Pulpit

A Natureza Celestial da Auto-suficiência

Marion G. Romney

Conferência Geral de Outubro de 1982·Welfare Session·1982-10-01

Irmãos e irmãs, tenho sido convidado a falar em tantas destas reuniões de bem-estar que estou começando a sentir que deveria responder de maneira semelhante à de um avô que conheci certa vez, que já estava avançado em anos e que algumas pessoas achavam que não sabia a hora de parar de falar. Numa reunião da ala pensaram que não deveriam chamá-lo, porque ele falaria por tempo demais. A decisão final, porém, foi que não poderiam deixá-lo de lado, de modo que o chamaram e pediram que se levantasse e lhes dissesse, em uma só palavra, como poderiam viver até chegar à idade dele e ainda assim ser úteis. Então ele se levantou e disse: "Continuem respirando." Eu não serei tão breve, mas tentarei ser direto ao ponto.

Amo as verdades simples contidas nos princípios de bem-estar ensinados por todos os santos profetas desde o princípio do mundo, e nunca me canso de falar sobre eles. Hoje falarei a vocês sobre o princípio da auto-suficiência e seu impacto em nosso desenvolvimento espiritual.

Desde o princípio dos tempos o homem tem sido aconselhado a ganhar o próprio sustento, tornando-se assim auto-suficiente. É fácil compreender a razão pela qual o Senhor dá tanta ênfase a esse princípio quando entendemos que ele está intimamente ligado à própria liberdade.

Sobre esse assunto, o Élder Albert E. Bowen disse: "O Senhor deve querer e pretender que Seu povo seja livre de toda restrição, seja ela imposta por força ou proveniente apenas dos laços da consciência. … É por isso que a Igreja não se satisfaz com nenhum sistema que deixe pessoas capazes permanentemente dependentes e insiste, ao contrário, que a verdadeira função e o verdadeiro propósito de dar é ajudar as pessoas a chegar a uma posição em que possam ajudar a si mesmas e, assim, ser livres." (The Church Welfare Plan, Gospel Doctrine manual, 1946, p. 77.)

Muitos programas foram criados por pessoas bem-intencionadas para ajudar os que estão em necessidade. Contudo, muitos desses programas são planejados com o objetivo míope de "ajudar as pessoas", em vez de "ajudar as pessoas a ajudarem a si mesmas". Nossos esforços devem sempre ser dirigidos para tornar auto-suficientes as pessoas capazes.

Há algum tempo recortei o artigo a seguir da Reader's Digest e já o contei antes, mas vale a pena repeti-lo. Ele diz:

"Em nossa amistosa cidade vizinha de St. Augustine, grandes bandos de gaivotas estão morrendo de fome em meio à fartura. A pesca continua boa, mas as gaivotas não sabem pescar. Por gerações, dependeram da frota camaroneira para lhes jogar restos das redes. Agora a frota se mudou. …

"Os pescadores de camarão haviam criado um Estado de Bem-Estar para as … gaivotas. As grandes aves nunca se preocuparam em aprender a pescar por si mesmas e nunca ensinaram seus filhotes a pescar. Em vez disso, levavam seus filhotes até as redes de camarão.

"Agora as gaivotas, essas belas aves livres que quase simbolizam a própria liberdade, estão morrendo de fome porque cederam à tentação de 'algo por nada'! Sacrificaram sua independência por uma esmola.

"Muitas pessoas são assim também. Não veem nada de errado em catar restos saborosos das redes de impostos da 'frota camaroneira' do Governo dos Estados Unidos. Mas o que acontecerá quando o Governo ficar sem recursos? E quanto a nossos filhos das gerações vindouras?

"Não sejamos gaivotas tolas. Nós … devemos preservar nossos talentos de auto-suficiência, nosso talento para criar coisas por nós mesmos, nosso senso de economia e nosso verdadeiro amor pela independência." ("Fable of the Gullible Gull," Reader's Digest, out. 1950, p. 32.)

