Espiritualidade
Dallin H. Oaks
Como membros fiéis de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, temos uma forma distinta de ver a vida. Vemos nossas experiências em termos de eternidade. À medida que nos afastamos da mundanidade, sentimos-nos mais próximos de nosso Pai Celestial e mais capazes de sermos guiados por seu Espírito. Chamamos essa qualidade de vida de espiritualidade. ¶
Para os fiéis, a espiritualidade é uma lente através da qual vemos a vida e uma medida pela qual a avaliamos. O apóstolo Paulo expressou esse pensamento em duas de suas cartas: ¶
"Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas." (2 Coríntios 4:18.) ¶
"Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito. ¶
"Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz." (Romanos 8:5–6.) ¶
Ser espiritualmente inclinado é ver e avaliar nossas experiências em termos da perspectiva ampliada da eternidade. ¶
Cada um de nós tem uma lente pessoal através da qual vemos o mundo. Nossa lente dá seu tom especial a tudo o que vemos. Ela pode suprimir alguns traços e realçar outros. Também pode revelar coisas de outro modo invisíveis. Através da lente da espiritualidade, podemos conhecer "as coisas de Deus" pelo "Espírito de Deus." (1 Coríntios 2:11.) Como ensinou o apóstolo Paulo, tais coisas são "loucura" para o "homem natural". Ele não pode vê-las "porque elas se discernem espiritualmente." (Ver 1 Coríntios 2:14.) ¶
Como interpretamos nossas experiências também é função de nosso grau de espiritualidade. Alguns interpretam a mortalidade unicamente em termos de realizações e posses mundanas. Em contraste, nós que temos um testemunho do evangelho de Jesus Cristo devemos interpretar nossas experiências em termos de nosso conhecimento do propósito da vida, da missão de nosso Salvador e do destino eterno dos filhos de Deus. ¶
A espiritualidade não é função de ocupação ou chamado. Um cientista pode ser mais espiritual do que um teólogo; um mestre pode ser mais espiritual do que um oficial. A espiritualidade é determinada pela perspectiva pessoal e pelas prioridades. Ela se evidencia em nossas palavras e ações. O élder John Taylor demonstrou sua espiritualidade nestas palavras, proferidas ao relatar sua missão à Europa em 1852: ¶
"Algumas pessoas às vezes me disseram: Não tem medo de atravessar os mares e os desertos, onde há lobos e ursos e outros animais ferozes? … Não tem medo de cair pelo caminho e deixar seu corpo na trilha do deserto, ou sob as ondas do oceano? Não. Quem se importa com isso? O que importa, se acaso viermos a cair pelo caminho? … Essas coisas não me perturbam, mas tenho me alegrado o dia todo, porque Deus revelou o princípio da vida eterna, porque estou de posse dessa verdade, e porque sou considerado digno de me engajar na obra do Senhor." (Journal of Discourses, 1:17.) ¶
As escrituras contêm grandes ilustrações da espiritualidade em sua relação com o viver cotidiano. Uma delas, registrada no décimo capítulo de Lucas, conta como o Salvador chegou a determinada aldeia: ¶
"E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou ele numa aldeia; e uma certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa; ¶
"E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. ¶
"Porém Marta andava ocupada com muito serviço, e chegando, disse: Senhor, não te importa que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe, pois, que me ajude. ¶
"E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, andas ansiosa e afadigada com muitas coisas, ¶
"Mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada." (Lucas 10:38–42.) ¶
Essa escritura lembra a cada Marta, homem ou mulher, que não devemos estar tão ocupados com o que é rotineiro e temporal a ponto de deixarmos de valorizar as oportunidades que são singulares e espirituais. ¶
