As Bênçãos que Recebemos ao Enfrentarmos os Desafios do Estresse Econômico
James E. Faust
Há alguns anos, o Bispo James T. Erekson, membro sábio e bem-sucedido de um conselho superior do qual eu fazia parte, fez uma declaração que muito me impressionou. Ele disse: “Há muitos em nossa geração que não conheceram as bênçãos da adversidade econômica!” Desejo falar nesta manhã sobre as bênçãos que podemos receber ao enfrentarmos os desafios do estresse econômico. ¶
Os economistas parecem ter dificuldade em decidir quando estamos numa depressão ou numa recessão. Alguém disse que se pode saber da seguinte forma: “Uma recessão é um período em que você aperta o cinto; uma depressão é um tempo em que você não tem mais cinto para apertar.” (Braude Speaker Encyclopedia, p. 46.) ¶
Muitos países do mundo entraram em tempos econômicos mais difíceis. Algumas pessoas estão perdendo seu emprego e seus bens conquistados com esforço. Outras enfrentam a falta de alimento e vestuário. No decorrer de uma vida normal, a maioria das pessoas já enfrentou, ou enfrentará, tempos econômicos difíceis. Lemos em Eclesiastes que “não é dos ligeiros a carreira, nem dos valentes a peleja, nem tampouco dos sábios o pão, nem tampouco dos prudentes as riquezas, nem tampouco dos que têm discernimento o favor, mas que o tempo e o acaso lhes sucedem a todos.” (Eclesiastes 9:11.) ¶
O Salvador confirmou isso quando, falando do Pai, disse: “Porque faz que o seu sol se levante sobre os maus e os bons, e a chuva desça sobre os justos e os injustos.” (Mateus 5:45.) ¶
Há lições das dispensações do evangelho que nos ajudam a entender que algumas calamidades acabaram por ser bênçãos. Embora os exemplos a seguir tenham um significado muito maior para a humanidade em geral, eles têm suas lições para nós individualmente quando enfrentamos provações em nossa vida. ¶
O grande sofrimento do Salvador no Getsêmani e Sua crucificação foram calamidades, mas o homem foi redimido da morte e do inferno por meio de Seu sacrifício expiatório. A dispersão de Israel pelo mundo espalhou o sangue que crê, de modo que muitas nações agora possam participar do plano do evangelho. A história dos nefitas é uma história de provação, calamidades e sofrimento, mas através de tudo isso as experiências obtidas trouxeram força e desenvolvimento. ¶
O Senhor conhece os valores a serem aprendidos com as provações e as adversidades. ¶
Todo ano é um ano de novas oportunidades. Charles Dickens ambientou seu livro Um Conto de Duas Cidades na seguinte introdução: ¶
“Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da tolice, era a época da fé, era a época da incredulidade, era a estação da Luz, era a estação das Trevas, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós.” (A Tale of Two Cities, Nova York: Doubleday, s.d., p. 9.) ¶
Em Leicester, na Inglaterra, há uma inscrição na parede externa de uma antiga igreja que traz um pensamento notavelmente belo. A inscrição diz: ¶
“No ano de 1654, quando tudo estava, por toda esta nação, ou demolido ou profanado, Sir Robert Shirley, Baronete, fundou e construiu esta igreja. É seu singular elogio o ter feito as melhores coisas nos piores tempos, e tê-las esperado nos mais calamitosos.” ¶
Além das marés econômicas que correm nos assuntos das nações, tempos financeiros difíceis podem acometer qualquer um de nós a qualquer momento. Não há garantia contra dificuldades financeiras pessoais. As dificuldades financeiras podem resultar de vários tipos de infortúnios, incluindo todos os tipos de desastres naturais, como enchentes, incêndios e terremotos. Acidentes e doenças podem produzir contas médicas e hospitalares inesperadas e assombrosas. Os infortúnios de outros membros de nossa própria família podem exigir nossa ajuda. O desemprego e a inflação podem rapidamente varrer economias conquistadas com esforço. ¶
O estresse econômico pode envolver desafios pessoais. O desânimo e a frustração são companheiros frequentes do infortúnio. Os problemas econômicos ocasionalmente colocam tensão nos relacionamentos familiares. Frequentemente exigem que abramos mão de coisas que sentimos querer ou precisar. O que pode ser uma calamidade para uma pessoa pode ser uma oportunidade para outra. Shakespeare, falando por meio do Duque Sênior, disse: ¶
