Pulpit

A Lei Perfeita da Liberdade

Marion G. Romney

Conferência Geral de Outubro de 1981·Priesthood Session·1981-10-01

Intitulei estas palavras “A Lei Perfeita da Liberdade”.

Quando jovem, fui tocado pelo célebre brado de guerra de Patrick Henry: “Dai-me a liberdade ou dai-me a morte!”

O significado da palavra liberdade é difícil de circunscrever. Abraham Lincoln era da opinião de que “o mundo jamais teve uma boa definição [do termo]. Todos nós declaramos apoiar a liberdade”, disse ele; “mas, ao usar a mesma palavra, não queremos dizer a mesma coisa. Para alguns, a palavra liberdade pode significar que cada homem faça o que quiser consigo mesmo e com o produto de seu trabalho; enquanto para outros [a liberdade] pode significar que alguns homens façam o que quiserem com outros homens e com o produto do trabalho de outros homens.”

E disse ainda: “O pastor afasta o lobo da garganta da ovelha, pelo que a ovelha agradece ao pastor como seu libertador, enquanto o lobo o denuncia pelo mesmo ato.” (Discurso, 18 de abril de 1864; citado em John Bartlett, Familiar Quotations, 15ª ed., Boston: Little, Brown and Co., 1980, p. 523.)

As questões mudaram desde a época de Lincoln, mas o uso multifacetado da palavra liberdade e de seu sinônimo liberdade civil não mudou. As delícias da liberdade de que costumamos falar podem ser classificadas em (1) independência política, (2) liberdade econômica e (3) livre-arbítrio.

Gostaria que buscássemos aquela liberdade que abrange essas três liberdades, e mais. Gostaria que buscássemos uma liberdade da alma para a qual todas elas contribuem. Gostaria que alcançássemos aquele estado abençoado prenunciado pelo Profeta Joseph Smith quando disse: “Que a virtude adorne teus pensamentos incessantemente; então tua confiança se fortalecerá na presença de Deus.” (D&C 121:45.) Quem desfruta de tal liberdade é, nas palavras de Jesus, “verdadeiramente livre”. (João 8:36.) Ele possui a liberdade perfeita.

Convido a atenção de vocês para algumas ilustrações em apoio à tese de que, embora a independência política, a liberdade econômica e o livre-arbítrio possam contribuir para a liberdade da alma, eles não a garantem.

Primeiro, quanto à independência e ao poder políticos:

Nesse campo, talvez os feitos de Alexandre, o Grande, sejam dos mais conhecidos. Com grande coragem física, energia impulsiva e imaginação fervorosa, ele, aos trinta e dois anos ainda imaturos, tornou-se, para todos os efeitos, senhor do mundo então conhecido. Mas estava longe de desfrutar a liberdade, pois de si mesmo não era senhor. Em seu trigésimo terceiro ano, morreu, vítima de seus próprios excessos, um completo estranho à liberdade da alma.

O Cardeal Wolsey aprendeu, para seu pesar, quão pouco a independência política, e mesmo o poder político, podem contribuir para a verdadeira liberdade. Vocês devem se lembrar de que ele passou uma longa vida a serviço de dois soberanos ingleses, desfrutando, o tempo todo, de grande liberdade e poder político. Por fim, porém, foi despojado de toda a sua grandeza por um rei impaciente. Enquanto permanecia, desiludido, entre as ruínas de sua vida, lamentou-se com seu amigo,

Ó Cromwell, Cromwell!

Se eu tivesse servido a meu Deus com metade do zelo

com que servi a meu rei, ele não me teria, na velhice,

deixado nu diante de meus inimigos.

(William Shakespeare, Henrique VIII, ato 3, cena 2.)

Há vários anos, foi publicado um artigo numa revista sobre alguns dos gênios financeiros deste século. Ele registrava como alguns desses homens haviam morrido falidos e desonrados; outros haviam cometido suicídio, e alguns haviam passado tempo na prisão. Todos esses homens tinham obtido, ao menos temporariamente, a liberdade econômica, mas a nenhum deles sua abundância econômica trouxe a liberdade da alma.

Embora talvez raramente, ou nunca, se sustente que a independência política ou a liberdade econômica, isoladamente, tragam a liberdade perfeita, não é, no entanto, incomum que o livre-arbítrio seja considerado sinônimo de liberdade da alma. E é verdade que o direito, concedido por Deus, de escolher o próprio curso de ação é um pré-requisito indispensável a tal liberdade. Sem ele, dificilmente podemos desfrutar de qualquer tipo de liberdade — política, econômica ou pessoal. É uma de nossas maiores heranças. Por ela, somos profundamente devedores a nosso Pai Celestial, aos Pais Fundadores e aos pioneiros. Deus a deu ao homem no Jardim do Éden. (Vide Moisés 7:32.) Os Pais Fundadores, sob a inspiração do Senhor, escreveram uma garantia dela na lei fundamental da terra. E os pioneiros, guiados pela inspiração do céu, deram tudo de si para perpetuá-la. Certamente devemos estar sempre alertas em sua defesa e dispostos, se necessário, a dar a vida por sua preservação.

