"Disposto a Submeter-me"
Neal A. Maxwell
Não peço desculpas por tentar falar sobre uma das coisas que Paulo chamou de "coisas profundas de Deus" ([1 Coríntios 2:10]), mas apenas por minha incapacidade de aprofundar-me o bastante. ¶
Embora vejamos essa qualidade nas vidas discretas, mas espiritualmente exuberantes, dos verdadeiros heróis e heroínas espirituais ao nosso redor, a falta dela mantém tantos de nós desgarrados nas colinas, longe dos picos, na aventura do discipulado pleno. Refiro-me à nossa hesitação e à nossa relutância em nos submetermos plenamente ao Senhor e a Seus propósitos para nós. ¶
Essa relutância é como deixar o Egito sem prosseguir toda a jornada até a Terra Santa, ou esperar em Nauvoo pela chegada da ferrovia, ou permanecer para sempre em Winter Quarters. ¶
Ainda que possuamos outros belos atributos, podemos ainda carecer dessa qualidade. Foi esse o caso do jovem justo que se ajoelhou sinceramente aos pés de Jesus. Por lhe faltar uma coisa, ele se retirou triste e não submisso quando lhe foi dado um desafio específico. (Ver [Marcos 10:21–22]; [Lucas 18:22–23].) Seja o afastar-se sem olhar para trás de "muitas propriedades" ([Marcos 10:22]), seja de uma posição de status na sinagoga secular (ver [João 12:42–43]), seja de atitudes orgulhosas mas equivocadas acumuladas ao longo dos anos, ou simplesmente "logo" das redes de pesca ([Marcos 1:18]), o teste é sempre o mesmo. ¶
Com honesta introspecção pessoal, cada um de nós poderia nomear o que ainda lhe falta — e, no meu caso, mais de uma coisa. ¶
A submissão espiritual é muito mais do que um joelho dobrado ou uma cabeça curvada. Infelizmente, na medida em que "inclinamo-nos para as coisas da carne" ([Romanos 8:5]), simplesmente não podemos ter a "mente de Cristo". ([1 Coríntios 2:16].) ¶
Jesus estabeleceu esta séria exigência: "Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus." ([Mateus 18:3].) ¶
Um dos profetas de Jesus delineou — com a submissão estipulada três vezes — como um discípulo pode tornar-se "como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai." ([Mosias 3:19].) ¶
Três outros conjuntos de escrituras enfatizam essas elevadas qualidades. (Ver [Alma 7:23]; [13:28]; [D&C 121:41–42].) Surpreendentemente paralelos, formam uma litania quase contínua de atributos a serem desenvolvidos, tendo a submissão em seu centro catalisador. Essa repetida associação é impressionante demais para ser aleatória. ¶
Além disso, a simplicidade descritiva dessa qualidade é acompanhada por sua dificuldade de desenvolvimento. É tão fácil ser tíbio, mas isso produz apenas metade do crescimento, metade das bênçãos e, na verdade, apenas metade de uma vida, com mais botão do que flor. ¶
Uma visão superficial desta vida, portanto, não basta, para que não falemos equivocadamente desta experiência mortal apenas como vir aqui para obter um corpo, como se estivéssemos meramente retirando um terno na lavanderia. Ou, para que não recitemos casualmente como viemos aqui para sermos provados, como se algumas flexões vigorosas e agachamentos profundos bastassem. ¶
Até que ponto deve haver submissão às circunstâncias não é tratado nestes breves comentários. Basta dizer que Deus "concede aos homens" certas coisas com as quais devemos nos contentar. (Ver [Alma 29:4], [Filipenses 4:11]; [1 Timóteo 6:8].) A falta de um pai ou de um membro do corpo deve ser vivida sem eles. Contudo, o temperamento e a luxúria devem ser dominados. A raça de cada um é fixa, mas sua herança genética oferece a oportunidade de ser um administrador cuidadoso. A alma submissa será conduzida corretamente, suportando bem algumas coisas enquanto se empenha ansiosamente em corrigir outras — discernindo sempre a diferença. ¶
