Oposição à Obra de Deus
Carlos E. Asay
Enquanto refletia sobre um tema para esta designação de conferência, tive a oportunidade de tratar de um assunto por telefone com um membro do Conselho dos Doze. Nessa conversa, perguntei: “O senhor poderia me ajudar a escolher um assunto adequado para minha designação de conferência?” ¶
Ele disse: “Sim”, com uma voz muito tranquilizadora. E então disse: “Carlos, ore.” ¶
Compartilho, portanto, com vocês o resultado de muitas orações, e o faço com espírito de oração, obediência e muita humildade. ¶
Em 1º de novembro de 1857, o Élder George A. Smith proferiu um discurso memorável, que incluía esta antiga fábula chinesa: ¶
“Um homem que viajava pelo interior chegou a uma grande cidade, muito rica e esplêndida; olhou para ela e disse a seu guia: ‘Este deve ser um povo muito justo, pois só consigo ver um pequeno diabo nesta grande cidade.’ ¶
“O guia respondeu: ‘O senhor não compreende. Esta cidade está tão perfeitamente entregue à maldade … que basta um único diabo para mantê-los todos sob controle.’ ¶
“Viajando um pouco mais adiante, ele chegou a um caminho acidentado e viu um velho tentando subir a encosta do morro, rodeado por sete diabos grandes, corpulentos e de aspecto rude. ¶
“‘Ora’, disse o viajante, ‘este deve ser um velho tremendamente perverso! Vejam quantos diabos há ao seu redor!’ ¶
“‘Este’, respondeu o guia, ‘é o único homem justo do país; e há sete dos maiores diabos tentando desviá-lo de seu caminho, e todos juntos não conseguem fazê-lo.’” (Journal of Discourses, 5:363–64.) ¶
Depois de relatar a fábula, o Élder Smith acrescentou que “o diabo tem o mundo tão perfeitamente à sua disposição que bastam poucos diabos para mantê-lo sob controle” e que “toda a legião de diabos não tem nada a fazer senão cuidar dos ‘mórmons’ e agitar o coração dos filhos dos homens para destruí-los — para tirá-los da existência.” (Journal of Discourses, 5:364.) ¶
O maligno tentou, em muitas ocasiões e em todas as dispensações, eliminar, se assim podemos dizer, muitos dos filhos de Deus. Às vezes, ele mesmo assumiu o papel de enganador. Outras vezes, agiu por meio daqueles que se colocaram do seu lado. Por exemplo, no Livro de Mórmon, lemos sobre três anticristos. Cada um deles foi enganado, cada um pregou contra os que criam em Cristo, e cada um procurou abertamente destruir a igreja de Deus. Seus padrões de engano eram semelhantes. Ensinavam falsas doutrinas, espalhavam mentiras, referiam-se às profecias como tradições tolas, acusavam os líderes da Igreja de perverter o caminho reto de Deus e atraíam o povo referindo-se à sua fé como uma esperança tola e vã. (Ver Jacó 7; Alma 1; e Alma 30.) ¶
Quando lemos sobre os anticristos de outrora, admiramo-nos de como seu pensamento se tornou pervertido e admiramo-nos de como foram bem-sucedidos em enganar homens e mulheres. Também nos perguntamos por que algumas pessoas eram tão ingênuas — tão facilmente enganadas. E, com todo esse espanto e questionamento, tendemos a relegar os anticristos a algum canto da história antiga e seguir nosso caminho sem cautela. Isso é perigoso. Poderia resultar em perda de fé; e, em sentido espiritual, poderia nos tirar da existência. ¶
Desde a primavera de 1820, Lúcifer tem liderado um ataque incessante contra os santos dos últimos dias e seus líderes. Um desfile de anticristos, antimórmons e grupos apóstatas surgiu em cena. Muitos ainda estão entre nós e lançaram novas ondas de mentiras e falsas acusações. Esses destruidores de fé e ladrões de testemunho usam contatos pessoais, a palavra impressa, os meios eletrônicos e outros meios de comunicação para semear dúvidas e perturbar a paz dos verdadeiros crentes. ¶
Há dois meses, recebemos uma carta comovente de um bispo. Ele nos informou que estivera envolvido na excomunhão de um converso recente. O novo converso caíra sob a influência de um apóstata muito dedicado, que conseguiu destruir o testemunho do converso. Parece que, para desacreditar Joseph Smith e os profetas subsequentes, o apóstata citou mudanças feitas nas publicações da Igreja ao longo dos anos. ¶
