O Sacramento
David B. Haight
Eu gostaria que todos pudessem crescer numa cidade pequena. Tenho tantas lembranças felizes da minha infância. Durante aquelas deliciosas noites de verão e inverno, criávamos a maior parte de nossas próprias atividades e diversões. Foram dias maravilhosos. ¶
O prédio mais importante de nossa cidade, além da escola, era a capela de nossa ala. A capela tinha um púlpito imponente, elevado em dois níveis. O púlpito era bastante amplo, e a primeira parte elevada tinha uma mesa para o secretário da ala numa extremidade e um piano na outra, e bem no centro dessa área elevada ficava a mesa sacramental. No nível mais alto do púlpito ficava a tribuna, com sua cobertura de veludo vermelho e cadeiras lindamente entalhadas, com assentos de veludo vermelho, para o bispado ou autoridades visitantes. Na parede dos fundos da capela havia duas pinturas a óleo impressionantes, uma do Templo de Kirtland e outra do Templo de Salt Lake. Todos os presentes tinham uma visão clara da imponente tribuna e, é claro, da mesa sacramental. ¶
As reuniões sacramentais eram ocasiões muito especiais. O Senhor instruiu que "é conveniente que a igreja se reúna amiúde para partilhar do pão e do vinho, em lembrança do Senhor Jesus" (D&C 20:75). Nós, do Sacerdócio Aarônico, sabíamos que era algo especial. Éramos bem treinados. Sabíamos exatamente o que deveríamos fazer. Havíamos sido ensinados em casa e em nossas reuniões de quórum sobre a grande honra depositada em nós como portadores do santo sacerdócio de Deus, que nos autorizava a realizar as sagradas ordenanças do evangelho. ¶
Como diácono, lembro-me vividamente de como admirávamos os dois sacerdotes sentados no primeiro nível da plataforma elevada, que administravam a bênção sobre o sacramento da Ceia do Senhor. Todos na capela podiam vê-los. Tenho certeza de que eles sentiam a importância da ocasião. Estavam bem vestidos, com suas melhores roupas, e bem preparados. ¶
O bispado, sentado em suas cadeiras especiais, ficava no púlpito acima dos sacerdotes. Todos podiam vê-los. Os sacerdotes agiam e pareciam tão dignos quanto o bispado. ¶
Como diáconos e mestres, sentávamo-nos na primeira fileira, prontos para distribuir o sacramento. Lembro-me de como as bandejas de pão brilhavam, e como os copinhos individuais de vidro para a água cintilavam. Tudo na mesa sacramental, incluindo a toalha de linho, estava impecável e pronto na hora certa. ¶
Esperava-se que todos cantassem o hino sacramental especial. Todos cantavam. As crianças eram ensinadas não apenas a serem reverentes, mas a conhecer parte da letra dos hinos sacramentais mais conhecidos. Ainda consigo ver a irmã Ella Jack, que dirigia a música, de pé, bem visível entre a mesa sacramental e o piano, fazendo uma pausa e olhando para a congregação para se certificar de que todos tinham um hinário e estavam prontos para cantar. Ela dava atenção especial para verificar se os rapazes do Sacerdócio Aarônico tinham hinários. Todos nós cantávamos. Aprendíamos, em nossa juventude, que para sentir o Espírito precisávamos experimentar uma mudança em nosso coração, e que estar em harmonia naquela ocasião sagrada exigia que cantássemos os hinos sacramentais. Ao cantarmos pessoalmente as palavras, nossa alma ficava mais bem preparada para compreender essa sagrada ordenança. Na Última Ceia, os primeiros Apóstolos se juntaram ao Salvador para cantar. Mateus registra: "E tendo cantado um hino, saíram para o Monte das Oliveiras" (Mateus 26:30). ¶
E, ao cantarmos naquela reunião sacramental … ¶
Nossa humilde prece atende, ¶
