Ele Ressuscitou
Thomas S. Monson
Não faz muito tempo, um visitante perguntou: “O que há para ver enquanto estou em Salt Lake City?” Instintivamente sugeri um passeio pela Praça do Templo, uma ida aos cânions próximos, uma visita à mina de cobre de Bingham e, talvez, um banho no Grande Lago Salgado. O receio de ser mal compreendido me impediu de expressar o pensamento: “Já pensou em passar uma ou duas horas em um de nossos cemitérios?” Nunca revelei a ele que, aonde quer que eu viaje, procuro visitar o cemitério da cidade. É um tempo de contemplação, de reflexão sobre o sentido da vida e a inevitabilidade da morte. ¶
No pequeno cemitério da igualmente pequena cidade de Santa Clara, em Utah, lembro-me da predominância de nomes suíços que adornam as lápides desgastadas pelo tempo. Muitas dessas pessoas deixaram o lar e a família na verdejante Suíça e, em resposta ao chamado “Vinde a Sião”, colonizaram as comunidades onde agora “repousam em paz”. Suportaram enchentes na primavera, secas no verão, colheitas escassas e trabalhos extenuantes. Deixaram um legado de sacrifício. ¶
Os maiores cemitérios, e em muitos aspectos os que evocam as emoções mais ternas, são honrados como o local de repouso de homens que morreram no caldeirão do conflito conhecido como guerra, vestindo o uniforme de seu país. Refletimos sobre sonhos despedaçados, esperanças não realizadas, corações tomados de tristeza e vidas ceifadas pela lâmina afiada da guerra. ¶
Hectares de cruzes brancas e alinhadas nas cidades da França e da Bélgica acentuam o terrível tributo da Primeira Guerra Mundial. Verdun, na França, é — na realidade — um cemitério gigantesco. A cada primavera, à medida que os agricultores lavram a terra, descobrem um capacete aqui, o cano de uma arma ali — lembretes sombrios dos milhões de homens que literalmente encharcaram o solo com o sangue de suas vidas. ¶
Um passeio por Gettysburg, na Pensilvânia, e por outros campos de batalha da Guerra Civil Americana, marca aquele conflito, no qual irmão lutou contra irmão. Algumas famílias perderam fazendas, outras perderam bens. Uma família perdeu tudo. Permitam-me compartilhar com vocês aquela memorável carta que o Presidente Abraham Lincoln escreveu à Sra. Lydia Bixby: ¶
“Prezada senhora, ¶
Foi-me mostrado, nos arquivos do Departamento de Guerra, um documento do Ajudante-General de Massachusetts, segundo o qual a senhora é mãe de cinco filhos que morreram gloriosamente em campo de batalha. Sinto o quanto seriam fracas e infrutíferas quaisquer palavras minhas que tentassem afastá-la do luto de uma perda tão avassaladora. Mas não posso deixar de lhe oferecer o consolo que se pode encontrar na gratidão da república que eles morreram para salvar. Rogo que nosso Pai Celestial possa suavizar a angústia de seu luto e deixar-lhe apenas a lembrança querida daqueles que amou e perdeu, e o orgulho solene que há de ser seu, por ter depositado um sacrifício tão custoso sobre o altar da liberdade. ¶
Muito sinceramente e respeitosamente, Abraham Lincoln.” (21 de novembro de 1864; citado em Selections from the Letters, Speeches, and State Papers of Abraham Lincoln, ed. Ida M. Tarbell, Boston: Ginn and Company, 1911, p. 109.) ¶
Uma caminhada pelo Cemitério de Punchbowl, em Honolulu, ou pelo Cemitério Memorial do Pacífico, em Manila, lembra-nos que nem todos os que morreram na Segunda Guerra Mundial estão enterrados em tranquilos campos verdes. Muitos afundaram sob as ondas dos oceanos em que navegavam e nos quais morreram. ¶
Entre os milhares de militares mortos no ataque a Pearl Harbor estava um marinheiro chamado William Ball, de Fredericksburg, Iowa. O que o distinguiu de tantos outros que morreram naquele dia de 1941 não foi nenhum ato especial de heroísmo, mas a trágica cadeia de acontecimentos que sua morte desencadeou em seu lar. ¶
Quando os amigos de infância de William, os cinco irmãos Sullivan, da vizinha cidade de Waterloo, receberam a notícia de sua morte, marcharam juntos para se alistar na marinha. Os Sullivan, que desejavam vingar seu amigo, insistiram em permanecer juntos, e a marinha atendeu ao pedido. Em 14 de novembro de 1942, o cruzador em que os irmãos serviam, o U.S.S. Juneau, foi atingido e afundado em uma batalha ao largo de Guadalcanal, nas Ilhas Salomão. ¶
Passaram-se quase dois meses até que a Sra. Thomas Sullivan recebesse a notícia, que não chegou pelo telegrama habitual, mas por um enviado especial: todos os seus cinco filhos foram dados como desaparecidos em combate no Pacífico Sul e presumidos mortos. Seus corpos nunca foram recuperados. ¶
Uma única frase, dita por uma única pessoa, oferece um epitáfio adequado: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.” (João 15:13.) ¶
