O Valor do Trabalho
J. Richard Clarke
Poucos escritores de nossa geração produziram o número e a qualidade de livros best-sellers que James A. Michener produziu. Fico impressionado com a amplitude de seus interesses e com seu compromisso com a excelência. Seu sucesso não é acidental. Não vem apenas do dom de um talento natural. Seu sucesso vem de ter desenvolvido o hábito do trabalho árduo. ¶
Ele foi criado na pobreza por uma mãe viúva. A partir dos onze anos, James trabalhava seis dias por semana em todos os verões e entregava jornais no inverno. Aos quatorze anos, tornou-se aprendiz de encanador e trabalhava catorze horas por dia no verão e quatro horas por dia no inverno. Olhando para trás, ele diz: "Em vez de me afastar do trabalho, isso gravou em mim a atitude de que pessoas sensatas trabalham arduamente para alcançar objetivos sensatos — uma filosofia à qual ainda hoje sigo fiel." ("An Authentic Work Ethic: I. The Path to Achievement," Reader's Digest, jan. de 1977, p. 149.) ¶
O trabalho é uma bênção de Deus. É um princípio fundamental da salvação, tanto espiritual quanto temporal. Quando Adão foi expulso de seu lar no jardim, foi-lhe dito que seu pão teria de ser produzido por seu labor físico, pelo suor de seu rosto. Observem com atenção as palavras: "Maldita será a terra por tua causa" (Moisés 4:23; itálico acrescentado), ou seja, para seu próprio bem ou benefício. Não seria fácil dominar a terra; mas esse era o seu desafio e a sua bênção, assim como é a nossa. ¶
Somos cocriadores com Deus. Ele nos deu a capacidade de realizar a obra que Ele deixou inacabada, de aproveitar a energia, extrair o minério, transformar os tesouros da terra para nosso bem. Mas o mais importante é que o Senhor sabia que, do crisol do trabalho, emerge o núcleo sólido do caráter. ¶
O trabalho tornou-se uma marca registrada mórmon. Somos conhecidos em todo o mundo como um povo altamente motivado e diligente. Eric Hoffer certa vez advertiu: "Ponha um mórmon numa tremonha, e o que sai é um magnata." (Citado por C. Brooklyn Derr em Ensign, fev. de 1978, p. 3.) ¶
Esse intenso compromisso com a ética do trabalho é nossa tradição. A diligência mórmon deixou sua marca em cada palmo de terra que ocupamos. Missouri, Nauvoo, a Bacia do Lago Salgado, e todos os vales das montanhas onde os santos se estabeleceram são monumentos famosos ao labor mórmon. ¶
Sobre esse período, o Presidente J. Reuben Clark observou: "Avançamos por nossa própria força, sem subsídio, sem empréstimo, incentivados em nosso caminho apenas pelas maldições daqueles que nos expulsaram de nossos próprios lares e depois se apropriaram, sem pagar por isso, dos bens que nos forçaram a deixar para trás. ... ¶
Assim lutamos contra a necessidade e a miséria; o labor e as dificuldades estavam conosco diariamente. ... ¶
Mas a Igreja sobreviveu; o povo prosperou. O caráter permaneceu intacto. Cuidamos de nossos próprios pobres. Em tempos de escassez, os vizinhos se ajudavam uns aos outros. ¶
Repetidas vezes passamos pela fornalha ardente; saímos dela, a cada vez, refinados, com a escória queimada, reanimados, santificados." (Church Welfare Plan, panfleto, 1939, pp. 8–9; itálico acrescentado.) ¶
Nesse compromisso, nossos profetas lideraram pelo exemplo. Diz-se que o Presidente Wilford Woodruff amava o trabalho. "Para ele, era uma bênção, um privilégio. ... Seu labor nos desfiladeiros, seu suor no campo da colheita, ... eram todas partes importantes da economia divina. ... ¶
Suar era um mandamento divino, tanto quanto orar." (Matthias F. Cowley, Wilford Woodruff: History of His Life and Labors, Salt Lake City: Deseret News, 1909, pp. 644–45.) ¶
Em nossos dias, não conheço melhor exemplo de obediência à lei divina do trabalho do que o Presidente Kimball. Personificando sua filosofia de "Fazei-o!", o Presidente Kimball se comprometeu não apenas com a busca da felicidade, mas com a felicidade da busca. Em certa ocasião, quando o Dr. Wilkinson demonstrou preocupação com a saúde do Presidente Kimball e as crescentes exigências que ele fazia a seu corpo, o Presidente Kimball respondeu, gentilmente: "Seu trabalho, irmão Wilkinson, é me manter no ritmo em que estou indo." ¶
Isso me lembra do fazendeiro que se sentia um pouco indisposto e foi ao médico. Após o exame, o médico lhe disse que seu problema era estar queimando a vela pelos dois lados. O fazendeiro respondeu: "Eu já sabia disso antes de vir. O que eu quero do senhor é um pouco mais de cera." ¶