O contraste entre o espiritual e o temporal também é ilustrado pelos gêmeos Esaú e Jacó e suas diferentes atitudes em relação à sua primogenitura. O primogênito, Esaú, "desprezou a sua primogenitura." (Gênesis 25:34.) Jacó, o segundo gêmeo, a desejava. Jacó valorizava o espiritual, enquanto Esaú buscava as coisas deste mundo. Quando estava com fome, Esaú vendeu sua primogenitura por um prato de lentilhas. "Eis que", explicou ele, "estou a ponto de morrer, e para que me servirá a primogenitura?" (Gênesis 25:32.) Muitos Esaús já abriram mão de algo de valor eterno para saciar uma fome momentânea pelas coisas do mundo. ¶
Os soldados romanos de Pilatos proporcionaram uma ilustração inesquecível das diferentes perspectivas da mente carnal e da mente espiritual. Durante uma tarde trágica no Calvário, um punhado de soldados aguardava ao pé de uma cruz. O acontecimento mais importante de toda a eternidade se desenrolava na cruz acima de suas cabeças. Alheios a esse fato, ocupavam-se em lançar sortes para dividir os bens terrenos do Filho de Deus moribundo. (Ver Mateus 27:35; Lucas 23:34; João 19:24.) O exemplo deles lembra a cada um de nós que não devemos estar lançando nossas sortes pelas coisas do mundo enquanto as coisas da eternidade, incluindo nossa família e a obra do Senhor, sofrem por falta de nossa atenção. ¶
Eis um exemplo de uma avaliação espiritual e uma avaliação temporal de uma experiência cotidiana. Em um devocional da Universidade Brigham Young há vários anos, o élder Loren C. Dunn contou como seu pai, um presidente de estaca atarefado em Tooele, deu a seus dois filhos pequenos a responsabilidade de criar vacas na fazenda da família. Ele deu aos meninos ampla liberdade para agir por conta própria, e eles cometeram alguns erros. Isso foi observado por um vizinho atento, que se queixou ao pai a respeito do que os jovens criadores de vacas estavam fazendo. "Jim, você não entende", respondeu o presidente Dunn. "Veja bem, estou criando meninos, não vacas." ("Our Spiritual Heritage," em Brigham Young University 1981–82 Fireside and Devotional Speeches, Provo: Brigham Young University Press, 1982, p. 138.) Que percepção maravilhosa! Que exemplo para os pais inclinados a ver e avaliar o desempenho de seus filhos unicamente em termos temporais. ¶
O que vemos ao nosso redor depende do que buscamos na vida. Os conquistadores espanhóis tomaram objetos de arte insubstituíveis dos artesãos do Novo Mundo e os fundiram em barras de ouro. Os inimigos do jovem profeta Joseph Smith o perseguiram para se apossar das placas de ouro das quais ele haveria de traduzir o Livro de Mórmon. Buscavam as placas de ouro para obter dinheiro, não uma mensagem. O valor temporal das placas tinha um preço; seu valor espiritual não tinha preço. ¶
O élder John A. Widtsoe ensinou que "há um significado espiritual em todos os atos humanos e acontecimentos terrenos. … Cabe ao homem descobrir o significado espiritual das coisas terrenas. … Nenhum homem é tão feliz … quanto aquele que sustenta todo o seu labor com tal interpretação e compreensão espiritual dos atos de sua vida." (In Conference Report, abr. 1922, pp. 96–97.) ¶
Os homens e mulheres santos dos últimos dias que colonizaram estes vales das montanhas agiram segundo esse princípio. Julgados pelos valores e aspirações do mundo, alguns empreendimentos pioneiros foram fracassos. A missão do ferro não conseguiu produzir quantidades significativas de ferro. A missão do algodão não deu ao Território de Utah autossuficiência na produção de algodão. Os esforços para fabricar açúcar não alcançaram sucesso material por quarenta anos. O Fundo de Imigração Perpétua não se perpetuou, porque muitos imigrantes foram incapazes de saldar sua dívida com ele. ¶
