Fé: A Essência da Verdadeira Religião
Gordon B. Hinckley
Creio que nunca houve uma efusão de amor mais generosa do que a que foi expressa em favor do Presidente Kimball, nosso profeta. Unidos como povo, de um só coração e uma só voz, damos graças ao Senhor por suas bênçãos e oramos por sua contínua recuperação. ¶
Oramos também pelos Élderes G. Homer Durham e Theodore M. Burton, que igualmente se encontram hospitalizados, e reconhecemos a ausência do Élder Burton Howard, que preside a missão no Uruguai. ¶
Meus irmãos e irmãs, obrigado por seu fiel serviço em favor dos filhos de nosso Pai, onde quer que vocês vivam. Obrigado pelos esforços que fizeram para vir até aqui. Oro para que, ao nos separarmos amanhã, todos sintamos que fomos alimentados com o pão da vida. Expresso a mesma oração em favor daqueles que assistirão à conferência em seus lares. ¶
Gostaria de expressar em nome de vocês uma palavra de apreço àqueles que tornam amplamente disponíveis os recursos do rádio, da televisão e da televisão a cabo. É um serviço muito apreciado por centenas de milhares de pessoas. ¶
E agora estamos ampliando o milagre da transmissão por satélite em favor dos membros da Igreja em todos os Estados Unidos. Com a conclusão de uma nova instalação de transmissão, situada nas colinas a poucos quilômetros ao norte daqui, os sons e as imagens desta conferência são enviados a um transponder a 22.300 milhas acima do equador. Ali são amplificados e depois refletidos de volta a antenas receptoras instaladas em centros de estaca em várias partes do país. Esses centros são poucos por enquanto, mas nos próximos dezoito meses essas instalações pioneiras serão ampliadas para quatrocentas ou quinhentas, tornando possível que a maioria dos membros da Igreja nos Estados Unidos, seja em seus lares por meio do rádio, da televisão ou da televisão a cabo convencionais, seja em reuniões nos centros de estaca, participe destas conferências gerais. ¶
Com o crescimento da Igreja, provavelmente jamais poderíamos construir um salão grande o suficiente para acomodar todos os que desejassem se reunir em um só lugar. Nem os crescentes custos de viagem tornariam possível que viessem. Os dons da ciência proporcionaram uma forma mais conveniente. Confiamos que, à medida que a obra do Senhor se expande, ele inspirará os homens a desenvolver os meios pelos quais os membros da Igreja, onde quer que estejam, possam ser aconselhados de maneira íntima e pessoal por seu profeta escolhido. A comunicação é o tendão que une a Igreja como uma grande família. Entre os recursos que já estão disponíveis e aqueles que estão no horizonte, seremos capazes de conversar uns com os outros de acordo com as necessidades e circunstâncias da época. ¶
Agora, espero que me perdoem por falar de modo pessoal por três ou quatro minutos. Foi há vinte anos, na conferência de outubro, que fui apoiado como membro do Conselho dos Doze Apóstolos. Anteriormente, por dois anos e meio, servi como Assistente dos Doze. Foram anos repletos de acontecimentos, durante os quais quatro homens grandiosos e inspirados presidiram a Igreja — David O. McKay, Joseph Fielding Smith, Harold B. Lee e Spencer W. Kimball. Foram anos em que a Igreja se expandiu pelo mundo de maneira notável. Foram anos em que milhões de membros foram acrescentados. Também foram anos em que fortes vozes se levantaram contra nós. Fomos criticados, mas essa crítica em nada deteve o progresso da obra. Na verdade, ela trouxe muitos à nossa defesa e ao nosso apoio, e em algumas ocasiões acrescentou-se ao nosso número. ¶
Para mim, pessoalmente, esses têm sido anos desafiadores, repletos de responsabilidade preocupante e de experiência gratificante. Tive a oportunidade de me reunir com os santos ao redor do mundo. Estive em seus lares em muitas partes da terra, e desejo agradecer-lhes por sua bondade e hospitalidade. Estive em suas reuniões e ouvi suas declarações de fé e suas expressões de testemunho. Chorei com alguns em seu sofrimento e me alegrei com muitos em suas realizações. Minha fé cresceu, meu conhecimento se ampliou, meu amor pelos filhos de nosso Pai se fortaleceu onde quer que eu tenha ido. ¶
