Pulpit

A Dignidade Pessoal

James E. Faust

Conferência Geral de Abril de 1981·Saturday Morning Session·1981-04-01

“Graças damos, ó Deus, por um profeta, que nos guia no tempo atual.”

Nesta manhã, desejo dizer algo que, espero, possa trazer alguma ajuda e talvez outro enfoque à mente dos jovens. Nunca senti tão intensamente a necessidade tanto do auxílio do Espírito divino quanto da compreensão daqueles que me ouvem. Humildemente oro para que eu não seja mal interpretado.

Gostaria de começar relatando uma maravilhosa visão que o Profeta Joseph Smith teve a respeito dos Doze Apóstolos de seus dias, a qual tem profundo significado para mim. Heber C. Kimball registrou: “A seguinte visão lhe foi manifestada [a Joseph Smith], tanto quanto me recordo:

“Ele viu os Doze partindo, e pareciam estar em uma terra distante. Depois de algum tempo, encontraram-se inesperadamente, aparentemente em grande tribulação, suas roupas todas esfarrapadas, seus joelhos e pés machucados. Formaram um círculo e todos ficaram com os olhos fixos no chão. O Salvador apareceu e ficou no meio deles e chorou por eles, e quis mostrar-se a eles, mas eles não O perceberam.” (Orson F. Whitney, Life of Heber C. Kimball, 2ª ed., Salt Lake City: Bookcraft, p. 93; ver também History of the Church, 2:381.)

Uma mensagem que se pode inferir disso é que, por terem os Doze sofrido tanto, suportado tão grandemente e se exaurido de tal forma na liderança da batalha da retidão, estavam curvados e não olhavam para cima. Se apenas tivessem olhado para cima, poderiam ter contemplado o Senhor Jesus, que queria que o vissem, chorando por eles, sofrendo com eles e permanecendo em seu meio.

Não faz muitos meses, estivemos em uma das cidades mais antigas da Terra. Ali estão algumas das maiores maravilhas do mundo; e também o crime, a miséria, a pobreza e a imundície. Nossos gentis anfitriões observaram, enquanto passávamos pelas multidões fervilhantes — pelos burros sobrecarregados, pela sujeira, pelos odores —, que tudo era belo naquela cidade se erguêssemos o olhar e olhássemos apenas um palmo ou mais acima do chão.

Em tempos recentes, o preço do petróleo, do ouro e de outros minerais preciosos aumentou muito. Todos esses tesouros são obtidos olhando para baixo. São úteis e necessários, mas são riquezas tangíveis. E quanto aos tesouros que se encontram ao elevarmos nossa visão? E quanto às riquezas intangíveis que provêm da busca da santidade? Estêvão olhou para cima: “Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus.” (Atos 7:55.)

Meu coração e minha compreensão se voltam para nossos jovens. Eles precisam enfrentar uma escuridão e uma névoa moral tão densas quanto muitos de nós já vimos. Vivemos em um mundo em que o sucesso parece ser medido, em grande parte, pelas posses materiais. A forma como essas posses foram adquiridas muitas vezes parece não ter importância. A honestidade, o decoro, a castidade e a santidade são frequentemente rebaixados, como se tivessem menos valor do que as posses. Nossos jovens estão sendo induzidos a olhar para cima ou para baixo?

O desejo de lucro e de popularidade no mundo do entretenimento tem desmascarado, da maneira mais atraente, todos os males da raça humana. As práticas e perversões mais repugnantes têm sido mascaradas e até mesmo impostas a nossos jovens inexperientes por alguns que buscam comercializar sedutoramente o lado mau do comportamento humano. As consciências parecem cauterizadas com ferro em brasa; as células espirituais parecem fechadas. Ideais de vazio e de inutilidade da vida são fomentados. A nobreza de pensamento e de propósito parece não ser suficientemente ensinada, incentivada ou valorizada.

O padrão do ladrão comum, “O que podemos conseguir sem sermos apanhados?”, tornou-se, para muitos no mundo, o padrão, em vez daquilo que nossa própria integridade deveria exigir que fizéssemos. O que aconteceu com o respeito próprio e a integridade pessoal, que não permitiriam sequer cogitar fazer coisas mesquinhas ou pequenas? Um exemplo poderia ser nosso relacionamento com o crédito financeiro pelo qual o comércio do mundo se realiza. Frequentemente esquecemos que aqueles que nos concedem crédito também nos concedem confiança. Nossa própria integridade está envolvida. Lembro-me de meu pai falar com profundo respeito de um homem a quem, como advogado, meu pai havia conduzido por um processo de falência. Com o tempo, esse homem pagou integralmente todos os seus credores que haviam confiado nele e lhe haviam concedido crédito, mesmo tendo sido legalmente dispensado do pagamento das dívidas. Nossa própria integridade é uma parte substancial de nosso valor individual.