A dedicação total do Presidente Kimball ao seu trabalho estabelece um padrão elevado para todos nós. Temos a obrigação moral de exercer nossas capacidades pessoais de mente, músculo e espírito, de modo a devolver ao Senhor, a nossas famílias e à nossa sociedade os frutos de nossos melhores esforços. Fazer menos que isso é viver nossa vida de forma incompleta. É negar a nós mesmos, e àqueles que dependem de nós, a oportunidade e a vantagem. Trabalhamos para ganhar a vida, é verdade; mas, ao trabalharmos, lembremo-nos também de que estamos construindo uma vida. Nosso trabalho determina o que essa vida será. ¶
O trabalho é honroso. É uma boa terapia para a maioria dos problemas. É o antídoto para a preocupação. É o equalizador para a deficiência de dom natural. O trabalho torna possível que o comum se aproxime do genial. O que nos falta em aptidão, podemos compensar em desempenho. ¶
Como recomendou Korsaren: "Se você é pobre, trabalhe. ... Se você é feliz, trabalhe. A ociosidade dá espaço às dúvidas e aos temores. Se vierem as decepções, continue trabalhando. Se a tristeza o dominar, ... trabalhe. ... Quando a fé vacilar e a razão falhar, apenas trabalhe. Quando os sonhos se despedaçarem e a esperança parecer morta, trabalhe. Trabalhe como se sua vida estivesse em perigo. Ela realmente está. Não importa o que o aflija, trabalhe. Trabalhe fielmente. ... O trabalho é o maior remédio disponível tanto para as aflições mentais quanto para as físicas." (The Forbes Scrapbook of Thoughts on the Business of Life, Nova York: Forbes Inc., 1968, p. 427.) ¶
Permitam-me sugerir outros elementos da ética do trabalho que são importantes: ¶
Como Santos dos Últimos Dias, se quisermos ser fiéis à nossa religião, precisamos realizar um trabalho de alta qualidade. É uma questão de integridade. Cada trabalho que fazemos é um retrato de quem o produziu. Estamos cada vez mais preocupados com a qualidade decrescente do trabalho em nossa sociedade. Vemos por toda parte um trabalho malfeito pelo qual se espera compensação total, seja o produto compatível com os padrões aceitáveis ou não. Precisamos ser motivados por um ideal mais elevado do que simplesmente atender ao padrão artificial de uma sociedade que permitiu que o desempenho inferior se tornasse aceitável. Essa não é a ética mórmon. Em tempos de desemprego, os Santos dos Últimos Dias que praticam os princípios de trabalho de nossa religião deveriam estar em grande demanda. ¶
Demos um esforço pleno e honesto a nossos empregos, como se fôssemos donos do empreendimento. Num sentido bem real, cada um de nós tem seu próprio negócio, não importa quem nos pague. Sejam honestos com seu empregador. Certifiquem-se de que "o trabalhador é digno de seu salário." (D&C 84:79.) Nossos empregadores deveriam receber de nós o melhor que temos, não apenas o suficiente para nos safarmos ou para atender aos padrões comuns. Cada um de nós deveria estabelecer um padrão pessoal baseado em nossa capacidade. Exemplifiquemos o antigo lema pioneiro: Um Dia Completo de Trabalho por um Dia Completo de Salário. ¶
Continuem a investir em seu desenvolvimento pessoal. Ampliem seus horizontes profissionais mediante estudo constante. Usem seu tempo livre com sabedoria. Se desperdiçarmos treze minutos por dia, isso equivale a duas semanas por ano sem remuneração. Vejam seu emprego atual como um trampolim ao longo de sua carreira. Reservem tempo para pensar. As dimensões da maioria dos empregos são limitadas apenas pela mente do trabalhador sem criatividade. Gosto do que um empresário aconselhou: "Se, à primeira, você tiver sucesso, tente algo mais difícil!" ¶
Ensinar nossos filhos a trabalhar é um dever primordial da paternidade. Nossos filhos experimentaram uma prosperidade sem precedentes, criada por pais que trabalharam arduamente para prover o que eles mesmos não tiveram quando jovens. Se quisermos salvar nossos filhos temporal e espiritualmente, precisamos treiná-los para o trabalho. Eles precisam aprender pelo exemplo que o trabalho não é uma labuta penosa, mas uma bênção. ¶
Afortunado é o jovem, homem ou mulher, que aprendeu a trabalhar. Sábio é o pai que exige que os filhos aprendam a responsabilidade e a cumprir padrões aceitáveis de desempenho. ¶
Numa homenagem no Dia das Mães, uma adorável mãe Santa dos Últimos Dias, Beverly Graham, expressou gratidão por sua formação no lar. Ela disse: ¶
"O amor de minha mãe incluía disciplina rigorosa, regras definidas e normas firmemente aplicadas. Usávamos essas regras como o amido de nossa espinha dorsal. ¶
