Ofertas de Jejum: Cumprindo Nossa Responsabilidade para com Outros
Victor L. Brown
Ao me dirigir a este vasto corpo de irmãos do sacerdócio nesta noite, faço-o com humildade e com uma oração em meu coração. Os dois temas que vou discutir vêm por designação. A introdução ao meu primeiro tema está registrada no Antigo Testamento, tal como falada pelo profeta Isaías: ¶
"Porventura não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as cordas do jugo, e que deixes livres os quebrantados, e despedaces todo o jugo? ¶
"Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desterrados, e vendo o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?" ¶
Quatro maravilhosas bênçãos são prometidas pelo Senhor àqueles que obedecem à lei do jejum: ¶
"Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante da tua face, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. ¶
"Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui; ¶
"E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita, então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. ¶
"E o Senhor te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial de águas, cujas águas nunca faltam." (Isaías 58:6–11.) ¶
A respeito dessa escritura, o presidente Harold B. Lee assim se expressou: ¶
"As tremendas bênçãos que vêm [do jejum] foram explicadas em cada dispensação. … Se analisarem … o capítulo 58 do livro de Isaías vocês descobrirão o motivo revelado de o Senhor querer que paguemos ofertas de jejum, o motivo de Ele querer que jejuemos. É porque, ao nos qualificarmos assim, podemos clamar e o Senhor pode responder. Podemos gritar e o Senhor dirá: 'Eis-me aqui'. Alguma vez queremos estar numa condição em que possamos clamar e Ele não responda? Choraremos em nossa angústia e Ele não estará conosco? Penso que é hora de pensarmos nesses fundamentos, porque estes são os dias que estão pela frente, quando precisaremos cada vez mais das bênçãos do Senhor, quando os juízos forem derramados sem mistura sobre toda a terra." ("Listen and Obey," Welfare Agricultural Meeting, 3 abr. 1971, cópia datilografada, p. 14; Biblioteca Histórica da Igreja.) ¶
O presidente J. Reuben Clark Jr. assim se expressou: "O princípio fundamental de toda a obra de assistência da Igreja é que ela deve ser realizada por meio de ofertas de jejum e outras doações e contribuições voluntárias. Esta é a ordem estabelecida pelo Senhor. O dízimo não é primariamente destinado a esse propósito e não deve ser usado, exceto em último caso." (Citado por Marion G. Romney, "Our Primary Purpose," Welfare Agricultural Meeting, 3 abr. 1971, cópia datilografada, p. 8; Biblioteca Histórica da Igreja.) ¶
A oferta de jejum é a lei financeira do Senhor dada para a bênção dos pobres. Por muitos anos entendeu-se que as ofertas de jejum deveriam representar o custo das duas refeições não consumidas. Esse entendimento surgiu porque, nos primeiros dias, os membros eram geralmente solicitados a doar o próprio alimento economizado com o jejum. As condições eram tão desesperadoras que o dinheiro teria sido de pouca utilidade. Mais tarde, o entendimento parecia ser de que $1 per capita seria adequado. ¶
Porém, em anos recentes, o presidente Kimball disse sobre a oferta de jejum: "Penso que devemos ser muito generosos e dar, em vez da quantia economizada por nossas duas refeições de jejum, talvez muito, muito mais — dez vezes mais, quando estivermos em condições de fazê-lo." (In Conference Report, abr. 1974, p. 184.) ¶
É importante reconhecer que a oferta de jejum é uma oferta voluntária, cujo valor cada indivíduo é responsável por determinar. Não é o mesmo que o dízimo, que corresponde a 10 por cento de nossos rendimentos anuais. O valor fica a critério de cada indivíduo, e, no entanto, um profeta vivo disse que devemos ser muito generosos. Não seria maravilhoso se nossa fidelidade gerasse fundos de ofertas de jejum suficientes para operar todo o sistema de armazéns? ¶
Talvez as escrituras a seguir nos deem alguma orientação quanto a quão generosos devemos ser: ¶
Primeiro, da Doutrina e Convênios, seção 42, a partir do versículo 30. Esta é uma revelação dada ao profeta Joseph Smith a respeito da lei da consagração: ¶
"E eis que te lembrarás dos pobres e consagrarás de tuas propriedades, para sustento deles, aquilo que tiveres para lhes dar, com um convênio e uma promessa que não poderão ser violados. ¶
"E se deres de teus bens aos pobres, a mim o farás; e eles serão entregues ao bispo de minha igreja e seus conselheiros. … ¶
"Portanto, o restante será guardado em meu armazém para dar aos pobres e necessitados." (D&C 42:30–31, 34.) ¶
O Senhor reafirma este princípio muitas vezes, inclusive na seção 70 da Doutrina e Convênios, versículo 7: ¶
"Contudo, se receberem mais que o necessário para suas necessidades e carências, entregarão ao meu armazém." ¶
