Porque Convém que o Bispo Seja Irrepreensível
L. Tom Perry
Esta conferência marca o início de uma nova era para a Igreja em matéria de comunicações. O advento do satélite nos proporciona a oportunidade de alcançar mais membros da Igreja com a conferência geral do que jamais tivemos o privilégio de fazer antes. ¶
Há um assunto que há tempos desejo abordar na conferência geral. Parece apropriado falar sobre este tema nesta conferência, devido à nossa maior audiência de membros. Anos atrás, fui designado para um comitê responsável por analisar todas as mudanças de bispos. Levávamos nossas recomendações para serem consideradas em uma reunião no templo, com a presença da Primeira Presidência e do Conselho dos Doze. Fiquei alarmado com o número de bispos recomendados para desobrigação por motivos de saúde, dificuldades familiares ou problemas de emprego. Embora o número não fosse grande em termos percentuais em relação ao total, senti que qualquer número era alto demais, pois esses grandes homens não estavam tendo o privilégio de cumprir sua designação com a alegria e a satisfação que deveriam acompanhar esse sagrado chamado. ¶
Sempre tive a mais elevada admiração pelo ofício de bispo. Estive associado a bispos durante toda a minha vida. Quando eu tinha seis meses de idade, meu pai foi chamado para ser o bispo de nossa ala. Ele serviu até depois de meu décimo oitavo aniversário. Poucos anos após meu casamento, fui chamado para um bispado. Logo descobri o amor que se desenvolve dentro de um bispado à medida que seus membros servem juntos. Após cerca de três anos de serviço, surgiu uma oportunidade de emprego, e pareceu apropriado aceitá-la. Foi com profunda tristeza que deixei o convívio daquele bispado. Em nossa última noite na comunidade em que morávamos, promoveram uma festa. Para evitar as despedidas, saímos discretamente da festa antes que terminasse e fomos ficar na casa de um amigo. O bispo e o outro conselheiro com quem eu havia servido foram até lá quando a festa terminou e passaram a noite em claro enquanto descansávamos, aguardando nossa partida de madrugada, para que não fôssemos embora sem a despedida devida. Com um grande nó na garganta, despedi-me desses dois irmãos ao seguir para outras designações. ¶
Alguns anos depois, fui chamado para servir em outro bispado. Novamente esse amor se desenvolveu enquanto tínhamos oportunidade de nos reunir com tanta frequência para conduzir os assuntos da ala. Pouco mais de um ano depois, uma mudança seria feita em nossa presidência de estaca. O bispo e eu fomos chamados para ser entrevistados pela Autoridade Geral que estava fazendo a mudança. A primeira pergunta que a Autoridade Geral fez foi: "Como você se dá com o seu bispo? Ele é um bom líder?" Comecei então a expressar, em termos entusiásticos, meu amor e apreço por aquele homem e por tudo o que ele havia feito pela ala. De repente, percebi o propósito da entrevista. Poderiam chamá-lo para a presidência de estaca, e perderíamos nosso convívio. Parei imediatamente meus elogios ao grande serviço dele e, após uma pausa, disse com um leve sorriso no rosto: "A única dificuldade que ele tem é que, quando está sob pressão, vai para casa e bate na esposa." A Autoridade Geral recostou-se na cadeira e disse: "Não é curioso? Ele esteve aqui há pouco e disse que você tem capacidade de liderança, mas que também tem um defeito. Você gosta de ir de vez em quando atrás do celeiro fumar um charuto." A estratégia falhou: fui chamado para a nova presidência de estaca. ¶
Embora eu nunca tenha tido a oportunidade de servir como bispo, meus dois irmãos tiveram essa experiência. Um deles está servindo atualmente no noroeste do Pacífico. Também tenho um sobrinho, com quem me correspondo frequentemente, que serve como bispo na região norte das planícies dos Estados Unidos. Assim, minhas oportunidades de observar, acompanhar e apreciar o papel daqueles que são chamados para servir como bispos na Igreja encheram meu coração e minha alma de admiração por esse nobre chamado. ¶
Paulo, em sua epístola a Tito, estabeleceu alguns requisitos exigentes para aquele que é chamado ao ofício de bispo. ¶
"Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como administrador da casa de Deus, não soberbo, nem irascível, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; ¶
"Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, continente; ¶
"Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes." (Tito 1:7–9.) ¶
O Senhor acrescentou a esse fardo, por meio de revelação contida em Doutrina e Convênios, designando-o também como juiz. ¶
