A Família da Fé
J. Richard Clarke
Meus queridos irmãos e irmãs, o maior teste para qualquer geração é a forma como ela responde à voz dos profetas. Nossos profetas têm-nos admoestado a— ¶
Esse conselho direto não foi seguido por todos vocês. Alguns creram e obedeceram; outros esperaram até terem certeza de que as nuvens de tempestade realmente estavam se formando; e ainda outros rejeitaram o conselho. ¶
Havia certa vez um grupo de aldeões que instruiu seu jovem pastor: "Quando você vir um lobo, grite 'Lobo! Lobo!' e nós viremos com armas e forcados." ¶
No dia seguinte, o menino estava cuidando de suas ovelhas quando viu um leão-da-montanha ao longe. Ele gritou: "Leão! Leão!" Mas ninguém veio. O leão matou várias ovelhas. O menino ficou aflito: "Por que vocês não vieram quando eu gritei?" ¶
"Não há leões nesta parte do país", eles responderam. "São os lobos que tememos." ¶
O jovem pastor aprendeu uma lição muito valiosa: ¶
As pessoas só respondem àquilo que estão preparadas para crer. Os Irmãos às vezes hesitam em falar em termos categóricos sobre as realidades da economia e a necessidade de preparação individual e familiar. Essa forma de falar é interpretada pelos que só veem nuvens negras como sinal de uma calamidade geral, e muitos correm às lojas de mantimentos para se anteciparem aos açambarcadores. ¶
Em abril de 1976, o Bispo Featherstone sugeriu a meta de um ano para que os membros armazenassem um suprimento de alimentos para um ano. Alguns dos que ainda não haviam iniciado um programa de armazenamento doméstico saíram correndo e se endividaram profundamente para comprar centenas de dólares em mantimentos. Depois, sentaram-se para esperar, como fez o profeta Jonas, para ver o que aconteceria a Nínive: foi como se o Irmão Featherstone tivesse oficialmente marcado o dia do juízo final para 1º de abril de 1977. Essa não era sua intenção. O caminho do Senhor sempre foi o de uma preparação ordeira, não de suposições, confusão e pânico. ¶
Sejamos mordomos sábios. Ponderemos as lições da história e beneficiemo-nos das experiências daqueles que não deram ouvidos aos profetas. Gibbons, Toynbee, Durant e outros historiadores renomados analisaram os motivos da queda das grandes civilizações. A repetição é monótona. Ao resumir causa e efeito, um educador americano lista seis razões comuns pelas quais cada civilização caiu: ¶
"1. Perderam suas convicções religiosas e desprezaram a moralidade básica. ¶
"2. Tornaram-se obcecadas com sexo. ¶
"3. Aviltaram o valor intrínseco de sua moeda e deixaram a inflação correr desenfreada. ¶
"4. O trabalho honesto deixou de ser uma virtude. ¶
"5. O respeito pela lei se desintegrou e a violência se tornou um método aceito para realizar desejos individuais e coletivos. ¶
"6. Por fim, os cidadãos não estavam mais dispostos a ser soldados e lutar pela defesa de sua nação e de sua herança." (Discurso do Dr. Kenneth McFarland, intitulado "Bicentennial America's Opportunity", proferido no Fairmont Hotel, em São Francisco, na Convenção Nacional da Associação Independente de Petróleo da América.) ¶
Irmãos e irmãs, será que nossas nações modernas serão sábias o suficiente para escapar de uma destruição semelhante? Estamos preparados para reverter o curso da história? Por meio do exercício de nossos direitos e responsabilidades políticas, do serviço comunitário e da retidão pessoal, devemos livrar nossas nações da tirania e da falência fiscal e moral, na medida de nossa capacidade. Mas nunca devemos esquecer que a segurança permanente só é possível sob a condição de seguirmos os profetas do Senhor. ¶
Na seção 101 de Doutrina e Convênios, o Senhor nos lembra que, quando os santos são vagarosos em atender às suas palavras, ele é "vagaroso em atender às suas orações, em responder-lhes no dia de suas tribulações. ¶
"No dia de sua paz," ele explica, "trataram com leviandade meus conselhos; mas, no dia de suas tribulações, buscaram-me por necessidade." ([D&C 101:7–8].) ¶