Ouve nossa oração ¶
Em teu nome, reverentes, ¶
Abençoamos água e pão ¶
Do Calvário recordamos ¶
O teu sofrimento atroz. ¶
Não permitas que esqueçamos ¶
Que morreste tu por nós. ¶
Enche nossos corações com ¶
Tolerância e perdão. ¶
Ao teu trono, Deus excelso, ¶
Chegue nossa petição ¶
Quando nos provarmos dignos ¶
De tua graça desfrutar ¶
Que contigo, em glória eterna, ¶
Nós possamos habitar. ¶
(Hinos, nº 49.) ¶
Essas palavras ficavam gravadas em nosso coração porque nós mesmos as havíamos cantado. Vêm à alma pensamentos celestiais quando nos unimos a expressões celestiais aliadas a uma melodia celestial. ¶
Depois de cantado o hino sacramental, os sacerdotes se ajoelhavam num pequeno banco de veludo vermelho enquanto ofereciam a bênção sobre o pão e a água. Não tínhamos cartões impressos, mas a vigésima seção da Doutrina e Convênios ficava aberta, caso fosse necessária. Não havia microfones nem alto-falantes. Os sacerdotes eram ensinados a ler devagar e com clareza, e a pronunciar distintamente, para que todos pudessem ouvir e compreender as palavras dessa oração sagrada, cada palavra da qual nos foi dada pelo próprio Salvador. ¶
Nossos conselheiros de quórum nos instruíam, em nossa reunião do sacerdócio, sobre a santidade da ordenança do sacramento — como nossos pensamentos deveriam estar voltados para o Salvador, para seu sacrifício por nós — a importância de nossa vestimenta e aparência, e dessa oportunidade tranquila de resolver, em nossa própria mente, fazer melhor em guardar todos os mandamentos. Observávamos atentamente nossos próprios sacerdotes oficiando num procedimento sagrado, um tanto semelhante à própria primeira ocasião desse tipo, e os ouvíamos recitar uma bênção divinamente orientada sobre o pão e a água, em lembrança da carne e do sangue de nosso Salvador. Ao dirigir-se publicamente a nosso Pai Eterno nos Céus, o sacerdote pode, se estiver em sintonia espiritual, visualizar em sua mente um Pai Celestial amoroso ouvindo seu humilde pedido: ¶
"Ó Deus, Pai Eterno, nós te rogamos em nome de teu Filho, Jesus Cristo, que abençoes e santifiques este pão para as almas de todos os que partilharem dele, para que o comam em lembrança do corpo de teu Filho e testifiquem a ti, ó Deus, Pai Eterno, que desejam tomar sobre si o nome de teu Filho e recordá-lo sempre e guardar os mandamentos que ele lhes deu, para que possam ter sempre consigo o seu Espírito" (D&C 20:77). ¶
Gostaria que os rapazes do Sacerdócio Aarônico em toda a Igreja pudessem ter a mesma oportunidade de ouvir o élder Howard W. Hunter abençoar o sacramento, como tivemos no templo. Ele é uma testemunha especial de Cristo. Ao ouvi-lo pedir a nosso Pai Celestial que abençoe o sacramento, sinto a profunda espiritualidade em sua alma. Cada palavra era clara e significativa. Ele não estava com pressa, não estava apressado. Ele era o porta-voz de todos os Apóstolos ao se dirigir a nosso Pai Celestial. Cada palavra na ordenança sacramental é vital. Todos, na reunião sacramental, deveriam ouvir claramente cada palavra e refletir sobre o convênio recém-feito e sobre sua própria dignidade pessoal. ¶
A ordenança da Ceia do Senhor foi introduzida pelo próprio Salvador, conforme registrado pelos escritores dos Evangelhos. O élder James E. Talmage comenta: ¶
