“De Vós é Exigido que Perdoeis”
Gordon B. Hinckley
Gostaria de agradecer ao coro por aquela bela canção de adoração, que espero sirva como uma espécie de moldura na qual posso situar minhas palavras. Estes últimos seis meses têm sido uma temporada maravilhosa para nós como Igreja. Na primavera passada, inauguramos o 150º aniversário da organização da Igreja. No dia 6 de abril, quando estávamos igualmente reunidos em conferência geral, percorremos a maior parte do continente e atravessamos um século e meio de história ao falar do humilde local de nascimento da Igreja para a vasta congregação reunida neste Tabernáculo. Desde então, com música, com dança, com drama, retratamos a história épica da edificação de Sião nos últimos dias. ¶
Renovamos a lembrança do nosso passado e prestamos reverente tributo àqueles que deram tanto para tornar possível aquilo que hoje desfrutamos. Despertou-se em nós um espírito de gratidão a Deus Todo-Poderoso pela maravilhosa maneira como Ele teceu a tapeçaria de seu propósito divino. Fomos lembrados de que somos parte importante do cumprimento de uma grande profecia. ¶
Tudo isso foi feito num espírito de jubileu. Mas há ainda muito a ser feito. No antigo Israel, cada quinquagésimo ano era observado como um ano de jubileu, com lembrança e celebração. Mas havia também um mandato que exortava ao perdão generoso e ao alívio da mão da opressão. ¶
Agora, em 1980, ao encerrarmos os 150 anos de nossa história, convém a nós, como povo grato, alcançarmos os outros com um espírito de perdão e uma atitude de amor e compaixão para com aqueles que sentimos que possam ter nos ofendido. ¶
Temos necessidade disso. O mundo inteiro tem necessidade disso. É da própria essência do evangelho de Jesus Cristo. Ele o ensinou. Ele o exemplificou como ninguém mais exemplificou. No momento de sua agonia na cruz do Calvário, com vis e odiosos acusadores diante dele, aqueles que o haviam levado a essa terrível crucificação, ele clamou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). ¶
Nenhum de nós é chamado a perdoar tão generosamente, mas cada um de nós está sob uma obrigação divinamente declarada de estender o perdão e a misericórdia. O Senhor declarou em palavras de revelação: “Meus discípulos, nos dias antigos, procuraram pretextos uns contra os outros e em seu coração não se perdoaram; e por esse mal foram afligidos e severamente repreendidos. ¶
“Portanto, digo-vos que vos deveis perdoar uns aos outros; pois aquele que não perdoa a seu irmão suas ofensas está em condenação diante do Senhor; pois nele permanece o pecado maior. ¶
“Eu, o Senhor, perdoarei a quem desejo perdoar, mas de vós é exigido que perdoeis a todos os homens. ¶
“E devíeis dizer em vosso coração: Que julgue Deus entre mim e ti e te recompense de acordo com teus feitos.” (D&C 64:8–11.) ¶
Quanto precisamos aplicar esse princípio dado por Deus e seu princípio complementar, o arrependimento, do qual o Presidente Romney falou de forma tão persuasiva. Vemos essa necessidade nos lares das pessoas, onde pequenos montículos de mal-entendidos são transformados, com o sopro da discórdia, em montanhas de discussão. Vemos isso entre vizinhos, onde diferenças insignificantes levam a um rancor sem fim. Vemos isso entre sócios de negócios que brigam e se recusam a ceder e perdoar quando, na maioria dos casos, se houvesse disposição para sentar-se juntos e conversar com calma, a questão poderia ser resolvida em benefício de todos. Em vez disso, passam os dias nutrindo rancores e planejando retaliação. ¶
Naquele primeiro ano da organização da Igreja, quando o Profeta Joseph Smith foi repetidamente preso e julgado sob falsas acusações por aqueles que buscavam prejudicá-lo, o Senhor lhe disse por revelação: “E quem contra ti comparecer perante a lei, pela lei será amaldiçoado” (D&C 24:17). Tenho visto isso em nossos dias entre alguns daqueles que perseguem vingativamente seus rancores nutridos. Mesmo entre alguns que vencem suas disputas parece haver pouca paz de espírito, e, embora possam ter ganhado dinheiro, perderam algo mais precioso. ¶