Mais adiante, nessa mesma revelação, é ensinada uma lição muito poderosa na parábola dos lavradores. Vocês devem se lembrar de que os lavradores foram contratados para plantar doze oliveiras na vinha, construir uma sebe ao redor dela, erguer uma torre e colocar um vigia nela. Ao se aconselharem, porém, não conseguiam entender por que o senhor precisaria de uma torre, "sendo que é tempo de paz" ([D&C 101:48]). Enquanto realizavam uma reunião, discutindo, "discordavam entre si, tornaram-se muito preguiçosos. … ¶
"E durante a noite chegou o inimigo e derrubou a sebe," dispersou os servos atemorizados, e "destruiu o trabalho deles e derrubou as oliveiras." ([D&C 101:50–51].) Foi uma maneira terrível de aprender as consequências da desobediência. Quão melhor seria simplesmente seguir a simples instrução do Mestre. ¶
Cada dispensação do evangelho produz vários santos valorosos e fiéis — os verdadeiramente eleitos e nobres de Deus. Podem ser um único indivíduo ou uma família inteira. São honrados e lembrados não pelos padrões do mundo, mas por sua fé simples e majestosa. Colocaram a obediência a Deus como sua obrigação sagrada. Amam-no. Confiam nele. Estão comprometidos a servi-lo. São os ossos, os músculos e os tendões da igreja de Deus em todas as épocas. Formam a família da fé. Eis aqui algumas declarações clássicas vindas de suas fileiras: ¶
"Eu não sei, exceto que o Senhor me mandou" ([Moisés 5:6]). ¶
"Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor" ([Josué 24:15]). ¶
"Eu irei e cumprirei as ordens do Senhor" ([1 Néfi 3:7]). ¶
"Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra" ([Lucas 1:38]). ¶
"Eu … sinto-me impelido a dizer ao Senhor, humildemente: 'Dá-me este monte' ([Josué 14:12]), dá-me esses desafios. … ¶
"Eu 'perseverarei em seguir ao Senhor meu Deus' (ver [Josué 14:8]) até o limite máximo de minha energia e habilidade." (Spencer W. Kimball, em Conference Report, outubro de 1979, p. 115.) ¶
Irmãos e irmãs, nem sempre sabemos por que o Senhor nos manda fazer certas coisas. Os caminhos dele não são os caminhos do homem. Mas isto sabemos — os caminhos dele são retos. Não são os caminhos tortuosos dos homens. Aceitamos a fé como o primeiro princípio do evangelho; mas confiamos o suficiente no Senhor para agir primeiro e receber a confirmação depois? Alguns podem chamar isso de obediência cega. Um bispo de Idaho costumava dizer: "Qualquer tipo de obediência é melhor do que qualquer tipo de desobediência." A fé não é cega. Entretanto, muitas vezes não recebemos testemunho senão depois de uma provação de nossa fé. Se temos sido desobedientes no passado, comprometamo-nos hoje a nos arrepender e a colocar nossa casa em ordem. ¶
Creio que podemos realizar isso da melhor forma aplicando o conselho dos profetas em três problemas temporais críticos que os santos enfrentam: (1) a administração da renda e das despesas pessoais; (2) a diminuição da qualidade e da produtividade do trabalho; e (3) a insuficiência de reservas, tanto em dinheiro quanto em mantimentos. ¶
Quanto à necessidade de administração financeira, permitam-me indicar o clássico discurso do Presidente Tanner, "Constância e Mudança", proferido na conferência geral de outubro de 1979, e sugerir que vocês o estudem com atenção. Um orçamento adequado é essencial para uma boa administração. Não há dúvida de que todos nós precisamos da disciplina de um orçamento. ¶
Fomos aconselhados a nos livrarmos das dívidas. Essa orientação tem confundido muitos de nós ao longo dos anos. Como é possível estar livre de dívidas e, ainda assim, comprar uma casa, financiar os estudos ou abrir um negócio? Quando o Presidente Clark nos aconselhou a evitar a dívida como evitaríamos a peste, creio que ele estava nos ensinando um princípio vital de harmonia temporal. A dívida é sempre um fardo, mas algumas dívidas são necessárias. Dívidas comerciais sólidas, hipotecas residenciais e outras formas de dívida "garantida" são inevitáveis para a maioria de nós. Contudo, o uso extravagante do crédito, que vem de cedermos às nossas emoções em vez de à razão, cria um fardo. ¶
