Pés Enlameados e Camisas Brancas
Matthew S. Holland
Quando fiquei sabendo pela primeira vez que estaria discursando a vocês hoje à noite, eu estava sentado na beirada da cama de meus pais, conversando com eles depois de ter chegado tarde em casa naquela noite. A cama de meus pais agora se inclina para baixo num ângulo de 45 graus, e minha mãe ainda carrega um hematoma na perna esquerda. Bem, agora que me recuperei, meu pai diz que sou grato por estar aqui. ¶
Na verdade, estou muito grato por estar aqui esta noite para compartilhar com vocês algumas palavras sobre a influência que os pais e a família exercem sobre a juventude de nossa Igreja. Gostaria de usar minha própria família para ilustrar esse ponto. Meus pais e minha irmã e meu irmão mais novos me demonstram amor e me dão apoio todos os dias da minha vida. Cuidam de minhas necessidades, tanto temporais quanto espirituais. Essas coisas são muito importantes para mim, e minha família faz isso melhor do que qualquer outra pessoa poderia fazer, inclusive as demais organizações da Igreja. ¶
Amo muito os programas da Igreja. Mas parece haver uma ideia entre muitos Santos dos Últimos Dias de que a Igreja tem a responsabilidade de criar espiritualmente a juventude. Os pais que sustentam essa crença estão roubando de seus filhos uma das experiências mais ricas que podemos ter aqui na mortalidade. ¶
A Primária, a Escola Dominical e o seminário nos ensinaram lições que jamais esqueceremos. Os programas do Sacerdócio Aarônico e dos Rapazes nos ajudaram a honrar mais plenamente nosso sacerdócio. Os programas das Moças ensinaram habilidades espirituais, sociais e domésticas muito importantes. Os programas do Sacerdócio de Melquisedeque e da Sociedade de Socorro mantêm a geração mais velha e mais rebelde em ordem. Mas esses programas não terão sucesso, a menos que as mesmas lições estejam sendo ensinadas no lar. ¶
Muito será dito esta noite sobre os pais. Eu também gostaria de mencionar as mães. Numa manhã de verão, naquele mesmo apartamento de estudante que meu pai acabou de descrever, disse à minha mãe que ia sair para brincar no parquinho. Ela disse que tudo bem, mas me disse para não voltar correndo com os pés enlameados, porque ela estava no meio da lavagem e do encerado do piso. Ela repetiu a afirmação novamente, para dar ênfase, enquanto eu saía correndo pela porta, num short cortado, descalço e sem camisa. Devo ter brincado por uma hora, e pelo menos metade desse tempo foi passada na lama. Então, sabendo que minha mãe provavelmente já teria terminado o piso e me leria uma história, corri para casa, cheio de excitação e vigor infantis. Aquele mesmo vigor me manteve, a mim e aos meus pés cobertos de lama, subindo os degraus, atravessando a porta e chegando à metade do trabalho de lavagem e encerado quase concluído, sobre o qual minha mãe ainda estava debruçada. ¶
Sem esperar por uma reação e sem querer deixar meu pecado pela metade, corri pelo resto do piso, entrei no quarto de meus pais e fechei a porta com força. Sem saber se deveria pular pela janela do segundo andar ou se apenas me esconder debaixo da cama resolveria, desatei em lágrimas e lancei meu pequeno corpo sobre a cama, preparando-me para a possibilidade de encontrar meu tataravô mais cedo do que esperava. ¶
Ouvi a porta se abrir suavemente e olhei. Ah, que bom, pensei. Ela não estava carregando um atiçador aquecido (palmatória; vara; qualquer coisa). Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, gritei: "Mãe, você não me ama." Ao que ela respondeu: "Eu amo você, e farei qualquer coisa para provar isso." Então ela pegou meus pés sujos e enlameados e os beijou. Escusado dizer que aquela experiência me ensinou muito sobre o significado do arrependimento e do perdão, lições que a Igreja mais tarde reforçaria. ¶
