"Um Irmão Ofendido"
Neal A. Maxwell
Nosso Pastor, Jesus Cristo, tem repetidamente nos aconselhado, irmãos, sobre as coisas que podem levar alguns em Seu rebanho a se tornarem inativos, indiferentes, ofendidos ou a se afastarem. Os cuidados e prazeres do mundo, a tentação, a perseguição, a tribulação — todos cobram seu preço; assim como ser injustiçado, ser ignorado e ver a hipocrisia em outros. (Ver Mateus 13:21; 24:10; Lucas 8:13–14.) ¶
Irmãos, exceto por nossas próprias famílias, nenhum grupo de homens precisa mais de nós do que essas almas. Diferentemente daqueles que nunca ouviram o evangelho, esses indivíduos conheceram alguma luz e, portanto, têm alguma responsabilidade — daí a urgência! ¶
Esta obra de reativação frequentemente envolve estudo em grupo e confraternizações, mas, essencialmente, é feita uma alma de cada vez, silenciosamente e com dignidade. É feita menos "pelos números" e mais "pelo Espírito." É menos técnica do que cuidado genuíno, mais estender uma mão amiga do que escrever novos manuais. ¶
Não há truques engenhosos, e campanhas apressadas em geral fracassam, pois "o irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte." (Provérbios 18:19.) Além disso, embora devamos ficar em terreno mais elevado para erguer outra pessoa, não deve haver condescendência nem sugestão de que nossa preocupação seja estatística, e não espiritual. Tampouco as almas devem ser abandonadas logo depois de terem sido cuidadosamente erguidas. Afinal, quantas vezes devemos encontrar os eleitos? ¶
Um primeiro passo é reconhecer, quando conhecidas, as causas da inatividade nesses homens. Isso frequentemente sugere como personalizar nossas expressões de preocupação. Contudo, nunca subestimem o poder de estender, em particular, um desafio simples, amoroso, mas direto. Embora possa não ser correspondido, tal amor nunca é desperdiçado. ¶
Segundo, reconheçam que esta obra exige tempo; ela interrompe nossa rotina normal. A parábola do Bom Samaritano nos ensina isso. (Ver Lucas 10:29–37.) Algumas feridas requerem mais do que um curativo rápido. ¶
Um terceiro passo, a ser supervisionado pelos comitês executivos do sacerdócio e pelos conselhos de correlação da ala, é o cuidadoso emparelhamento de pessoa a pessoa. O amor organizado é melhor do que a preocupação generalizada. Contudo, este trabalho redentor não deve ser tão institucionalizado a ponto de os amigos e vizinhos sentirem-se dispensados de suas responsabilidades. É necessário um esforço inspirado, pois, na obra de reativação, a melhor abordagem pode ser a única abordagem! Jejuar e orar pode ser necessário para saber quando é o momento certo de abordar determinado irmão. ¶
Quarto, proporcionem a esses indivíduos uma nova oportunidade de servir, porque eles são genuinamente necessários. Moisés aprendeu esse princípio ao recrutar Hobabe como guia. (Ver Números 10:29–32.) Lembrem-se de que, embora a condição deles clame por amor incondicional, geralmente desejam uma modesta chance de expressar seu próprio amor e talentos. Por exemplo, as presidências dos quóruns de élderes devem organizar vários comitês apropriados, cada um presidido por um élder ativo, que deve reportar-se regularmente à presidência do quórum, com dois ou três irmãos ativos para auxiliar. A cada comitê podem ser dados os nomes dos irmãos inativos com maior probabilidade de responder quando convidados a servir naquele comitê, como um comitê esportivo ou de bem-estar. É menos provável que esses homens inativos respondam a um convite geral para começar a frequentar a igreja do que a um pedido para servir em um comitê específico que leve em conta seus interesses. Um irmão inativo começou a servir como recepcionista e hoje é bispo. ¶
É significativo, irmãos, que os membros da Igreja não se tornavam inativos ao atravessar as planícies, quando o senso de pertencimento e de ser necessário era tão profundo. ¶
