Tende Bom Ânimo
Marvin J. Ashton
Nas últimas semanas, ao contemplar esta ocasião, senti-me fortemente impressionado a compartilhar alguns pensamentos sobre o convite do Senhor para “ter bom ânimo”—sim, ter bom ânimo sem temor. Com as condições mundiais de tumultos, protestos, corrida armamentista, guerras e rumores de guerra, desconfiança, pobreza, decepções, terrorismo, tragédias, etc., nunca houve, na história, um período com maior necessidade de aceitar mais uma das promessas eternas do Senhor. ¶
“Eis que esta é a promessa do Senhor a vós, ó meus servos. ¶
“Portanto, tende bom ânimo e não temais, porque eu, o Senhor, estou convosco e ficarei ao vosso lado; e testificareis de mim, Jesus Cristo, que eu sou o Filho do Deus vivo, que eu fui, que eu sou e que eu virei.” (D&C 68:5–6.) ¶
Bom ânimo é um estado de espírito ou de humor que promove a felicidade ou a alegria. Alguns gostam de pensar que o bom ânimo se encontra numa garrafa, num pacote de cerveja, numa injeção, num pitada de fumo debaixo do lábio, na racionalização ou no autoengano. A propósito, tem sido minha observação, ao longo dos anos, que aqueles que tentam afogar suas mágoas na bebida apenas adoecem seus amanhãs. Com a ajuda de Deus, o bom ânimo nos permite superar o presente deprimente ou circunstâncias difíceis. É um processo de garantia e reforço positivos. É luz do sol quando as nuvens bloqueiam a claridade. ¶
Recentemente, ao visitar uma esposa que havia perdido subitamente o marido numa morte trágica, fiquei tocado por essa encantadora senhora de Washington, Utah, quando ela disse: “Meu coração está pesado e triste, mas minha alma tem bom ânimo.” Havia um poderoso ânimo interior dominando a situação de tristeza. A promessa, “porque eu, o Senhor, estou convosco”, estava triunfando sobre a angústia e o desespero. As pessoas de bom ânimo suavizam a dor dos outros, assim como a que pesa fortemente sobre si mesmas. ¶
Nenhum de nós escapará da tragédia e do sofrimento. Cada um de nós provavelmente reagirá de modo diferente. Contudo, se pudermos lembrar a promessa do Senhor, “porque eu, o Senhor, estou convosco”, seremos capazes de enfrentar nossos problemas com dignidade e coragem. Encontraremos a força para ter bom ânimo em vez de nos tornarmos ressentidos, críticos ou derrotados. Seremos capazes de enfrentar os acontecimentos desagradáveis da vida com visão clara, força e poder. ¶
Em todo o mundo, temos muitos membros que estão levando as bênçãos do evangelho àqueles que os ouvirão. Aqueles que aceitam e vivem os ensinamentos de nosso Salvador encontram a força para ter bom ânimo, pois ele declarou: “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.” (Mateus 16:25.) Quando aplicamos esse princípio em nossa vida e o compartilhamos com nossos semelhantes, é possível substituir o desânimo, a tragédia e a tristeza pela esperança e pelo bom ânimo. Os frutos da alegria estão dentro de cada um de nós, lado a lado com nossa resolução, prioridades e desejos. Eles nunca virão de fora. Não podem ser comprados nem roubados. Estão acima de qualquer preço. ¶
Quando penso naqueles ao nosso redor que são bem disciplinados e diligentemente engajados em ter bom ânimo, muitos grandes exemplos me vêm à mente. Eles nos elevam com seu estado de espírito de alegria, júbilo e esperança. Parecem avançar felizes, com uma dimensão extra de poder e amor. Permitam-me compartilhar um exemplo ou dois. ¶
Uma bela senhora de “bom ânimo” a quem tenho amado profundamente ao longo dos anos é muito especial. Por mais de trinta e cinco anos, seu marido tem sido afligido pela doença de Parkinson. ¶
Eles criaram seis filhos extraordinários. Ela cooperou alegremente para tornar possível que ele funcionasse bem como pai, marido, bispo, sumo conselheiro e bem-sucedido empreiteiro de construção. Quando a mobilidade dele chegou a estágios desanimadores, quase nulos, ela o ergueu. Seus vizinhos—e ela conhece a todos—a consideram a primeira a visitar quando há uma necessidade fora do comum. Seu bom ânimo é infindável. Ela traz paz de espírito e conforto a todos com quem convive. Quanto mais a observo, mais percebo que o bom ânimo constrói um entusiasmo contagiante. ¶
Que alegria é ver alguém de bom ânimo que, quando outros, por causa de um acontecimento ou desenvolvimento desagradável, vivem num silêncio irado ou num desgosto vociferante, enfrenta a situação com resistência alegre e bom espírito. ¶