É exigida, em particular, a mansidão de mente que reconhece o amor perfeito de Deus por nós e Sua onisciência. Ao reconhecermos essas realidades reconfortantes e aceitarmos que Deus deseja nosso pleno desenvolvimento e nossa verdadeira felicidade, estamos preparados mesmo quando as experiências de aprendizado surgem. Tal mansidão exige genuína honestidade intelectual, assumindo as experiências de aprendizado do passado e ouvindo o Espírito Santo enquanto prega para nós do púlpito da memória. ¶
À medida que o Senhor se comunica com os mansos e submissos, são necessários menos decibéis, e mais nuances são recebidas. Até mesmo o mais manso, como Moisés (ver [Números 12:3]), aprende coisas surpreendentes que "nunca havia imaginado". ([Moisés 1:10].) Mas é somente a mente mansa que pode ser assim mostrada e assim expandida — não aqueles que, como escreveu Isaías, "são sábios aos seus próprios olhos". ([Isaías 5:21]; ver também [2 Néfi 9:29] e [15:21].) ¶
O conselho de Deus nos alinha e nos une às grandes realidades do universo; ao passo que o pecado esvazia, isola e separa, confinando-nos à cela solitária do egoísmo. Daí a multidão solitária no inferno. ¶
A submissão espiritual significa, em vez disso, comunidade e comunhão à medida que a mente e o coração se estabelecem. Passamos então muito menos tempo decidindo e muito mais tempo servindo; do contrário, quanto mais hesitação, menos inspiração. ¶
Entregar o coração a Deus assinala o último estágio de nosso desenvolvimento espiritual. Só então começamos a ser plenamente úteis a Deus! Como podemos sinceramente orar para sermos um instrumento em Suas mãos se o instrumento busca fazer as instruções? ¶
Ao começarmos verdadeiramente a guardar o primeiro mandamento — amar a Deus "de todo o teu coração, de todo o teu poder, mente e força" ([D&C 59:5]; ver também [Mateus 22:37]) —, dar tempo, talento e bens materiais passa então a ser acompanhado pela doação plena de nós mesmos. ¶
Às vezes, nossa relutância ocorre porque nos falta fé ou estamos demasiadamente enredados nos cuidados do mundo. Outras vezes, há em nós uma compreensível trepidação que retarda nossa entrega, porque percebemos o que uma entrega maior poderia trazer. ¶
Contudo, precisamos nos libertar de nosso antigo eu — o eu provinciano, restritivo e queixoso — e nos tornar suscetíveis à moldagem do Senhor. Mas o eu antigo não se vai nem de bom grado nem depressa. Ainda assim, essa sujeição a Deus é, na verdade, emancipação. ¶
Como podemos verdadeiramente reconhecer a Paternidade de Deus e recusar Seus ensinamentos? Especialmente considerando que o Senhor até mesmo castiga aqueles a quem ama. (Ver [Hebreus 12:6], [D&C 136:31], [Mosias 23:21], [Apocalipse 3:19].) ¶
Saul, quando escolhido, era "jovem, e tão belo que entre os filhos de Israel não havia outro homem mais belo do que ele". ([1 Samuel 9:2].) Mais tarde, tornou-se incrustado de ego e inflado de poder. Samuel então recordou um tempo em que Saul era "pequeno aos [seus] próprios olhos". ([1 Samuel 15:17].) Em contraste, a verdadeira submissão engrandece grandemente a alma, mas sem hipocrisia nem dolo. (Ver [D&C 121:42].) ¶
A submissão também refreia nossa tendência de exigir explicações antecipadas do Senhor, como compreendeu um Néfi perplexo, mas confiante: "Sei que [Deus] ama seus filhos; não conheço, no entanto, o significado de todas as coisas." ([1 Néfi 11:17].) ¶
Assim também uma Maria maravilhada, mas submissa: "Disse então Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra." ([Lucas 1:38].) ¶
Assim como a capacidade de adiar a gratificação é sinal de verdadeira maturidade, igualmente a disposição de esperar por uma explicação adiada é sinal de verdadeira fé e de confiança estendida ao longo do tempo. ¶
