Cinco Milhões de Membros — Um Marco, Não um Cume
Gordon B. Hinckley
Como vocês ouviram, no início desta semana o número de membros da Igreja atingiu cinco milhões. Este é um marco significativo. É uma ocasião para gratidão silenciosa, mas também para reflexão sóbria. Aqueles que lançaram os alicerces desta obra devem regozijar-se grandemente. ¶
E aqueles de sua geração que, com amargura, previram que ela se enfraqueceria e morreria devem, se estiverem em condição de saber, olhar com espanto e frustração para o que Deus realizou. Pois esta é a obra dele, e ele a trouxe até sua força atual por meio de seu poder milagroso. Foi ele quem a abriu nesta dispensação do tempo. Nesse processo, ele usou como instrumento um rapaz de mente limpa e desimpedida, na qual podia ser infundida a instrução de seres divinos e a revelação que vem por meio do Espírito Santo. ¶
Foi Deus quem plantou no coração de homens e mulheres a fé para reconhecer um profeta escolhido no jovem Joseph Smith. Foi o Espírito de Deus que abriu seus olhos para o milagre deste notável Livro de Mórmon, que foi trazido à luz como uma voz que fala do pó em testemunho de que Jesus é o Cristo. (Ver 2 Néfi 33:13.) ¶
Foi ele quem deu força e coragem quando os próprios poderes do inferno se mobilizaram contra a Igreja em sua infância e contra aqueles poucos que compunham seus membros. Graças a ele, esses dias já ficaram para trás. Já se foram os terrores das marchas forçadas no inverno, das casas incendiadas e templos profanados, das sepulturas sem identificação nas pradarias e dos soluços noturnos daqueles que ficaram desamparados e sozinhos. ¶
Hoje caminhamos sob a luz do sol da boa vontade. A Igreja é amplamente respeitada e honrada. A virtude de nosso povo e a integridade de nossos esforços passaram a ser reconhecidas e apreciadas. ¶
Sejamos gratos. Mas não sejamos arrogantes. Sejamos, sim, agradecidos e humildes, como convém àqueles que são beneficiários de tão ricas bênçãos do Todo-Poderoso. ¶
Este é um momento para nos perguntarmos se, embora tenhamos crescido em número e força, estamos mais próximos da perfeição na virtude de nossa vida individual. O marco de cinco milhões de membros só tem real significado na medida em que, como povo, trouxermos o evangelho para nossa vida e demonstrarmos seus frutos em nossas ações. O Senhor nos lembrou em termos inequívocos que "daquele a quem muito é dado, muito é exigido." (D&C 82:3.) ¶
À medida que avançamos, nunca devemos nos distrair da grande e imperativa tríade de responsabilidades imposta à Igreja: primeiro, levar o evangelho de Jesus Cristo aos povos da terra; segundo, implementar esse evangelho na vida dos membros da Igreja; e, terceiro, estender, por meio da obra vicária, suas bênçãos àqueles que já passaram pelo véu da morte. Nossa missão é "tão vasta quanto a eternidade e tão profunda quanto o amor de Deus." A fidelidade a essa missão nos trouxe a este marco significativo, e este deve ser apenas um marco, e não um cume. ¶
O Senhor estabeleceu os parâmetros desta obra quando declarou: "E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim." (Mateus 24:14.) ¶
Este é o nosso grande desafio e nossa responsabilidade. ¶
Não tenho dúvida alguma de que esta obra continuará a crescer em magnitude. Estou confiante de que seu progresso será fortalecido se nosso povo viver o evangelho com fidelidade e devoção. Em harmonia com essa observação, gostaria de sugerir cinco imperativos para que os observemos. ¶
O primeiro: Devemos apegar-nos firmemente à doutrina. ¶