Para a maioria de nós, a dívida de consumo é perigosa e difícil de conter porque está tão facilmente disponível. Ela pode satisfazer um desejo imediato — bem como uma necessidade genuína. Anúncios sedutores nos convencem de que os luxos são nosso direito e nossa necessidade. Não é interessante como um luxo, uma vez desfrutado, logo se torna uma necessidade? ¶
Nosso guia para a administração do crédito deveria ser: tomar emprestado somente o que for necessário, à taxa mais baixa disponível, pelo menor prazo possível. Isso requer a contenção dos apetites e a prática da virtude, há muito consagrada, da frugalidade. Existe uma filosofia insidiosa que defende mergulhar em dívidas e deixar que a inflação as pague. Rejeito essa filosofia. Se todos nós operássemos com base nessa premissa, subverteríamos completamente nosso sistema econômico. Enquanto garantirmos nossa dívida com patrimônio, poderemos administrá-la; mas acumular dívidas empenhando ganhos futuros nos submerge em areia movediça financeira. ¶
Para equilibrar nossa renda e nossas despesas pessoais, obviamente reduzimos as despesas ou aumentamos nossos ganhos. Com muita frequência, porém, as pessoas acham mais fácil ajustar-se a um orçamento mais apertado do que encontrar formas de gerar renda adicional. Será possível que nossos membros estejam se tornando parte de uma "conspiração pela mediocridade" ao se contentarem com seus conhecimentos e habilidades atuais? O orgulho pelo trabalho bem-feito sempre foi o coração de um sistema competitivo de livre iniciativa. Há artesãos demais que não pagam o preço para se tornarem mestres no ofício, professores que não ensinam, reparadores que não consertam, agricultores que não cultivam, líderes que não lideram e solucionadores de problemas, em todos os campos, que não solucionam problemas. ¶
Nosso trabalho deve ser honesto e de qualidade. A única maneira honrosa de cada um de nós participar da riqueza do mundo é trocar nossos próprios bens e serviços por aqueles produzidos por outra pessoa. Os santos seriam requisitados em todos os lugares e poderiam obter uma remuneração superior se aceitássemos o desafio de estabelecer um padrão mórmon de qualidade, singular por sua excelência. Isso faz parte de nossa religião. ¶
Permitam-me repetir o que tem sido ensinado desde o princípio. Adão aprendeu, como parte de sua primeira lição do Senhor sobre economia, que a terra deveria ser subjugada e o domínio conquistado pelo suor, pela mente e pelo vigor físico. A lei divina do trabalho jamais será revogada — pois foi Deus quem a estabeleceu. Ele amaldiçoou a ociosidade e ordenou que os pais em Sião ensinassem seus filhos a trabalhar. Há um alto preço pela excelência, mas a recompensa e a satisfação da alma realmente valem a pena. Trabalhar abaixo de nossa capacidade cria em nós uma fome profunda e um enorme desperdício na sociedade. Nossa doutrina do progresso eterno certamente abrange nosso progresso profissional. Cada um de nós deveria seguir uma trajetória profissional que exija que nos esforcemos ao máximo de nosso potencial. ¶
Por fim, quanto à insuficiência de reservas, Deus concedeu aos animais que criou um instinto natural de preservar seu excedente para os tempos de necessidade. Mas o homem desenvolveu a tendência de desperdiçar tudo o que colhe e de deixar ao acaso ou a outros a satisfação de suas necessidades futuras. Isso é contrário à lei divina. A frugalidade é um princípio de retidão. O consumo nunca deve exceder nossa produção. A liberdade econômica vem dos excedentes que criamos. ¶
Além de nossa reserva de alimentos, devemos constituir uma reserva financeira. Devemos formar hábitos de economia e ensinar nossos filhos que parte de tudo o que ganhamos deve ser nossa, para guardarmos. É verdade que a inflação reduz o poder de compra das economias, mas quanto poder de compra tem a ausência de economias? ¶
