Dia de Jejum
Howard W. Hunter
Se não fosse pela conferência geral, hoje estaríamos comparecendo aos serviços do dia de jejum em nossas próprias alas, pois é o primeiro domingo do mês. Não apenas estaríamos comparecendo ao serviço, mas estaríamos jejuando em conformidade com a prática estabelecida pelos membros da Igreja. Nesse aspecto, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é singular, embora o princípio do jejum tenha sido observado ao longo da história eclesiástica. ¶
Parece ser impossível determinar, a partir dos registros disponíveis, as circunstâncias em que o jejum se originou nos tempos antigos, ou qual era seu propósito no início. Contudo, encontramos referências de que ele foi praticado desde os primeiros tempos como expressão de pesar ou emoção. Estava associado à séria e sincera tristeza pelo pecado, a tempos de luto e a ocasiões de forte emoção. ¶
Os primeiros israelitas praticavam o jejum, embora haja muito poucas referências a isso. Geralmente, essas referências estão associadas a alguma ocasião específica ou relacionadas a tentativas de receber comunicações de Deus, como foi o caso do jejum de Moisés e Elias. (Ver Êxodo 34:28; 1 Reis 19:8.) ¶
Antes do período do exílio, há poucos registros de jejum pelo povo de Israel como um todo, exceto aqueles jejuns realizados por necessidades de ocasiões especiais, como as mortes de Saul e Jônatas. (Ver 1 Samuel 31:13; 2 Samuel 1:12.) Havia outros jejuns públicos para buscar auxílio divino antes de guerras ou batalhas. (Ver Juízes 20:26; 1 Samuel 14:24; 2 Crônicas 20:3.) Pode-se presumir que Moisés jejuou, pois ele menciona o jejum, sem, porém, advogar nenhum jejum específico em seus escritos. ¶
Após o período do exílio, contudo, tanto jejuns públicos quanto particulares passaram a ser observados, às vezes acompanhados de pranto e do uso de saco e cinzas. O jejum mais proeminente era o anual Dia da Expiação. Também se tornou costume dos piedosos no judaísmo jejuar em dois dias da semana — o segundo e o quinto dias, que eram os dias em que Moisés subiu e desceu do Monte Sinai. ¶
Aproximando-se a era cristã, encontramos grande devoção ao jejum entre os grupos extremados dos judeus, particularmente os fariseus; mas Jesus não instruiu Seus discípulos estabelecendo requisitos específicos quanto à natureza ou à frequência do jejum. Em Seu Sermão da Montanha, contudo, Ele disse: "E quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas." (Mateus 6:16.) Isso indicaria que deveria haver sinceridade ao observar o jejum. Ele mesmo havia jejuado quarenta dias e quarenta noites. (Ver Mateus 4:2.) ¶
Muitas das coisas estabelecidas pela Igreja primitiva na época de Cristo foram alteradas e corrompidas após a morte do último dos Apóstolos. O jejum e a oração haviam sido assuntos de observância voluntária, mas, com o tempo, passaram a estar sujeitos a regras e regulamentos eclesiásticos que todos os fiéis deveriam seguir e observar, sob pena de excomunhão para os desobedientes. ¶
Quando os primeiros colonos se estabeleceram no litoral leste deste país, não seguiram os jejuns costumeiros das igrejas de que haviam se separado. Estabeleceram seus próprios dias de jejum, muitos dos quais têm perdurado até os dias atuais. Alguns desses dias de jejum foram apoiados por corpos legislativos ou autoridades públicas. ¶
Muitos dos primeiros membros desta Igreja eram da Nova Inglaterra ou tinham a formação da cultura religiosa dos colonos, e o jejum fazia parte de suas crenças religiosas. Por causa dessa formação, é possível que muitos deles sentissem a necessidade de uma comunhão estreita com seu Pai Celestial. Eles seguiam o ensinamento do Senhor, jejuando em secreto (ver Mateus 6:17–18), mas nenhuma menção é feita a esse princípio na história inicial da Igreja. ¶