A prática de cobiçar e receber benefícios não merecidos tornou-se agora tão arraigada em nossa sociedade que até mesmo homens de posses, que possuem os meios para produzir mais riqueza, esperam que o governo lhes garanta lucro. As eleições frequentemente giram em torno do que os candidatos prometem fazer pelos eleitores com recursos do governo. Essa prática, se aceita e adotada universalmente em qualquer sociedade, tornará escravos os seus cidadãos.

Não podemos nos dar ao luxo de nos tornarmos tutelados do governo, mesmo que tenhamos direito legal de fazê-lo. Isso exige um sacrifício grande demais do respeito próprio e da independência política, temporal e espiritual.

Em alguns países é extremamente difícil separar os benefícios merecidos dos não merecidos. Contudo, o princípio é o mesmo em todos os países: devemos nos esforçar para nos tornar auto-suficientes e não depender de outros para nossa subsistência.

Os governos não são os únicos culpados. Tememos que muitos pais na Igreja estejam transformando seus filhos em "gaivotas tolas" com sua permissividade e sua distribuição descontrolada dos recursos da família. Pais que colocam seus filhos na dependência da esmola são tão culpados quanto um governo que coloca seus cidadãos na dependência da esmola. Na verdade, as ações dos pais nessa área podem ser mais devastadoras do que qualquer programa governamental.

Bispos e outros líderes do sacerdócio podem ser culpados de transformar os membros de suas alas em "gaivotas tolas". Alguns membros tornam-se financeira ou emocionalmente dependentes de seus bispos. Uma esmola é uma esmola, seja qual for sua origem. Todas as nossas ações, tanto na Igreja quanto na família, devem ser dirigidas para tornar nossos filhos e membros auto-suficientes. Nem sempre podemos controlar os programas governamentais, mas podemos controlar nossos próprios lares e congregações. Se ensinarmos esses princípios e os vivermos, poderemos fazer muito para neutralizar os efeitos negativos que possam existir nos programas governamentais de qualquer país.

Sabemos que há alguns que, por motivo algum seu, não conseguem tornar-se auto-suficientes. O Presidente Henry D. Moyle tinha essas pessoas em mente quando disse:

"Esse grande princípio não nega aos necessitados nem aos pobres a assistência que devem ter. Os totalmente incapacitados, os idosos, os enfermos são cuidados com toda a ternura, mas toda pessoa capaz é instada a fazer o máximo por si mesma para evitar a dependência, se seus próprios esforços puderem tornar esse caminho possível; a considerar a adversidade como algo temporário; a unir sua fé em sua própria capacidade a um trabalho honesto; a reabilitar-se, a si mesma e a sua família, a uma posição de independência; a minimizar, em todo caso, a necessidade de ajuda e a complementar qualquer ajuda recebida com seus próprios e melhores esforços.

"Cremos que raramente surgem circunstâncias em que homens de fé rigorosa, coragem genuína e determinação inabalável, com o amor à independência ardendo em seus corações e orgulho de suas próprias realizações, não consigam superar os obstáculos que se encontram em seu caminho.

"Sabemos que, por meio de vidas humildes, dedicadas à oração, ao trabalho e ao temor a Deus, pode-se desenvolver em nós uma fé com cuja força podemos invocar as bênçãos de um Pai Celestial bondoso e misericordioso e literalmente ver nossas limitações desaparecerem e nossa independência e liberdade estabelecidas e mantidas." (In Conference Report, abr. 1948, p. 5.)

A auto-suficiência não é o fim, mas um meio para um fim. É bem possível que uma pessoa seja completamente independente e careça de todos os outros atributos desejáveis. Alguém pode tornar-se rico e nunca precisar pedir nada a ninguém, mas, a menos que haja algum objetivo espiritual ligado a essa independência, ela pode corroer sua alma.

