O Amor de Deus por Nós Transcende Nossas Transgressões
Ronald E. Poelman
Cada um de nós, às vezes, pode sentir-se como Pedro, consciente de nossas falhas e desconfortável ao pensar em nos aproximar do Senhor. A transgressão nos faz sentir estranhos ao nosso Pai Celestial, e nos sentimos indignos de seu amor e temerosos de sua desaprovação. ¶
Contudo, tendo transgredido suas leis ou desobedecido seus mandamentos, precisamos da influência fortalecedora de nosso Pai para nos ajudar a vencer nossa fraqueza, a nos arrepender e a nos reconciliar com ele. O pecado não arrependido tende a tornar-se habitual e é frequentemente acompanhado de um sentimento cada vez mais profundo de culpa, que pode tornar o arrependimento cada vez mais difícil. Esse sentimento de estranhamento em relação ao Senhor torna-se, ele próprio, um impedimento ao arrependimento e à reconciliação com ele. ¶
Sabendo que ofendemos nosso Pai Celestial, temos medo de pedir sua ajuda, sentindo que não a merecemos. Paradoxalmente, quando mais precisamos da influência do Senhor, menos a merecemos. Não obstante, em tais circunstâncias ele nos diz, como Jesus disse ao trêmulo Pedro: "Não temas." (Lucas 5:10.) ¶
Minha mensagem de hoje talvez seja melhor ilustrada pelas experiências de um jovem casal a quem chamarei de John e Gayle. ¶
John era um jovem atencioso e bondoso, afetuoso, de trato franco e aberto. Sinceramente procurava obedecer aos mandamentos do Senhor e encontrava contentamento sincero nas alegrias da vida familiar. Gayle, sua esposa, era jovem, atraente, vivaz, mas inclinada a interesses e atividades mais mundanos. A sociedade em que viviam era, em geral, de opulência e materialismo. As pessoas pareciam preocupadas com ganhos temporais, status social, entretenimento e autogratificação. Os líderes religiosos estavam preocupados com o evidente enfraquecimento da vida familiar e dos padrões morais. ¶
Nos primeiros anos de seu casamento, John e Gayle foram abençoados com filhos, primeiro um menino e depois uma menina; mas Gayle parecia desinteressada de suas responsabilidades domésticas. Ela ansiava por glamour e emoção em sua vida e frequentemente ficava fora de casa em festas e diversões, nem sempre com o marido. Em sua vaidade, Gayle incentivou e correspondeu às atenções de outros homens até que, por fim, foi infiel a seus votos matrimoniais. ¶
Durante todo esse tempo, John incentivou Gayle a apreciar as alegrias da vida familiar e a experimentar as recompensas de observar as leis de Deus. Ele foi paciente e bondoso, mas em vão. Pouco depois do nascimento de um terceiro filho, um menino, Gayle abandonou o marido e os filhos e juntou-se a seus amigos mundanos numa vida de autoindulgência e imoralidade. John, assim rejeitado, ficou humilhado e com o coração partido. ¶
Logo, porém, o glamour e a emoção que haviam atraído Gayle se transformaram em cinzas. Seus assim chamados amigos cansaram-se dela e a abandonaram. Então cada passo sucessivo foi descendente, e sua vida tornou-se cada vez mais degradada. Por fim, ela reconheceu seus erros e percebeu o que havia perdido, mas não via caminho de volta. Certamente John não poderia mais amá-la. Ela se sentia completamente indigna de seu amor e imerecedora de seu lar e de sua família. ¶
Então, um dia, passando pelas ruas, John reconheceu Gayle. Ele certamente teria justificativa para desviar-se, mas não o fez. Ao observar o efeito de sua vida recente, evidente demais, um sentimento de compaixão o invadiu — um desejo de estender-lhe a mão. Ao saber que Gayle havia contraído dívidas substanciais, John as pagou e a levou para casa. ¶
Logo John percebeu, primeiro com espanto, que ainda amava Gayle. De seu amor por ela e da disposição dela de mudar e recomeçar, nasceu no coração de John um sentimento de misericordioso perdão, um desejo de ajudar Gayle a superar seu passado e de aceitá-la novamente por completo como sua esposa. ¶