Com frequência, a profunda influência que uma vida exerce sobre a vida de outras pessoas nunca é mencionada e, às vezes, é pouco conhecida. Assim foi a experiência de uma professora de meninas, até mesmo de doze anos, na classe Beehive da Associação de Melhoramentos Mútuos. Ela não tinha filhos próprios, embora ela e o marido os desejassem profundamente. Seu amor se expressava na devoção a suas alunas especiais, ao ensinar-lhes verdades eternas e lições de vida. Então veio a doença, seguida da morte. Ela tinha apenas vinte e sete anos. ¶
Todos os anos, no Dia da Memória, suas alunas faziam uma peregrinação de oração até o túmulo de sua professora. No início eram sete, depois quatro, depois duas, e finalmente apenas uma que continuou a visita anual, sempre depositando no túmulo um buquê de íris — símbolo de gratidão sincera. Este ano marcou sua vigésima quinta visita ao lugar de repouso de sua professora. Hoje, ela mesma é professora de meninas. Não é de admirar que tenha tanto sucesso. Ela reflete a imagem da professora de quem veio sua inspiração. A vida que aquela professora viveu, as lições que ensinou, não estão sepultadas sob a lápide que marca seu túmulo, mas vivem nas personalidades que ela ajudou a formar e nas vidas que tão desprendidamente enriqueceu. Isso nos lembra de outro mestre exemplar, o próprio Senhor. Certa vez, com o dedo, ele escreveu na areia uma mensagem. (Ver João 8:6.) Os ventos do tempo apagaram para sempre as palavras que ele escreveu, mas não a vida que ele viveu. ¶
“Tudo o que podemos saber sobre aqueles que amamos e perdemos”, escreveu Thornton Wilder, “é que eles gostariam que nos lembrássemos deles com uma consciência mais intensa de sua realidade. … O mais alto tributo aos mortos não é o pesar, mas a gratidão.” ¶
Há dois anos, no belo Vale de Heber, logo a leste de Salt Lake City, uma mãe amorosa e um pai dedicado voltaram àquele refúgio pessoal chamado lar para descobrir que seus três filhos mais velhos jaziam mortos. A noite estava terrivelmente fria, e o vento forte varria a neve que caía, a qual cobriu a chaminé, liberando gases mortais de monóxido de carbono por toda a casa. ¶
O funeral conjunto dos meninos Keller foi uma das experiências mais comoventes de minha vida. Os moradores da comunidade deixaram de lado suas tarefas diárias, as crianças foram dispensadas da escola, e todos se dirigiram em massa à capela para expressar seus profundos sentimentos de pesar. Enquanto o tempo e a memória durarem, hei de lembrar a cena de três caixões brilhantes, seguidos por pais e avós tomados de dor, caminhando até a frente do prédio. ¶
O primeiro orador foi o técnico de luta livre do colégio local. Ele prestou homenagem a Louis, o mais velho dos meninos. Com a voz tomada de emoção, e contendo as lágrimas, contou como Louis não era necessariamente o lutador mais talentoso da equipe, mas acrescentou: “Ninguém se esforçava mais. O que lhe faltava em habilidade atlética, ele compensava com um coração determinado.” ¶
Em seguida, um líder de jovens falou sobre Travis. Contou como Travis se destacara no Escotismo, no trabalho do Sacerdócio Aarônico, e como fora um exemplo brilhante para seus amigos. ¶
Por fim, uma professora primária de aparência distinta e evidentemente competente falou de Jason, o mais novo dos três. Descreveu-o como quieto, até tímido. Depois, sem constrangimento, contou como Jason lhe enviara, com a caligrafia rabiscada de um menino, a carta mais doce e bem-vinda que ela já recebera. Sua mensagem era breve — apenas três palavras: “Eu te amo.” Ela mal conseguiu terminar sua fala, tão profundas eram suas emoções. ¶
Em meio às lágrimas e à tristeza daquele dia especial, observei lições eternas que haviam sido ensinadas por aqueles meninos, cujas vidas foram honradas e cujas missões mortais se concluíram. ¶
Um técnico expressou a determinação de olhar além da habilidade atlética e para dentro do coração de cada menino. Um líder de jovens fez o voto solene de que cada menino e menina teria o benefício proporcionado pelo programa da Igreja. Uma professora primária olhou para as crianças pequenas, colegas de classe de Jason. Ela nada disse, mas seus olhos revelavam a determinação de sua alma. A mensagem era inconfundivelmente clara: “Eu amarei cada criança. Cada menino, cada menina será guiado na busca da verdade, no desenvolvimento de talentos, e será apresentado ao maravilhoso mundo do serviço.” ¶
E a plateia, incluindo os Élderes Marvin J. Ashton e Thomas S. Monson, jamais será a mesma. Todos hão de esforçar-se rumo àquela perfeição de que falou o Mestre. Nossa inspiração? As vidas dos meninos que agora descansam do cuidado e da tristeza, e a fortaleza dos pais que confiam no Senhor de todo o coração, que não se apoiam em seu próprio entendimento e que, em todos os seus caminhos, o reconhecem, sabendo que ele dirigirá seus passos. (Ver Provérbios 3:5–6.) ¶
Permitam-me compartilhar com vocês uma parte de uma carta que me foi enviada pela nobre mãe desses três filhos. Foi escrita logo após o falecimento deles. ¶