Quinto, proporcionem o ensino necessário. A ativação requer conversão. Crer requer que as crenças do evangelho sejam compreendidas. A instrução do quórum e as aulas de Princípios do Evangelho devem ser de alta qualidade. Os presentes precisam sentir o Espírito enquanto são ensinados. Esses indivíduos precisam do pão da vida, não de migalhas da mesa. Afinal, o pai do filho pródigo preparou uma festa para o que retornava — ele não simplesmente esquentou algumas sobras! ¶
Os seminários de preparação para o templo devem ter informalidade suficiente para tornar possível o aprendizado real. Designem casais de amizade para participar desses mesmos seminários junto com os casais inativos. Os participantes devem ser amorosamente encorajados a estabelecer algumas metas pessoais a fim de se prepararem para ir ao templo. ¶
Pesquisas indicam que 30 por cento daqueles convidados a comparecer aos seminários comparecerão! Dos restantes, a experiência mostra que oito em cada dez, quando abordados adequadamente, permitirão que líderes do sacerdócio entrem em seus lares para ensiná-los. Irmãos, diante de tais realidades, do que temos medo? ¶
Essas estatísticas animadoras sugerem quão importante é não ficarmos parados torcendo as mãos, mas fazer algo! A razão, francamente, irmãos, pela qual tão pouco está acontecendo é que tão pouco está sendo tentado. Um entalhador experiente foi perguntado como se começa a ser entalhador. Ele respondeu com franqueza: "Comece fazendo algumas lascas." Irmãos, comecemos a fazer algumas lascas! ¶
Um sexto passo é lembrar que a mão do Senhor está nesta obra. Ele pode trazer as circunstâncias em que tais almas estejam "em uma preparação para ouvir a palavra." (Alma 32:6.) Seu Espírito pode instigar os pródigos — alguns dos quais recobrarão o juízo. E, quando isso acontecer, corramos para recebê-los enquanto ainda estão "muito longe." (Lucas 15:20.) ¶
Sétimo, prevenir é sempre melhor do que reabilitar. Às vezes, ironicamente, a prevenção não requer mais do que alguns minutos extras de conversa amorosa ou uma expressão de empatia. Receber o sacerdócio e uma designação na igreja logo após o batismo não apenas ajuda a firmar os novos conversos, mas também auxilia outros trabalhadores da Igreja que estão ocupados e cujas mãos pendem e cujos joelhos estão enfraquecidos. (Ver D&C 81:5.) ¶
Da mesma forma, como subpastores do Senhor, tomemos o cuidado preventivo de estabelecer um ritmo prudente para as atividades da Igreja e as contribuições financeiras extras. O Senhor deseja dedicação, não prostração! Até mesmo o vital Livro de Mórmon foi traduzido apenas na medida em que a força e os meios foram providos. (Ver D&C 10:4.) ¶
Agora, irmãos, afastemo-nos um pouco dos detalhes deste desafio exigente e falemos das realidades e responsabilidades gerais, tanto para os homens inativos quanto para os ativos — em uma Igreja perfeita repleta de indivíduos imperfeitos. Parte da masculinidade que acompanha o sacerdócio exige que levemos em conta coisas como as seguintes. ¶
Reconheçamos que o caminho estreito e apertado, embora claramente demarcado, é um caminho, não uma rodovia nem uma escada rolante. De fato, há momentos em que a única maneira de seguir o caminho estreito e apertado é de joelhos! E devemos ajudar uns aos outros ao longo do caminho, e não ofender. ¶
Seja qual for a ofensa perturbadora que retire alguém desse caminho, uma vez que ela ocorra, a menos que essa pessoa seja humilde, sua busca começa — mas por vindicação, não por reconciliação e comunicação. Irmãos, é tão difícil carregar nossa cruz e nossos ressentimentos também. ¶
Rapidamente esquecido por aqueles que se ofendem é o fato de que a Igreja é "para o aperfeiçoamento dos santos" (Efésios 4:12); ela não é uma casa de repouso bem provida para os já aperfeiçoados. ¶
Da mesma forma, esquecida por alguns está a realidade de que, no reino, somos o material clínico uns dos outros; o Senhor nos permite praticar uns nos outros, mesmo em nossas imperfeições. E cada um de nós sabe o que é ser tratado por um "estudante" em vez de um cirurgião experiente. Cada um de nós, ainda que sem intenção, também já infligiu alguma dor. ¶