É claro que não precisa ser uma grande experiência isolada para influenciar uma criança. Alma, o Jovem, que teve seus próprios problemas de juventude, disse a seu filho Helamã: "Ora, podes supor que isto seja tolice de minha parte; mas eis que te digo que é por meio de coisas pequenas e simples que as grandes são realizadas." ([Alma 37:6].) Como pais e filhos, devemos perceber quão grandes coisas podemos realizar por meio de ações que, no momento, podem parecer sem importância ou insignificantes. ¶
Por exemplo, meu pai e eu vamos tomar sorvete depois de toda reunião geral do sacerdócio desde que me tornei diácono. Vamos novamente esta noite. Ora, o sorvete não é absolutamente necessário para apreciar a reunião do sacerdócio — mas ajuda. Também me lembro de meu pai me dizendo, poucas semanas antes de eu ser ordenado diácono, que esperava que, sempre que eu preparasse, abençoasse ou distribuísse o sacramento, eu usasse sempre uma camisa branca e gravata. Tenho certeza de que já havia ouvido o mesmo conselho de um professor da Escola Dominical ou lido em algum manual, mas foi só quando meu pai o disse que resolvi fazê-lo. Ao atender à sugestão de meu pai, demonstrei respeito pela sagrada ordenança do sacramento. E aquele pequeno conselho também me ajudou a entender que as ordenanças do sacerdócio não são apenas tarefas ou designações, mas privilégios inestimáveis dos quais sou grato por participar. ¶
Recentemente aprendi outra lição significativa de meu pai sobre seu amor por mim. Há poucas semanas, o campeonato estadual de basquete 3-A estava sendo disputado num sábado à noite em Ogden. Eu estava no time do colégio de Provo, que jogaria contra o Mountain View High School pelo campeonato. Depois do primeiro quarto, o time se reuniu numa roda. Ao me levantar da cadeira macia à qual já estava acostumado, meu olhar captou minha mãe e meu pai sentados na primeira fileira. Isso pode parecer insignificante a vocês, mas fiquei emocionado, porque em Provo, naquela mesma noite, ocorria um dos eventos mais importantes do ano. Não era a posse de meu pai nem a cerimônia anual de formatura. Era o jogo de basquete entre a BYU e a Universidade de Utah. Mas meu pai saiu daquele jogo, além de deixar vários dignitários e Autoridades Gerais que estava recebendo, para vir ao meu jogo. Aquela demonstração de amor significou tanto para mim, não porque meu jogo fosse mais importante, mas porque eu era mais importante. É de admirar que eu queira retribuir esse amor? Temos um vínculo, não apenas de pai para filho — mas também de amigo para amigo. ¶
Assim, pais, eu lhes suplico que não pensem que as únicas lições importantes do sacerdócio ou lições espirituais são ensinadas pelos programas da Igreja. Façam de seus lares um céu. Deixem que sejam um lugar onde filhos e filhas possam aprender, crescer, perguntar e se expressar livres de críticas, com um ouvido e um coração abertos. ¶
O Élder Marvin J. Ashton disse: "O lar deveria ser uma âncora, um porto na tempestade, um refúgio, um lugar feliz em que se possa habitar. … O lar deveria ser onde se ensinam e se aprendem as maiores lições da vida. O lar pode ser o centro da fé terrena de alguém, onde o amor e a responsabilidade mútua se combinam de maneira apropriada." (Ye Are My Friends, Salt Lake City: Deseret Book, 1982, p. 44.) ¶
Quero prestar meu testemunho da responsabilidade que nós, os irmãos do sacerdócio desta Igreja, temos de ensinar e edificar espiritualmente nossas famílias. Também gostaria de agradecer publicamente a meu pai pelo grande exemplo que tem sido em minha vida, pela forma como sempre honrou seu sacerdócio. Eu o amo muito. Posso dizer honestamente que somos os melhores amigos, e é meu fervoroso desejo e oração que todos possam ter um relacionamento de pai e filho como esse. Em nome de Jesus Cristo, amém. ¶