"E quem tem essa missão é designado para ser juiz em Israel, como nos tempos antigos, para dividir as terras da herança de Deus entre seus filhos; ¶
"E para julgar seu povo pelo testemunho dos justos e com a assistência de seus conselheiros, de acordo com as leis do reino, que são dadas pelos profetas de Deus." (D&C 58:17–18.) ¶
Os profetas nos aconselharam quanto à importância do papel de um bispo. O Presidente George Albert Smith nos disse: ¶
"Não há posição na Igreja que trará maior bênção a qualquer homem do que o ofício de bispo, se ele honrar esse ofício e for um verdadeiro pai para o rebanho sobre o qual foi chamado a presidir. Não se esqueçam disso. … Mas quero dizer a vocês que não há bispo, nem jamais houve um bispo na Igreja, que tenha dedicado o tempo que o Senhor esperava que ele dedicasse a cuidar do rebanho, a ensinar seu povo e a prepará-lo para realizar o trabalho, que não tenha recebido cem por cento das bênçãos pelas quais trabalhou, e elas se estenderão a ele por toda a eternidade." (In Conference Report, out. de 1948, pp. 186–87.) ¶
Ora, não é meu propósito aqui hoje dedicar tempo ao papel e à incumbência dos bispos, fazendo-os sentir-se ainda mais sobrecarregados. Em vez disso, deixem-me falar sobre o que podemos fazer para apoiá-los e sustentá-los em sua grande responsabilidade. ¶
Primeiro, a esposa do bispo. Vocês são cuidadosamente avaliadas antes que seu marido seja convidado a ser chamado como bispo, para determinar o tipo de apoio que lhe darão. Nós lhes garantimos que o papel dele como bispo é secundário em relação a seus chamados eternos como marido e pai. Para que ele tenha êxito, vocês precisam sustentá-lo completamente. Sabemos que isso lhes impõe fardos adicionais. Vocês funcionam como um serviço de atendimento telefônico e uma sala de correspondência, atuam como recepcionistas e têm de suprir as necessidades do lar quando ele é chamado para atender emergências. Muitas vezes, apenas por estarem presentes, vocês têm acesso a informações confidenciais, que devem manter em sigilo e nunca discutir com ninguém. Nada destruiria mais a credibilidade de um bispo do que ter sua companheira revelando informações confidenciais que ela porventura tenha ouvido ou visto a respeito dos assuntos da ala. ¶
Vocês têm a obrigação, juntamente com seu marido, de ser um modelo para os jovens e os casais jovens recém-casados da ala. O casamento de vocês deve ser um exemplo ideal — um exemplo que eles se esforçam por seguir. Sua contribuição é profundamente apreciada e compreendida. Nada pode aliviar a ansiedade e a carga de ser bispo tanto quanto o auxílio de uma companheira que o apoia. ¶
Segundo, os filhos de um bispo. Sei que às vezes é como viver em um aquário, com todos observando vocês para ver se cometerão um erro ou dirão algo errado. Sei que, às vezes, surge ressentimento em suas mentes quando as férias ou uma atividade planejada são interrompidas por uma emergência da ala. ¶
Aprendi uma grande lição na noite anterior à desobrigação de meu pai como bispo. Foi a primeira vez que realmente vi meu pai derramar lágrimas. Ele reuniu a família para anunciar que seu período de serviço como bispo havia terminado. Então, com lágrimas escorrendo pelo rosto, ele nos contou como sentiria falta do chamado, mesmo tendo sido, às vezes, um fardo e tendo ocupado grande parte de seu tempo. Ele nos ensinou uma lição real sobre a verdadeira alegria do serviço na Igreja. Só então compreendi plenamente as bênçãos que tivemos em nosso lar, como família, por ter o manto de bispo repousado sobre os ombros de nosso pai. ¶
Filhos, depois de sua mãe, seu pai precisa do apoio sustentador de vocês ao cumprir sua tremenda designação. ¶
Terceiro, os quóruns do sacerdócio. Os quóruns ocupam uma posição verdadeiramente singular. O Senhor revelou uma estrutura em Sua organização que usa os portadores de Seu sacerdócio para vigiar e fortalecer a Igreja. Os líderes de quórum devem visitar os membros do quórum em seus lares, para elogiá-los quando merecido, abençoá-los e encorajá-los quando necessário, ensinar-lhes o evangelho e inspirar todos a guardar os mandamentos e viver vidas retas. Devem certificar-se de que as famílias da ala, por meio do programa de ensino familiar, sejam visitadas ao menos mensalmente. ¶
Os mestres familiares, então, são chamados para representar o presidente do quórum e, por meio dele, o bispo. Assim, são representantes do sacerdócio, chamados para auxiliar os líderes de quórum a vigiar e fortalecer os membros do quórum, inclusive os pais e suas famílias. ¶