"Enquanto Jesus, com os Doze, ainda estava à mesa, tomou um pão ou bolo, e, tendo reverentemente dado graças e o santificado com uma bênção, deu uma porção a cada um dos apóstolos, dizendo: 'Tomai, comei; isto é o meu corpo.' ... Então, tomando um cálice de vinho, deu graças e o abençoou, e o deu a eles com o mandamento: 'Bebei dele todos; pois isto é o meu sangue do novo testamento, que é derramado por muitos para remissão dos pecados...' Dessa maneira simples, mas impressionante, foi instituída a ordenança, desde então conhecida como o Sacramento da Ceia do Senhor. O pão e o vinho, devidamente consagrados pela oração, tornam-se emblemas do corpo e do sangue do Senhor, para serem comidos e bebidos reverentemente, e em lembrança dele." (Jesus, o Cristo, 3ª ed., Salt Lake City, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1916, pp. 596–97.) ¶
Essa santa ordenança foi mais tarde ensinada pelo Salvador aos nefitas, no Hemisfério Ocidental. Depois de ensinar e curar seus enfermos, "Jesus ordenou aos seus discípulos que lhe trouxessem pão e vinho... ¶
"Tomou do pão e partiu-o e abençoou-o; e deu a seus discípulos e mandou que comessem. ¶
"E quando eles acabaram de comer... mandou que dessem à multidão" (3 Néfi 18:1, 3–4). ¶
O Salvador instruiu: "Dai-o ao povo de minha igreja, a todos os que crerem e forem batizados em meu nome. ¶
"E sempre procurareis fazer isto tal como eu fiz, da mesma forma que eu parti o pão, abençoei-o e dei-o a vós... ¶
"E isto fareis sempre a todos os que se arrependerem e forem batizados em meu nome; e o fareis em lembrança do meu sangue que derramei por vós, a fim de que testifiqueis ao Pai que sempre vos lembrais de mim. E se vos lembrardes sempre de mim, tereis o meu Espírito convosco. ¶
"E dou-vos um mandamento de que façais estas coisas. E fazendo sempre estas coisas, abençoados sois, porque estais edificados sobre a minha rocha" (3 Néfi 18:5–6, 11–12). ¶
A oportunidade semanal de participar do sacramento da Ceia do Senhor é uma das ordenanças mais sagradas de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e é mais uma indicação de seu amor por todos nós. Associados à participação do sacramento estão princípios fundamentais para o avanço e a exaltação do homem no reino de Deus e para a formação do caráter espiritual de cada um. Devemos refletir, em nossa conduta durante a semana, a renovação e os compromissos espirituais assumidos no domingo. Podemos deixar de reconhecer o profundo significado espiritual que essa ordenança oferece a cada um de nós pessoalmente. Será possível que uma atitude casual de nossa parte, de formalidade rotineira nessa ocasião sagrada, possa entorpecer nossa oportunidade de crescimento espiritual? ¶
Todos nós temos arrependimentos por palavras, atos ou pensamentos, de um sábado a outro, que gostaríamos de apagar de nossa alma. Talvez tenhamos errado contra alguém ou o tenhamos ferido; ou, se há mágoa em nosso coração, devemos nos arrepender, obter perdão daqueles que foram afetados ou ofendidos, e então, humildemente, com espírito contrito, preparar-nos para sermos dignos de participar do sacramento. Se nos arrependermos sinceramente, podemos ser perdoados, e a cura espiritual pode vir à nossa alma. Você e eu já sentimos isso. ¶
Por revelação, o Senhor instruiu que "os membros manifestarão perante a igreja e também perante os élderes, por conduta e linguagem piedosas, que são dignos dela... andando em santidade perante o Senhor" (D&C 20:69). ¶
O Salvador também ensinou: "Não permitireis, sabendo-o, que alguém participe indignamente da minha carne e do meu sangue" (3 Néfi 18:28). ¶
Há alguns anos, o élder Melvin J. Ballard escreveu: ¶
"Sou testemunha de que há um espírito que acompanha a administração do sacramento, o qual aquece a alma da cabeça aos pés; sentem-se as feridas do espírito sendo curadas, e o fardo sendo aliviado. Conforto e felicidade vêm à alma que é digna e verdadeiramente deseja participar deste alimento espiritual." (Crusader for Righteousness, Salt Lake City, Bookcraft, 1966, p. 133.) ¶