O evangelho, para mim, não é complexo. É um padrão belo e simples, uma fonte constante de força, um manancial de fé. A pedra angular dessa doutrina é que Deus é nosso Pai Eterno e Jesus é o Cristo, nosso Redentor vivo. Somos filhos e filhas de Deus. Ele nos ama e nos convida a amá-lo, mostrando esse amor por meio do serviço aos outros de seus filhos. Seu Filho Amado é nosso Salvador, que deu a vida na cruz do Calvário como sacrifício vicário pelos pecados da humanidade. Pelo poder de sua divina filiação, ele ressuscitou da sepultura, tornando-se "as primícias dos que dormem" (1 Coríntios 15:20), assegurando a todos uma ressurreição dos mortos e convidando cada um de nós a participar da vida eterna, de acordo com nossa obediência às suas leis e mandamentos. ¶
Eles, isto é, o Pai e o Filho, apareceram ao jovem Joseph Smith em uma manifestação gloriosíssima e maravilhosa para abrir esta, a dispensação da plenitude dos tempos. (Ver D&C 112:30.) Todos os elementos das concessões anteriores de ensino e autoridade divinos agora são reunidos, por meio da restauração, em uma dispensação final e eterna. ¶
Deus não nos deixou na ignorância, a caminhar nas trevas. Sua palavra, proferida tanto antigamente quanto em nossa geração, está disponível a todos para ler, ponderar e aceitar. Há muitos livros entre nós e muitos pregadores, e encontro virtude nas palavras de todos eles. Mas a mais verdadeira fonte de sabedoria divina é a palavra do Senhor nesses volumes sagrados, as obras-padrão da Igreja. Aqui se encontra a doutrina à qual devemos nos apegar firmemente, se esta obra há de avançar rumo ao destino que Deus lhe traçou. ¶
Meu segundo imperativo: Devemos implementar essa doutrina mais plenamente em nossa vida. ¶
O panfleto missionário mais persuasivo é a vida exemplar de um Santo dos Últimos Dias fiel. Vivemos em um tempo em que as pressões da vida tornam tão fácil e tão tentador, em cumprimento das palavras de Néfi, cometer "pequenos pecados; sim, menti um pouco, aproveitai-vos de alguém por causa de suas palavras, abri uma cova para o vosso vizinho; … afastam de si os justos, sem motivo; e injuriam o que é bom." (2 Néfi 28:8, 16.) ¶
Disse o Salvador enquanto falava no monte: "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus." (Mateus 5:16.) ¶
Se nós, como povo, andarmos com integridade, formos honestos e morais em nossas ações, e colocarmos em nossa vida o princípio simples, básico e maravilhoso da Regra de Ouro, outros serão levados a indagar e a aprender. Tornar-nos-emos como uma cidade edificada sobre um monte, cuja luz não se pode esconder. (Ver Mateus 5:14.) Testemunharemos um cumprimento cada vez maior da promessa de Isaías: "E irão muitos povos, e dirão: Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine acerca dos seus caminhos, e andemos nas suas veredas." (Isaías 2:3.) ¶
Meu terceiro imperativo: Devemos trabalhar com mais diligência para cultivar um espírito de amor e caridade em nossos lares. ¶
Os lares de nosso povo têm sido grandes lares, onde houve amor, espírito de sacrifício, uma atitude de respeito mútuo. Haverá necessidade de maior ênfase nessas qualidades no futuro. O egoísmo é o câncer que expulsa a paz e o amor. O egoísmo é a raiz sobre a qual crescem a discórdia, a ira, a falta de respeito, a infidelidade e o divórcio. ¶
Ainda este mês dedicaremos um belo edifício novo no campus da Universidade Brigham Young à memória de uma mulher, Caroline Hemenway Harman. Vocês provavelmente nunca ouviram falar dela. Gostaria de contar-lhes brevemente sua história. ¶
Aos vinte e dois anos, Caroline casou-se com George Harman. Tiveram sete filhos, um dos quais morreu ainda bebê. Depois, quando ela tinha trinta e nove anos, seu marido faleceu, e ela ficou viúva. ¶
