José, o Vidente
Neal A. Maxwell
Por toda a extensão da história humana, nenhum profeta foi tão escrutinado de forma tão sustentada, em escala tão ampla, ou por um período de tempo tão longo quanto Joseph Smith, Jr. A capacidade de comunicação desta era e o impacto global de sua obra assim o garantiram. ¶
Ao jovem Joseph foi dito que seu nome seria “falado tanto para o bem como para o mal” por todo o mundo. (JS—H 1:33.) Vinda de outra fonte que não fosse divina, que declaração tão audaciosa! Contudo, seus líderes religiosos contemporâneos, então muito mais conhecidos do que Joseph, desvaneceram-se nas notas de rodapé da história, enquanto a obra de Joseph Smith cresce constantemente e em escala mundial. ¶
Não hesitamos, contudo, em declarar que Joseph, pelos padrões do mundo, era “iletrado”. Isaías previu isso. (Ver Isa. 29:11–12.) Joseph não teve a instrução formal e qualificada que o jovem Saulo teve aos pés de Gamaliel. (Ver Atos 22:3.) ¶
Consta que Emma Smith disse que Joseph, à época da tradução do Livro de Mórmon, não conseguia compor uma “carta bem redigida, quanto mais ditar um livro como o Livro de Mórmon … [o que foi] maravilhoso para mim — uma maravilha e um prodígio — tanto quanto para qualquer outra pessoa.” (Preston Nibley, The Witnesses of the Book of Mormon, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1968, p. 28.) ¶
Esse jovem obscuro aparentemente fez uma pausa enquanto traduzia e ditava a Emma — provavelmente a partir do quarto capítulo de 1 Néfi — a respeito do “muro de Jerusalém” — e disse, em essência: “Emma, eu não sabia que havia um muro ao redor de Jerusalém.” ¶
Mas a mente aguçada de Joseph estava sendo despertada e ampliada à medida que as palavras instrutoras do Senhor e dos profetas do passado fluíam através de sua consciência avivada. Na verdade, ele era o próprio vidente previsto antigamente pelo primeiro José, no Egito! (Ver 2 Né. 3:6–7, 16–18.) ¶
Numa bênção patriarcal profética dada em dezembro de 1834 a Joseph Smith, Jr., o Pai Smith confirmou aquelas promessas dadas ao José antigo e pronunciou bênçãos adicionais, incluindo estas, sobre o jovem Joseph: “Teu Deus te chamou pelo nome desde os céus … para fazer uma obra nesta geração que nenhum outro homem faria como tu mesmo.” O José antigo “cuidou de sua posteridade nos últimos dias … E buscou diligentemente saber … quem traria a palavra do Senhor [a eles] e seus olhos te viram, meu filho: [Joseph Smith, Jr.] seu coração se regozijou e sua alma ficou satisfeita.” ¶
Antes disso, durante os aproximadamente noventa dias de tradução, Joseph processava — e a um ritmo notável — verdades e conceitos de imensa importância, além do que era então sua capacidade. Apenas algumas joias desse tesouro: ¶
Poder-se-ia esperar que Joseph apreciasse plenamente que, por meio dele, seria dada a única elaboração escriturística significativa de uma das declarações mais fundamentais e exigentes de Jesus? ¶
Por meio da tradução de Joseph Smith vieram estas palavras impressionantes, definidoras e comovedoras sobre o que realmente significa a submissão infantil e santa: ¶
“Um santo [é aquele que se torna], por meio da expiação de Cristo, o Senhor … uma criança, submissa, mansa, humilde, paciente, cheia de amor, disposta a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai.” (Mosias 3:19.) ¶
“E [Jesus] seguirá, sofrendo dores e aflições e tentações de toda espécie; … tomará sobre si as suas enfermidades, para que se lhe encham de misericórdia as entranhas, segundo a carne, para que saiba, segundo a carne, como socorrer seu povo, de acordo com suas enfermidades.” (Alma 7:11–12.) ¶
Iluminada também foi a oração de petição: “E tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis.” (Mat. 21:22.) Luz “clara e preciosa” e necessária foi acrescentada a essas palavras por meio de Joseph: ¶
“E tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, que seja justo, acreditando que recebereis, eis que vos será dado.” (3 Né. 18:20; itálico acrescentado.) ¶
Não somente verdades confirmadoras e esclarecedoras fluíram por meio de Joseph, mas também linguagem rica e conceitos profundos. ¶
De Amon: ¶
“Quão cego e impenetrável é o entendimento dos filhos dos homens, porque não procuram sabedoria nem desejam que ela os governe! ¶