Além disso, lembrem-se de quando certo governante perguntou a Jesus o que deveria fazer para herdar a vida eterna. O Salvador respondeu: ¶
"Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe. ¶
"E disse ele: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade. ¶
"Porém Jesus, ouvindo isso, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa: vende tudo quanto tens, reparte-o entre os pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me. ¶
"E ele, ouvindo isso, ficou muito triste, porque era muito rico. ¶
"E vendo Jesus que ele ficara muito triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! ¶
"Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus." (Lucas 18:20–25.) ¶
Novamente, da Doutrina e Convênios, aprendemos: ¶
"Porque convém que eu, o Senhor, faça cada homem responsável, como mordomo de bênçãos terrenas, que fiz e preparei para minhas criaturas. ¶
"Eu, o Senhor, estendi os céus e formei a Terra, obra de minhas mãos; e todas as coisas que neles há são minhas. ¶
"Mas é necessário que seja feito a meu modo; e eis que este é o modo que eu, o Senhor, decretei para suprir meus santos, para que os pobres sejam aumentados naquilo que os ricos são diminuídos. ¶
"Pois a Terra está repleta e há bastante e de sobra; sim, preparei todas as coisas e permiti que os filhos dos homens fossem seus próprios árbitros. ¶
"Portanto, se algum homem tomar da abundância que fiz e não repartir sua porção, de acordo com a lei de meu evangelho, com os pobres e os necessitados, ele, com os iníquos, erguerá seus olhos no inferno, estando em tormento." (D&C 104:13–14, 16–18.) ¶
Permitam-me concluir meus comentários sobre ofertas de jejum com trechos de uma carta que recebi há vários anos do élder John H. Groberg, que, à época, era presidente da Missão Tonga. ¶
"Envio, em anexo, um cheque de $1.000 referente às ofertas de jejum excedentes da Missão Tonga. Normalmente esta carta terminaria aqui, mas, por causa de uma experiência que tive recentemente, gostaria de acrescentar mais um pouco. ¶
"Como talvez saibam, Tonga é um dos países financeiramente mais pobres do mundo. O salário médio é de apenas cerca de 12 centavos por hora, se tiverem a sorte de conseguir um emprego. … ¶
"Recentemente, ao visitar uma das ilhas mais distantes e de difícil acesso, fui, no final do dia, à casa de uma das boas irmãs viúvas de lá. ¶
"Quando me aproximei de sua cabana, o sol ainda estava bem forte, e não pude deixar de notar a pobreza extrema de seus arredores. Tinha chovido mais cedo. A lama e a decomposição e o cheiro sempre presente de peixe secando eram, a princípio, repulsivos. Mas o calor de reencontrar uma irmã da Igreja — especialmente após anos de separação — junto com lágrimas de apreço pela visita há tanto aguardada, logo empurraram a inconveniência dos arredores temporariamente para o segundo plano. ¶
"Enquanto conversávamos em sua fluente língua nativa, e ela falava de seu amor e fé pela Igreja e de todas as bênçãos que havia recebido, eu não pude deixar de pensar em suas circunstâncias aparentemente miseráveis. … Toda sorte de ideias passou por minha mente, e devo ter deixado meus pensamentos vagarem, pois de repente percebi que, em algum ponto entre as frases sobre bênçãos e pobreza e serviço, ela tinha ido até sua cabana e voltava agora com um pequeno trapo amarrado. ¶
"De súbito, minha mente pareceu encher-se de luz, e as palavras 'ofertas de jejum' me inundaram. Fiquei tão animado com a ideia que havia surgido de forma tão súbita e clara que podem imaginar minha total surpresa e falta de preparo quando ela tirou de seu trapo um treponce (uma moeda no valor de cerca de 3 centavos) e disse suavemente: 'Aqui está minha oferta de jejum … para ajudar os pobres.' ¶
"Quis explicar que a oferta de jejum era para ajudá-la a ela, não para que ela ajudasse a outros. A explicação nunca veio, pois, ao olhar com os olhos embaçados, primeiro para o treponce e depois de volta para a boa irmã, toda a cena mudou. ¶
"A cabana era uma mansão reluzente, e a lama era ouro. … O mundo pareceu parar por um momento. Toda a natureza pareceu deter-se e escutar, enquanto dos céus todo o universo parecia encher-se com as palavras reconfortantes: 'Bem-aventurados os pobres … porque deles é o reino dos céus.' (Mateus 5:3.) ¶
"Assim como o sol poente sinalizava o fim do dia, também anunciava a aproximação do fim de sua bela vida de serviço. ¶
"Peguei o treponce, e, ao escrever este cheque, toda a experiência mais uma vez enche minha mente, e me pergunto: 'Quantos treponces são necessários para formar mil dólares?'" ¶
Que todos os bispos aqui presentes esta noite se lembrem desta maravilhosa viúva tonganesa ao ensinarem a lei do jejum e ao abençoarem os pobres, gastando com sabedoria e critério estes fundos sagrados. ¶
