presumia que o Senhor me queria no ministério. O que eu faria, depois de me formar com um título avançado em religião, se me tornasse mórmon? No entanto, eu queria ser a folha no riacho que havia prometido ao Senhor que seria quando deixamos a Califórnia. ¶
Durante todo o tempo em que estive processando, lutando e batalhando com a história de Joseph Smith, meus amigos na ala foram pacientes, amorosos e gentis. Toda vez que eu dizia ao bispo que a história de Joseph Smith era mais Disney do que a própria Disney, ele me dizia: "Talvez seja mesmo — mas é tudo verdade." Toda vez que eu dizia ao conselheiro do bispo: "A história de Joseph não pode ser verdadeira", ele me respondia: "Sim, é." Eles genuinamente me amavam, e eu os amava. ¶
Por meses, examinei, reexaminei, refleti, ponderei e orei a respeito da história de Joseph Smith e do Livro de Mórmon. Achei o livro complexo, sofisticado, doutrinariamente profundo e belo. Quanto mais eu estudava o texto, mais profundo e belo ele se tornava. ¶
Muita coisa aconteceu ao longo dos meses. Disse a meus amigos e à minha esposa, que era mórmon inativa e que estava começando a sentir algum interesse pela fé de seus antepassados, que eu não me filiaria à Igreja só para agradá-los, por mais que os amasse. Eu me filiaria somente quando tivesse um testemunho — quando pudesse dizer, como testemunha direta, que sei que Joseph Smith foi um profeta, que o Livro de Mórmon é o evangelho, e que a igreja dos Santos dos Últimos Dias é a Sua igreja. ¶
Em setembro do ano passado, o Senhor me abençoou com esse testemunho. Agora sei, sem nenhuma dúvida ou incerteza, sem sequer conseguir imaginar uma dúvida, que, na vida pré-mortal, o Senhor escolheu Joseph Smith como Seu profeta nos últimos dias, que o Livro de Mórmon foi preservado pelo próprio Cristo e entregue a Joseph Smith para tradução, e que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é a Sua igreja. ¶
Devo uma grande dívida à Primeira Ala de New Canaan e à minha querida esposa. A paciência deles, sua lealdade firme ao evangelho restaurado e seu amor por mim se combinaram para me afetar eternamente. ¶
Ainda não tenho certeza do que o Senhor tem em mente para mim quando eu me formar na Escola de Teologia de Yale, mas sei disto: minha esposa e eu continuaremos sempre a servir a Deus, em Sua igreja, como folhas num riacho. ¶
Digo isso em nome de Jesus Cristo, amém. ¶
Obrigado, Irmão Sheffield. Estou convencido de que há muitos, muitos milhares de homens como este bom homem que, com calor humano e acolhimento, podem ser conduzidos às verdades eternas do evangelho restaurado de Jesus Cristo. Eles estão à procura de algo melhor do que têm. Precisam ser acolhidos em amizade. Precisam ser recebidos em comunhão. Precisam sentir-se confortáveis e em casa, para que possam observar, na vida dos membros da Igreja, as virtudes que desejam para si mesmos. Que Deus nos abençoe, meus amados irmãos, para que nos tornemos exemplos como os que influenciaram o Irmão Sheffield. ¶
O mundo é nossa responsabilidade. Não podemos evadi-la. Penso nas palavras de Jacó, no Livro de Mórmon, que, juntamente com seu irmão José, havia sido consagrado sacerdote e mestre do povo: ¶
Que Deus os abençoe, meus amados irmãos, jovens e idosos, para que sejam fiéis à grande responsabilidade que nos foi confiada de compartilhar com outros esta coisa mais preciosa de todas, é o que humildemente peço, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