Vivendo os Princípios de Bem-Estar
Marion G. Romney
Agora é minha responsabilidade dizer algumas palavras sobre viver os princípios de bem-estar. Por mais de quarenta anos, estudei e ensinei os princípios do programa de bem-estar da Igreja. Amo seus princípios e sei que eles constituem o coroamento de uma vida cristã. Aprecio o que foi dito por aqueles que acabaram de falar-nos esta manhã. Eles demonstraram o efeito que viver os princípios de bem-estar tem sobre nós, individual e coletivamente. ¶
Em 1936, o Presidente J. Reuben Clark Jr. disse que o verdadeiro objetivo, a longo prazo, do plano de bem-estar é a construção do caráter dos membros da Igreja, tanto os que dão quanto os que recebem, resgatando tudo o que há de melhor no fundo de seu ser e fazendo florescer e frutificar a riqueza latente do espírito, que, afinal, é a missão, o propósito e a razão de ser desta Igreja. (Reunião Especial de Presidências de Estaca, 2 de outubro de 1936.) ¶
A maioria de nós já experimentou a alegria de observar alguém que precisava de ajuda recebê-la e, consequentemente, tornar-se autossuficiente. Muitos de nós já se tornaram testemunhas da verdade de que os pobres podem ser exaltados quando são atendidos à maneira do Senhor. ¶
Hoje, porém, gostaria de dirigir meus comentários ao efeito que viver os princípios de bem-estar tem sobre quem dá, em contraste com quem recebe. Repetindo a declaração do Presidente Clark de 1936: “O verdadeiro objetivo, a longo prazo, do plano de bem-estar é a construção do caráter dos membros da Igreja, tanto os que dão quanto os que recebem.” O Senhor não precisa realmente de nós para cuidar dos pobres. Ele poderia cuidar deles sem a nossa ajuda, se esse fosse o seu propósito. “Eu, o Senhor”, disse ele, “estendi os céus e formei a Terra, obra de minhas mãos; e todas as coisas que neles há são minhas. ¶
“E é meu propósito suprir a meus santos, pois todas as coisas são minhas.” (D&C 104:14-15.) ¶
Seria simples para o Senhor revelar ao Presidente Kimball onde estão os depósitos de petróleo e de minérios preciosos. Poderíamos então contratar alguém para escavá-los, e poderíamos boiar na riqueza — e boiaríamos na riqueza direto até o Hades. Não, o Senhor não precisa realmente de nós para cuidar dos pobres, mas nós precisamos dessa experiência; pois é somente ao aprendermos a cuidar uns dos outros que desenvolvemos em nós o amor e a disposição semelhantes aos de Cristo, necessários para nos qualificarmos a retornar à sua presença. ¶
Que ninguém pode ser verdadeiro discípulo de Cristo sem dar de forma significativa é enfatizado de maneira dramática na revelação recebida pelo Profeta Joseph Smith em Kirtland, em 7 de junho de 1831. Nessa revelação, o Senhor orientou vinte e oito élderes a viajar de dois em dois de Kirtland até o condado de Jackson, no Missouri. Deveriam seguir por caminhos diferentes, pregando o evangelho ao longo do trajeto. Vocês devem se lembrar de que eles estavam destituídos naqueles dias e tinham de viajar por terras primitivas. Joseph Smith e seus companheiros imediatos “viajaram de carroça e diligência, e ocasionalmente de barco de canal, até Cincinnati, Ohio”, depois até Louisville, Kentucky, e a seguir até St. Louis, de barco a vapor. “Dessa cidade no Mississippi, o Profeta de Deus caminhou por todo o estado do Missouri até Independence, no condado de Jackson, uma distância de quase trezentas milhas percorridas.” (George Q. Cannon, Life of Joseph Smith the Prophet, Salt Lake City: Deseret Book Company, 1958, p. 117.) Chamo sua atenção para esses fatos para que tenham em mente o cenário em que o Senhor disse a esses homens, ao partirem: “Lembrai-vos em todas as coisas dos pobres e necessitados, dos doentes e dos aflitos, porque aquele que não faz estas coisas não é meu discípulo.” (D&C 52:40.) Imaginem só! Esses élderes estavam quase destituídos, e o Senhor disse: “Lembrai-vos … dos pobres e necessitados.” ¶