Por meio de sua experiência pessoal, surgiu em John outra percepção profunda, uma compreensão da natureza do amor de Deus por nós, seus filhos. Ainda que desprezemos seu conselho, quebremos seus mandamentos e o rejeitemos, quando reconhecemos nossos erros e desejamos nos arrepender, ele quer que o busquemos, e ele nos aceitará. ¶
John havia sido preparado, por meio de suas experiências pessoais, para uma missão divina. Embora eu tenha tomado certa liberdade literária ao contar essa história, trata-se do relato, talvez alegórico, de Oseias, profeta do Velho Testamento, e sua esposa, Gômer. ¶
Ao retratar Deus, para o antigo Israel, como um pai amoroso e perdoador, Oseias anteviu, mais do que a maioria dos profetas do Velho Testamento, o espírito e a mensagem do Novo Testamento, do Livro de Mórmon e da revelação moderna. ¶
Nestes últimos dias, o Senhor disse: ¶
"Pois eu, o Senhor, não posso encarar o pecado com o mínimo grau de tolerância; ¶
"Entretanto, aquele que se arrepender e cumprir os mandamentos do Senhor será perdoado." (D&C 1:31–32.) ¶
Ao desobedecer às leis de Deus e quebrar seus mandamentos, nós o ofendemos, nos afastamos dele e não merecemos sua ajuda, sua inspiração e sua força. Mas o amor de Deus por nós transcende nossas transgressões. ¶
Quando desobedecemos às leis de Deus, a justiça exige que se faça compensação — exigência que somos incapazes de cumprir. Mas, por seu amor divino por nós, nosso Pai preparou um plano e um Salvador, Jesus Cristo, cujo sacrifício redentor satisfaz as exigências da justiça em nosso favor e torna possíveis o arrependimento, o perdão e a reconciliação com nosso Pai. Pois, na verdade, "Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:16.) ¶
Podemos aceitar esse grande dom por meio da fé em Jesus Cristo e do arrependimento, seguidos de um convênio feito com ele por meio do batismo da água e do Espírito. Então, semanalmente, ao recebermos o sacramento, renovamos nosso convênio de que sempre nos lembraremos dele e guardaremos os seus mandamentos. A promessa ligada a esse convênio é que possamos sempre ter o seu Espírito conosco. (D&C 20:77.) ¶
A antiga mensagem de Oseias se repete e se elabora ao longo de toda a escritura. Por meio de Isaías, outro profeta do Velho Testamento, o Senhor disse a seu povo: ¶
"Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal; ¶
"Aprendei a fazer o bem. … ¶
"Vinde agora, e argui-me, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã." (Isa. 1:16–18.) ¶
O Senhor, falando a Alma, o profeta nefita, diz: "O que transgredir contra mim, julgarás de acordo com os pecados que houver cometido; e se confessar seus pecados diante de ti e de mim e arrepender-se com sinceridade de coração, tu o perdoarás e eu também o perdoarei. ¶
"Sim, e tantas vezes quantas o meu povo se arrepender, perdoá-lo-ei de suas ofensas contra mim." (Mosias 26:29–30.) ¶
Com demasiada frequência tornamos o arrependimento mais difícil uns para os outros por não nos perdoarmos mutuamente. Contudo, somos admoestados na revelação moderna de que "vos deveis perdoar uns aos outros; pois aquele que não perdoa a seu irmão suas ofensas está em condenação diante do Senhor; pois nele permanece o pecado maior. ¶
"Eu, o Senhor, perdoarei a quem desejo perdoar, mas de vós é exigido que perdoeis a todos os homens." (D&C 64:9–10.) ¶
Também da revelação moderna vem um dos pronunciamentos mais reconfortantes e cheios de esperança já proferidos: ¶
Deus é nosso pai; ele nos ama; seu amor é infinito e incondicional. Sua tristeza é grande quando desobedecemos aos seus mandamentos e quebramos suas leis. Ele não pode tolerar nossas transgressões, mas nos ama e deseja que voltemos a ele. ¶
Não conheço maior incentivo ao arrependimento e à reconciliação com nosso Pai Celestial do que a consciência de seu amor por nós, pessoal e individualmente. Que essa consciência possa aumentar em cada um de nós é minha oração, à qual acrescento meu testemunho pessoal a vocês, individualmente, de que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o Salvador de toda a humanidade e o Redentor de cada um de nós, individualmente, no sagrado nome de Jesus Cristo, amém. ¶