Como pode a crença e a moralidade cristãs se traduzir mais completamente em ação cristã? Será que nosso compromisso fica aquém de ser uma consagração? O Tomé duvidoso queria crer; ele acreditava até certo ponto. É minha firme convicção de que edificar autoestima suficiente para abandonar todo o mal requer consagração aos princípios e ordenanças salvadoras do evangelho sob a autoridade divina do sacerdócio. Precisa ser consagração aos princípios cristãos simples e básicos, incluindo honestidade para consigo mesmo e para com os outros, esquecimento de si mesmo, integridade de pensamento e de ação. Os princípios do evangelho restaurado são tão claros, tão simples, tão compassivos, tão dotados de beleza, tão agraciados com amor não fingido, que ostentam a marca indiscutível do próprio Salvador.

Também é necessário confrontar e dominar os desafios da vida, especialmente aqueles que acompanham a tentação. Em vez de enfrentar de forma franca e honesta os problemas da vida, muitos negociam seu caminho através das dificuldades, racionalizando o afastamento das grandes verdades que trazem felicidade e justificando o abandono de suas promessas sagradas e compromissos santos por razões aparentemente lógicas, mas frágeis e injustificáveis.

Não posso deixar de me perguntar se não temos ficado aquém do alvo. Temos medido por padrões curtos demais e indignos daqueles que buscam a santidade? Temos nos consolado excessivamente com o sentimento de que nos qualificamos por meio de nossa presença nas reuniões ou de um envolvimento mínimo em um esforço para tranquilizar a consciência? Nossas diretrizes têm sido um teto em vez de um piso?

Ao retornar de uma temporada morando na América do Sul, fiquei impressionado com a falta de autoestima revelada na maneira como tantas pessoas agora se vestem em público. Para chamar a atenção ou em nome do conforto e da informalidade, muitos caíram não apenas na imodéstia, mas no desleixo. Contra seu próprio interesse, apresentam-se aos outros da pior maneira possível.

Ao abandonar o grande princípio do recato, a sociedade pagou um preço com a violação de um princípio maior, porém relacionado — o da castidade. Os que difundem o conceito de relações sexuais irresponsáveis, que degradam e brutalizam os que nelas se envolvem, mascararam grosseiramente e ignoraram por completo o propósito desses dons divinos.

A castidade antes do casamento e a fidelidade depois dele são ingredientes fundamentais para o pleno florescimento do amor sagrado entre marido e mulher. A castidade nutre e fortalece o sentimento de autovalorização e protege contra a destruição da autoimagem.

Um dos problemas sociais fundamentais de nossos dias diz respeito à falta de autoestima.

Uma autoimagem superficial não se fortalece quando sempre deixamos que outros estabeleçam nossos padrões e quando cedemos habitualmente à pressão dos colegas. Os jovens, com muita frequência, dependem da imagem de outra pessoa em vez da sua própria.

A insegurança e a falta de autoestima podem estar relacionadas à falta de respeito próprio. Podemos respeitar a nós mesmos quando fazemos coisas que não admiramos e que talvez até condenemos nos outros? O arrependimento das transgressões e o abandono das fraquezas representam, contudo, um grande bálsamo restaurador para o fortalecimento do valor e da dignidade humanos.

Como a virtude e a fé, com muita frequência, não têm valor prontamente reconhecido no mercado, alguns podem sentir que podem viver segundo quaisquer padrões que seu capricho ou fantasia sugiram. Em uma sociedade sem valores — livre de moral, livre de padrões —, muitos também vivem livres de sentimentos de autovalorização, respeito próprio e dignidade. Jovens demais, e também pessoas mais velhas, deixam de perceber, como afirma o lema da cidade de Nottingham, na Inglaterra: Vivet post funera virtus (“A virtude vive após a morte”).

Na abordagem intelectual do valor humano, os valores da fé em Deus e do comportamento virtuoso não podem ser comprovados ou medidos quantitativamente, e por isso a fé e a virtude são frequentemente rejeitadas por muitos como algo sem valor. Esse é um caminho fadado ao fracasso, porque não leva em conta a poderosa importância das coisas subjetivas que podemos conhecer, mas não medir. Por exemplo, eu amo minha esposa e minha família, e sinto o amor deles por mim. Não se pode medir a profundidade de nossos sentimentos de amor um pelo outro, mas esse amor é muito real para nós. A dor também é difícil de medir, mas é real. O mesmo se aplica à fé em Deus. Podemos saber de sua existência sem sermos capazes de medi-la quantitativamente. Paulo afirma: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Romanos 8:16.)