Guy de Maupassant, o escritor francês, conta a história de um camponês chamado Hauchecome que veio ao vilarejo num dia de feira. Ao caminhar pela praça pública, seus olhos se depararam com um pedaço de barbante caído sobre as pedras da calçada. Ele o pegou e colocou no bolso. Seus atos foram observados pelo seleiro do vilarejo, com quem havia tido uma desavença anteriormente. ¶
Mais tarde naquele dia, foi relatada a perda de uma bolsa. Hauchecome foi preso sob a acusação do seleiro. Foi levado perante o prefeito, a quem protestou sua inocência, mostrando o pedaço de barbante que havia recolhido. Mas não foi acreditado, e foi ridicularizado. ¶
No dia seguinte, a bolsa foi encontrada, e Hauchecome foi absolvido de qualquer culpa. Mas, ressentido com a indignidade que havia sofrido por causa de uma falsa acusação, ele se tornou amargurado e não deixaria o assunto morrer. Incapaz de perdoar e esquecer, pensava e falava de pouco mais. Negligenciou sua fazenda. Onde quer que fosse, a todos com quem se encontrava tinha de contar sobre a injustiça sofrida. Dia e noite ele remoía o assunto. Obcecado com sua queixa, ficou desesperadamente doente e morreu. No delírio de sua agonia final, murmurava repetidamente: “Um pedaço de barbante, um pedaço de barbante.” (The Works of Guy de Maupassant, Black’s Reader Service: Roslyn, Nova York, pp. 34–38.) ¶
Com variações de personagens e circunstâncias, essa história poderia se repetir muitas vezes em nossos próprios dias. Quão difícil é para qualquer um de nós perdoar aqueles que nos ofenderam. Todos nós somos propensos a remoer o mal que nos fizeram. Esse remoer se torna como uma úlcera roedora e destrutiva. Existirá uma virtude mais necessária em nosso tempo do que a virtude de perdoar e esquecer? Há aqueles que veriam nisso um sinal de fraqueza. Será mesmo? Afirmo que não é preciso nem força nem inteligência para remoer com raiva os males sofridos, para percorrer a vida com um espírito de vingança, para dissipar as próprias capacidades planejando retaliação. Não há paz em nutrir um rancor. Não há felicidade em viver para o dia em que se pode “ficar quites”. ¶
Joseph F. Smith presidiu a Igreja numa época de grande amargura para com nosso povo. Foi alvo de acusações vis, de um verdadeiro tambor de críticas por parte de articulistas até mesmo nesta comunidade. Foi caricaturado, satirizado e ridicularizado. Ouçam sua resposta àqueles que zombavam dele: “Deixem-nos em paz. Deixem-nos ir. Deem-lhes a liberdade de expressão que desejam. Deixem que contem sua própria história e escrevam seu próprio fim.” (Gospel Doctrine, 5ª ed., Salt Lake City: Deseret Book Co., 1939, p. 339.) E então, com um espírito abrangente de perdão e esquecimento, ele prosseguiu com a grande e positiva obra de conduzir a Igreja adiante rumo a um novo crescimento e a realizações extraordinárias. Por ocasião de sua morte, muitos daqueles que o haviam ridicularizado escreveram tributos de louvor a seu respeito. ¶
Não faz muito tempo, ouvi longamente um casal sentado do outro lado de minha mesa. Havia amargura entre eles. Sei que, em determinado tempo, o amor deles foi profundo e verdadeiro. Mas cada um havia desenvolvido o hábito de falar das falhas do outro. Incapazes de perdoar o tipo de erros que todos nós cometemos, e incapazes de esquecê-los e viver acima deles com tolerância, criticaram-se mutuamente até que o amor que um dia conheceram foi sufocado. Transformou-se em cinzas com o decreto de um chamado divórcio sem culpa. Agora só há solidão e recriminação. Estou convencido de que, se tivesse havido sequer uma pequena medida de arrependimento e perdão, ainda estariam juntos, desfrutando do companheirismo que tão ricamente havia abençoado seus primeiros anos. ¶