Mas, quando medidos pelos valores eternos da lealdade, da cooperação e da consagração, alguns dos mais evidentes fracassos mundanos são vistos como os maiores triunfos dos empreendedores pioneiros. Qualquer que fosse seu resultado financeiro, esses empreendimentos suscitaram os sacrifícios que moldaram pioneiros em santos e prepararam santos para a exaltação. Para Deus, "todas as coisas … são espirituais." (D&C 29:34.) ¶
Em outro grande episódio da história mórmon, várias centenas de homens marcharam de Ohio para dar socorro militar aos santos perseguidos em Sião — o oeste do Missouri. Mas quando os homens do Acampamento de Sião se aproximavam do destino pretendido, o Profeta Joseph Smith os dispensou. Segundo seu propósito ostensivo, a expedição foi um fracasso. Mas a maioria dos homens que viriam a liderar a Igreja pelo meio século seguinte, incluindo aqueles que levariam os santos pelas planícies e colonizariam o Interior Montanhoso, vieram a conhecer o Profeta Joseph e receberam seu treinamento de liderança formativo na marcha do Acampamento de Sião. Como disse o élder Orson F. Whitney a respeito do Acampamento de Sião: ¶
"A redenção de Sião é mais do que a compra ou recuperação de terras, a construção de cidades, ou mesmo a fundação de nações. É a conquista do coração, a subjugação da alma, a santificação da carne, a purificação e o enobrecimento das paixões." (The Life of Heber C. Kimball, 2ª ed., Salt Lake City: Stevens & Wallis, 1945, p. 65.) ¶
O primeiro dos Dez Mandamentos — "Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:3) — resume a natureza da espiritualidade. Uma pessoa espiritual não tem prioridade alguma à frente de Deus. Uma pessoa que busca ou serve a outros objetivos, como poder ou proeminência, não é espiritual. ¶
A primazia do espiritual sobre o temporal é evidente nos ensinamentos dos três apóstolos mais graduados do Salvador. Pedro ensinou: ¶
"Toda a carne é como erva, e toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; ¶
"Mas a palavra do Senhor permanece para sempre." (1 Pedro 1:24–25.) ¶
Tiago perguntou: "Não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus." (Tiago 4:4.) ¶
E o apóstolo João escreveu: ¶
"Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. ¶
"Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida, não é do Pai, mas é do mundo. ¶
"E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre." (1 João 2:15–17.) ¶
O materialismo, que dá prioridade às necessidades e aos objetos materiais, é obviamente o oposto da espiritualidade. O Salvador ensinou que não deveríamos ajuntar "tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam." (Mateus 6:19.) Devemos ajuntar tesouros no céu: "Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração." (Mateus 6:21.) ¶
Assim como outros profetas do Livro de Mórmon, Samuel, o lamanita, advertiu os nefitas de que estavam amaldiçoados por causa de suas riquezas, "porque colocastes o coração nelas e não escutastes as palavras daquele que vo-las deu." (Helamã 13:21; ver também Helamã 6:17; 7:21.) ¶
O apóstolo Paulo aconselhou o jovem Timóteo: "Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus vivo, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos." (1 Timóteo 6:17.) ¶
Não há nada de inerentemente mau no dinheiro. O bom samaritano usou a mesma moeda para servir ao próximo que Judas usou para trair o Mestre. É "o amor ao dinheiro que é a raiz de todos os males." (1 Timóteo 6:10; itálico acrescentado.) A diferença crítica está no grau de espiritualidade que exercemos ao ver, avaliar e administrar as coisas deste mundo e nossas experiências nele. ¶
Se lhe for permitido tornar-se objeto de adoração ou prioridade, o dinheiro pode nos tornar egoístas e orgulhosos, "inchados com as coisas vãs do mundo." (Alma 5:37.) Em contraste, se usado para cumprir nossas obrigações legais e para pagar nossos dízimos e ofertas, o dinheiro pode demonstrar integridade e desenvolver desapego. O uso espiritualmente esclarecido dos bens pode nos ajudar a preparar-nos para a lei superior de uma glória celestial. ¶