Nossos missionários em todo o mundo frequentemente têm contatos que estariam dispostos a aceitar o batismo e o evangelho de Jesus Cristo, mas que temem o processo. Muitos têm medo de mudar. Outros membros menos ativos da Igreja resistem ao convite de voltar porque temem ser incompatíveis com os caminhos dele e com novos relacionamentos. ¶
Lembramos a todos que não temam e que tenham bom ânimo, porque o Filho do Deus vivo, o próprio Jesus Cristo, ficará ao lado de vocês. ¶
Há poucas semanas, estando em Bangkok, na Tailândia, nossos corações foram tocados por uma jovem que agora vive num estado de bom ânimo que ela nunca imaginou possível. Uma mudança significativa trouxe grande alegria e felicidade a ela e à sua família. Permitam-me compartilhar essa mensagem de bom ânimo, contada com as próprias palavras dela. ¶
“Em 1975 havia uma família que morava perto da estrada principal, numa pequena aldeia. Meus pais eram bastante pobres. Meu pai trabalhava no correio local, enquanto minha mãe ficava em casa cuidando dos filhos. ¶
“Com o passar do tempo, minha mãe ficou entediada com sua vida de dona de casa e partiu em busca de uma vida mais empolgante. Ela se voltou para a bebida, o tabaco e o jogo. Muitas vezes ela jogava cartas o dia todo e a noite toda, e não voltava para cuidar dos filhos. ¶
“Enquanto isso, meu pai trabalhava arduamente para sustentar a família. As coisas em casa não iam bem, e muitas vezes meu pai e minha mãe discutiam violentamente. ¶
“Certo dia, meu pai chegou em casa e disse à minha mãe que, se ela continuasse com o jogo e não cuidasse dos filhos, ele teria que se divorciar dela. A família enfrentava uma crise. Naquela época, eu ajudava a cuidar de meus três irmãos mais novos. Meus pais perguntaram a cada filho com quem ele ou ela gostaria de morar, com a mãe ou com o pai. Foi uma decisão muito difícil ter que escolher entre minha mãe e meu pai. Foi um tempo de muito sofrimento e tristeza. ¶
“Foi durante esse período que minha irmã mais velha conheceu alguns missionários de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ela estudou sobre a Igreja e passou a aceitar os ensinamentos e a incorporá-los à sua vida. Ela me pediu que fosse à igreja com ela. A princípio, fiquei muito triste e zangada ao pensar que ela havia mudado de religião. Eu só conhecia os ensinamentos de Buda e tinha passado a amar seus costumes. ¶
“Mas percebi uma mudança em minha irmã. Ela estava mais amorosa e gentil e fazia muitas coisas para ajudar nossa família. Decidi estudar com os missionários. Minha mãe também escutou. Não demorou muito, ambas percebemos que havíamos feito coisas erradas e precisávamos mudar de vida. Nos arrependemos de nossos pecados e fomos batizadas. Quando meu pai e meus dois irmãos mais velhos viram a mudança em nós, decidiram estudar também. Meu pai havia sido um importante oficial e professor na religião budista. Ele passou muito tempo estudando e lendo as obras-padrão. Ele orava com frequência e sinceridade para conhecer a verdade. Por fim, suas orações humildes foram respondidas. Ele soube, assim como nós soubemos, que A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias era verdadeira. ¶
“O verdadeiro evangelho mudou nossa vida e restaurou a felicidade a um lar e uma família quase devastados. Estamos todos muito gratos e felizes por agora sermos parte da igreja do Senhor e nos familiarizarmos com seus mandamentos e obedecê-los.” ¶
Hoje, essa jovem é missionária da Igreja. Ela e sua família são testemunhas vivas de que, quando as pessoas passam a perceber que “eu, o Senhor, estou convosco e ficarei ao vosso lado”, uma família inteira pode transformar o desespero em bom ânimo. ¶
Em contraste com essa família de Bangkok, alguns de nós, que temos a felicidade e o bom ânimo do evangelho, podemos perdê-los ao nos envolvermos com a iniquidade e o engano. Uma das formas mais destrutivas de engano é o autoengano. ¶
