Cristo, Nossa Páscoa
Howard W. Hunter
Creio que é seguro dizer que a Páscoa judaica não tem igual no calendário de celebrações judaicas. É a mais antiga das festas judaicas, celebrando um evento anterior ao recebimento da tradicional Lei Mosaica. Lembra a cada geração o retorno dos filhos de Israel à terra prometida e a grande provação no Egito que o precedeu. Comemora a passagem de um povo da sujeição e do cativeiro para a liberdade e a libertação. É a festa da primavera do Velho Testamento, quando o mundo da natureza desperta para a vida, o crescimento e a frutificação. ¶
A Páscoa judaica está ligada à celebração cristã da Páscoa, que celebramos neste fim de semana, nesta grande conferência de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. A Páscoa judaica no Velho Testamento e a Páscoa no Novo Testamento testificam do grande dom que Deus concedeu e do sacrifício envolvido em sua outorga. Ambas essas grandes comemorações religiosas declaram que a morte "passaria" por cima de nós e não poderia ter poder permanente sobre nós, e que o túmulo não teria vitória. ¶
Ao libertar os filhos de Israel do Egito, o próprio Jeová falou a Moisés desde a sarça ardente, no Sinai, dizendo: ¶
"Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus capatazes, porque conheço as suas dores. ... ¶
"Vem agora, pois, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo (os filhos de Israel) do Egito." (Êxodo 3:7, 10.) ¶
Porque Faraó era inflexível, muitas pragas foram trazidas sobre o Egito, mas ainda assim "o coração de Faraó se endureceu, e não deixou ir os filhos de Israel." (Êxodo 9:35.) ¶
Em resposta a essa recusa de Faraó, o Senhor disse: "E todo primogênito na terra do Egito morrerá, desde o primogênito de Faraó, que haveria de assentar-se sobre o seu trono, até o primogênito da serva que está detrás da mó, e todo primogênito dos animais." (Êxodo 11:5.) ¶
Como proteção contra esse último e mais terrível castigo infligido aos egípcios, o Senhor instruiu Moisés a que os filhos de Israel tomassem, cada homem, um cordeiro sem mancha. ¶
"E tomarão do sangue, e pô-lo-ão em ambas as ombreiras, e na verga da porta, nas casas em que o comerão. ¶
"E naquela noite comerão a carne assada no fogo, com pães ázimos; com ervas amargosas a comerão. ... ¶
"E assim, pois, o comereis: os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a páscoa do Senhor. ... ¶
"E acontecerá que, quando vossos filhos vos disserem: Que rito é este vosso? ¶
"Então direis: Este é o sacrifício da páscoa ao Senhor, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito." (Êxodo 12:7–8, 11, 26–27.) ¶
Depois que os israelitas escaparam das garras de Faraó e a morte veio sobre os primogênitos dos egípcios, os israelitas por fim atravessaram o Jordão. Está registrado que, "estando ... os filhos de Israel alojados em Gilgal, celebraram a páscoa no dia quatorze do mês, à tarde, nas campinas de Jericó." (Josué 5:10.) E assim foi com as famílias judaicas, ano após ano, dali por diante, incluindo a família de José e Maria e o menino Jesus. ¶
Quando Jesus tinha apenas doze anos, foi a Jerusalém com seus pais para participar da celebração da Páscoa. O relato de Lucas nos diz que Jesus permaneceu no templo depois que seus pais haviam partido para casa. Eles voltaram, com medo e ansiedade, e o encontraram entre os doutores da lei, "ouvindo-os, e interrogando-os." (Lucas 2:46.) Lucas registra que todos os que "o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas." (Lucas 2:47.) ¶
Seria possível que Jesus estivesse ensinando aqueles homens mais velhos e formalmente instruídos sobre o significado da Páscoa que acabara de ser celebrada? Surpreenderia a eles que alguém tão jovem e aparentemente inexperiente soubesse tanto sobre o significado daquela noite fatídica no Egito, há tanto tempo e tão distante? Teriam ficado maravilhados com seu conhecimento sobre o cordeiro, o sangue, o primogênito e o sacrifício? As escrituras são silenciosas quanto a essas perguntas. ¶