Sua irmã, Grace, havia se casado com o irmão de seu marido, David. Em 1919, durante a terrível epidemia de gripe, David foi seriamente acometido, e depois sua esposa, Grace, adoeceu. Caroline cuidou deles e de seus filhos, além dos próprios. No meio dessas aflições, Grace deu à luz um filho, e morreu poucas horas depois. Caroline levou o bebezinho para sua própria casa, ali o alimentou e salvou a vida da criança. Três semanas depois, sua própria filha, Annie, faleceu. ¶
A essa altura, Caroline havia perdido dois dos próprios filhos, o marido e a irmã. A tensão era grande demais. Ela sofreu um colapso. Saiu desse colapso com um caso sério de diabetes. Mas não diminuiu o ritmo. Continuou a cuidar do bebê da irmã; e seu cunhado, pai da criança, vinha todos os dias ver o menino. David Harman e Caroline mais tarde se casaram, e agora havia treze filhos em seu lar. ¶
Então, cinco anos depois, David sofreu uma catástrofe que provou até o fundo aqueles que sofriam junto com ele. Em certa ocasião, ele usou um desinfetante forte ao preparar sementes para plantio. Isso entrou em contato com seu corpo, e os efeitos foram desastrosos. A pele e a carne se desprenderam de seus ossos. A língua e os dentes caíram. A solução cáustica literalmente o consumiu vivo. ¶
Caroline cuidou dele nessa terrível enfermidade, e quando ele morreu, ela ficou com cinco filhos próprios e oito da irmã, e uma fazenda de 280 acres onde ela e as crianças aravam, semeavam, irrigavam e colhiam para obter o suficiente para suprir suas necessidades. Nessa época, ela também era presidente da Sociedade de Socorro, cargo que ocupou por dezoito anos. ¶
Enquanto cuidava de sua grande família e estendia a mão da caridade a outros, ela assava oito pães por dia e lavava quarenta cestos de roupa por semana. Ela conservava frutas e verduras às toneladas, e cuidava de mil galinhas poedeiras para obter um pequeno dinheiro extra. A auto-suficiência era seu padrão. Considerava a ociosidade um pecado. Cuidava dos seus e estendia-se a outros em um espírito de bondade que não permitia que ninguém, de quem ela soubesse, passasse fome, ficasse sem roupa ou sem calor. ¶
Mais tarde ela se casou com Eugene Robison, que, pouco depois, sofreu um derrame. Por cinco anos, até a morte dele, ela o cuidou e atendeu a todas as suas necessidades. ¶
Por fim, exausta, seu corpo abalado pelos efeitos do diabetes, ela faleceu aos sessenta e sete anos. Os hábitos de trabalho e diligência que incutiu em seus filhos recompensaram os esforços deles ao longo dos anos. O bebezinho de sua irmã, a quem ela alimentou desde a hora de seu nascimento, junto com seus irmãos e irmãs, todos agindo por um sentimento de amor e gratidão, deram à universidade um legado substancial que tornou possível o belo edifício que levará seu nome. ¶
É bom lembrar os homens e mulheres que fizeram contribuições notáveis nos campos da ciência, da educação, dos negócios e das artes. Seus exemplos podem motivar todos nós a esforços mais elevados. Quão apropriado também que se lembre, com uma estrutura bela e útil no campus de uma grande universidade, uma mulher, uma mãe, em grande parte desconhecida e não celebrada, que manteve unidas, nutriu, amou e criou até a maturidade útil duas grandes famílias, e tudo isso em um ambiente de adversidade esmagadora. ¶
Seu caso não é único, exceto em alguns detalhes. Na verdade, é de certa forma característico das grandes famílias dos primeiros dias da Igreja, que trabalharam juntas, no sol e na tempestade, para desbravar o deserto, educar os filhos e ensinar-lhes as artes refinadoras e habilidades úteis. ¶
As circunstâncias de nossa sociedade mudaram um tanto. Tornamo-nos, em grande parte, um povo urbano. Mas isso apenas ressalta a necessidade de esforço adicional para cultivar, nos anos vindouros, o espírito familiar, a apreciação da família e o amor familiar. ¶
Meu quarto imperativo: Devemos continuar, com ainda maior eficácia, a fortalecer e sustentar uns aos outros. ¶