Frequentemente não considerados, também, são os diferentes estilos de liderança que experimentamos no reino. Paulo foi cuidadosamente sensível à necessidade de não ofender os membros fracos ao comer carne (ver 1 Coríntios 8:13), ao passo que a dieta de gafanhotos e mel silvestre de João Batista talvez não se tenha mostrado contagiante — certamente não entre a elite social de Jerusalém. ¶
É nossa responsabilidade individual e constante evitar "olhar para além do marco." (Jacó 4:14.) Meu foco é minha responsabilidade! O que deve ser mais focalizado — o fato de que Pedro andou brevemente sobre a água ou que ele não continuou? Algum outro mortal já andou assim, mesmo que brevemente? ¶
Pessoas imperfeitas são, de fato, chamadas por nosso Senhor perfeito para auxiliar em Sua obra. O Senhor declarou a certos associados de Joseph Smith que sabia que eles haviam notado pequenas imperfeições de Joseph. Ainda assim, o Senhor então testificou que as revelações dadas por meio do Profeta eram verdadeiras! (Ver D&C 67:5, 9.) ¶
Não é de surpreender, portanto, que percebamos as fraquezas uns dos outros. Mas não devemos celebrá-las. Sejamos gratos pelos pequenos progressos que nós e os outros fazemos, em vez de nos alegrarmos com as falhas. E quando ocorrerem erros, que se tornem instrutivos, não destrutivos. ¶
Aprecio muito estas generosas linhas daquele profeta-editor tão capaz, mas tão humilde, Morôni: ¶
"Não me condeneis, em virtude de minha imperfeição, nem a meu pai, por causa de sua imperfeição, nem àqueles que escreveram antes dele; mas antes dai graças a Deus por ele vos ter manifestado nossas imperfeições, para que aprendais a ser mais sábios do que nós fomos." (Mórmon 9:31; itálico adicionado.) ¶
Se essa for nossa atitude, é muito menos provável que nos ofendamos. ¶
Além disso, se a escolha for entre reformar outros membros da Igreja ou a nós mesmos, existe realmente alguma dúvida sobre por onde devemos começar? A chave é ter os olhos bem abertos para nossas próprias falhas e parcialmente fechados para as falhas dos outros — não o contrário! As imperfeições dos outros nunca nos liberam da necessidade de trabalhar em nossas próprias deficiências. ¶
Pessoas que passam o tempo procurando pés de barro perderão não somente os céus onde Deus se move em Sua majestade e poder, mas também a majestade de Deus enquanto Ele aperfeiçoa e molda uma alma. ¶
Assim, no dá-e-recebe do reino, empurramos e somos empurrados. As ofensas virão. (Ver Mateus 18:7.) Uma vez que o ego é imprudentemente comprometido, nenhuma causa parece trivial demais para alguns. Em uma disputa sobre leite, Thomas B. Marsh logo se deixou ofender pelo Profeta Joseph. ¶
Lorenzo Snow, contemporâneo de Marsh, disse que, embora também tivesse notado algumas pequenas imperfeições no Profeta Joseph, era grato por o Senhor poder usar Joseph Smith para uma obra tão significativa. Assim, talvez houvesse alguma esperança para ele, Lorenzo Snow. De fato, havia esperança para o Presidente Snow, que via os outros com caridade, como que através das "janelas do céu." ¶
Os profetas precisam de orientação, como todos nós. Contudo, isso é algo que o Senhor parece muito capaz de administrar sem exigir uma multidão de auxiliares. O Senhor fornece um retorno discreto, mas necessário, como fez com Pedro por meio do som estridente do canto do galo (ver Lucas 22:54–62), ou com um Moisés que não delegava, por meio de um sogro atencioso, observador e sábio — sem que Jetro precisasse colocar um anúncio no Jornal do Sinai (ver Êxodo 18:13–16). ¶
Felizmente para todos nós, o evangelho é redentor. Ele não se concentra na falha de Pedro no salão do sumo sacerdote, mas no testemunho de Pedro sobre Jesus, corajoso e retumbante, perante Anás, Caifás e o conselho. (Ver Atos 4:5–12.) ¶