Como o Evangelho de João deixa claro, a festa da Páscoa marcou marcos significativos durante o ministério mortal de Cristo. Na primeira Páscoa de seu ministério, Jesus deu a conhecer sua missão ao purificar o templo, quando expulsou de seus pórticos os cambistas e os que vendiam animais. Na segunda Páscoa, Jesus manifestou seu poder pelo milagre dos pães e dos peixes. Cristo introduziu ali os símbolos que mais tarde teriam significado ainda maior no Cenáculo. "Eu sou o pão da vida", disse ele. "Aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede." (João 6:35.) ¶
É claro que seria a festa de sua última Páscoa que daria plena expressão a essa antiga celebração. Naquela última semana de seu ministério mortal, Jesus sabia claramente o que aquela Páscoa em particular significaria para ele. Já havia problemas no ar. Mateus registra: ¶
"E aconteceu que, quando Jesus concluiu todos esses discursos, disse aos seus discípulos, ¶
"Bem sabeis que daqui a dois dias é a páscoa; e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado." (Mateus 26:1–2.) ¶
Sabendo perfeitamente o que o aguardava, Jesus pediu a Pedro e João que providenciassem a refeição pascal. Disse-lhes que perguntassem ao senhor de uma casa local: "Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?" (Lucas 22:11.) ¶
A solidão de seu nascimento seria, de certa forma, repetida na solidão de sua morte. As raposas tinham covis, e as aves, ninhos, mas o Filho do Homem não tinha onde recostar a cabeça, nem em seu nascimento nem em suas últimas horas de mortalidade. ¶
Por fim, os preparativos para a ceia da Páscoa estavam completos, em conformidade com quase mil e quinhentos anos de tradição. Jesus sentou-se com seus discípulos e, depois de comer o cordeiro sacrificial e o pão e o vinho dessa antiga festa, ensinou-lhes um significado novo e mais sagrado daquela antiga bênção de Deus. ¶
Ele tomou um dos pães chatos e redondos, ázimos, disse a bênção sobre ele e o partiu em pedaços que distribuiu aos Apóstolos, dizendo: "Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim." (Lucas 22:19.) ¶
Enquanto o cálice era servido, ele o tomou e, dando graças, convidou-os a beber dele, dizendo: "Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós." (Lucas 22:20.) Disse Paulo a respeito disso: "Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que ele venha." (1 Coríntios 11:26.) ¶
O pão e o vinho, em vez dos animais e das ervas, tornar-se-iam emblemas do corpo e do sangue do grande Cordeiro, emblemas a serem comidos e bebidos reverentemente e em memória dele para sempre. ¶
Dessa maneira simples, mas impressionante, o Salvador instituiu a ordenança agora conhecida como o sacramento da Ceia do Senhor. Com o sofrimento do Getsêmani, o sacrifício do Calvário e a ressurreição de um túmulo num jardim, Jesus cumpriu a antiga lei e inaugurou uma nova dispensação baseada num entendimento mais elevado e sagrado da lei do sacrifício. Não mais os homens seriam obrigados a oferecer o cordeiro primogênito de seu rebanho, porque o Primogênito de Deus viera para oferecer-se a si mesmo como "um sacrifício infinito e eterno." ¶
Essa é a majestade da Expiação e da Ressurreição, não apenas uma passagem além da morte, mas um dom de vida eterna por um sacrifício infinito, tão lindamente declarado por Amuleque: ¶
"Porque é necessário que haja um grande e último sacrifício; sim, não um sacrifício de homem nem de animal nem de qualquer tipo de ave; pois não será um sacrifício humano; deverá, porém, ser um sacrifício infinito e eterno." (Alma 34:10.) ¶
Nesta época pascal, dou testemunho do Primogênito de Deus, que fez esse sacrifício, que "tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si", que "foi ferido pelas nossas transgressões" e "moído pelas nossas iniquidades." (Isaías 53:4–5.) Da natureza divina desse Redentor e Salvador de toda a humanidade, testifico, em seu nome, Jesus Cristo, amém. ¶