Nos últimos meses, tive a oportunidade de viajar pela República Popular da China e pelas nações da Europa Oriental, incluindo a Rússia. Meu coração foi tocado pela cordialidade das boas pessoas onde quer que eu tenha ido. Todos são filhos de nosso Pai Celestial. É verdade que há vastos abismos de diferenças políticas e ideológicas. Mas, no íntimo, as pessoas são as mesmas. Todos são filhos e filhas de Deus. Têm em seus corações, basicamente, os mesmos anseios. Maridos amam suas esposas, e esposas, seus maridos. Pais amam seus filhos, e filhos, seus pais. Suas mentes respondem às mesmas verdades, se lhes for dada a oportunidade de ouvi-las. Falando do povo em geral, desejam paz e não guerra. Desejam fraternidade e não conflito. Desejam verdade e não propaganda. Nossa é uma grande e imperiosa responsabilidade: ensinar o evangelho eterno aos povos da terra. Muitas portas estão hoje fechadas para nós. Mas estou convencido de que o Senhor, em seu próprio tempo, as abrirá, desde que continuamente busquemos e oremos por essas aberturas e estejamos preparados para tirar proveito delas. Não sei especificamente qual é o prazo da obra do Senhor, mas sei que devemos estar ansiosamente empenhados. ¶
Durante os vinte e tantos anos em que servi como Autoridade Geral, presenciei, de maneira muito pessoal e íntima, uma abertura e um fortalecimento milagrosos da obra em algumas das grandes nações da Ásia. Temos hoje bem mais de cem mil membros, com alas e estacas fortes, em terras onde, há apenas vinte e cinco anos, mal ousávamos sonhar em entrar. O Senhor, agindo à sua maneira misteriosa, destrancou aquelas portas e tocou o coração das pessoas. Esse processo está em ação hoje em outras terras. Estou convencido disso, ainda que o progresso possa parecer quase imperceptível. ¶
Ao olhar para trás, para esses vinte anos, sou grato pelo grande desenvolvimento da obra do Senhor. ¶
E agora chegou uma nova incumbência. Sou grato pela confiança do Presidente Kimball, dos Presidentes Tanner e Romney, bem como a de meus irmãos dos Doze, dos Setenta e do Bispado Presidente. Meu único desejo é servir com lealdade onde quer que eu seja chamado. Agradeço a muitos de vocês que têm sido gentis e generosos em suas expressões. Este chamado sagrado tem-me tornado consciente de minhas fraquezas. Se em algum momento tenho ofendido, peço desculpas e espero que me perdoem. Seja essa incumbência longa ou breve, empenho meu melhor esforço, dado com amor e fé. ¶
Suplico compreensão entre nosso povo, um espírito de tolerância uns para com os outros, e perdão. Todos nós temos muito o que fazer para desperdiçar nosso tempo e energias em crítica, em encontrar defeitos ou em maltratar outras pessoas. O Senhor ordenou a este povo, dizendo: “Fortalece os teus irmãos em todas as tuas conversas, em todas as tuas orações, em todas as tuas exortações, e em todos os teus feitos.” Este é o mandamento, declarado inequivocamente; e segue-se então esta maravilhosa promessa: “E eis que eu estou contigo para abençoar-te e livrar-te para sempre.” (D&C 108:7–8.) ¶
Agora, se puder ser guiado pelo Espírito, gostaria de falar sobre outro assunto. Falou recentemente nesta cidade um jornalista proeminente do Leste. Não o ouvi, mas li as reportagens dos jornais sobre suas declarações. É citado como tendo dito: “A certeza é a inimiga da religião.” As palavras a ele atribuídas suscitaram em mim muita reflexão. A certeza, que defino como plena e total segurança, não é a inimiga da religião. É de sua própria essência. ¶
Certeza é convicção. É a força da fé que se aproxima do conhecimento — sim, que até se torna conhecimento. Ela desperta entusiasmo, e não há bem comparável ao entusiasmo para vencer a oposição, o preconceito e a indiferença. ¶
Grandes edifícios jamais foram construídos sobre fundações incertas. Grandes causas jamais foram levadas ao sucesso por líderes vacilantes. O evangelho jamais foi exposto de modo a convencer os outros sem certeza. A fé, que é da própria essência da convicção pessoal, sempre foi, e sempre deverá ser, a raiz da prática e do empenho religioso. ¶
Não havia incerteza na mente de Pedro quando o Senhor lhe perguntou: “Quem dizeis vós que eu sou? ¶
“E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mateus 16:15–16.) ¶
Tampouco havia qualquer dúvida da parte de Pedro quando o Senhor ensinava a multidão em Cafarnaum, declarando-se o pão da vida. Muitos de seus discípulos, que não aceitaram seu ensinamento, “tornaram para trás, e já não andavam com ele. ¶
“Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? ¶
“Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. ¶
“E nós cremos e sabemos que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (João 6:66–69.) ¶
Após a morte do Salvador, será que seus apóstolos teriam continuado, ensinando sua doutrina, e até mesmo dado a vida nas mais dolorosas circunstâncias, se houvesse alguma incerteza a respeito daquele que representavam e cuja doutrina ensinavam? Não faltou certeza da parte de Paulo depois que viu uma luz e ouviu uma voz enquanto seguia para Damasco a fim de perseguir os cristãos. Por mais de três décadas depois disso, ele dedicou seu tempo, sua força, sua vida à disseminação do evangelho do Senhor ressuscitado. Sem se importar com conforto ou segurança pessoal, viajou pelo mundo conhecido de sua época, declarando que “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem os poderes, nem o presente, nem o porvir, ¶
“Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” (Romanos 8:38–39.) ¶
Executado em Roma, Paulo selou com sua morte seu testemunho final de sua convicção da filiação divina de Jesus Cristo. ¶
Assim também foi com os primeiros cristãos, milhares e milhares deles, que sofreram prisão, tortura e morte antes de renunciar às suas crenças declaradas na vida e na ressurreição do Filho de Deus. ¶
Teria havido alguma vez uma Reforma sem a certeza que impeliu com ousadia gigantes como Lutero, Huss, Zuínglio e outros de sua estirpe? ¶
Assim como foi antigamente, também tem sido nos tempos modernos. Sem a certeza da parte dos crentes, uma causa religiosa se torna frágil, sem vigor, sem a força motriz que ampliaria sua influência e cativaria os corações e os afetos de homens e mulheres. Pode-se discutir a teologia, mas o testemunho pessoal, aliado ao desempenho, não pode ser refutado. Esta dispensação do evangelho, da qual somos beneficiários, começou com uma visão gloriosa na qual o Pai e o Filho apareceram ao jovem Joseph Smith. Tendo tido essa experiência, o jovem a relatou a um dos pregadores da comunidade. Este tratou o relato “não só levianamente, mas com grande desprezo, dizendo que tudo aquilo era do diabo, que não havia tais coisas como visões ou revelações nestes dias”. (Joseph Smith—História 1:21.) ¶
Outros levantaram-se contra ele. Ele se tornou alvo de severa perseguição. Mas, disse ele, e observem estas palavras: “Tinha realmente visto uma luz e, no meio dessa luz, dois Personagens; e eles realmente falaram comigo; e embora eu fosse odiado e perseguido por dizer que tivera uma visão, isso era verdade; e enquanto me perseguiam, injuriando-me e afirmando falsamente toda espécie de maldades contra mim por dizê-lo, fui levado a pensar em meu coração: Por que perseguir-me por contar a verdade? Tive realmente uma visão; e quem sou eu para opor-me a Deus, ou por que pensa o mundo fazer-me negar o que realmente vi? Porque eu tivera uma visão; eu sabia-o e sabia que Deus o sabia e não podia negá-la nem ousaria fazê-lo.” (Joseph Smith—História 1:25.) ¶
Não há falta de certeza nessa declaração. Para Joseph Smith, aquela experiência era tão real quanto o calor do sol ao meio-dia. Ele jamais vacilou ou hesitou em sua convicção. Ouçam seu testemunho posterior do Senhor ressuscitado: ¶
“E agora, depois dos muitos testemunhos que se prestaram dele, este é o testemunho, último de todos, que nós damos dele: Que ele vive! ¶
“Porque o vimos, sim, à direita de Deus; e ouvimos a voz testificando que ele é o Unigênito do Pai — ¶
“Que por ele e por meio dele e dele os mundos são e foram criados; e seus habitantes são filhos e filhas gerados para Deus.” (D&C 76:22–24.) ¶
Ele estava tão certo da causa que liderava, tão seguro de seu chamado divinamente dado, que os colocou acima do valor de sua própria vida. Com conhecimento prescente de sua morte iminente, entregou-se àqueles que o levariam, indefeso, às mãos de uma turba. Ele selou seu testemunho com o sangue de sua vida. ¶
Assim foi com seus seguidores. Não se encontrará evidência, nem sequer um vestígio dela, de que a certeza fosse a inimiga da religião em suas vidas e ações. Vez após vez deixaram seus lares confortáveis, primeiro em Nova York, depois em Ohio e Missouri, mais tarde em Illinois; e mesmo depois de chegarem a este vale, muitos partiram novamente para plantar colônias por uma vasta região do Oeste. Por quê? Por causa de sua fé na causa da qual faziam parte. ¶