Se formos fiéis, acabaremos reconhecendo que estamos nas mãos do Senhor e devemos entregar-nos ao Senhor em Seus termos — não nos nossos. É rendição total, sem negociação; é entrega sem precondições. ¶
Suponhamos que Enoque tivesse hesitado quando chamado pelo Senhor. Ele teria continuado sendo uma boa pessoa, servindo ao Senhor em tempo parcial, vivendo numa cidade que era um cortiço em comparação com a gloriosa Cidade de Enoque; nem Enoque faria parte daquela cena de gloriosa saudação ainda por vir. (Ver [Moisés 7:63].) ¶
Suponhamos que Pedro não tivesse deixado suas redes "logo". (Ver [Marcos 1:18].) Ele poderia ter se tornado o respeitado presidente da associação local de pescadores da Galileia. Mas não teria estado no Monte da Transfiguração com Jesus, Moisés e Elias, nem ouvido a voz de Deus. (Ver [Mateus 17:4].) ¶
Foram-nos dadas três palavras especiais — mas se não for assim — por três jovens submissos que entraram em sua fornalha ardente, sabendo que "o nosso Deus... nos pode livrar da fornalha de fogo ardente... Mas se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses." ([Daniel 3:17–18]; itálico acrescentado.) ¶
Além disso, nossas orações deveriam permitir mais três palavras especiais: "E tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, que seja justo, acreditando que recebereis, eis que vos será dado." ([3 Néfi 18:20]; itálico acrescentado.) ¶
É somente ao nos entregarmos a Deus que podemos começar a perceber Sua vontade para nós. E, se verdadeiramente confiamos em Deus, por que não nos entregar à Sua amorosa onisciência? Afinal, Ele nos conhece, a nós e às nossas possibilidades, muito melhor do que nós mesmos. ¶
"Não obstante, jejuavam e oravam frequentemente e tornavam-se cada vez mais fortes em sua humildade e cada vez mais firmes na fé em Cristo... até... a entrega de seu coração a Deus." ([Helamã 3:35].) ¶
Do contrário, alguém pode estar demasiado ocupado promovendo sua própria agenda: "Porque, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus." ([Romanos 10:3].) ¶
Distinto disso é o chamado claro de Jesus: "Portanto, não busqueis as coisas deste mundo, mas buscai primeiro edificar o reino de Deus e estabelecer a sua justiça." ([Tradução de Joseph Smith, Mateus 6:38]; ver [Mateus 6:33, nota a].) ¶
Embora os acontecimentos frequentemente induzam à submissão, nosso desenvolvimento não precisa ser dramático nem vinculado a um único momento; ele pode ocorrer de modo constante em contextos aparentemente comuns e diários. Se somos mansos, uma percepção rica e necessária pode estar contida numa repreensão. Um novo chamado pode nos afastar de uma rotina confortável e de competências já adquiridas. Alguém pode ser despojado do luxo habitual para que a toupeira maligna do materialismo seja removida. Alguém pode se sentir humilhado para que o orgulho seja desbastado. ¶
A moldagem prossegue, e ela é tudo, menos meramente cosmética. ¶
A inclinação de nossa alma nos primeiros momentos é tão vital. O que se seguirá será visto com desdém ou como tendo algum propósito? O que faremos mais, murmurar ou refletir? ¶
Embora a maior parte de nosso sofrimento seja autoinfligida, parte dela é causada ou permitida por Deus. Essa realidade que nos faz refletir exige profunda submissão, especialmente quando Deus não afasta o cálice de nós. Em tais circunstâncias, ao sermos lembrados dos gritos de alegria pré-mortais quando o plano desta vida se desdobrava (ver [Jó 38:7]), talvez possamos ser perdoados se, em alguns momentos, nos perguntarmos sobre o que era todo aquele júbilo. ¶
Para os fiéis, o que finalmente surge é uma compreensão das "coisas como realmente são" ([Jacó 4:13]), como a reconfortante percepção de que estamos nas mãos do Senhor! Mas, irmãos e irmãs, nunca estivemos realmente em outro lugar! Demonstrando essa grande atitude está nosso amado e submisso irmão, Bruce R. McConkie. ¶