O livre-arbítrio, porém, por mais precioso que seja, não é, em si mesmo, a liberdade perfeita que buscamos, nem necessariamente conduz a ela. Na verdade, por meio do exercício de seu arbítrio, mais pessoas chegaram à escravidão política, econômica e pessoal do que à liberdade.

Os nefitas, por exemplo, em certa ocasião, pelo exercício de seu arbítrio, levaram-se a tal estado de coisas que seu único caminho conduzia à escravidão política. Fizeram isso vivendo sob um governo que proporcionava o mais livre exercício do arbítrio. “As suas leis e os seus governos”, diz o registro, “eram estabelecidos pela voz do povo, e os que preferiam o mal eram mais numerosos do que os que preferiam o bem.” Portanto, “não podiam ser governados pela lei nem pela justiça, a não ser para sua destruição.” (Helamã 5:2-3.) Nessas circunstâncias, escolheram como governantes homens iníquos, que certamente destruiriam suas liberdades políticas, em lugar de homens retos que, no passado, haviam protegido e preservado essas liberdades e teriam continuado a fazê-lo no futuro.

A livre escolha de um rei pelos jareditas conduziu diretamente ao seu cativeiro. (Vide Éter 6:21–7:5.)

Essa sequência se repetiu nos dias de Israel. O povo — rejeitando o governo por juízes, que Deus havia estabelecido — clamou para que Samuel lhes desse um rei. Não obstante o aviso de Samuel de que um rei faria de seus filhos servos, imporia pesados impostos e serviços sobre seus ombros, e os enviaria à guerra: “Porém o povo não quis dar ouvidos à voz de Samuel; e disseram: Não, mas haverá sobre nós um rei.

“E nós também seremos como todas as outras nações.” (1 Samuel 8:19-20.)

Samuel, então, ungiu Saul para ser seu rei. No devido tempo, exatamente como Samuel havia predito, pesados fardos foram impostos a eles, seus filhos e filhas foram feitos servos do rei, e a guerra veio. A nação foi dividida em dois reinos, Israel e Judá, ambos, por sua vez, levados ao cativeiro. Não só perderam a liberdade política, como sua própria existência política como nações foi encerrada.

Temos um exemplo clássico da perda da liberdade econômica pelo mau uso do livre-arbítrio no livro de Gênesis. Os egípcios, em vez de exercerem seu arbítrio para se prover contra um dia de necessidade, dependeram do governo. Como resultado, quando veio a fome, foram forçados a comprar alimentos do governo. Primeiro usaram seu dinheiro. Quando este acabou, deram seu gado, depois suas terras; e, por fim, foram compelidos a vender-se como escravos, para poderem comer. (Vide Gênesis 41:54-56; 47:13-26.)

Nós mesmos percorremos um longo trecho desse caminho durante o último século. Meu conselho é que nos precavenhamos contra a doutrina que nos incentiva a buscar segurança sustentada pelo governo, em vez de depositarmos fé em nossa própria diligência. Lembrem-se do camponês de Pope que, tendo sido servido o banquete do homem rico e experimentado suas consequências, reclamou:

“Com a devida licença de Vossa Senhoria”, disse o camponês,

“esta mesma iguaria não é tão agradável assim:

devolvei-me a minha árvore oca,

um pedaço de pão e a Liberdade.”

(Alexander Pope, “The Sixth Satire of the Second Book of Horace”, versos 218–21.)

Quanto à perda da liberdade pessoal pelo mau uso do livre-arbítrio, nossa vida diária está repleta de trágicas evidências. Vemos o alcoólatra com seu desejo compulsivo por bebida, o viciado em drogas em seu frenesi e, pior ainda, o pervertido com sua irrecuperável perda de dignidade. Quem dirá que tais pessoas desfrutam de liberdade?

Não obstante o fato de que, por seu mau uso, a liberdade política, econômica e pessoal se perde, o livre-arbítrio sempre perdurará, porque é um princípio eterno. Contudo, o livre-arbítrio possuído por qualquer pessoa aumenta ou diminui conforme o uso que ela lhe dá. Cada decisão errada que alguém toma restringe a área em que ele poderá, depois, exercer seu arbítrio. Quanto mais alguém avança na tomada de decisões erradas no exercício do livre-arbítrio, mais difícil se torna recuperar o terreno perdido. Alguém pode, ao persistir por tempo suficiente, chegar ao ponto de não retorno. Torna-se, então, um escravo abjeto. Pelo exercício de seu livre-arbítrio, ele reduziu a área em que pode agir, quase até o ponto de desaparecer.