“Temos dias e noites que agora parecem tão avassaladores. A mudança em nossa vida familiar foi tão drástica. Com quase metade de nossa família ausente agora, o cozinhar, o lavar e até as compras são diferentes. Sentimos falta do barulho e da bagunça, das brincadeiras e das provocações uns com os outros. Tudo isso se foi. O domingo está tão silencioso. Sentimos falta de ver o sacramento ser abençoado e distribuído por nossos filhos. O domingo era verdadeiramente nosso dia em família. Ponderamos o pensamento: nenhuma missão, nenhum casamento, nenhum neto. Não pediríamos que voltassem, mas também não poderíamos dizer que os teríamos entregado de bom grado. Voltamos a nossos deveres na Igreja e a nossas responsabilidades familiares. Nosso desejo é viver de tal forma que a família Keller seja uma família para sempre.” ¶
Aos Keller, aos Sullivan e, de fato, a todos os que amaram e perderam, permitam-me compartilhar convosco a convicção de minha alma, o testemunho de meu coração e as experiências reais de minha vida. ¶
Sabemos que cada um viveu no mundo espiritual com o Pai Celestial. Compreendemos que viemos à Terra para aprender, viver e progredir em nossa jornada eterna rumo à perfeição. Alguns permanecem na Terra apenas por um instante, enquanto outros vivem muito tempo sobre a terra. A medida não é quanto tempo vivemos, mas quão bem vivemos. Então vem a morte, e o início de um novo capítulo de vida. Para onde leva esse capítulo? ¶
Há muitos anos, permaneci ao lado do leito de um jovem, pai de dois filhos, enquanto ele oscilava entre a vida e o além. Ele tomou minha mão na dele, olhou nos meus olhos e, com súplica, perguntou: “Bispo, sei que estou prestes a morrer. Diga-me o que acontece com meu espírito quando eu morrer.” ¶
Orei pedindo orientação celestial antes de tentar responder. Minha atenção foi direcionada ao Livro de Mórmon, que repousava sobre a mesa ao lado de sua cama. Segurei o livro na mão e, tão certo quanto estou diante de vocês hoje, aquele livro se abriu no quadragésimo capítulo de Alma. Comecei a ler em voz alta: ¶
“Agora, meu filho, eis aqui algo mais que tenho a dizer-te, pois percebo que tua mente está preocupada a respeito da ressurreição dos mortos. … ¶
“Ora, com relação ao estado da alma entre a morte e a ressurreição — eis que me foi dado saber por um anjo que o espírito de todos os homens, logo que deixa este corpo mortal … é levado de volta para aquele Deus que lhes deu vida. ¶
“E então acontecerá que o espírito daqueles que são justos será recebido num estado de felicidade, que é chamado paraíso, um estado de descanso, um estado de paz, onde descansará de todas as suas aflições e de todos os seus cuidados e tristezas.” (Alma 40:1, 11–12.) ¶
Meu jovem amigo fechou os olhos, expressou um sincero agradecimento e silenciosamente partiu para aquele paraíso sobre o qual havíamos conversado. ¶
Depois vem aquele glorioso dia da ressurreição, quando espírito e corpo serão reunidos, jamais a serem novamente separados. “Eu sou a ressurreição e a vida”, disse o Cristo à aflita Marta. “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; ¶
“E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá.” (João 11:25–26.) ¶
“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vô-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (João 14:27.) ¶
“Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar … para que onde eu estiver estejais vós também.” (João 14:2–3.) ¶
Essa transcendente promessa se tornou realidade quando Maria e a outra Maria se aproximaram do túmulo no jardim — aquele cemitério que teve apenas um ocupante. Deixemos que Lucas, o médico, descreva a experiência delas: ¶
“E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas … ao sepulcro. … ¶
“E acharam a pedra revolvida do sepulcro. … ¶
“… entrando elas, não acharam o corpo do Senhor Jesus. ¶
“… estando elas muito perplexas por isso, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes: ¶
“E … disseram-lhes: Por que buscais o vivente entre os mortos?” (Lucas 24:1–5.) ¶
“Não está aqui, porque já ressuscitou.” (Mateus 28:6.) ¶
Este é o clamor solene da cristandade. A realidade da ressurreição proporciona a todos a paz que excede todo o entendimento. (Ver Filipenses 4:7.) Ela conforta aqueles cujos entes queridos jazem nos campos de Flandres, os que pereceram nas profundezas do mar ou repousam na pequena Santa Clara ou no tranquilo Vale de Heber. É uma verdade universal. ¶
Como o menor de seus discípulos, declaro meu testemunho pessoal de que a morte foi vencida, a vitória sobre o túmulo foi conquistada. Que as palavras santificadas por Aquele que as cumpriu se tornem conhecimento real para todos. Lembrem-se delas. Estimem-nas. Honrem-nas. Ele ressuscitou. Essa é minha fervorosa oração, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