Doces são os usos da adversidade; ¶
Que, como o sapo, feio e venenoso, ¶
Traz, contudo, uma joia preciosa em sua cabeça. ¶
(As You Like It, ato 2, cena 1, linhas 12–14.) ¶
Os efeitos duradouros dos desafios econômicos são frequentemente determinados por nossa atitude perante a vida. Um escritor disse: “Das mesmas substâncias, um estômago extrai nutrição, e outro veneno; e assim, as mesmas decepções na vida disciplinarão e refinarão o espírito de um homem e amargurarão o de outro.” (William Matthews, Webster’s Encyclopedia of Dictionaries, New American Edition, Ottenheimer Publishers, Inc., p. 864.) ¶
O Élder LeGrand Richards contou esta história a um jovem que, num momento de desespero, perguntou pelo que os jovens têm para viver: ¶
“‘Vocês se lembram da história dos dois baldes que desceram no poço; quando um subia, dizia: “Este é certamente um mundo frio e triste. Não importa quantas vezes eu suba cheio, sempre tenho que descer vazio.” Então o outro balde riu e disse: “Comigo é diferente. Não importa quantas vezes eu desça vazio, sempre subo cheio.”’” (In Conference Report, abr. 1951, p. 40.) ¶
O Irmão Joseph Stucki, um fiel membro da Igreja, morreu na véspera de Natal de 1927, depois de uma doença breve, deixando sua esposa com sete filhos, sendo o filho mais velho em missão. Duas das crianças e um sobrinho que ela estava criando foram posteriormente levados pela morte. Outro filho também foi enviado em missão. Isso foi realizado com muito trabalho árduo — costurando por encomenda e vivendo com poucos dólares por mês provenientes de uma apólice de seguro. ¶
Durante esse período difícil, farinha estava sendo distribuída aos membros necessitados da ala. Alguns dos jovens haviam sido designados para entregá-la. Um saco de farinha foi levado à casa da Irmã Stucki. Como ela sentia que havia outras famílias na ala que precisavam mais daquela farinha do que ela, recusou-se a ficar com ela, dizendo ao jovem que estava tentando ensinar sua família a ser independente e autossuficiente. Embora os membros dignos da Igreja devam se sentir à vontade para aceitar a ajuda oferecida pelo bispo, a Irmã Stucki estava tentando ensinar uma lição ao jovem que veio até sua porta. Vejam bem, o jovem que entregava a farinha era seu próprio filho! Todos os filhos sobreviventes frequentaram a faculdade e se tornaram pessoas muito bem-sucedidas. Viveram pelo lema: “Faça dar certo, ou fique sem.” ¶
Um homem sábio disse: “O Senhor tira seus melhores soldados das terras altas da aflição.” (C. H. Spurgeon, Sorrow’s Discipline, nº 9.) Algumas das bênçãos disponíveis ao superarmos a adversidade econômica são: ¶
Primeira, e talvez a mais importante, nossa fé e testemunho podem ser fortalecidos. O membro fiel da Igreja aprende que, em tempos de estresse econômico, o Senhor ajuda aqueles que O buscaram desde cedo. (Ver D&C 54:10.) Mas aqueles membros que não começaram cedo em sua vida religiosa podem resolver buscar o Senhor com mais diligência. Aprendemos a reconhecer a mão do Senhor nos ajudando. Em tempos difíceis, temos a chance de reavaliar e reordenar nossas prioridades na vida. Aprendemos o que é mais importante para nós. O caminho está aberto para fortalecer a fé e o testemunho. ¶
Segunda, podemos aprender a necessidade da humildade. Nossa dependência do Senhor torna-se um meio de desenvolver a docilidade, um aspecto importante da humildade. ¶
Terceira, os membros da família aprendem cooperação e amor uns pelos outros, sendo forçados a se aproximar para sobreviver. ¶
Quarta, a dignidade pessoal e o autorrespeito podem ser alcançados. Alguém disse: “Alegrem-se por haver grandes obstáculos na vida, e regozijem-se, também, por eles serem maiores do que a maioria das pessoas se importa em superar. Fiquem felizes por eles serem numerosos.” (Anônimo.) ¶
Quinta, podemos nos tornar mais fortes e mais resilientes. Edmund Burke disse: “A dificuldade é um instrutor severo, posto sobre nós pela suprema ordenação de um Guardião e Legislador paterno, que nos conhece melhor do que nós mesmos, e que também nos ama melhor. … Aquele que luta conosco fortalece nossos nervos e aguça nossa habilidade. Nosso antagonista é nosso auxiliar.” (“Reflections on the Revolution in France”, em Edmund Burke, Harvard Classics, 50 vols., Nova York: P. F. Collier and Son Co., 1909, 24:299–300.) ¶