Que o mandamento de dar é dirigido a todas as pessoas é enfatizado pelo rei Benjamim, quando disse aos pobres: “E novamente digo aos pobres, vós que não tendes e, ainda assim, tendes o suficiente para passar de um dia para outro; refiro-me a todos vós, que negais ao mendigo porque não tendes; quisera que dissésseis em vosso coração: Não dou porque não tenho, mas se tivesse, daria. ¶
“E agora, se dizeis isto em vosso coração, não sois culpados; do contrário, sois condenados e vossa condenação será justa, porque cobiçais aquilo que não haveis recebido.” (Mosias 4:24-25.) ¶
Uma vez convencidos de que temos a obrigação de dar, precisamos aprender que prestar serviço com o espírito correto é da maior importância. Mórmon, falando àqueles que dão pelas razões erradas, disse: “Pois eis que Deus disse que se um homem é mau, não pode praticar o bem; porque se ele oferece uma dádiva ou ora a Deus, a não ser que o faça com verdadeiro intento, nada lhe aproveitará. ¶
“Porque eis que não lhe é imputado por retidão. ¶
“Pois eis que se um homem, sendo mau, oferece uma dádiva, ele o faz de má vontade; portanto, será considerado como se tivesse retido a dádiva; consequentemente é considerado mau perante Deus.” (Morôni 7:6-8.) ¶
Somente ao dar voluntariamente, por um abundante amor ao próximo, pode alguém desenvolver aquela caridade caracterizada por Mórmon como o “puro amor de Cristo”. (Morôni 7:47.) Em Mosias lemos: “E … Alma mandou que o povo da Igreja partilhasse seus bens, cada um de acordo com o que tivesse; quem tivesse com mais abundância deveria partilhar com mais abundância; daquele que tivesse pouco, pouco seria requerido; e quem nada tivesse, a esse seria dado. ¶
“E assim, de sua livre vontade e devido a seus bons desejos em relação a Deus, deveriam partilhar seus bens.” (Mosias 18:27-28; itálico adicionado.) ¶
Alguns podem perguntar: “Como obtenho esses sentimentos retos ao dar? Como venço a tendência de dar de má vontade? Como obtenho o ‘puro amor de Cristo’?” A essas pessoas eu diria: Vivam fielmente todos os mandamentos, deem de si mesmos, cuidem de suas famílias, sirvam em chamados na Igreja, façam obra missionária, paguem dízimos e ofertas, estudem as escrituras — e a lista poderia continuar. À medida que se entregam a esse serviço, o Senhor tocará e amolecerá seu coração e, gradualmente, os trará aos sentimentos com que abençoou o povo na época do rei Benjamim, o que os levou a dizer: “Sim, cremos em todas as palavras que nos disseste; e também sabemos de sua certeza e verdade, por causa do Espírito do Senhor Onipotente, que efetuou em nós, ou melhor, em nosso coração, uma vigorosa mudança, de modo que não temos mais disposição para praticar o mal, mas, sim, de fazer o bem continuamente.” (Mosias 5:2.) ¶
Essa caridade, em sua perfeição, é demonstrada pelo Senhor em tudo o que faz. O Senhor revelou a Moisés os inúmeros mundos que foram criados, e disse: “Pois eis que há muitos mundos que pela palavra de meu poder passaram. E há muitos que agora permanecem e são inumeráveis para o homem. … ¶
“E assim como uma terra passará, e o seu céu, assim outra surgirá; e não há fim para as minhas obras, nem para as minhas palavras.” (Moisés 1:35, 38.) ¶