O programa de bem-estar é espiritual. Em 1936, quando o programa foi apresentado, o Presidente David O. McKay fez esta observação perspicaz:

"O desenvolvimento de nossa natureza espiritual deve ser o que mais nos preocupa. A espiritualidade é a mais elevada aquisição da alma, o divino no homem; 'o dom supremo e coroador que o torna rei de todas as coisas criadas.' É a consciência da vitória sobre si mesmo e da comunhão com o infinito. É somente a espiritualidade que realmente proporciona a uma pessoa o melhor da vida.

"É algo importante fornecer vestimentas aos que estão mal vestidos, prover alimento farto aos que têm a mesa pobremente servida, dar ocupação aos que lutam desesperadamente contra o desespero proveniente da ociosidade forçada, mas, no final das contas, as maiores bênçãos que resultarão do [programa de bem-estar da] Igreja são espirituais. Externamente, todo ato parece voltado para o físico: refazer vestidos e ternos, enlatar frutas e verduras, armazenar mantimentos, escolher terras férteis para o assentamento — tudo parece estritamente temporal, mas, permeando todos esses atos, inspirando-os e santificando-os, está o elemento da espiritualidade." (In Conference Report, out. 1936, p. 103.)

Na Doutrina e Convênios lemos:

"Portanto, em verdade vos digo que todas as coisas são espirituais para mim e em tempo algum vos dei uma lei que fosse terrena; nem a homem algum nem aos filhos dos homens nem a Adão, vosso pai, a quem criei.

"Eis que lhe permiti que fosse seu próprio árbitro; e dei-lhe mandamentos, mas nenhum mandamento terreno lhe dei, porque meus mandamentos são espirituais." (D&C 29:34–35.)

Essa escritura nos diz que não existe algo como um mandamento temporal. Ela também nos diz que o homem deve ser "seu próprio árbitro". O homem não pode ser seu próprio árbitro se não for auto-suficiente. Nisso vemos que a independência e a auto-suficiência são chaves fundamentais para nosso crescimento espiritual. Sempre que nos encontrarmos em uma situação que ameace nossa auto-suficiência, descobriremos que nossa liberdade também está ameaçada. Se aumentarmos nossa dependência, veremos uma diminuição imediata em nossa liberdade de ação.

Até aqui, deveríamos ter aprendido que a auto-suficiência é um pré-requisito para a liberdade plena de agir. Também aprendemos, porém, que não há nada de espiritual na auto-suficiência a menos que façamos as escolhas certas com essa liberdade. O que devemos fazer, então, depois de nos tornarmos auto-suficientes, para crescer espiritualmente?

A chave para tornar a auto-suficiência espiritual está em usar a liberdade para cumprir os mandamentos de Deus. As escrituras são muito claras ao ordenar que é dever daqueles que têm dar àqueles que estão em necessidade.

Jacó, falando ao povo de Néfi, disse:

"Pensai em vossos irmãos como em vós mesmos; e sede amáveis para com todos e liberais com vossos bens, para que vossos irmãos sejam ricos como vós.

"Mas antes de buscardes riquezas, buscai o reino de Deus.

"E depois de haverdes obtido uma esperança em Cristo, conseguireis riquezas, se as procurardes; e procurá-las-eis com o fito de praticar o bem — de vestir os nus e alimentar os famintos e libertar os cativos e confortar os doentes e aflitos." (Jacó 2:17–19.)

Em nossa própria dispensação, quando a Igreja tinha apenas nove meses de existência, o Senhor disse:

"E para vossa salvação dou-vos um mandamento, pois ouvi vossas orações; e os pobres têm-se queixado perante mim e os ricos fiz eu; e toda carne é minha e não faço acepção de pessoas." (D&C 38:16.)

Essa revelação foi dada no segundo dia de janeiro de 1831. No mês seguinte, em outra revelação, o Senhor disse:

"Se me amares, servir-me-ás e guardarás todos os meus mandamentos.

"E eis que te lembrarás dos pobres e consagrarás de tuas propriedades, para sustento deles." (D&C 42:29–30.)