Os profetas dos últimos dias têm suplicado com clareza para que evitemos esquemas de “enriquecimento rápido”, a fim de evitarmos as angústias da escravidão financeira. Talvez não tenhamos dito o suficiente sobre o fato de que muitos de nós, em nossos momentos de sonhos de grandeza, plantamos as sementes do desastre econômico. Depois, mais tarde, quando muito se perde, culpamos aqueles que participaram conosco. É difícil ter bom ânimo quando o autoengano é nosso companheiro. Quando nos expomos voluntariamente aos ventos e tempestades da fraude e do golpe, não devemos nos surpreender ao contrairmos a doença do déficit. Ao longo dos anos, ouvindo aqueles que sofreram grandes perdas financeiras, tenho ouvido muitos, em desespero, declararem: “Fui enganado.” Muitas vezes, meu coração, minha mente e o Espírito me impeliram a dizer: “Sim, você foi enganado por si mesmo.” Todos precisamos ser encorajados a erguer a cabeça e ver aonde nossos pensamentos e prioridades não declaradas nos estão levando. O autoengano nos permite culpar outros por nossos fracassos. ¶
Por muitos anos, o Presidente Ezra Taft Benson tem reforçado seus discursos de amor e orientação a nossos jovens com a verdade de que a iniquidade nunca pôde ser felicidade. (Ver Alma 41:10.) No namoro e no cortejo, as decisões de conduta, para serem eficazes, devem ser tomadas antes do momento em que surge a tentação e o incitamento. Com muita frequência, a conduta imoral resulta do autoengano. Permitimo-nos culpar outros pelo incidente de má conduta quando nosso fracasso em tomar decisões antecipadamente não foi considerado importante. O pensamento de que a iniquidade traz bom ânimo faz a razão pasmar. ¶
Um esforço constante deve ser feito para elevar nossa conduta diária, de modo que ela esteja em conformidade com nosso conhecimento da verdade e com nossos padrões. O autodomínio deve sempre triunfar sobre o autoengano para que possamos provar os frutos do bom ânimo. ¶
Uma forma de autoengano é a racionalização. Impedimos que o Senhor esteja conosco porque nos afastamos de seus caminhos e explicamos nossas ações fazendo desculpas, consciente ou inconscientemente. Dizemos a nós mesmos: “Fiz isso só para ver como era.” “Todo mundo estava fazendo isso.” “Eu não queria ser diferente.” “Não havia outra maneira de ser aceito graciosamente.” Ou “Ele me obrigou a fazer isso.” ¶
O companheirismo do bom ânimo é possível por meio da guarda dos mandamentos de Deus, não por meio da racionalização. Devemos nos comprometer com princípios e não viver por comparação ou desculpas. Horace Mann disse sabiamente: “Em vão falam de felicidade aqueles que nunca subjugaram um impulso em obediência a um princípio.” (De Common School Journal, citado em Horace Mann: His Ideas and Ideals, comp. Joy Elmer Morgan, Washington, D.C.: National Home Library Foundation, 1936, p. 149.) ¶
O autoengano é, na melhor das hipóteses, apenas temporariamente bem-sucedido. Então, quando o abismo entre a verdade e nosso conhecimento do certo e nosso comportamento se torna grande demais, somos forçados a fechá-lo com a racionalização. O verdadeiro teste é como nos saímos quando padrões de conduta cristã são aplicados. ¶
A alegria jamais será uma mistura de autoengano e racionalização. Ter bom ânimo nos permite superar o momento e a situação. De modo geral, a racionalização é inconsciente. Deslizamos nela sem perceber e gradualmente. Ela se torna uma muleta para aqueles que escolhem caminhar por trilhas tortuosas. ¶
A principal responsabilidade pelo bom ânimo recai sobre o indivíduo. ¶
O bom ânimo é melhor compartilhado por aqueles que descartam o temor, aceitam alegremente o que vem e o usam com sabedoria, se convertem, obedecem aos mandamentos de Deus, evitam o autoengano e a racionalização. ¶
Ter bom ânimo torna possível transformar todos os nossos entardeceres em amanheceres. ¶
Com bom ânimo, carregar nossa cruz pode ser nossa escada para a felicidade. Quando Jesus entra em nossa vida, o ânimo ilumina o caminho. Quão poderosa e reconfortante é a declaração do Salvador: “No mundo tereis aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (João 16:33.) ¶
Ele promete ficar ao nosso lado. Ele nos convida a testificar e testemunhar dele. Que alegria e honra é para mim declarar, com bom ânimo e sem temor, que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo, que ele foi o Unigênito do Pai, que ele é, e que ele ainda virá novamente em nome de Deus. Agradeço a Deus pela vida do Salvador, por seu amor alegre e por seu exemplo. “No amor não há temor; antes o perfeito amor lança fora o temor.” (1 João 4:18.) ¶
A toda a humanidade, em toda parte, testifico alegremente que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é nosso Redentor. Ele nos sustentará agora e para sempre se caminharmos em seus caminhos, tivermos bom ânimo e não temermos. Em nome de Jesus Cristo, amém. ¶