“A Caridade Nunca Falha”
Gordon B. Hinckley
Minhas amadas irmãs, dirijo-lhes algumas palavras por incumbência do Presidente Tanner, do Presidente Romney e do Presidente Smith. Sou grato por este tema, o tema da Sociedade de Socorro: “A caridade nunca falha.” ¶
Tive ocasião, na outra noite, de fazer uma pequena pesquisa sobre as companhias de carrinhos de mão de Willie e Martin, de 1856. Havia mais de mil pessoas nessas companhias, conversas à Igreja vindas da Escandinávia e das Ilhas Britânicas. Chegaram tarde aos Estados Unidos, e perigosamente tarde ao deixar Iowa City para começar a longa caminhada até este vale. Ficaram presas nas neves de Wyoming. Felizmente, foram ultrapassadas no caminho por alguns missionários que regressavam da Inglaterra e que, ao verem a situação dos santos dos carrinhos de mão, seguiram apressadamente até este vale e relataram o ocorrido ao Presidente Brigham Young. Isso foi no sábado da conferência de outubro de 1856. Na manhã seguinte, domingo, ele se pôs diante do povo no antigo tabernáculo que existia nesta praça e disse, na sessão da manhã: ¶
“Vou agora dar a este povo o assunto e o texto para os élderes que falarem hoje e durante a conferência”, anunciou ele. “É o seguinte: … Muitos de nossos irmãos e irmãs estão nas planícies com carrinhos de mão, e provavelmente muitos estão agora a setecentas milhas deste lugar, e é preciso trazê-los para cá, devemos enviar-lhes socorro. O texto será: ‘trazê-los para cá’. … ¶
“Essa é a minha religião; esse é o ditame do Espírito Santo que possuo. É salvar o povo.” ¶
Ele pediu carroças, atrelagens e condutores, e depois disse: ¶
“Quero que as irmãs tenham o privilégio de trazer cobertores, saias, meias, sapatos, etc., para os homens, mulheres e crianças que estão nessas companhias de carrinhos de mão … capuzes, toucas de inverno, meias, saias, roupas de baixo e quase qualquer tipo de vestimenta.” ¶
Isso foi no domingo. Na terça-feira de manhã, dois dias depois, dezesseis carroças de alimentos e suprimentos começaram a sair desta cidade, puxadas por dezesseis fortes atrelagens de quatro mulas, conduzidas por vinte e sete jovens. ¶
Esse foi o começo, e outras carroças se seguiram, à medida que os homens respondiam com suas atrelagens e carroças, e as mulheres, de suas próprias reservas modestas, reuniam alimentos, roupas, cobertores e outras necessidades. (Ver LeRoy R. Hafen, Handcarts to Zion, Glendale, Califórnia: Arthur H. Clark Company, 1960, pp. 119–26.) ¶
Não há episódio mais heroico em toda a nossa história. À medida que essas pobres pessoas, muitas delas com as mãos e os pés gravemente congelados, algumas delas mais próximas da morte do que da vida, chegavam ao vale, as mulheres que aqui estavam lhes abriam suas casas, as alimentavam, tratavam de seus ferimentos, as nutriam e as encorajavam e abençoavam durante aquele longo e amargo inverno. ¶
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” (1 Coríntios 13:1.) ¶
Que Deus abençoe as mulheres da Sociedade de Socorro que, agora como então, socorreram os necessitados, foram amigas dos solitários, alimentaram os famintos e cuidaram dos enfermos. “E, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:40.) Assim disse o Senhor. ¶
Agora eu gostaria de dizer uma palavra a respeito da caridade em outro sentido. ¶
Falo da caridade no sentido do perdão, da tolerância para com as falhas alheias, do abafamento dos sentimentos de ciúme e falta de gentileza para com os semelhantes. ¶
Penso em duas mulheres, outrora as mais próximas amigas. Uma delas, por um acidente do qual era inocente, tornou-se, na prática, parte na morte de um filho da outra. É difícil dizer qual dessas mulheres sofreu mais com a morte daquela criança. Aquela que não era a mãe, mas que se envolveu no acidente que levou à fatalidade, chorou e lamentou por muitos anos, não apenas pela criança que se perdeu e por sua parte na trágica situação, mas talvez ainda mais pelo espírito de intransigência da mãe que perdeu o filho. É compreensível que a mãe enlutada, lamentando a perda de seu bebê, se sentisse amargurada. Mas já há muito ela deveria ter compreendido que sua amiga era inocente, que ela também havia chorado, e que deveria ter havido uma efusão de amor para com ela, em vez de recriminação. A ausência de caridade corroeu a alma daquela mulher, destruiu sua felicidade, trouxe apenas miséria aos seus dias e tristeza às suas noites. ¶