Quais são os limites do compromisso do coração daqueles que buscam a santidade? Felizmente, essa é uma questão que cabe a cada um decidir. Alcançamos a perfeição, porém, na realização de muitas coisas, e podemos ser perfeitos em nossa intenção de fazer todas as coisas.

Em minha opinião, não foi intenção do grande Criador que o homem e a mulher se entregassem ao egoísmo e à autogratificação. Afinal, “E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou.” (Gênesis 1:27.) “Que é o homem mortal, para que te lembres dele?” pergunta o Salmista.

“Pois pouco o fizeste menor do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste.

“Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés.” (Salmos 8:4–6.)

Qual é o padrão da santidade? A resposta vem das escrituras: “Ó Senhor, quem é como tu … glorificado em santidade?” (Êxodo 15:11.)

Como Estêvão, aqueles que buscam a santidade veem a glória de Deus. (Ver Atos 7:55.) As bênçãos que virão na busca da santidade foram, em parte, descritas pelo Senhor:

“Em verdade, assim diz o Senhor: Acontecerá que toda alma que abandonar os seus pecados e vier a mim, e invocar o meu nome, e obedecer à minha voz, e guardar os meus mandamentos verá a minha face e saberá que eu sou.” (D&C 93:1.)

Como comecei, referi-me à visão do Profeta Joseph a respeito dos Doze Apóstolos em seus dias. Ninguém precisa supor que os Doze, por não terem visto o Salvador porque estavam com os olhos fixos no chão, tenham de alguma forma falhado em seus trabalhos. Como corpo, continuaram fortes e firmes em seu ministério. Seu desânimo foi apenas temporário. Seus trabalhos foram heroicos; seus atos foram ousados e corajosos. O Profeta Joseph, ao final daquela visão, teve o privilégio de ver a conclusão da obra dos Doze. Heber C. Kimball registra: “Ele (Joseph) viu até que tivessem concluído seu trabalho e chegado ao portão da cidade celestial; ali o Pai Adão os aguardava e lhes abriu o portão, e ao entrarem, ele os abraçou um a um e os beijou. Ele [Adão] então os conduziu ao trono de Deus, e então o Salvador abraçou cada um deles e os beijou, e coroou cada um deles na presença de Deus. … A impressão que essa visão deixou na mente do Irmão Joseph era de natureza tão intensa, que ele nunca conseguia deixar de chorar ao relatá-la.” (Whitney, Life of Heber C. Kimball, pp. 93–94.)

A dignidade pessoal é grandemente engrandecida ao olharmos para cima na busca da santidade. Como as árvores gigantes, devemos alcançar a luz. A mais importante fonte de luz que podemos conhecer é o dom do Espírito Santo. Ele é a fonte de força interior e de paz.

Tenho visto a dignidade humana e o valor pessoal expressos eloquentemente na vida dos mais humildes entre os humildes, na vida dos pobres bem como na vida dos que têm formação e são abastados. Os frutos da busca da santidade em sua vida têm sido transparentes, expressos por meio de sua dignidade interior, de seus sentimentos de respeito próprio e de valor pessoal. Shakespeare, por meio de Polônio, nos lembra:

Acima de tudo: sê fiel a ti mesmo,

E disso se seguirá, como a noite segue o dia,

Que não poderás ser falso para com ninguém.

(Hamlet, ato I, cena 3, linhas 78–80.)

Grande parte de nosso respeito próprio é construída por meio de nosso próprio trabalho árduo, de nossa economia e do esforço para sermos independentes tanto quanto possível.

Que todos nós tenhamos um sentimento de valor e dignidade pessoal, nascido do conhecimento de que cada um de nós é filho de Deus, e sejamos fortalecidos ao olharmos para cima na busca da santidade. Ao olharmos para cima, que sejamos dignos de receber a inspiração que vem constantemente de Deus, inspiração essa que é sagrada, real e, muitas vezes, muito particular.

Tenho uma convicção a respeito dessas coisas, proveniente de sagrados sussurros interiores. Sei que Jesus vive e é o cabeça desta igreja, testemunho que deixo, em nome do Salvador, Jesus Cristo, amém.

Como citar este discursoJames E. Faust, “A Dignidade Pessoal”, Conferência Geral de Abril de 1981, Saturday Morning Session (1981-04-01). Pulpit Vault, 1981-04-faust-the-dignity-of-self. Tradução desta edição, por método de glossário, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).