Minha mãe amava ser mãe e senhora e apreciava as artes de cuidar do lar. Ela transmitiu isso a mim e à minha irmã. Foi com grande paciência que ela nos ensinou a costurar, cozinhar, limpar a casa, passar roupa etc. Passar a ferro novamente uma das camisas brancas de papai até que ficasse perfeita pode ser uma bênção? Ou levantar para lavar e passar roupa antes da escola — uma bênção? Ou descascar beterrabas, debulhar ervilhas por horas, descascar montes e montes de milho para conservas, colher frutinhas ao raiar do dia antes que o sol ficasse quente demais — bênçãos? Vocês não conseguiriam me convencer disso na época, mas conseguem agora. Elas me ensinaram grandes lições sobre o valor da poupança, do trabalho e da responsabilidade." ¶
Ao ensinarmos esses valores a nossos filhos, enfatizemos o princípio da responsabilidade compartilhada. Não se deixem confundir por tentativas de rotular certos trabalhos como estritamente masculinos ou estritamente femininos. De modo geral, cada filho deveria saber fazer uma culinária simples, lavar louça, limpar a casa, cortar a grama, cuidar do bebê e lavar o carro. Essas habilidades farão muito para tornar sua vida adulta mais feliz e mais produtiva. ¶
Agora, e quanto ao nosso tempo de lazer? A forma como usamos nosso lazer é tão importante para nossa alegria quanto nossas ocupações profissionais. O uso adequado do lazer requer discernimento criterioso. Nosso lazer proporciona a oportunidade de renovação do espírito, da mente e do corpo. É um tempo para adoração, para a família, para o serviço, para o estudo, para a recreação sadia. Ele traz harmonia à nossa vida. ¶
Lazer não é ociosidade. O Senhor condena a ociosidade. Ele disse: "Não desperdiçarás teu tempo nem enterrarás teu talento." (D&C 60:13.) A ociosidade, em qualquer forma, produz tédio, conflito e infelicidade. Cria um vazio de valor, um terreno fértil para a maldade e o mal. É inimiga do progresso e da salvação. ¶
O trabalho é um elemento essencial no plano de bem-estar do Senhor; mas é um tipo especial de trabalho. O trabalho dos membros, santificado pelo amor, produz os bens que resolvem as necessidades materiais de nossos pobres dignos. O trabalhador é abençoado e santificado em seu serviço desinteressado. O membro necessitado aceita a assistência no espírito de amor e gratidão. Ele sabe que ela foi provida pelo labor e pelo sacrifício dos membros da Igreja. Na medida de sua capacidade, o membro necessitado trabalha por aquilo que recebe, conforme designado pelo bispo, preservando assim sua dignidade. ¶
O indivíduo é de suma importância no plano do Senhor. Qualquer sistema que não exija iniciativa, autossuficiência e a necessidade de trabalhar por aquilo que recebemos, se formos capazes, não preservará sua integridade. O propósito do plano de bem-estar da Igreja é abolir a esmola. A esmola é uma praga em qualquer sistema de bem-estar e deveria ser temida como um câncer no corpo humano. ¶
Brigham Young declarou: "Nunca é benéfico dar ... a homem ou mulher, dinheiro, comida, roupa, ou qualquer outra coisa, se são capazes fisicamente e podem trabalhar e ganhar o que precisam. ¶
Dar ao ocioso é tão perverso quanto qualquer outra coisa. Nunca dê nada ao ocioso. ¶
Ponham os pobres para trabalhar." (Discourses of Brigham Young, sel. John A. Widtsoe, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1954, pp. 274–75.) ¶
O Presidente Clark acrescentou: "Irmãos, ... façam o possível para que aqueles ... que consomem estejam entre os que produzem. É um princípio ... que destrói o caráter [e] a iniciativa chegar ao estado de espírito em que nosso sustento vem como um presente." (Transcrição de discurso proferido em reunião de bem-estar, abr. de 1960, p. 3.) ¶
Em sentido mais amplo, o trabalho é o meio para alcançar a felicidade, a prosperidade e a salvação. Quando o trabalho, o dever e a alegria se misturam, então o homem está em seu melhor. Tagore escreveu: ¶
Eu dormi e sonhei ¶
Que a vida era alegria ¶
Acordei e vi ¶
Que a vida era dever ¶
Eu agi, E eis que ¶
O dever era alegria! ¶
(Citado por Earl Nightingale, "Our Changing World," nº 5193.) ¶
O trabalho foi instituído desde o princípio como o meio pelo qual os filhos de Deus deveriam cumprir sua mordomia terrena. O trabalho é nossa herança divina. O Élder Stephen L Richards ensinou: "O trabalho com fé é um ponto cardeal de nossa doutrina teológica, e nosso estado futuro — nosso céu — é vislumbrado em termos de progressão eterna, por meio do labor constante." (In Conference Report, out. de 1939, pp. 65, 68.) ¶
A voz do Senhor a esta geração é: ¶
"Eis que vos digo que é minha vontade que sigais avante e não vos demoreis, nem sejais ociosos, mas trabalheis com toda a vossa força. ... ¶
E, assim, se fordes fiéis, sereis carregados com muitos molhos e coroados com honra e glória e imortalidade e vida eterna." (D&C 75:3, 5.) ¶
A isso testifico, em nome do Senhor Jesus Cristo, amém. ¶