Os mestres familiares do sacerdócio devem "visitar a casa de todos os membros, exortando-os a orarem em voz alta e em segredo e a cumprirem todas as obrigações familiares. … ¶
"Zelar sempre pela igreja … ; ¶
"E certificar-se que não haja iniquidade na igreja, nem aspereza entre uns e outros, nem mentiras, maledicências ou calúnias; ¶
"E certificar-se que a igreja se reúna amiúde e também certificar-se que todos os membros cumpram seus deveres." (D&C 20:47, 53–55.) ¶
O pai é reconhecido e apoiado como o líder presidente de sua família, responsável por ensinar-lhe as doutrinas básicas do reino, zelar para que ajude a edificar o reino e conduzir sua família à vida eterna. ¶
Quando o programa de ensino familiar funciona conforme estabelecido, os problemas nas famílias são descobertos e resolvidos antes que se tornem tão grandes a ponto de exigirem o julgamento e o tempo de um bispo. Isso alivia o bispo de um grande fardo, dando-lhe mais tempo para dedicar a assuntos que não pode delegar a mais ninguém. Sim, os quóruns devem assumir plena responsabilidade pelo cuidado dos membros a eles designados. ¶
Quarto, os membros em geral da Igreja. Penso que vocês devem entender que a maioria dos bispos não é psiquiatra. A maioria não é assistente social. A maioria não é consultor financeiro treinado. Mas cada bispo foi chamado, sob a inspiração do Senhor, para servir vocês como membros de sua ala. ¶
Precisamos ser ponderados quanto às exigências de tempo que lhes impomos, para que possam cumprir as designações que receberam e tenham tempo suficiente para planejar, organizar, meditar, ponderar e estar receptivos à inspiração e aos impulsos do Senhor em sua grande mordomia. Se continuamente lhes levamos problemas que poderíamos resolver por nós mesmos, isso apenas consome seu precioso tempo, necessário para designações que não podem delegar. Poderia eu oferecer algumas regras aos membros da Igreja quanto ao relacionamento com seu bispo? ¶
Primeiro, nunca procurem seu bispo antes de terem se ajoelhado pedindo inspiração e soluções. Não vão apenas ao escritório do bispo para sobrecarregá-lo de problemas. Sei como as pessoas vão ao escritório apenas querendo falar sobre os problemas, sem querer ouvir as soluções. ¶
Segundo, nunca envolvam seu bispo se o mestre familiar ou o quórum puderem cuidar de suas necessidades. Contudo, sei que às vezes surgem problemas na vida de uma pessoa que exigem a atenção pessoal e a consideração especial que somente um bispo pode oferecer. Em assuntos como esse, procurem-no, e então ele os ajudará. ¶
Terceiro, nunca falem mal nem fofoquem sobre seu bispo ou sua família. Respeitem esse grande e importante chamado. ¶
Quarto, vivam sua vida em harmonia com o evangelho, para que, quando seu bispo os chamar para servir, vocês estejam prontos e dignos para aceitar esse chamado. Depois, sirvam com todo o entusiasmo, vigor, vitalidade, dedicação e compromisso que puderem. Respondam fielmente ao chamado para o qual foram designados. ¶
Quinto, lembrem-se de seu bispo em suas orações familiares. Orem por seu bem-estar e por sua força, para que ele seja abençoado pelo Senhor nessa tremenda responsabilidade que lhe foi confiada. ¶
Sei do grande poder que existe no ofício de bispo. Sei da paz, da segurança, da felicidade e do contentamento que ele pode trazer a uma ala, se lhe permitirmos administrar no papel para o qual foi chamado e não continuarmos a desviá-lo para deveres menores. Deixemos que ele tenha o poder de organizar seu próprio tempo e não o privemos desses minutos preciosos de que precisa. Lembrem-se de que ele tem as mesmas obrigações que os demais chefes de família: primeiro, ser um bom marido; segundo, ser um bom pai; e terceiro, cumprir sua responsabilidade de sustentar sua família. Não devemos interromper o tempo com sua família nem impedi-lo de crescer, realizar e progredir em suas atividades profissionais. Depois que essas obrigações para com sua família forem atendidas, então ele terá oportunidade de servir vocês em seu grande chamado. ¶
Prometo-lhes, meus irmãos e minhas irmãs, que, se sustentarmos e apoiarmos nossos bispos, aprendermos a nos preocupar com seu bem-estar e orarmos por seu êxito em tudo o que têm de fazer, isso abençoará nossa vida, à medida que somos colocados sob sua liderança e temos oportunidade de seguir sua orientação inspirada, enquanto conduzem as alas da Igreja. ¶
Que Deus nos abençoe para que este seja o início de um relacionamento novo e melhorado com nossos bispos, é minha humilde oração, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