No mesmo mês, o Senhor voltou a se referir a esse assunto. Evidentemente os Irmãos haviam sido um pouco negligentes. Eles não haviam se movido com rapidez suficiente.

"Eis que vos digo que deveis visitar os pobres e os necessitados e ministrar-lhes auxílio." (D&C 44:6.)

As escrituras estão repletas de mandamentos a respeito de nossa obrigação de cuidar dos pobres; portanto, não me estenderei mais. Sempre me pareceu de certo modo paradoxal que precisemos constantemente que o Senhor nos ordene a fazer aquilo que é para nosso próprio bem. O Senhor disse:

"Quem achar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por minha causa, achá-la-á." (Mateus 10:39.)

Perdemos nossa vida ao servir e edificar outras pessoas. Ao fazê-lo, experimentamos a única felicidade verdadeira e duradoura. O serviço não é algo que suportamos nesta terra para conquistar o direito de viver no reino celestial. O serviço é a própria essência de que é feita uma vida exaltada no reino celestial.

Sabendo que o serviço é o que dá plenitude ao nosso Pai Celestial, e sabendo que queremos estar onde Ele está e ser como Ele é, por que precisamos ser ordenados a servir uns aos outros? Ah, que venha o dia glorioso em que todas essas coisas aconteçam naturalmente, por causa da pureza de nossos corações! Naquele dia não haverá necessidade de mandamento, porque teremos experimentado por nós mesmos que somos verdadeiramente felizes apenas quando estamos envolvidos em serviço desinteressado. Usemos a liberdade que provém da auto-suficiência para dar e servir.

Podemos perceber quão fundamental se torna a auto-suficiência quando a consideramos como pré-requisito para o serviço, sabendo também que o serviço é do que se trata a divindade? Sem auto-suficiência, não se pode exercer esses desejos inatos de servir. Como podemos dar se não há nada para dar? Alimento para os famintos não pode vir de prateleiras vazias. Dinheiro para socorrer os necessitados não pode vir de uma bolsa vazia. Apoio e compreensão não podem vir de quem está emocionalmente esgotado. O ensino não pode vir de quem não tem instrução. E, o mais importante de tudo, a orientação espiritual não pode vir de quem é espiritualmente fraco.

Existe uma interdependência entre os que têm e os que não têm. O processo de dar exalta o pobre e humilha o rico. Nesse processo, ambos são santificados. O pobre, libertado das amarras e limitações da pobreza, é capacitado, como homem livre, a elevar-se a todo o seu potencial, tanto temporal como espiritualmente. O rico, ao repartir de seu excedente, participa do princípio eterno de dar. Uma vez que uma pessoa tenha se tornado íntegra ou auto-suficiente, ela estende a mão para ajudar outras, e o ciclo se repete.

Todos nós somos auto-suficientes em algumas áreas e dependentes em outras. Portanto, cada um de nós deve esforçar-se para ajudar outras pessoas nas áreas em que temos pontos fortes. Ao mesmo tempo, o orgulho não deve nos impedir de aceitar graciosamente a mão amiga de outra pessoa quando temos uma necessidade real. Deixar de fazê-lo nega a outra pessoa a oportunidade de participar de uma experiência santificadora.

Novamente, digo que o princípio da auto-suficiência é espiritual, assim como o são todos os princípios do programa de bem-estar. Este não é um programa para o dia do juízo final, mas um programa para hoje. Uma das três áreas de ênfase recentemente delineadas na declaração sobre a missão da Igreja é aperfeiçoar os santos, e esse é o propósito do programa de bem-estar. Hoje é o momento de aperfeiçoarmos nossa vida. Que possamos continuar a nos apegar a essas verdades, é o que rogo, em nome de Jesus Cristo, amém.

Como citar este discursoMarion G. Romney, “A Natureza Celestial da Auto-suficiência”, Conferência Geral de Outubro de 1982, Welfare Session (1982-10-01). Pulpit Vault, 1982-10-romney-the-celestial-nature-of-self-reliance. Tradução desta edição, por método de glossário, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).