Durante a administração e a distribuição do sacramento, os presentes têm a oportunidade de pensar nos preciosos dons disponíveis por meio de seu sacrifício por cada um de nós, pois o sacramento é abençoado e santificado para que cada um possa dele participar em lembrança do Filho de Deus. (Ver D&C 20:77.) ¶
Geralmente, uma vez por semana, por pouco mais de uma hora, temos a oportunidade de assistir à reunião sacramental e refletir sobre a vida de nosso Salvador; de recordar, com profunda gratidão e reverência, sua vida de pureza, bondade e amor; de refletir sobre o grande sacrifício expiatório; e de participar do pão partido, símbolo de sua carne dilacerada, e de beber do cálice, símbolo de seu sangue derramado na cruz. ¶
O Salvador ensinou aos nefitas que "vim ao mundo para fazer a vontade de meu Pai, porque meu Pai me enviou. ¶
"E meu Pai enviou-me para que eu fosse levantado na cruz;... a fim de que atraísse a mim todos os homens" (3 Néfi 27:13–14). ¶
Ao participarmos do sacramento e refletirmos sobre seu sacrifício por cada um de nós, assumimos um solene compromisso de guardar os mandamentos que ele nos deu, para que, ao fazê-lo, possamos ter sempre seu Espírito conosco. Ao participarmos do sacramento a cada domingo, recebemos o incentivo e a força para guardar os mandamentos de Deus, para vivermos de modo reto, virtuoso e honesto. Não resumiu o próprio Jesus tudo isso da seguinte forma: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento; e ao teu próximo como a ti mesmo" (Lucas 10:27). ¶
É a isso que toda pessoa que participa do sacramento se compromete. Viver os mandamentos de Deus obriga a pessoa a uma vida de bondade — bondade para com a sociedade e uma genuína disposição de ajudar a humanidade, excluindo de sua vida o ódio, a inimizade, a imoralidade, o egoísmo, a embriaguez, o ciúme e a desonestidade. ¶
Que possamos experimentar a alegria da frequência regular à reunião sacramental e sentir as bênçãos do progresso eterno em nossa vida pessoal, mediante o pleno cumprimento, em espírito e ações, das sagradas palavras do sacramento. ¶
O profeta Joseph Smith ensinou: "A leitura das experiências de outros... nunca nos poderá dar uma visão abrangente de nossa condição e verdadeira relação com Deus. O conhecimento dessas coisas só pode ser obtido pela experiência, por meio das ordenanças de Deus estabelecidas para esse propósito. Se pudésseis contemplar os céus por cinco minutos, saberíeis mais do que saberíeis lendo tudo o que já foi escrito sobre o assunto." (Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, comp. Joseph Fielding Smith, Salt Lake City, Utah: Deseret Book Co., 1938, p. 324.) ¶
O sacramento é uma ordenança que nos permite experimentar um relacionamento pessoal com Deus e amplia nosso conhecimento e compreensão dele e de seu Filho Unigênito. ¶
Nossa recompensa pessoal pelo cumprimento dos convênios e obrigações da ordenança do sacramento se torna a companhia do Espírito Santo de Deus. Esta é a luz que conduz à vida eterna. As divinas virtudes associadas à participação da Ceia do Senhor são manter sempre em mente sua vida divina; amar o Senhor de todo o coração, poder, mente e força; e trabalhar para levar a efeito seu propósito supremo — a vida eterna do homem. ¶
Presto-vos meu humilde testemunho e dou testemunho de que isso é verdade, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, amém. ¶