A revelação moderna, contida em Doutrina e Convênios, faz pouca menção ao jejum e não dá instruções específicas a respeito. Um ano e meio depois de a Igreja ser organizada, o Profeta Joseph Smith recebeu uma revelação que menciona a observância do dia do Senhor e, incidentalmente, faz referência ao jejum, sem comentários adicionais. Esta é a parte da revelação que o menciona: ¶
"E nesse dia não farás qualquer outra coisa; seja teu alimento preparado com singeleza de coração para que teu jejum seja perfeito, ou, em outras palavras, para que tua alegria seja completa. ¶
"Em verdade, isto é jejum e oração, ou, em outras palavras, regozijo e oração." (D&C 59:13–14.) ¶
Este é um eco dos tempos do Velho Testamento, e o princípio do jejum em espírito de oração é confirmado nesta dispensação. ¶
Antes dessa época, não havia observância de jejum na Igreja em base regular. A redação dessa revelação, "continuareis em oração e jejum a partir de agora", parece sugerir a instituição de reuniões de jejum, mas, aparentemente, não houve nenhuma até a construção do Templo de Kirtland, em 1836. ¶
A única outra menção ao jejum na revelação moderna é em referência à construção do Templo de Kirtland e na oração de dedicação, na qual o templo é chamado de "casa de oração, casa de jejum." (Ver D&C 88:119; 95:7, 16; e 109:8, 16.) Há menção frequente ao jejum no Livro de Mórmon, mas esses são escritos antigos, assim como os da Bíblia. As escrituras desta dispensação nos dão pouca informação. ¶
Não sabemos quando o jejum foi adotado na Igreja como observância regular, mas há registros que indicam que algumas reuniões de jejum foram realizadas no Templo de Kirtland, na primeira quinta-feira de cada mês, no ano de 1836. Não há indicação de que esses jejuns estivessem associados a doações aos pobres, exceto um comentário feito por Brigham Young mais de trinta anos depois, no Antigo Tabernáculo em Salt Lake City. Ele disse o seguinte: ¶
"Vocês sabem que consideramos a primeira quinta-feira de cada mês como um dia de jejum. Quantos aqui sabem a origem desse dia? Antes de o dízimo ser pago, os pobres eram sustentados por doações. Vinham a Joseph, em Kirtland, e pediam ajuda, e ele disse que deveria haver um dia de jejum, o que foi decidido. Seria realizado uma vez por mês, como é agora, e tudo o que teria sido comido naquele dia, de farinha, carne, manteiga, fruta ou qualquer outra coisa, deveria ser levado à reunião de jejum e colocado nas mãos de uma pessoa designada para cuidar disso e distribuí-lo entre os pobres." (Journal of Discourses, 12:115.) ¶
Embora Brigham Young tenha indicado que essa foi a decisão tomada, não há registro de que ela tenha sido, de fato, observada. ¶
Houve jejuns ocasionais realizados em Nauvoo com algum objetivo especial em vista, mas nenhum jejum em base regular. Somente em 1845 é que um jejum foi realizado em Nauvoo para prover os pobres. Em History of the Church, encontramos esta anotação feita por Brigham Young: ¶
"Quinta-feira, dia 15 … Dia de Jejum: todos os trabalhos foram interrompidos. Reuniões foram realizadas nas várias alas, e doações foram feitas aos bispos para os pobres; contribuiu-se o suficiente para suprir as necessidades dos pobres até a colheita." (History of the Church, 7:411.) ¶