Morôni ensinou que “a caridade é o puro amor de Cristo.” (Morôni 7:47.) Foi o Redentor sofredor que disse, ao pender na cruz do Calvário e olhar para aqueles que tão brutalmente o haviam crucificado: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34.) ¶
Se houver alguém ao alcance de minha voz que tenha guardado rancor, que tenha deixado o ódio se instalar em seu coração para com outra pessoa, peço-lhe que faça o esforço de mudar de rumo. O ódio sempre fracassa e a amargura sempre destrói, mas “a caridade nunca falha.” (1 Coríntios 13:8.) ¶
Há outro aspecto nessa questão. Há entre nós um espírito de crítica desenfreado. Talvez seja parte da época em que vivemos. Estamos constantemente expostos aos escritos de colunistas de jornais e às opiniões de comentaristas de rádio e televisão. Seu principal objetivo, ao que me parece, é encontrar defeitos. São críticos, às vezes de forma até maldosa. Criticam figuras políticas. Criticam líderes eclesiásticos. Nenhum de nós é perfeito; todos nós ocasionalmente cometemos erros. Houve apenas um indivíduo perfeito que jamais caminhou sobre a terra. Homens e mulheres que carregam grandes responsabilidades não precisam de crítica, precisam de incentivo. Pode-se discordar de uma política sem ser desagradável para com aquele que a formula. ¶
Suplico a vocês, mulheres, jovens e idosas, que refreiem a língua na crítica aos outros. É tão fácil encontrar defeitos. É tão mais nobre falar de modo construtivo. ¶
Posso mencionar outro assunto a vocês, mães? Fiquei aflito ao ler recentemente no jornal que uma pesquisa realizada em uma de nossas comunidades entre estudantes do ensino médio indicava um espírito de discriminação e falta de amizade para com aqueles que não são de nossa fé. Não sei nada sobre a confiabilidade dessa pesquisa. Se houver fundamento no resultado, sinto-me constrangido. Espero que, em suas noites familiares, vocês ensinem a seus filhos a importância da amizade, da tolerância, da necessidade de estender a mão, mesmo àqueles com quem discordamos, em espírito de amor, bondade e prestatividade. ¶
Agora, para concluir, gostaria de dizer uma ou duas palavras sobre alguém que se destaca como exemplo para todos nós. Falo da Irmã Camilla Eyring Kimball. Nestas últimas semanas, tenho-a visto com frequência ao lado de seu marido, dia e noite, durante a doença que ele tem sofrido. A lealdade dela para com ele, a evidência de seu amor incessante por ele, seu terno cuidado com ele, tornaram-se como os fios de uma bela tapeçaria. Suas orações em favor dele, suas súplicas ao Senhor, foram as de uma mulher de força e humildade, que sabe que toda a vida é um dom de Deus, nosso Pai Eterno. ¶
E há outra faceta em sua natureza que deveria ser um exemplo para todos nós, e a aponto especialmente a vocês, mulheres mais jovens. Ela veio de uma família muito numerosa. Foi a primeira dos filhos a sair de casa para obter educação. Tinha sede de conhecimento e o obteve. Tendo se qualificado para a vocação que escolheu, usou parte de seus ganhos para ajudar seus irmãos e irmãs a começar sua educação. Dessa família vieram homens e mulheres de renome mundial. ¶
A Irmã Kimball nunca perdeu sua sede de aprender. A leitura é a própria essência de sua vida. Nutriu-se dela quando jovem, e agora, em seus últimos anos, ela lhe traz conforto e força. Para as mulheres em toda parte, ela é um exemplo brilhante da necessidade de crescer constantemente, de expandir a mente, de ampliar o entendimento, de se nutrir dos pensamentos de grandes homens e mulheres de todas as épocas. ¶
Ela é o epítome da bondade e da consideração. Conheceu algo da pobreza quando jovem, embora não a reconhecesse como tal. Mas, a partir de um senso de valores cultivado naqueles primeiros anos, ela tem se estendido em amor e compaixão para ajudar aqueles que estão em dificuldades. ¶
Recomendo o exemplo dela a vocês. Invoco as bênçãos do Senhor sobre ela e seu amado marido. Invoco bênçãos sobre vocês, jovens mulheres, cujas vidas estão repletas de esperanças e sonhos de coisas boas, para que esses sonhos se realizem; sobre vocês, jovens mães, que desempenham papel tão importante na criação e no ensino dos filhos; e sobre vocês, mulheres mais velhas, que já viram muito da vida e chegaram a apreciar suas belezas e a reconhecer suas tristezas. ¶
“A caridade nunca falha.” É o “puro amor de Cristo e permanece para sempre.” (Morôni 7:46–47.) ¶
Que Deus abençoe cada uma de vocês, humildemente oro em nome de Jesus Cristo, amém. ¶