A abordagem usada pelo apóstata é comum entre os que estão mais interessados em sombras do que em luz. A lógica desses, se seguida, os levaria a queimar o Novo Testamento porque o relato do evangelho feito por Lucas não é exatamente igual ao de Mateus, ou porque o livro de Atos relata duas versões diferentes da visão de Paulo no caminho de Damasco. (Ver Atos 9:1–9 e 22:4–11.) A crença em profetas modernos e em revelação contínua está ausente na vida de muitos apóstatas. Eles depositariam suas esperanças de salvação em coisas diferentes daquelas relacionadas a profetas vivos e à fé viva. ¶
Seguem-se as perguntas: como respondemos a desígnios tão maliciosos e perversos? Revidamos? Permitam-me sugerir um curso de ação — um que esteja em harmonia com os ensinamentos do Salvador, e que, se seguido, estará em harmonia com o sábio conselho de profetas passados e presentes: ¶
Evitem aqueles que desejam destruir sua fé. Os destruidores de fé devem ser evitados. As sementes que plantam na mente e no coração dos homens crescem como um câncer e corroem o Espírito. Os verdadeiros mensageiros de Deus são construtores — não destruidores. Enviamos nossos missionários ao mundo para ensinar e ajudar as pessoas a receber a verdade linha por linha, até que recebam a plenitude do evangelho. (Ver D&C 98:12.) Como testificou um novo converso: “Minha igreja anterior me deu o capítulo sobre a mortalidade. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias acrescentou mais dois capítulos referentes às existências pré-mortal e pós-mortal.” ¶
Guardem os mandamentos. O Presidente Brigham Young prometeu: “Tudo o que temos de fazer é seguir em frente e para cima, e guardar os mandamentos de nosso Pai e Deus; e Ele confundirá nossos inimigos.” (Discourses of Brigham Young, sel. John A. Widtsoe, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1957, p. 347.) Se obedecermos às leis sagradas, tomaremos sobre nós “toda a armadura de Deus” e seremos capazes de resistir às ciladas do diabo. (Ver Ef. 6:11–18.) Além disso, a obediência nos assegura a orientação e a proteção do Espírito Santo. ¶
Sigam os profetas vivos, como acabamos de ser exortados a fazer. Um líder da Igreja ensinou: “Mantenham sempre os olhos voltados para o Presidente da Igreja, e se ele algum dia lhes disser para fazer algo, e for errado, e vocês o fizerem, o Senhor os abençoará por isso. … Mas vocês não precisam se preocupar. O Senhor jamais permitirá que Seu porta-voz desencaminhe o povo.” (Heber J. Grant, citado por Marion G. Romney em Conference Report, out. 1960, p. 78.) Caminhamos por campos minados desconhecidos e colocamos nossa alma em perigo quando recebemos os ensinamentos de qualquer pessoa que não seja ordenada por Deus. (Ver D&C 43:2–7; 52:9.) ¶
Não contendam nem debatam sobre pontos de doutrina. O Mestre advertiu que “o espírito de contenda não é meu, mas é do diabo.” (3 Né. 11:29.) Somos inconsistentes se recorremos a táticas satânicas na tentativa de alcançar fins justos. Tal inconsistência resulta apenas em frustração, perda do Espírito e derrota final. Lembrem-se: “Reivindicamos o privilégio de adorar a Deus Todo-Poderoso segundo os ditames de nossa própria consciência, e permitimos que todos os homens tenham o mesmo privilégio.” (Décimo Primeiro Artigo de Fé.) ¶
Examinem as escrituras. Poucos de nós nos desviaríamos ou perderíamos o caminho se considerássemos as escrituras nossa bússola pessoal. (Ver Alma 37:44.) A barra de ferro é a palavra de Deus, e, se a ela nos apegarmos, não cairemos. ¶
Não se deixem desviar nem afastar da missão da Igreja. Há aqueles que gostariam de tirá-los do rumo e fazê-los desperdiçar tempo e energias. Satanás usou uma estratégia de diversão quando tentou Cristo no deserto. A resposta decisiva do Salvador, “Vai-te, Satanás” (Mat. 4:10), é um exemplo adequado para todos nós. ¶