Muitos morreram nessas longas e difíceis jornadas, vítimas de doença, exposição aos elementos e dos ataques brutais de seus inimigos. Cerca de seis mil jazem sepultados em algum lugar entre o rio Missouri e este vale. Seu amor pela verdade significava mais para eles do que a própria vida. ¶
Assim tem sido desde então. Escrevi estas belas palavras conforme o Presidente David O. McKay as proferiu a um pequeno grupo, há alguns anos. Disse ele: ¶
“Tão absoluta quanto a certeza que vocês têm em seu coração de que esta noite será seguida pela alvorada de amanhã, assim é minha segurança de que Jesus Cristo é o Salvador da humanidade, a luz que dissipará as trevas do mundo, por meio do evangelho restaurado por revelação direta ao Profeta Joseph Smith.” ¶
Nosso amado Presidente Spencer W. Kimball disse: “Sei que Jesus Cristo é o Filho do Deus vivo e que ele foi crucificado pelos pecados do mundo. ¶
“Ele é meu amigo, meu Salvador, meu Senhor, meu Deus.” (Ensign, nov. de 1978, p. 73.) ¶
É esse tipo de certeza que tem impulsionado esta Igreja para a frente diante da perseguição, do escárnio, do sacrifício de fortuna, do abandono de entes queridos para viajar a terras distantes a fim de levar a mensagem do evangelho. Essa convicção motiva hoje como fez desde o princípio desta obra. A fé no coração de milhões de que esta causa é verdadeira, de que Deus é nosso Pai Eterno, e de que Jesus é o Cristo, deve ser sempre a grande força motriz de nossas vidas. ¶
Temos hoje cerca de trinta mil missionários em campo, a um custo de milhões para suas famílias. Por que o fazem? Por causa de sua convicção da verdade desta obra. O número de membros da Igreja hoje se aproxima de cinco milhões. Qual é a razão desse crescimento fenomenal? É porque a certeza penetra no coração de centenas de milhares de conversos a cada ano, conversos tocados pelo poder do Espírito Santo. Temos um grande e eficiente programa de bem-estar em funcionamento. Aqueles que o observam se maravilham com ele. Ele funciona apenas por causa da fé daqueles que dele participam. ¶
Com o crescimento da Igreja, devemos construir novas casas de adoração, muitas centenas delas. São dispendiosas. Mas o povo dá de seus meios, não apenas para esse propósito, mas no pagamento regular e fiel de seus dízimos, por causa da certeza da verdade desta obra. ¶
O maravilhoso e admirável é que qualquer pessoa que deseje conhecer a verdade pode receber essa convicção. O próprio Senhor deu a fórmula quando disse: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo.” (Ver João 7:17.) ¶
Isso exigirá o estudo da palavra de Deus. Exigirá oração e a busca ansiosa da fonte de toda a verdade. Exigirá viver o evangelho, uma experiência, se me permitem dizer, de seguir os ensinamentos. Não hesito em prometer, porque sei por experiência pessoal, que de tudo isso resultará, pelo poder do Espírito Santo, uma convicção, um testemunho, um conhecimento certo. ¶
As pessoas do mundo parecem incapazes de acreditar nisso, tantas delas. O que não percebem é que as coisas de Deus só são compreendidas pelo Espírito de Deus. É preciso esforço. É preciso humildade. É preciso oração. Mas os resultados são certos e o testemunho é seguro. ¶
Se nosso povo, individualmente, algum dia perder essa certeza, a Igreja diminuirá como tantas outras já o fizeram. Não temo isso. Estou confiante de que um número cada vez maior de membros buscará e encontrará aquela convicção pessoal a que chamamos testemunho, que vem pelo poder do Espírito Santo e que pode resistir às tempestades da adversidade. ¶
Para aqueles que vacilam, que se esquivam, que qualificam suas afirmações com incerteza ao falar das coisas de Deus, estas palavras do livro de Apocalipse são apropriadas: ¶
“Eu conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15–16.) ¶
Meus irmãos e irmãs, ao iniciarmos esta grande conferência, não apenas invoco as bênçãos do Senhor sobre vocês, mas com certeza dou-lhes meu testemunho da verdade. Sei que Deus, nosso Pai Eterno, vive. Eu sei disso. Sei que Jesus é o Cristo, o Salvador e Redentor da humanidade, o autor de nossa salvação. Sei que esta obra da qual fazemos parte é a obra de Deus; que esta é a Igreja de Jesus Cristo. Grande é nossa oportunidade de servir nela, e forte e certa é nossa fé a seu respeito. Em nome de Jesus Cristo, amém. ¶