Dias especiais de jejum, para diversos propósitos, foram realizados durante o êxodo de Nauvoo, e, depois que os santos chegaram ao Vale de Salt Lake, alguns jejuns foram realizados na primeira quinta-feira do mês. Não se pode determinar com certeza quando os dias de jejum se tornaram estabelecidos em base regular, mas, durante os difíceis anos de 1855 e 1856, por causa da seca e da fome prolongadas, do inverno excepcionalmente rigoroso e da praga de gafanhotos, muitos dos santos estavam em circunstâncias desesperadoras. Foi isto que Brigham H. Roberts escreveu a respeito: ¶
"Para atender às grandíssimas demandas de caridade sobre os Santos dos Últimos Dias naqueles anos difíceis, surgiu nosso dia de jejum; os servos do Senhor instituíram a primeira quinta-feira de cada mês como dia de jejum, com o propósito de tomar o que fosse economizado por esse sacrifício e ministrar àqueles que, de outra forma, estariam em necessidade. Esse plano de enfrentar aquela emergência tornou-se uma instituição estabelecida." (In Conference Report, abr. de 1913, p. 120.) ¶
Antes disso, os pobres haviam sido sustentados por doações, mas agora o cuidado dos pobres passou a estar associado ao dia de jejum, e o que era doado passou a ser conhecido como ofertas de jejum, trazidas às reuniões mensais de jejum. Desde esse período inicial, quando os santos chegaram aos vales das montanhas, até 1896, um dia de jejum regular era realizado na primeira quinta-feira de cada mês, e as ofertas eram trazidas e entregues, em grande parte, em espécie. ¶
Nos primeiros dias, quando a membresia da Igreja era pequena, a realização do dia de jejum na quinta-feira não era um problema, mas, com o passar do tempo, isso levava os empregados a se ausentarem do trabalho para comparecer à reunião de jejum, os comerciantes tinham de fechar seus estabelecimentos, e muitas outras dificuldades resultavam da observância em dia de semana. Foi tomada uma decisão pela Primeira Presidência e pelos Doze de que a reunião mensal de jejum deveria ser realizada no primeiro domingo de cada mês. O primeiro domingo de dezembro de 1896 foi a data marcada para a mudança. Desde então até o presente — quase um século —, o dia de jejum tem sido observado, na maioria dos casos, no primeiro domingo do mês, como prática religiosa. ¶
Os membros da Igreja podem jejuar a qualquer momento em que tenham necessidade, mas o jejum contemplado no dia chamado dia de jejum, conforme definido pelo Presidente Joseph F. Smith, "consiste em não se tomar alimento nem bebida por vinte e quatro horas, 'de tarde a tarde.'" A expressão "de tarde a tarde" tem recebido o significado de passar sem duas refeições — desde a refeição da noite anterior até a refeição da noite do dia de jejum. O Presidente Smith prosseguiu, dizendo: ¶
"Além disso, o principal objetivo da instituição do jejum entre os Santos dos Últimos Dias era que os pobres pudessem ser providos de alimento e outras necessidades. Cabe, portanto, a cada Santo dos Últimos Dias dar ao seu bispo, no dia de jejum, o alimento que ele ou sua família consumiriam naquele dia, para que seja dado aos pobres, para seu benefício e bênção; ou, em lugar do alimento, que seu valor equivalente, ou, se a pessoa for abastada, uma doação generosa em dinheiro, seja assim reservado e dedicado aos pobres." (Improvement Era, dez. de 1902, p. 148.) ¶
Não somos ricos se o Senhor nos abençoou com algo que podemos partilhar com os outros? ¶
Disciplinar-nos por meio do jejum nos coloca em sintonia com Deus, e o dia de jejum proporciona uma ocasião para deixarmos de lado o temporal, a fim de podermos desfrutar das qualidades mais elevadas do espiritual. Ao jejuarmos nesse dia, aprendemos e compreendemos melhor as necessidades daqueles que são menos afortunados. ¶
Que o Senhor nos abençoe ao vivermos Seus mandamentos e partilharmos com nossos irmãos e irmãs, humildemente oro em nome de Jesus Cristo, amém. ¶