“Sim, eles são como um rebanho selvagem que foge do pastor e se dispersa; e é perseguido.” (Mosias 8:20–21.) ¶
De Jacó: ¶
De Amuleque, que finalmente triunfou sobre a ambivalência: ¶
Teologia e beleza se combinam, repetidas vezes, nas páginas dadas por meio de Joseph, como quando o Cristo ressuscitado apareceu no Hemisfério Ocidental: ¶
“E depois de haver proferido estas palavras, ele também se ajoelhou; e eis que orou ao Pai; e as coisas que disse em sua oração não podem ser escritas. … ¶
“E não há língua que possa expressar nem homem que possa escrever nem pode o coração dos homens conceber coisas tão grandes e maravilhosas como as que vimos e ouvimos Jesus dizer; e ninguém pode calcular a extraordinária alegria que nos encheu a alma na ocasião em que o vimos orar por nós ao Pai.” (3 Né. 17:15–17.) ¶
O estudo sério do abençoado Livro de Mórmon admite-nos a um mundo maravilhoso de complexidade e beleza, mesmo em meio ao simples, mas poderoso, refrão espiritual do livro. Recebemos aquilo de que mais precisamos — e ainda assim temos sede de mais! ¶
É certo que, sempre que as palavras do céu são filtradas por mentes e línguas mortais, há alguma diminuição. Contudo, assim como com Néfi da antiguidade, assim foi com Joseph Smith: ¶
“Se acreditardes em Cristo, acreditareis nestas palavras, porque são as palavras de Cristo e ele deu-as a mim.” (2 Né. 33:10.) ¶
Joseph mais tarde aprendeu a expressar seus próprios pensamentos de forma inspirada, como em sua carta perdoadora de 1840 a um traidor, mas arrependido, W. W. Phelps. ¶
“É verdade que sofremos muito em consequência do seu comportamento — o cálice de fel, já cheio o bastante para os mortais beberem, ficou, de fato, transbordante quando o senhor se voltou contra nós. Alguém com quem tantas vezes tomamos doce conselho junto e desfrutamos de muitas ocasiões revigorantes do Senhor — ‘se fora um inimigo, tê-lo-íamos suportado’. … ¶
“Contudo, o cálice foi bebido, a vontade de nosso Pai foi feita, e ainda estamos vivos, pelo que agradecemos ao Senhor. … ¶
“Ficarei feliz em novamente … regozijar-me com o retorno do pródigo. … ¶
“‘Venha, querido irmão, já que a guerra passou, Pois amigos no início são amigos de novo no final.’” (History of the Church, 4:163–64.) ¶
Joseph era imperfeito como outros profetas? Certamente! Sem dúvida, Joseph pôde identificar-se com estas palavras de um profeta antigo, que ele traduziu: ¶
“Não me condeneis, em virtude de minha imperfeição, nem a meu pai, por causa de sua imperfeição, … mas dai graças a Deus por ele vos ter manifestado nossas imperfeições, para que aprendais a ser mais sábios do que nós fomos.” (Morm. 9:31; ver também D&C 67:5.) ¶
Joseph, que traduziu as instrutivas palavras “é necessário que haja uma oposição em todas as coisas” (2 Né. 2:11), chegou a compreender, pela experiência, que a ginástica do crescimento espiritual envolve isometria, o confronto do eu emergente contra a resistência obstinada do velho eu. ¶
Joseph experimentou as mesmas angústias ao cumprir sua missão que outros profetas experimentaram? De fato! Joseph podia compreender com que sentimentos um Paulo cansado e cercado escreveu: ¶
“Porque, mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum; antes, em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro.” (2 Cor. 7:5; ver também 2 Cor. 4:8.) ¶
Joseph foi injustamente acusado, como o foram outros profetas? Sim! Até este dia, fragmentos de fatos são lançados contra sua memória. Paulo foi acusado de estar louco e desvairado. (Ver Atos 26:24.) Até mesmo Jesus foi acusado de ser um beberrão, de estar possuído por um demônio e de estar louco. (Ver Mat. 11:19; João 10:20.) ¶
Contudo, em meio a todas essas coisas, como prometido, Joseph amava a obra para a qual havia sido chamado. E ele amava seus associados! Ao dar designações individuais aos Doze, vemos seu amor e humor ternamente entrelaçados: ¶
“John Taylor, creio que você pode fazer mais bem no departamento editorial do que pregando. Você pode escrever para milhares lerem; enquanto pode pregar apenas para poucas pessoas de cada vez. Não temos mais ninguém a quem possamos confiar o jornal, e mal podemos confiar a você, pois você deixa que o jornal saia com tantos erros.” (History of the Church, 5:367.) ¶
