A Dignidade Pessoal
James E. Faust
“Graças damos, ó Deus, por um profeta, que nos guia no tempo atual.” ¶
Nesta manhã, desejo dizer algo que, espero, possa trazer alguma ajuda e talvez outro enfoque à mente dos jovens. Nunca senti tão intensamente a necessidade tanto do auxílio do Espírito divino quanto da compreensão daqueles que me ouvem. Humildemente oro para que eu não seja mal interpretado. ¶
Gostaria de começar relatando uma maravilhosa visão que o Profeta Joseph Smith teve a respeito dos Doze Apóstolos de seus dias, a qual tem profundo significado para mim. Heber C. Kimball registrou: “A seguinte visão lhe foi manifestada [a Joseph Smith], tanto quanto me recordo: ¶
“Ele viu os Doze partindo, e pareciam estar em uma terra distante. Depois de algum tempo, encontraram-se inesperadamente, aparentemente em grande tribulação, suas roupas todas esfarrapadas, seus joelhos e pés machucados. Formaram um círculo e todos ficaram com os olhos fixos no chão. O Salvador apareceu e ficou no meio deles e chorou por eles, e quis mostrar-se a eles, mas eles não O perceberam.” (Orson F. Whitney, Life of Heber C. Kimball, 2ª ed., Salt Lake City: Bookcraft, p. 93; ver também History of the Church, 2:381.) ¶
Uma mensagem que se pode inferir disso é que, por terem os Doze sofrido tanto, suportado tão grandemente e se exaurido de tal forma na liderança da batalha da retidão, estavam curvados e não olhavam para cima. Se apenas tivessem olhado para cima, poderiam ter contemplado o Senhor Jesus, que queria que o vissem, chorando por eles, sofrendo com eles e permanecendo em seu meio. ¶
Não faz muitos meses, estivemos em uma das cidades mais antigas da Terra. Ali estão algumas das maiores maravilhas do mundo; e também o crime, a miséria, a pobreza e a imundície. Nossos gentis anfitriões observaram, enquanto passávamos pelas multidões fervilhantes — pelos burros sobrecarregados, pela sujeira, pelos odores —, que tudo era belo naquela cidade se erguêssemos o olhar e olhássemos apenas um palmo ou mais acima do chão. ¶
Em tempos recentes, o preço do petróleo, do ouro e de outros minerais preciosos aumentou muito. Todos esses tesouros são obtidos olhando para baixo. São úteis e necessários, mas são riquezas tangíveis. E quanto aos tesouros que se encontram ao elevarmos nossa visão? E quanto às riquezas intangíveis que provêm da busca da santidade? Estêvão olhou para cima: “Mas ele, estando cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus.” (Atos 7:55.) ¶
Meu coração e minha compreensão se voltam para nossos jovens. Eles precisam enfrentar uma escuridão e uma névoa moral tão densas quanto muitos de nós já vimos. Vivemos em um mundo em que o sucesso parece ser medido, em grande parte, pelas posses materiais. A forma como essas posses foram adquiridas muitas vezes parece não ter importância. A honestidade, o decoro, a castidade e a santidade são frequentemente rebaixados, como se tivessem menos valor do que as posses. Nossos jovens estão sendo induzidos a olhar para cima ou para baixo? ¶
O desejo de lucro e de popularidade no mundo do entretenimento tem desmascarado, da maneira mais atraente, todos os males da raça humana. As práticas e perversões mais repugnantes têm sido mascaradas e até mesmo impostas a nossos jovens inexperientes por alguns que buscam comercializar sedutoramente o lado mau do comportamento humano. As consciências parecem cauterizadas com ferro em brasa; as células espirituais parecem fechadas. Ideais de vazio e de inutilidade da vida são fomentados. A nobreza de pensamento e de propósito parece não ser suficientemente ensinada, incentivada ou valorizada. ¶
O padrão do ladrão comum, “O que podemos conseguir sem sermos apanhados?”, tornou-se, para muitos no mundo, o padrão, em vez daquilo que nossa própria integridade deveria exigir que fizéssemos. O que aconteceu com o respeito próprio e a integridade pessoal, que não permitiriam sequer cogitar fazer coisas mesquinhas ou pequenas? Um exemplo poderia ser nosso relacionamento com o crédito financeiro pelo qual o comércio do mundo se realiza. Frequentemente esquecemos que aqueles que nos concedem crédito também nos concedem confiança. Nossa própria integridade está envolvida. Lembro-me de meu pai falar com profundo respeito de um homem a quem, como advogado, meu pai havia conduzido por um processo de falência. Com o tempo, esse homem pagou integralmente todos os seus credores que haviam confiado nele e lhe haviam concedido crédito, mesmo tendo sido legalmente dispensado do pagamento das dívidas. Nossa própria integridade é uma parte substancial de nosso valor individual. ¶