Depois de revelar a Moisés a vastidão de suas criações, o Senhor deu a Moisés algum entendimento de sua razão para fazer tudo isso, quando disse: “Pois eis que esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem.” (Moisés 1:39.) Assim, vemos o completo altruísmo de nosso Pai Celestial. Toda a sua obra e glória é trazer a vida eterna e a felicidade a seus filhos. Não deveria, portanto, todo o nosso propósito nesta vida consistir num serviço reto de uns para com os outros? Se não, como podemos esperar chegar a ser como ele é? À medida que nos tornamos individualmente cheios do “puro amor de Cristo” (Morôni 7:47), evoluímos coletivamente para uma igreja que é “pura de coração” (D&C 97:21). Podemos, assim, tornar-nos como o povo de Enoque, sobre o qual foi escrito: “O Senhor abençoou a terra … e … chamou seu povo SIÃO, porque eram unos de coração e vontade e viviam em retidão; e não havia pobres entre eles.” (Moisés 7:17-18.) ¶
Dos nefitas que sobreviveram ao cataclismo que acompanhou a crucificação de Jesus e que, depois, viveram esse programa, o registro diz: “E aconteceu que … o povo foi todo convertido ao Senhor … e não havia contendas nem disputas entre eles, e todo homem procedia com justiça uns para com os outros. ¶
“E tinham todas as coisas em comum; portanto, não havia ricos nem pobres, escravos nem livres, mas eram todos livres e participantes do dom celestial. … E certamente não poderia haver povo mais feliz entre todos os povos criados pela mão de Deus.” (4 Néfi 1:2, 3, 16.) ¶
Por que essas pessoas eram tão felizes? Porque estavam livres das amarras do egoísmo e haviam aprendido o que o Senhor sabe — que a alegria plena vem somente por meio do serviço. ¶
Tornar-se um povo coletivamente puro de coração não é um sonho impossível nem uma meta idealista. Sabemos disso porque o Senhor nos ordenou tornarmo-nos assim, e o Senhor não dá “mandamento algum aos filhos dos homens, sem que lhes prepare um caminho para que possam cumprir aquilo que lhes ordenar.” (1 Néfi 3:7.) ¶
Quando chegarmos ao estado de ter o “puro amor de Cristo”, nosso desejo de servir uns aos outros terá crescido a ponto de vivermos plenamente a lei da consagração. Viver a lei da consagração exalta os pobres e humilha os ricos. Nesse processo, ambos são santificados. Os pobres, libertos das amarras e das limitações humilhantes da pobreza, são capacitados, como homens livres, a alcançar todo o seu potencial, tanto temporal quanto espiritualmente. Os ricos, por meio da consagração e do compartilhamento de seu excedente em benefício dos pobres, não por constrangimento, mas de bom grado, como ato de livre-arbítrio, evidenciam aquela caridade por seus semelhantes caracterizada por Mórmon como “o puro amor de Cristo”. (Morôni 7:47.) Isso trará tanto o doador quanto o recebedor ao terreno comum onde o Espírito de Deus pode encontrá-los. ¶
É a missão da Igreja desta última dispensação desenvolver outro povo que viva o evangelho em sua plenitude. Esse povo há de tornar-se “puro de coração”, e florescerá e será abençoado sobre as montanhas e sobre os lugares elevados. Será o povo do Senhor. Andará com Deus, porque será uno de coração e vontade, viverá em retidão, e não haverá pobres entre eles. ¶
Tenhamos essas coisas em mente e sigamos adiante com esse grande programa. Os princípios de bem-estar são eternos. O programa de bem-estar é edificado sobre os princípios da lei da consagração. Sei, por experiência própria, que esta é a obra do Senhor. Ela existe para nos preparar para nos tornarmos como Cristo. Se pensarem no lugar mais sagrado e santo em que já estiveram, lembrar-se-ão de que a última coisa que todos devemos fazer é estar aptos e dispostos a consagrar tudo o que temos à edificação do reino de Deus — o que inclui cuidar de nossos semelhantes. Ao fazermos isso, apressaremos o advento do Milênio. Que Deus nos conceda não falhar; humildemente oro isso em nome de Jesus Cristo, amém. ¶