Joseph estava repleto de misericórdia, como evidenciado na cura de muitos doentes febris nas margens de um rio, e onde suas mãos não podiam chegar, Joseph enviou um lenço curador! (Ver History of the Church, 4:3–5.) ¶
Ele lamentou a perda de um filho recém-nascido e recebeu permissão para cuidar do filho de um vizinho durante o dia, devolvendo o bebê à mãe à noite. Uma irmã mais velha do bebê, Margarette McIntire, relatou mais tarde: ¶
“Certa noite ele não voltou [para casa] com [a criança] na hora habitual, e minha mãe foi até a Mansion para ver o que havia acontecido, e lá estava o Profeta com o bebê envolto num pequeno cobertor de seda. Ele o balançava no joelho e cantava para acalmá-lo antes de sair.” (Ensign, jan. 1971, pp. 36–37.) ¶
Joseph era um líder-servo? Comprovadamente! Uma menina e seu irmão lutavam para atravessar a lama profunda a caminho da escola. O Profeta Joseph “abaixou-se e limpou a lama de nossos pequenos e pesados sapatos, tirou o lenço do bolso e enxugou nossos rostos manchados de lágrimas. Falou-nos palavras gentis e alegres, e nos enviou animados para a escola.” (Juvenile Instructor, 15 jan. 1892, p. 67.) ¶
Fugindo com Joseph de uma turba, um jovem relatou: “a doença e o susto haviam me roubado as forças. Joseph teve de decidir se me deixaria para ser capturado pela turba, ou se se arriscaria prestando ajuda. Escolhendo esta última opção, ele me colocou sobre seus ombros largos e me carregou, com paradas ocasionais, pelo pântano e pela escuridão. Várias horas depois, chegamos à única estrada e logo alcançamos a segurança. A força hercúlea de Joseph permitiu-lhe [salvar] minha vida.” (New Era, dez. 1973, p. 19.) ¶
Vítima da intolerância, Joseph Smith ficou profundamente ofendido quando um convento católico foi incendiado na Nova Inglaterra, dizendo: “Sim, à vista do próprio local onde o fogo da Independência Americana foi primeiramente aceso.” (History of the Church, 2:465.) Caluniado, mesmo hoje, Joseph certa vez declarou: “Estou tão pronto para morrer em defesa dos direitos de um presbiteriano, de um batista, ou … de qualquer outra denominação.” (History of the Church, 5:498.) ¶
Enquanto a maioria dos mortais não compreendia o significado do ministério de Joseph, com certeza o adversário compreendia! ¶
Não é surpreendente que Joseph Smith, Jr., ainda estivesse crescendo espiritual e intelectualmente quando foi assassinado. Contudo, Joseph viveu tempo suficiente para “traçar o plano de toda a obra que Deus te deu para fazer”, conforme prometido na bênção de seu pai moribundo em 1840. Agora os confins da Terra indagam por seu nome. Não é de admirar que as últimas palavras de um agonizante e admirador Brigham Young tenham sido “Joseph, Joseph, Joseph!” (Joseph Fielding Smith, Essentials in Church History, 24ª ed., Salt Lake City: Deseret Book Co., 1971, p. 459.) ¶
“Milhares e dezenas de milhares chegarão a um conhecimento da verdade, por meio de teu ministério, e te regozijarás com eles no Reino Celestial; [e] estarás de pé no Monte Sião quando as tribos de Jacó vierem gritando de júbilo do norte, e com teus irmãos, os filhos de Efraim, os coroarás em nome de Jesus Cristo.” ¶
Alguns podem procurar explicar Joseph simplesmente atribuindo-lhe o generoso adjetivo notável. Joseph foi notável, mas, muito mais importante, ele foi instrumental! ¶
Enquanto isso, os registros antigos que um jovem Joseph traduziu permanecerão conosco “de geração a geração, enquanto durar a Terra”. (2 Né. 25:22; ver também D&C 5:10.) Esses registros definiram um vidente como aquele que pode traduzir registros antigos, é um revelador, e conhece coisas passadas e futuras. (Ver Mosias 8:13–17.) Tal vidente, escreveu Amon, é maior que um profeta! (Ver Mosias 8:15–17.) ¶
Portanto, irmãos e irmãs, não tenho hesitação — apenas alegria — em declarar minha eterna admiração por José, o Vidente! Agradeço ao Pai por prover tal vidente! Agradeço a meu Senhor e Salvador, Jesus Cristo, por chamar, dirigir e instruir Joseph! ¶
Humildemente, presto meu louvor apostólico “ao homem que se comunicou com Jeová”, em nome de Jesus Cristo, amém! ¶