No calor doce desta experiência, permitam-me falar agora com vocês sobre os orçamentos de estaca e ala. Estamos muito preocupados com o estresse financeiro sob o qual muitos de nosso povo estão trabalhando. Os bispos, em especial, têm a responsabilidade de não deixar que os programas se tornem caros demais e, com isso, se tornem um fardo financeiro para os membros. ¶
É demasiado fácil para os líderes presumirem que os outros têm uma renda discricionária semelhante à sua própria. Permitam-me ilustrar o que estou dizendo citando trechos de uma carta de uma mãe preocupada: ¶
"Em setembro, foi fazer e vender pizzas três noites por semana e aos sábados de manhã para arrecadar dinheiro para uniformes de vôlei. Houve festas de classe, Novos Começos, oficinas de liderança e projetos de serviço da ala. ¶
"Em outubro e novembro, foram treinos e jogos de vôlei três noites por semana, um jantar da ala, uma festa de Halloween, um serão de meio de semana da estaca e um baile caipira. ¶
"Em janeiro, houve treinos e jogos de basquete para retomar o programa esportivo, uma noite de padrões da estaca e um projeto de arrecadação de fundos. ¶
"Em fevereiro, junto com os jogos de basquete, houve ensaios de festival cênico três dias da semana, uma festa de esqui, uma festa na neve, uma reunião de acampamento da estaca e uma oficina para concluir os projetos do Sesquicentenário, tomando pelo menos vinte e dois dias deste mês. ¶
"Tenho certeza de que não preciso continuar com este retrato. Mas ainda há mais que precisam saber: vem por aí um 'leilão de escravos', uma lavagem de carros, uma venda de rosquinhas, um projeto de telegrama cantado, catação de folhas todos os sábados de manhã até o verão, para arrecadar dinheiro para uma superatividade em Idaho. Há um passeio do Sacerdócio Aarônico tanto para os rapazes quanto para as moças em maio, dois acampamentos de escoteiros, além do acampamento das Abelhinhas e do acampamento de escoteiros." ¶
Estamos suficientemente preocupados a ponto de o élder Gordon B. Hinckley ter abordado este assunto na noite passada, numa reunião conjunta especial com representantes regionais e presidentes de estaca. Permitam-me citar apenas uma ou duas frases de suas observações: "Gostaria de dizer que o sacrifício, quando necessário, é um aspecto importante do evangelho. Está na própria essência da verdadeira adoração. Mas o sacrifício desnecessário, aquele solicitado por extravagância ou má administração, é mau." Vocês, bispos, devem esperar que seu presidente de estaca se reúna com vocês quase imediatamente após o retorno da conferência para avaliar tanto o orçamento da estaca quanto o da ala. O orçamento da estaca, é claro, tem um impacto importante sobre o orçamento da ala. ¶
Há algumas áreas muito específicas que vocês devem avaliar cuidadosamente. ¶
Custos de energia: as luzes devem ser apagadas quando as salas não estiverem em uso. O ar-condicionado e o aquecimento não devem ser usados a menos que absolutamente necessário, e particularmente quando o prédio, ou partes dele, não estiver em uso. ¶
Serviços remunerados de zeladoria: tais serviços devem ser revisados com vistas a usar membros da ala num sistema de rodízio para cuidar dos jardins e da limpeza básica. Assim, as horas de zeladoria profissional poderiam ser reduzidas, e seus esforços, concentrados na manutenção dos sistemas mecânicos e outros sistemas complexos. Sobre este item em particular, sugestões escritas serão enviadas em breve. ¶
Projetos de bem-estar: cada projeto, por meio de administração eficiente, deve contribuir ao máximo possível para o orçamento de produção de mercadorias, de modo a reduzir a necessidade de contribuições em dinheiro dos membros individuais da ala para cumprir esse compromisso. ¶
Atividades: a política atual é que o orçamento anual inclua todo o financiamento das atividades de ala e estaca, e que não haja arrecadação de fundos além do orçamento. Conferências ou atividades da juventude que exijam viagens caras e extensas devem ser eliminadas. ¶
Estas são apenas algumas das formas de reduzir o fardo financeiro sobre o povo. ¶
Claramente, estamos nos preparando para o dia em que a lei superior, a da consagração, tornará a se tornar a lei financeira da Igreja, por meio da qual cuidaremos adequadamente dos pobres. Até esse momento, é nossa responsabilidade e bênção — na verdade, nosso convênio — dar generosamente de nosso excedente para abençoar os pobres. ¶
Enfatizamos o ensino da autossuficiência pessoal e familiar como o primeiro princípio do programa de serviços de bem-estar. É, portanto, incumbência de cada presidente de estaca e bispo assegurar que não sejam feitas exigências financeiras excessivas ao povo, que enfraqueceriam sua segurança financeira e tornariam impossível cuidar de suas próprias necessidades. ¶
Que o Senhor nos abençoe a sermos mordomos sábios e sólidos, abençoando o povo com nossos ensinamentos e nossa liderança, oro em nome de Jesus Cristo, amém. ¶