Se houver alguém ao alcance de minha voz que nutra em seu coração a mistura venenosa da inimizade contra outra pessoa, suplico que peça ao Senhor força para perdoar. Essa expressão de desejo será da própria substância do seu arrependimento. Talvez não seja fácil, e talvez não venha rapidamente. Mas, se buscarem com sinceridade e a cultivarem, ela virá. E, mesmo que aquele a quem vocês perdoaram continue a persegui-los e ameaçá-los, saberão que fizeram o que puderam para efetuar uma reconciliação. Virá ao seu coração uma paz de outro modo inatingível. Essa paz será a paz Daquele que disse: ¶
“Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai Celestial vos perdoará a vós: ¶
“Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6:14–15). ¶
Não conheço história mais bela em toda a literatura do que aquela encontrada no décimo quinto capítulo de Lucas. É a história de um filho arrependido e de um pai que perdoa. É a história do filho que desperdiçou sua herança em vida desregrada, rejeitando o conselho do pai, desprezando aqueles que o amavam. Quando havia gastado tudo, estava faminto e sem amigos, e “caindo em si” (Lucas 15:17), voltou-se para seu pai, que, ao vê-lo ainda longe, “correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou” (Lucas 15:20). ¶
Peço que leiam essa história. Todo pai e toda mãe deveriam lê-la repetidas vezes. Ela é grande o bastante para abranger todo lar, e maior ainda para abranger toda a humanidade, pois não somos todos filhos e filhas pródigos que precisam se arrepender e participar da misericórdia perdoadora de nosso Pai Celestial e, então, seguir seu exemplo? ¶
Seu Filho Amado, nosso Redentor, estende-se a nós em perdão e misericórdia, mas, ao fazê-lo, ordena o arrependimento. Um espírito verdadeiro e magnânimo de perdão se tornará uma expressão desse arrependimento exigido. Disse o Senhor — e cito uma revelação dada ao Profeta Joseph: ¶
“Portanto, ordeno que te arrependas — arrepende-te, para que eu não te fira com a vara de minha boca e com minha ira e com minha cólera e teus sofrimentos sejam dolorosos — quão dolorosos tu não sabes, quão intensos tu não sabes, sim, quão difíceis de suportar tu não sabes. ¶
“Pois eis que eu, Deus, sofri essas coisas por todos, para que não precisem sofrer caso se arrependam; ¶
“Mas se não se arrependerem, terão que sofrer assim como eu sofri; ¶
“Sofrimento que fez com que eu, Deus, o mais grandioso de todos, tremesse de dor e sangrasse por todos os poros; e sofresse, tanto no corpo como no espírito. … ¶
“Aprende de mim e ouve minhas palavras; anda na mansidão de meu Espírito e terás paz em mim.” (D&C 19:15–18, 23.) ¶
Tal é o mandamento, e tal é a promessa daquele que, em sua grande oração exemplar, suplicou: “Pai, … perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (ver Mateus 6:9, 12). ¶
Não são belas as palavras de Lincoln que ele proferiu em meio à tragédia de uma terrível guerra civil: “Sem malícia para com ninguém, com caridade para com todos, … cuidemos … das feridas”? (John Bartlett, Familiar Quotations, Boston: Little, Brown & Co., 1968, p. 640.) ¶
Meus irmãos e irmãs, ao concluirmos esta grande temporada de jubileu, cuidemos das feridas — oh, as muitas feridas causadas por palavras cortantes, por queixas obstinadamente cultivadas, por planos calculados para “ficar quites” com aqueles que possam tê-los ofendido. Todos nós temos um pouco desse espírito de vingança em nós. Felizmente, todos nós temos o poder de nos elevarmos acima dele, se nos “revestirmos, sobretudo, como que com um manto, do vínculo da caridade, que é o vínculo da perfeição e paz” (D&C 88:125). ¶
“Errar é humano, perdoar é divino.” (Alexander Pope, An Essay on Criticism, 2:1711.) Não há paz em guardar rancores antigos. Não há paz em refletir sobre a dor de feridas antigas. Há paz somente no arrependimento e no perdão. Esta é a doce paz de Cristo, que disse: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9). Disso eu testifico, no santo nome de Jesus Cristo, amém. ¶