Além disso, ao vermos os outros, a humildade deve nos aconselhar que não temos todos os dados. Embora Pedro e Paulo tenham tido uma divergência sobre uma política específica, mas passageira, da Igreja na meridiana dos tempos, o registro ainda não nos conta sobre o desenvolvimento de seu relacionamento na riqueza de sua especial irmandade apostólica. ¶
Além disso, no verdadeiro discipulado, ninguém lamenta uma falha mais do que aquele que a cometeu sinceramente. Quem está mais consciente das imperfeições em seus escritos do que os próprios escritores da palavra de Deus? ¶
"E aqueles que receberem este registro e não o condenarem por causa das imperfeições que contém, conhecerão coisas maiores do que estas." (Mórmon 8:12.) ¶
E quem, mais do que o Senhor, sabe o que custa transmitir Suas verdades eternas por meio de mortais? "Eis que eu sou Deus e disse-o; estes mandamentos são meus e foram dados a meus servos em sua fraqueza, conforme a sua maneira de falar, para que alcançassem entendimento." (D&C 1:24.) ¶
Além das fontes usuais de ofensa, há aquelas circunstâncias especiais, e fazemos bem em observá-las, que podem levar até pessoas fortes a vacilar brevemente. Antes de Seu julgamento, Jesus disse aos Doze como o Pastor logo seria ferido e as ovelhas se dispersariam. Pedro negou que fosse vacilar, e "da mesma maneira diziam todos também." (Ver Marcos 14:26–31.) ¶
Antes de julgar esses discípulos, considerem suas circunstâncias angustiantes. As coisas pareciam realmente sinistras para o rebanho. Eles estavam compreensivelmente temerosos à medida que o establishment os cercava. O perigo para os discípulos era real; por isso Jesus os encorajou a partir. Então seu Salvador submeteu-se à prisão, ao julgamento e até mesmo à crucificação! Os discípulos sentiram intensamente a privação e a humilhação dessas circunstâncias, que — embora avisados — ainda não haviam plenamente esperado. Contudo, muito em breve, exatamente como preordenado, esses fiéis subpastores se reergueram e prosseguiram com a gloriosa obra do Salvador. ¶
Não prevaleceram brevemente, em Nauvoo, circunstâncias de certa forma semelhantes? ¶
Agora, irmãos, o adversário e seus auxiliares continuarão a procurar desacreditar os subpastores de hoje, a fim de tentar dispersar algumas das ovelhas. ¶
Quando tanto as circunstâncias quanto os ensinamentos se tornaram difíceis de suportar, Jesus perguntou aos Doze: "Quereis vós também retirar-vos?" A pergunta é a mesma hoje, e a resposta também: "Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. ¶
"E nós cremos e sabemos que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." (João 6:67–69.) ¶
Ao concluir, apelo aos ofendidos e inativos: não deixem que o ontem mantenha o amanhã refém! Afastem-se de seu investimento nas ações de centavos do orgulho; elas nunca pagam dividendos. ¶
Lembrem-se, também, de que não é o rebanho, o corpo da Igreja e seus líderes, que se desgarra, mas indivíduos que se desgarram. (Ver Mateus 18:12–14.) ¶
Da mesma forma, apelo a todos nós que consideremos de novo este conselho de Jesus: "Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão." (Mateus 18:15.) Vencer um argumento não se compara a "ganhar" um irmão! ¶
Tenhamos todos um cuidado extra para evitar tanto ofender quanto nos ofendermos. ¶
Sejamos amorosos, bondosos e clementes — ajudando esses amigos a se tornarem, como disseram Pedro e Paulo, arraigados, fundados, estabelecidos e firmados! (Ver Efésios 3:17; 1 Pedro 5:10.) "O tempo está avançado." (Hinos, nº 184.) ¶
Saboreiem estas palavras citadas por um magnânimo e clemente Profeta Joseph Smith a um arrependido e retornante W. W. Phelps: ¶
Venha, querido irmão, já que a guerra passou, ¶
Pois amigos no início são amigos de novo, ao final. ¶
(Citado em History of the Church, 4:164.) ¶
Tal é meu conselho, irmãos. Tal é minha oração. É dada em nome dAquele que disse: "Bem-aventurado aquele que em mim não se escandalizar" (Lucas 7:23). A capacidade redentora de Jesus e Seu amor fazem-No permanecer exatamente junto ao portão, e nos é dito que Ele nos espera ali de braços abertos. Assim o certifico em nome de Jesus Cristo, amém. ¶