Nenhum Homem Deve Acrescentar ou Tirar
Howard W. Hunter
Recentemente, um jovem amigo no campo missionário me escreveu uma carta a respeito de uma pergunta que lhe haviam feito sobre os versículos finais da Bíblia e como eles se aplicam ao Livro de Mórmon. Lembramo-nos de que, ao final do livro de Apocalipse, o último livro da Bíblia, o autor, João, emite uma advertência e uma maldição contra qualquer homem que acrescente ou tire algo do livro. Especificamente, estas são as palavras que ele escreveu: ¶
"Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; ¶
"E se alguém tirar das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro." (Apocalipse 22:18–19.) ¶
Esses versículos das escrituras têm sido citados repetidamente por aqueles que tentam desacreditar o Livro de Mórmon, alegando que a revelação de Deus ao homem está encerrada. Nada mais deve ser acrescentado e nada deve ser tirado. Afirmam que o Livro de Mórmon é uma tentativa de acrescentar às palavras da Bíblia. Essas alegações foram feitas quando o Livro de Mórmon foi publicado pela primeira vez e continuaram a ser feitas, e são feitas ainda hoje. Há alguma validade em tais afirmações? ¶
A resposta a essa pergunta é, na verdade, muito simples. Uma leitura cuidadosa das palavras deixa claro que a advertência contra acrescentar ou tirar não se refere a toda a Bíblia, nem mesmo ao Novo Testamento, mas, para usar as palavras de João, somente às palavras "do livro desta profecia." Isto é, a profecia contida no livro de Apocalipse. Isso é comprovado pelo fato de que alguns dos livros do Novo Testamento ainda não haviam sido escritos quando João escreveu o livro de Apocalipse, e mesmo os que já haviam sido escritos e existiam naquela época ainda não haviam sido reunidos em uma única compilação. ¶
A coletânea de escritos composta pelos sessenta e seis livros que conhecemos como a Bíblia foi reunida e compilada em um único volume muito depois de João ter escrito o livro profético que foi colocado ao final da coletânea. Fica claro, portanto, que os terríveis julgamentos pronunciados contra aqueles que acrescentam ao livro não poderiam possivelmente se aplicar a toda a Bíblia, nem mesmo ao Novo Testamento, mas somente ao livro de Apocalipse. ¶
Em segundo lugar, a advertência usa as palavras "a profecia deste livro" e também "as palavras do livro desta profecia." A palavra livro, em ambos os casos, está no singular e só poderia se referir ao livro de profecia escrito por João, que é intitulado, na versão Rei Jaime, "A Revelação de São João, o Divino," e frequentemente chamado de Apocalipse — uma palavra grega que significa revelado. Por necessidade, a palavra livro teria de estar no singular, pois, quando foi escrito, não estava associado a nenhum outro livro ou livros, e foi somente depois de muitos anos e muitos debates eclesiásticos que ele foi acrescentado à coletânea que veio a ser conhecida como o novo cânon das escrituras, ou o Novo Testamento. ¶
Também é interessante observar que o próprio João acrescentou às escrituras depois de escrever o livro de Apocalipse, que se admite geralmente ter sido escrito enquanto ele estava na Ilha de Patmos. Foi muito depois de João deixar Patmos que ele escreveu sua primeira epístola. Esse fato, por si só, seria suficiente para refutar a alegação de que a revelação estava encerrada e de que o homem estava proibido de acrescentar às escrituras. Isso soma evidência adicional de que João se referia somente ao livro de Apocalipse. ¶
No Velho Testamento também se encontram denúncias e ordens igualmente vigorosas de que nada deveria ser tirado nem acrescentado às palavras que haviam sido escritas. A primeira se encontra em Deuteronômio, escrito quando Moisés exortava Israel a viver a lei do Senhor. A Torá era lei oral e não havia sido reduzida à escrita antes da época da codificação da lei em Deuteronômio. Agora que ela havia sido reduzida à escrita por Moisés, antes de sua morte, e considerada completa, Moisés escreveu: ¶
"Não acrescentareis à palavra que vos ordeno, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos ordeno." (Deuteronômio 4:2.) ¶
Mais adiante, neste mesmo livro da lei, Moisés repetiu a admoestação em palavras semelhantes. Ele disse: ¶