"Não sabeis que estais nas mãos de Deus?" ([Mórmon 5:23].) Da mesma forma, "toda carne" ([D&C 101:16], [Moisés 6:32]) e "os céus e a Terra" ([D&C 67:2])! Talvez a percepção de estarmos nas mãos de Deus só venha plenamente à medida que refletimos sobre o significado das marcas nas mãos de nosso submisso Salvador. (Ver [3 Néfi 11:14–15].) Alguns terão de perguntar o que são essas feridas, por terem se afastado. (Ver [D&C 45:51–52].) São esses os que "não olham para o trabalho do Senhor, nem consideram as obras das suas mãos". ([2 Néfi 15:12].) ¶
Quanto mais estudamos, oramos e refletimos sobre a impressionante Expiação, mais dispostos ficamos a reconhecer que estamos em Suas mãos e nas do Pai. Reflitamos, portanto, sobre estas últimas coisas. ¶
Quando o fardo inimaginável começou a pesar sobre Cristo, isso confirmou Seu entendimento, há muito mantido e intelectualmente claro, do que Ele deveria agora fazer. Seu processo interior começou, e Jesus declarou: "Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora." Então, seja em solilóquio espiritual, seja como instrução aos que estavam ao Seu redor, Ele observou: "Mas para isto vim a esta hora." ([João 12:27].) ¶
Mais tarde, no Getsêmani, o sofredor Jesus começou a "afligir-se, e a angustiar-se" ([Marcos 14:33]), ou, no grego, "tomado de assombro" e "espantado". ¶
Imaginem, Jeová, o Criador deste e de outros mundos, "espantado"! Jesus sabia cognitivamente o que deveria fazer, mas não experiencialmente. Ele nunca havia conhecido pessoalmente o processo requintado e exigente de uma expiação antes. Assim, quando a agonia veio em sua plenitude, foi muito, muito pior do que mesmo Ele, com Seu intelecto singular, jamais havia imaginado! Não é de admirar que um anjo tenha aparecido para fortalecê-lo! (Ver [Lucas 22:43].) ¶
O peso cumulativo de todos os pecados mortais — passados, presentes e futuros — pesou sobre aquela alma perfeita, sem pecado e sensível! Todas as nossas enfermidades e doenças também fizeram parte, de algum modo, da terrível aritmética da Expiação. (Ver [Alma 7:11–12]; [Isaías 53:3–5]; [Mateus 8:17].) O angustiado Jesus não apenas suplicou ao Pai que a hora e o cálice passassem dEle, mas com esta citação relevante: "E disse: Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice." ([Marcos 14:35–36].) ¶
Não havia Jesus, como Jeová, dito a Abraão: "Haveria coisa alguma difícil ao Senhor?" ([Gênesis 18:14].) Não havia Seu anjo dito a uma perplexa Maria: "Porque para Deus nada será impossível"? ([Lucas 1:37]; ver também [Mateus 19:28]; [Marcos 10:27]; [Lucas 18:27].) ¶
O pedido de Jesus não era teatro! ¶
Nesse extremo, teria Ele, talvez, esperado por um carneiro resgatador no espinheiro? Não sei. Seu sofrimento — por assim dizer, enormidade multiplicada por infinito — provocou Seu clamor de alma posterior na cruz, e foi um clamor de desamparo. (Ver [Mateus 27:46].) ¶
Ainda assim, Jesus manteve essa sublime submissão, como fizera no Getsêmani: "Porém, não seja como eu quero, mas como tu queres." ([Mateus 26:39].) ¶
Enquanto suportava nossos pecados, nossas enfermidades, nossas doenças, e realizava a Expiação (ver [Alma 7:11–12]), Jesus se tornou o Pastor perfeito, tornando estas palavras de Paulo especialmente relevantes e reconfortantes: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?" ([Romanos 8:35].) ¶
Na verdade, estamos em Suas mãos, e que mãos tão santificadas! ¶
A maravilhosa e gloriosa Expiação foi o ato central em toda a história da humanidade. Foi a dobradiça sobre a qual girou tudo o mais que finalmente importa. Mas ela girou sobre a submissão espiritual de Jesus! ¶
Que possamos agora, em nosso tempo e vez, estar "disposto[s] a submeter-[nos]" ([Mosias 3:19]), oro em nome de Jesus Cristo, amém! ¶