Orem por seus inimigos. Cristo disse aos nefitas: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e perseguem.” (3 Né. 12:44; ver também Mat. 5:44; 3 Né. 12:10–12.) Enquanto estava na cruz, o Salvador suplicou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Luc. 23:34.) Há muitos que são mantidos afastados da verdade — não porque não a queiram, mas porque não sabem onde encontrá-la. ¶
Pratiquem a “religião pura”. Envolvam-se em serviço cristão. Socorram as necessidades dos doentes e dos pobres; visitem os órfãos e as viúvas, e sejam caridosos para com todos, dentro ou fora da Igreja. (Ver Tiago 1:27 e Alma 1:30.) ¶
Lembrem-se de que pode haver muitas perguntas para as quais não temos respostas e de que algumas coisas devem ser aceitas simplesmente pela fé. Um anjo do Senhor perguntou a Adão: “Por que ofereces sacrifícios ao Senhor?” Ele respondeu: “Eu não sei, exceto que o Senhor me mandou.” (Moisés 5:6.) Pode haver ocasiões em que sejamos chamados a subir nossos Montes Moriás e a sacrificar nossos Isaques sem uma explicação completa e prévia. A fé é o primeiro princípio do evangelho; é um princípio de progresso. ¶
Suspeito que poucos conhecem melhor a realidade de Satanás e de seus asseclas do que o missionário de tempo integral, pois o missionário está exposto aos dardos inflamados do adversário, que passam assobiando acima de sua cabeça enquanto ele ou ela trabalha na linha de frente de nossa guerra contra o pecado. No entanto, prometo a todos os missionários — e a todos os membros — que, se as nove ações que acabamos de mencionar forem seguidas com constância, a vitória será de vocês, e a fé e o testemunho serão preservados. ¶
Ao mesmo tempo — ¶
Asseguro-lhes que a oposição à nossa causa testifica de sua divindade. Será que os poderes satânicos se uniriam contra nós se não estivéssemos representando uma ameaça a esses poderes? ¶
Asseguro-lhes que a oposição, quando enfrentada e superada, tem uma influência refinadora sobre nossa vida. Um verso de um de nossos hinos diz: ¶
Se provas de fogo tiverdes que passar, ¶
Tereis sua graça a vos amparar. ¶
A chama não pode o fiel consumir ¶
Mas queima a escória e o ouro faz surgir. ¶
("Que Firme Alicerce", Hinos, nº 42.) ¶
Asseguro-lhes que as águas em que costumamos nadar não passam de pequenas poças quando comparadas aos profundos rios de oposição em que nadaram o Profeta Joseph e outros. (Ver D&C 127:2.) ¶
Asseguro-lhes que nossa causa é justa e que ela prevalecerá, independentemente da oposição exercida contra nós. Os primeiros santos foram fortalecidos por estas palavras: “Até quando podem águas correntes permanecer impuras? Que poder deterá os céus? Seria tão inútil o homem estender seu braço débil para deter o rio Missouri em seu curso ou fazê-lo ir correnteza acima, como o seria impedir que o Todo-Poderoso derramasse conhecimento do céu sobre a cabeça dos santos dos últimos dias.” (D&C 121:33.) ¶
O Presidente Brigham Young disse: “Toda vez que vocês chutam o ‘mormonismo’, o chutam para cima; nunca o chutam para baixo. O Senhor Todo-Poderoso assim o ordena.” (Discourses of Brigham Young, sel. John A. Widtsoe, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1941, p. 351.) ¶
Com todo o meu coração, imploro àqueles que estão andando pelas margens de nossa fé que busquem a segurança do centro. Isso pode ser feito da melhor forma aconselhando-se com seus líderes e permanecendo dentro do círculo de comunhão dos santos, recebendo o alimento da boa palavra de Deus. Não permitam que pessoas sem fé os desviem do caminho certo ou os tirem da existência. (Ver Morôni 6.) ¶
E oro por aqueles que praticam a mais alta forma de roubo — a de despojar as pessoas de seus preciosos testemunhos. Tal ação, se continuada, levará apenas à futilidade e ao vazio do sonho de uma visão noturna. (Ver 2 Né. 27:3; Atos 5:33–39.) ¶
Que Deus nos ajude a todos em nossa guerra contra o pecado. Ainda que sejamos poucos e nossos domínios pequenos, que possamos avançar “armados com retidão e com o poder de Deus, em grande glória” (1 Né. 14:14), é minha oração em nome de Jesus Cristo, amém. ¶