"Tudo o que eu vos ordeno, observareis para fazer; nada lhe acrescentarás, e nada lhe diminuirás." (Deuteronômio 12:32.) ¶
Na mente de alguns, essas admoestações do Velho Testamento levantam a mesma questão quanto ao Livro de Mórmon ser uma tentativa de acréscimo às escrituras, tal como faz a proibição e a advertência ao final do livro de Apocalipse. Com efeito, essas passagens contêm a mesma proibição que a encontrada ao término do Apocalipse; e se a mesma interpretação e o mesmo argumento fossem aplicados a elas como são aplicados aos versículos finais do livro de Apocalipse, não haveria escritura alguma depois dos escritos de Moisés. Tal absurdo resultaria em descartar a maior parte do Velho Testamento e todos os livros do Novo Testamento. ¶
Uma leitura cuidadosa de cada uma dessas admoestações deixa claro que é o homem quem não deve fazer alterações nas revelações do Senhor: o homem não deve acrescentar ou tirar das palavras de Deus. Não há indicação ou insinuação alguma de que Deus não pudesse, ou não fosse, acrescentar ou tirar; tampouco qualquer pessoa razoável, com crença nos poderes divinos de Deus, acreditaria conscientemente que Deus estaria assim restringido. Sem dúvida, Ele teria o direito e o poder de dar revelação adicional para orientar Seus filhos em qualquer época e de acrescentar escritura adicional. ¶
Um estudo das revelações do Senhor nas sagradas escrituras confirma o fato de que é a revelação contínua que guia os profetas e a Igreja em qualquer época. Não fosse a revelação contínua, Noé não teria sido preparado para o dilúvio que envolveu a Terra. Abraão não teria sido guiado de Harã a Hebrom, a Terra da Promessa. A revelação contínua conduziu os filhos de Israel do cativeiro de volta à sua terra prometida. A revelação por meio de profetas guiou os esforços missionários, dirigiu a reconstrução do templo de Salomão e denunciou a infiltração de práticas pagãs entre os israelitas. ¶
Antes de Sua ascensão, Cristo prometeu aos onze apóstolos que restavam: "Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos." (Mateus 28:20.) Depois de Sua ascensão, Ele guiou a Igreja por revelação até a morte dos Apóstolos e a subsequente apostasia da Igreja de Jesus Cristo. ¶
Um sinal distintivo dos últimos dias, que precederá a eventual Segunda Vinda do Senhor, foi visto em visão por aquele mesmo Apóstolo que registrou o livro de Apocalipse. Ele disse: ¶
"E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno, para proclamá-lo aos que habitam sobre a terra, e a toda nação, e tribo, e língua, e povo." (Apocalipse 14:6.) ¶
O fato de João ter visto um mensageiro de Deus revelar novamente um evangelho perdido nega o argumento de que nenhuma revelação adicional poderia ser acrescentada à Bíblia. ¶
Testificamos a todo o mundo que ministros celestiais já apareceram em nossa época, trazendo autoridade do céu e restaurando verdades perdidas por causa de ensinamentos e práticas corrompidos. Deus falou novamente e continua a proporcionar orientação a todos os Seus filhos por meio de um profeta vivo hoje. Declaramos que Ele, conforme prometido, está com Seus servos sempre e dirige os assuntos de Sua Igreja em todo o mundo. Como em tempos passados, a revelação dirige as obras missionárias, a construção de templos, o chamado de oficiais do sacerdócio, e adverte contra os males da sociedade que possam negar a salvação aos filhos de nosso Pai. ¶
Em uma revelação a um oráculo moderno, Joseph Smith, o Senhor disse: ¶
"Porque não faço acepção de pessoas e desejo que todos os homens saibam que o dia rapidamente se aproxima; ainda não é chegada a hora, mas está perto, em que a paz será tirada da Terra e o diabo terá poder sobre seu próprio domínio. ¶
"E também o Senhor terá poder sobre seus santos e reinará em seu meio." (D&C 1:35–36.) ¶
O Salvador reina hoje em meio aos santos por meio da revelação contínua. Testifico que Ele está com Seus servos neste dia e estará até o fim da Terra. ¶
Que nossa visão não seja tão estreita a ponto de relegarmos a revelação apenas aos antigos. Deus é misericordioso e ama Seus filhos em todas as épocas, e Se revelou a esta época da história. Disso testifico solenemente, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