Sexta, aprendemos a paciência. Às vezes a adversidade econômica exige mais tempo do que antecipamos. Aquele que aprende a suportar suas adversidades enquanto trabalha para superá-las cresce em paciência, e assim não é dominado por suas circunstâncias. Em aflição econômica e social, certas pessoas do Livro de Mórmon foram exortadas a suportá-las pacientemente, para que não fossem “levad[as] pelas tentações do diabo”. (Alma 34:39.) ¶
Sétima, nós nos elevamos a alturas antes inatingíveis pelo uso de talentos e habilidades que talvez não tivessem sido desenvolvidos de outra forma. A necessidade econômica abre caminho para experiências proveitosas de aprendizado. ¶
Há muitas maneiras de enfrentar os tempos econômicos difíceis. Às vezes devemos aceitar menos do que esperávamos. Um orador certa vez declarou: “Passei por uma pequena igreja exibindo uma grande placa. Dizia: ‘Festival Anual do Morango’, e abaixo, em letras pequenas, ‘Devido à depressão, serão servidas ameixas secas.’” (Braude Speakers Encyclopedia, p. 51.) ¶
Karen Nielson nasceu em Aalborg, Dinamarca, em 1844. Era filha de uma família de fazendeiros. Em seus primeiros anos, foi ensinada as habilidades de uma produção leiteira bem-sucedida aos pés de seu pai. ¶
Em 1861, Karen foi batizada e nunca mais pôde voltar para casa por causa da oposição de seu pai à sua conversão. Deixou a Dinamarca e imigrou para Utah com um grupo de santos escandinavos em 1862. Viveu alguns anos no Condado de Utah, onde se casou com Benjamin Franklin Barney, e depois foram chamados para colonizar o Vale de Sevier. ¶
Karen teve dez filhos e depois ficou viúva, com vários de seus filhos ainda em casa. Ela não tinha família próxima para a qual voltar, então recorreu ao conhecimento que havia adquirido na fazenda dinamarquesa. Melhorou o rebanho leiteiro usando as técnicas de reprodução que aprendera com seu pai. Seu rebanho logo foi reconhecido como um dos melhores da região, e ela conseguiu sustentar sua família e cuidar de suas necessidades. Até já bem entrada na casa dos oitenta anos, Karen ordenhava suas vacas de noite e de manhã e cuidava de sua fazenda com a ajuda de seus filhos e netos. Seu legado foi de trabalho árduo e do conhecimento de que nossa vida só é tão boa quanto a fazemos. Ela nunca se afastou das dificuldades — elas pareciam apenas fortalecê-la. ¶
Sugeri anteriormente oito bênçãos que podem vir à medida que nos esforçamos para superar as adversidades econômicas. Gostaria agora de sugerir seis maneiras de nos ajudar a não sermos dominados pelo estresse econômico: ¶
Busquem primeiro o reino de Deus. (Ver Mateus 6:33.) Essa busca inclui o pagamento de nossos dízimos e uma generosa oferta de jejum, sendo assim abençoados tanto espiritual quanto temporalmente por nossa obediência. Buscar primeiro o reino de Deus envolverá esforçar-se para guardar a lei que o apóstolo Tiago chamou de “a lei real”, que é: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo.” (Tiago 2:8.) Buscar primeiro o reino de Deus envolve guardar os mandamentos divinos. A força espiritual vem de muitas fontes, incluindo a oração pessoal, o estudo das escrituras e a disposição de “submeter-se a tudo … que o Senhor achar que lhe deva infligir”. (Mosias 3:19.) Essas medidas podem nos dar uma certa estabilidade tranquila. ¶
Solidifiquem as forças e os recursos da família. Entre os principais recursos de uma família estão suas forças espirituais, que são fortalecidas ao orarem juntos. Orçar o dinheiro em conjunto produzirá uma unidade especial, assim como a realização de conselhos familiares. Devemos trabalhar juntos para armazenar um suprimento de um ano de alimentos, roupas e outras necessidades. Em tempos de estresse, atos extras de bondade são particularmente necessários e apreciados. Quando há pouco dinheiro disponível, é mais fácil ensinar aos filhos o uso sábio do dinheiro, inclusive a necessidade de poupar para o futuro. A família pode ser lembrada de manter uma perspectiva eterna, em vez de se concentrar nos bens e na riqueza mundanos. As organizações familiares são úteis para prestar a ajuda individual que possa ser necessária. Também é importante aprender a aceitar a ajuda da família com boa vontade. ¶