Como pode a crença e a moralidade cristãs se traduzir mais completamente em ação cristã? Será que nosso compromisso fica aquém de ser uma consagração? O Tomé duvidoso queria crer; ele acreditava até certo ponto. É minha firme convicção de que edificar autoestima suficiente para abandonar todo o mal requer consagração aos princípios e ordenanças salvadoras do evangelho sob a autoridade divina do sacerdócio. Precisa ser consagração aos princípios cristãos simples e básicos, incluindo honestidade para consigo mesmo e para com os outros, esquecimento de si mesmo, integridade de pensamento e de ação. Os princípios do evangelho restaurado são tão claros, tão simples, tão compassivos, tão dotados de beleza, tão agraciados com amor não fingido, que ostentam a marca indiscutível do próprio Salvador. ¶
Também é necessário confrontar e dominar os desafios da vida, especialmente aqueles que acompanham a tentação. Em vez de enfrentar de forma franca e honesta os problemas da vida, muitos negociam seu caminho através das dificuldades, racionalizando o afastamento das grandes verdades que trazem felicidade e justificando o abandono de suas promessas sagradas e compromissos santos por razões aparentemente lógicas, mas frágeis e injustificáveis. ¶
Não posso deixar de me perguntar se não temos ficado aquém do alvo. Temos medido por padrões curtos demais e indignos daqueles que buscam a santidade? Temos nos consolado excessivamente com o sentimento de que nos qualificamos por meio de nossa presença nas reuniões ou de um envolvimento mínimo em um esforço para tranquilizar a consciência? Nossas diretrizes têm sido um teto em vez de um piso? ¶
Ao retornar de uma temporada morando na América do Sul, fiquei impressionado com a falta de autoestima revelada na maneira como tantas pessoas agora se vestem em público. Para chamar a atenção ou em nome do conforto e da informalidade, muitos caíram não apenas na imodéstia, mas no desleixo. Contra seu próprio interesse, apresentam-se aos outros da pior maneira possível. ¶
Ao abandonar o grande princípio do recato, a sociedade pagou um preço com a violação de um princípio maior, porém relacionado — o da castidade. Os que difundem o conceito de relações sexuais irresponsáveis, que degradam e brutalizam os que nelas se envolvem, mascararam grosseiramente e ignoraram por completo o propósito desses dons divinos. ¶
A castidade antes do casamento e a fidelidade depois dele são ingredientes fundamentais para o pleno florescimento do amor sagrado entre marido e mulher. A castidade nutre e fortalece o sentimento de autovalorização e protege contra a destruição da autoimagem. ¶
Um dos problemas sociais fundamentais de nossos dias diz respeito à falta de autoestima. ¶
Uma autoimagem superficial não se fortalece quando sempre deixamos que outros estabeleçam nossos padrões e quando cedemos habitualmente à pressão dos colegas. Os jovens, com muita frequência, dependem da imagem de outra pessoa em vez da sua própria. ¶
A insegurança e a falta de autoestima podem estar relacionadas à falta de respeito próprio. Podemos respeitar a nós mesmos quando fazemos coisas que não admiramos e que talvez até condenemos nos outros? O arrependimento das transgressões e o abandono das fraquezas representam, contudo, um grande bálsamo restaurador para o fortalecimento do valor e da dignidade humanos. ¶
Como a virtude e a fé, com muita frequência, não têm valor prontamente reconhecido no mercado, alguns podem sentir que podem viver segundo quaisquer padrões que seu capricho ou fantasia sugiram. Em uma sociedade sem valores — livre de moral, livre de padrões —, muitos também vivem livres de sentimentos de autovalorização, respeito próprio e dignidade. Jovens demais, e também pessoas mais velhas, deixam de perceber, como afirma o lema da cidade de Nottingham, na Inglaterra: Vivet post funera virtus (“A virtude vive após a morte”). ¶