Samuel, o profeta lamanita, falando aos que assim persistiram, disse: “E nos dias de vossa pobreza clamareis ao Senhor; e em vão clamareis, porque vossa desolação já vos sobreveio e a vossa destruição é certa; então chorareis e pranteareis naquele dia … dizendo: …

“Oh! Se nos houvéssemos arrependido no dia em que o Senhor nos enviou sua palavra! …

“Eis que estamos circundados de demônios, sim, estamos rodeados pelos anjos daquele que procurou destruir nossa alma. … Ó Senhor, não podes apartar de nós a tua ira? E assim vos expressareis naqueles dias.

“Mas eis que vossos dias de provação se passaram; procrastinastes o dia de vossa salvação até que se tornou, para sempre, demasiado tarde; e vossa destruição é certa.” (Helamã 13:32, 36–38.)

Essas pobres almas se colocaram no poder de Lúcifer e de seus seguidores, os quais, como vocês se lembram, tornaram-se Perdição. (Vide D&C 76:26.) Seu destino final é ser lançado nas trevas exteriores, sendo tal castigo a consequência natural das alternativas que escolheram no exercício de seu arbítrio. O fato de terem sido originalmente dotados por seu Criador de livre-arbítrio não os salva da mais terrível escravidão, a escravidão do pecado.

Assim como seguir alternativas erradas restringe o livre-arbítrio e conduz à escravidão, seguir alternativas corretas amplia o alcance do arbítrio de alguém e conduz à liberdade perfeita. Na verdade, alguém pode, por esse processo, obter a liberdade da alma ao mesmo tempo em que lhe são negadas a liberdade política, econômica e pessoal.

Por exemplo, considerem o Profeta Joseph Smith. Eis um homem que desfrutava da liberdade da alma enquanto sofria a privação de quase todas as outras liberdades. As experiências de sua vida foram, em alguns aspectos, comparáveis às do Apóstolo Paulo, que, em seus trabalhos, sofreu açoites frequentes, prisão repetidas vezes, e enfrentou a morte de modo constante. Relembrando algumas de suas experiências para os coríntios, ele disse:

“Recebi cinco vezes dos judeus uma quarentena de açoites menos um.

“Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo;

“Em viagens, muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos;

“Em trabalhos e fadiga, em vigílias, muitas vezes, em fome e sede, em jejum, muitas vezes, em frio e nudez.” (2 Coríntios 11:24-27.)

Não obstante tudo isso, ele pôde escrever a seu amado Timóteo, de sua cela na prisão em Roma, pouco antes de sua morte: “Porque eu já estou sendo oferecido como libação, e o tempo da minha partida está próximo.

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.

“Desde agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.” (2 Timóteo 4:6-8.)

Certamente Paulo, em sua alma, desfrutou a liberdade perfeita.

A conclusão do Apóstolo, de que a recompensa que ele obteve deve estar disponível a outros, sugere que deve haver um padrão de vida pelo qual cada um de nós possa alcançá-la, e creio que existe.

Muitos anos atrás, enquanto viajava de trem por Cleveland, Ohio, vi num prédio a inscrição “A Obediência à Lei é Liberdade”. Com a interpretação adequada da palavra lei, temos nessa inscrição uma declaração da verdade última. Ao inserir três palavras, ela passa a dizer: “A obediência à lei de Cristo é liberdade.” (Vide D&C 88:21.) Isso é não só uma declaração da lei perfeita da liberdade, mas também uma declaração do caminho para a liberdade perfeita.

No oitavo capítulo de João, está registrada uma controvérsia entre Jesus e os líderes dos judeus. Eles, é claro, o rejeitaram. Mas alguns dos que o ouviram creram, e a eles ele disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos;

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:31-32.)

A liberdade assim obtida — isto é, pela obediência à lei de Cristo — é a liberdade da alma, a forma mais elevada de liberdade. E o mais glorioso a esse respeito é que ela está ao alcance de cada um de nós, independentemente do que as pessoas ao nosso redor, ou mesmo as nações, façam. Tudo o que precisamos fazer é aprender a lei de Cristo e obedecer-lhe. Aprendê-la e obedecer-lhe é o propósito primordial da vida mortal de toda alma.

Que Deus atenda e prospere cada um de nós em nosso caminho rumo à liberdade perfeita, é o que humildemente peço em oração, em nome de Jesus Cristo, amém.

Como citar este discursoMarion G. Romney, “A Lei Perfeita da Liberdade”, Conferência Geral de Outubro de 1981, Priesthood Session (1981-10-01). Pulpit Vault, 1981-10-romney-the-perfect-law-of-liberty. Tradução desta edição, por método de glossário, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).