As qualidades de espiritualidade que conseguimos incorporar em nossa vida frequentemente se evidenciam na forma como reagimos à morte ou a outras tragédias ou infortúnios aparentes. Como santos dos últimos dias fiéis, podemos suportar a morte de entes queridos porque temos fé na ressurreição e na natureza eterna dos laços familiares. Podemos arrepender-nos e superar nossos erros e insuficiências porque sabemos que nosso Salvador "sofreu essas coisas por todos, para que não precisem sofrer caso se arrependam." (D&C 19:16.) ¶
Vistos com a perspectiva da eternidade, um revés temporal pode ser uma oportunidade de desenvolver força de alma de significado eterno. A força é forjada na adversidade. A fé se desenvolve num contexto em que não podemos ver o que está adiante. ¶
Leí prometeu a seu filho Jacó que Deus "consagrará tuas aflições para teu proveito." (2 Néfi 2:2.) Em meio às perseguições no Missouri, o Senhor assegurou aos santos que "todas as coisas com que fostes afligidos reverterão para o vosso bem." (D&C 98:3.) Aqueles que conseguem encarar suas aflições dessa maneira têm espiritualidade. ¶
Como alcançamos a espiritualidade? Como atingimos aquele grau de santidade em que podemos ter a constante companhia do Espírito Santo? Como chegamos a ver e avaliar as coisas deste mundo com a perspectiva da eternidade? ¶
Buscamos a espiritualidade por meio da fé, do arrependimento e do batismo; do perdão mútuo; do jejum e da oração; de desejos retos e pensamentos e ações puros. Buscamos a espiritualidade por meio do serviço ao próximo; da adoração; do banquete da palavra de Deus, nas escrituras e nos ensinamentos dos profetas viventes. Alcançamos a espiritualidade por meio de fazer e guardar convênios, por meio de nos esforçarmos conscienciosamente para guardar todos os mandamentos de Deus. A espiritualidade não é adquirida subitamente. É a consequência de uma sucessão de escolhas certas. É a colheita de uma vida reta. ¶
Através da lente da espiritualidade, vemos todos os mandamentos de Deus como convites a bênçãos. Obediência e sacrifício, lealdade e amor, fidelidade e família — tudo aparece sob uma perspectiva eterna. As palavras do Salvador, dadas ao mundo na tradução inspirada da Bíblia feita pelo Profeta Joseph Smith, adquirem significado renovado: ¶
"Quem perder a sua vida neste mundo por causa de mim, achá-la-á no mundo vindouro. ¶
"Portanto, renunciai ao mundo, e salvai a vossa alma; pois que aproveita ao homem, se ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?" (Tradução de Joseph Smith, Mateus 16:28–29.) ¶
Os frutos da espiritualidade foram revelados ao Profeta Joseph Smith na octogésima oitava seção de Doutrina e Convênios: ¶
"E se vossos olhos estiverem fitos em minha glória, todo o vosso corpo se encherá de luz e em vós não haverá trevas; e o corpo que é cheio de luz compreende todas as coisas. ¶
"Portanto, santificai-vos, para que vossa mente concentre-se em Deus." (D&C 88:67–68.) ¶
Testifico que somos filhos de Deus, o Pai Eterno. Por meio do sacrifício expiatório de seu Filho Unigênito, nosso Salvador Jesus Cristo, ele nos deu os meios pelos quais podemos ser purificados de nossos pecados. Por meio de seus profetas, ele nos deu a perspectiva eterna da espiritualidade. ¶
Que possamos esforçar-nos por alcançar aquele nível de espiritualidade em que santifiquemos a nós mesmos para que nossa mente se concentre em Deus. (Ver D&C 88:68.) Ao fazê-lo, desfrutaremos das bênçãos que ele prometeu, inclusive a bênção da vida eterna, "o maior de todos os dons de Deus." (D&C 14:7.) Disto eu testifico, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