Na abordagem intelectual do valor humano, os valores da fé em Deus e do comportamento virtuoso não podem ser comprovados ou medidos quantitativamente, e por isso a fé e a virtude são frequentemente rejeitadas por muitos como algo sem valor. Esse é um caminho fadado ao fracasso, porque não leva em conta a poderosa importância das coisas subjetivas que podemos conhecer, mas não medir. Por exemplo, eu amo minha esposa e minha família, e sinto o amor deles por mim. Não se pode medir a profundidade de nossos sentimentos de amor um pelo outro, mas esse amor é muito real para nós. A dor também é difícil de medir, mas é real. O mesmo se aplica à fé em Deus. Podemos saber de sua existência sem sermos capazes de medi-la quantitativamente. Paulo afirma: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Romanos 8:16.) ¶
Quais são os limites do compromisso do coração daqueles que buscam a santidade? Felizmente, essa é uma questão que cabe a cada um decidir. Alcançamos a perfeição, porém, na realização de muitas coisas, e podemos ser perfeitos em nossa intenção de fazer todas as coisas. ¶
Em minha opinião, não foi intenção do grande Criador que o homem e a mulher se entregassem ao egoísmo e à autogratificação. Afinal, “E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou.” (Gênesis 1:27.) “Que é o homem mortal, para que te lembres dele?” pergunta o Salmista. ¶
“Pois pouco o fizeste menor do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. ¶
“Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés.” (Salmos 8:4–6.) ¶
Qual é o padrão da santidade? A resposta vem das escrituras: “Ó Senhor, quem é como tu … glorificado em santidade?” (Êxodo 15:11.) ¶
Como Estêvão, aqueles que buscam a santidade veem a glória de Deus. (Ver Atos 7:55.) As bênçãos que virão na busca da santidade foram, em parte, descritas pelo Senhor: ¶
“Em verdade, assim diz o Senhor: Acontecerá que toda alma que abandonar os seus pecados e vier a mim, e invocar o meu nome, e obedecer à minha voz, e guardar os meus mandamentos verá a minha face e saberá que eu sou.” (D&C 93:1.) ¶
Como comecei, referi-me à visão do Profeta Joseph a respeito dos Doze Apóstolos em seus dias. Ninguém precisa supor que os Doze, por não terem visto o Salvador porque estavam com os olhos fixos no chão, tenham de alguma forma falhado em seus trabalhos. Como corpo, continuaram fortes e firmes em seu ministério. Seu desânimo foi apenas temporário. Seus trabalhos foram heroicos; seus atos foram ousados e corajosos. O Profeta Joseph, ao final daquela visão, teve o privilégio de ver a conclusão da obra dos Doze. Heber C. Kimball registra: “Ele (Joseph) viu até que tivessem concluído seu trabalho e chegado ao portão da cidade celestial; ali o Pai Adão os aguardava e lhes abriu o portão, e ao entrarem, ele os abraçou um a um e os beijou. Ele [Adão] então os conduziu ao trono de Deus, e então o Salvador abraçou cada um deles e os beijou, e coroou cada um deles na presença de Deus. … A impressão que essa visão deixou na mente do Irmão Joseph era de natureza tão intensa, que ele nunca conseguia deixar de chorar ao relatá-la.” (Whitney, Life of Heber C. Kimball, pp. 93–94.) ¶
A dignidade pessoal é grandemente engrandecida ao olharmos para cima na busca da santidade. Como as árvores gigantes, devemos alcançar a luz. A mais importante fonte de luz que podemos conhecer é o dom do Espírito Santo. Ele é a fonte de força interior e de paz. ¶
Tenho visto a dignidade humana e o valor pessoal expressos eloquentemente na vida dos mais humildes entre os humildes, na vida dos pobres bem como na vida dos que têm formação e são abastados. Os frutos da busca da santidade em sua vida têm sido transparentes, expressos por meio de sua dignidade interior, de seus sentimentos de respeito próprio e de valor pessoal. Shakespeare, por meio de Polônio, nos lembra: ¶
Acima de tudo: sê fiel a ti mesmo, ¶
E disso se seguirá, como a noite segue o dia, ¶
Que não poderás ser falso para com ninguém. ¶
(Hamlet, ato I, cena 3, linhas 78–80.) ¶
Grande parte de nosso respeito próprio é construída por meio de nosso próprio trabalho árduo, de nossa economia e do esforço para sermos independentes tanto quanto possível. ¶
Que todos nós tenhamos um sentimento de valor e dignidade pessoal, nascido do conhecimento de que cada um de nós é filho de Deus, e sejamos fortalecidos ao olharmos para cima na busca da santidade. Ao olharmos para cima, que sejamos dignos de receber a inspiração que vem constantemente de Deus, inspiração essa que é sagrada, real e, muitas vezes, muito particular. ¶
Tenho uma convicção a respeito dessas coisas, proveniente de sagrados sussurros interiores. Sei que Jesus vive e é o cabeça desta igreja, testemunho que deixo, em nome do Salvador, Jesus Cristo, amém. ¶