Exerçam a fé. O Salvador nos lembra: “Tudo é possível ao que crê.” (Marcos 9:23.) E ainda: “Todas as coisas contribuirão para o vosso bem.” (D&C 90:24.) A atitude com que nos submetemos a “todas as coisas” é importante. Manter uma atitude positiva e ser alegre ajuda. Uma crença de que “todas essas coisas te servirão de experiência, e … serão para o teu bem” é como um estabilizador espiritual. (D&C 122:7.) ¶
Sejam adaptáveis em seu trabalho. Theodore Roosevelt disse: “Nenhum homem precisa de compaixão por ter de trabalhar. … De longe, o melhor prêmio que a vida oferece é a chance de trabalhar duro em um trabalho que vale a pena.” (The Reader’s Digest Treasury of Modern Quotations, Nova York: Reader’s Digest Press, 1975, p. 169.) Em tempos de dificuldade econômica, pode ser necessário trabalhar por menos salário. Devemos estar dispostos a aprender novas habilidades comercializáveis. Há muitos homens que encontraram nova alegria e satisfação ao terem uma segunda carreira totalmente diferente daquela para a qual foram originalmente treinados. Os membros da família precisam encontrar formas de complementar a renda por meio de oportunidades de trabalho apropriadas. Ser flexível em nossa abordagem às oportunidades de trabalho pode ser exatamente o que nos permitirá nos manter financeiramente à tona. Dar um dia completo de trabalho por um dia completo de salário salvou muitos empregos. Também nos ajudará a evitar aceitar assistências governamentais que nos roubam a dignidade e o autorrespeito. ¶
David Grayson disse: “A felicidade, descobri, é quase sempre um efeito rebote do trabalho árduo.” (The Reader’s Digest Treasury of Modern Quotations, p. 171.) ¶
Evitem dívidas. O Presidente J. Reuben Clark, Jr., nos ensinou a “evitar a dívida como evitaríamos uma peste”. (in Conference Report, abr. 1937, p. 26.) Este é um conselho particularmente sensato nestes tempos de taxas de juros exorbitantemente altas. A dívida e sua descendência sempre presente, os juros, são senhores implacáveis. Há um ano e meio, neste Tabernáculo, a voz do Presidente Clark, numa gravação, foi ouvida dizendo: “Quem quer que peça dinheiro emprestado deve entender o que é o juro; ele está com eles a cada minuto do dia e da noite.” (in Conference Report, abr. 1938, p. 103.) ¶
Reduzam as despesas. Quando questionado sobre como algumas pessoas numa pequena comunidade agrícola no sul de Utah se sustentavam com sua parca renda em dinheiro, George Lyman disse: “Elas viviam da ausência de despesas.” Em outra ocasião, alguém observou: “Gerações de grandes pensadores sonharam com uma sociedade sem dinheiro em algum momento do futuro. No que diz respeito a alguns de nós, já estamos à frente do nosso tempo.” (Sam Levenson, “You Don’t Have to Be in Who’s Who to Know What’s What”, Simon and Schuster, 1979, p. 184.) A riqueza econômica não dota bênçãos eternas, e a dificuldade financeira não revoga convênios eternos. ¶
O Élder Neal A. Maxwell disse: “Uma depressão econômica seria sombria, mas não mudaria a realidade da imortalidade. A inevitabilidade da segunda vinda não é afetada pela imprevisibilidade do mercado de ações. … Um caso de câncer não cancela as promessas da investidura do templo. … ¶
Tudo o que importa está gloriosamente intacto. As promessas estão em vigor. Cabe a nós cumprir.” (“Notwithstanding My Weakness”, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1981, p. 57.) ¶
Antes de ensinar a parábola do homem rico cuja terra produzira com abundância, Jesus disse: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância dos bens que possui.” (Lucas 12:15.) ¶
O Senhor disse: “Não me importuneis mais a respeito deste assunto. ¶
Aprendei que aquele que pratica as obras da retidão receberá sua recompensa, sim, paz neste mundo e vida eterna no mundo vindouro.” (D&C 59:22–23.) ¶
Da fornalha do refinador que é a dificuldade econômica podem vir bênçãos eternas que ajudam a salvar famílias e a exaltar seus membros por meio de sua união e fortalecimento — do que testifico em nome de Jesus Cristo, amém. ¶