O Senhor nos advertiu: "Portanto, fortalece os teus irmãos em todas as tuas conversas, em todas as tuas orações, em todas as tuas exortações, e em todos os teus feitos." (D&C 108:7.) ¶
Vivemos numa sociedade que se alimenta de críticas. A busca de defeitos é a matéria-prima de colunistas e comentaristas, e há demasiado disso entre o nosso próprio povo. É tão fácil encontrar defeitos, e resistir a isso exige muita disciplina. Mas se, como povo, edificarmos e sustentarmos uns aos outros, o Senhor nos abençoará com a força para suportar cada tempestade e continuar avançando através de cada adversidade. O inimigo da verdade procuraria dividir-nos e cultivar em nós atitudes de crítica que, se permitidas a prevalecer, só nos impedirão na busca de nosso grandioso objetivo, dado por Deus. Não podemos permitir que isso aconteça. Devemos fechar fileiras e marchar ombro a ombro, os fortes ajudando os fracos, os que têm muito auxiliando os que têm pouco. Nenhum poder na terra pode deter esta obra se assim nos conduzirmos. ¶
Meu quinto imperativo decorre do anterior, e é que avancemos com fé. Disse o Senhor a Seus santos em dias mais difíceis: "Portanto, não temais, pequeno rebanho; fazei o bem; deixai que a Terra e o inferno se unam contra vós, pois se estiverdes estabelecidos sobre minha rocha, eles não poderão prevalecer. ¶
"Buscai-me em cada pensamento; não duvideis, não temais." (D&C 6:34, 36.) ¶
Insto vocês a ver o quadro geral e a deixarem de se preocupar com as pequenas imperfeições. Abraham Lincoln era um homem de figura desajeitada, com um rosto longo e marcado. Havia muitos que olhavam apenas para as imperfeições de sua aparência. Havia outros que zombavam de seu jeito de andar, e mantinham os olhos tão baixos que jamais viram a verdadeira grandeza do homem. Essa visão ampliada veio apenas para aqueles que viram o caráter completo — corpo, mente e espírito — enquanto ele se colocava à frente de uma nação dividida em sua hora mais sombria, unindo-a "sem malícia para com ninguém, com caridade para com todos, com firmeza no direito conforme Deus" lhe permitia ver o direito. (Segundo Discurso Inaugural.) ¶
Claro, há aberrações em nossa história. Há imperfeições a serem encontradas, se procuradas, na vida de todos os homens, inclusive de nossos líderes passados e presentes. Mas estas são apenas incidentais diante da magnitude de seu serviço e da grandeza de suas contribuições. ¶
Mantenham diante de vocês o quadro geral, pois esta causa é tão grande quanto toda a humanidade e tão vasta quanto toda a eternidade. Esta é a igreja e o reino de Deus. Ela requer a força, a lealdade, a fé de todos, para que possa avançar e abençoar a vida dos filhos de nosso Pai sobre a terra. ¶
Ao atingirmos cinco milhões de membros, alcançamos um marco. Ele não deve ser um cume. Um futuro muito, muito maior está diante de nós. Sigamos adiante. Se nos apegarmos firmemente à doutrina, se vivermos com integridade, se cultivarmos amor e caridade em nossos lares, se edificarmos e sustentarmos uns aos outros e avançarmos com fé, o Todo-Poderoso, de quem é esta igreja, nos abençoará e abençoará sua gloriosa obra. Há tanto a fazer. Grandes sacrifícios foram feitos no passado para nos trazer a este nível de crescimento. Vidas foram entregues, e não foram poucas. Não nos é pedido que entreguemos a vida, e, na verdade, muito pouco do nosso conforto. Mas espera-se que doemos nossa lealdade, nossa devoção, nosso coração, mente, poder e força ao avanço desta, a obra do Senhor. (Ver D&C 59:5.) Que Deus nos ajude a ser fiéis, como aqueles que vieram antes de nós foram fiéis, enquanto caminhamos rumo à luz de um dia ainda mais brilhante e significativo, oro humildemente em nome de Jesus Cristo, amém. ¶