Outra grande reserva é o patrimônio da casa própria. Nossa maior preocupação é que muitas famílias têm se sobrecarregado a ponto de o peso da dívida ofuscar o benefício de possuir uma casa. Novamente, tenhamos certeza de não confundir desejos com necessidades. ¶
Uma última preocupação quanto à deficiência de reservas é a necessidade de nos segurarmos contra nossa maior perda potencial. Creio que todos concordaríamos que nossa capacidade de ganhar é nosso maior bem. Quando o provedor segura sua vida, ele está segurando sua renda futura para sua família. Como maridos, não obriguemos nossas esposas a entrar no mercado de trabalho para serem, ao mesmo tempo, provedoras e donas de casa, caso nossa vida seja interrompida prematuramente pela morte. Podemos ampliar suas opções por meio de um planejamento adequado de seguros. ¶
Também recomendamos que cada família mantenha um seguro-saúde adequado. Os custos médicos estão disparando, e tentar se autossegurar com as economias pessoais é muito arriscado. Durante a inflação, os custos médicos aumentam mais rápido do que nossas economias se acumulam. ¶
Desde sua criação, tem havido críticos do programa de bem-estar — mas algumas pessoas têm um problema para cada solução. Tenho certeza de que havia israelitas no Egito que não queriam deixar suas casas até que Moisés explicasse como eles iriam atravessar o Mar Vermelho. Foi somente depois de seguirem Moisés até as margens do Mar Vermelho que o Senhor abriu o caminho para eles. ¶
Irmãos e irmãs, não sabemos por quais meios nem quando ocorrerá uma crise em nossa família. Os moradores de Michigan não precisaram de uma depressão nacional em grande escala para sobrecarregar seus recursos econômicos e fazer com que muitos perdessem seus empregos. Se eu tiver uma incapacidade debilitante por um período prolongado, minha renda cessa tão certamente quanto se fosse causada por uma catástrofe nacional. Tendemos a ver circunstâncias desagradáveis de maneira bastante distante; mas, como disse recentemente um dos candidatos presidenciais americanos: "Se meu vizinho perde o emprego, é uma recessão; mas se eu perco o emprego, isso é uma depressão." ¶
Há quem sinta que está seguro enquanto tiver fundos para comprar alimentos. Dinheiro não é alimento. Se não houver alimento nas lojas ou nos armazéns, não é possível sustentar a vida com dinheiro. Tanto o Presidente Romney quanto o Presidente Clark nos advertiram de que ainda viveremos daquilo que produzirmos. ¶
Gostaria de deixar bem claro um ponto. O programa de serviços de bem-estar da Igreja consiste essencialmente em que você e eu sejamos autossuficientes dentro de nossas próprias famílias. O sistema de armazéns da Igreja é um sistema de apoio para o pequeno número de membros que são pobres ou fisicamente incapacitados, ou para emergências ou desastres. De forma alguma a Igreja, como instituição, pretende assumir a responsabilidade que pertence de direito ao indivíduo. O programa de bem-estar nunca foi criado para isso. A preparação pessoal e familiar é o caminho do Senhor. Então, unindo-nos para pagar ofertas de jejum generosas e fornecendo mantimentos de nossos projetos e fábricas de conservas, podemos ajudar nosso próximo que não pode ajudar a si mesmo. ¶
O mais importante de tudo, irmãos e irmãs, é que, com todo o nosso armazenamento, armazenemos também retidão, para que sejamos aprovados pelo Senhor. Em 1833, o Senhor disse: ¶
"Portanto, que se console vosso coração; pois todas as coisas contribuem para o bem daqueles que andam retamente e para a santificação da igreja. ¶
"Pois levantarei para mim um povo puro, que me servirá em retidão; ¶
"E todos os que invocam o nome do Senhor e guardam seus mandamentos serão salvos." ([D&C 100:15–17].) ¶
Um povo assim será conhecido como a "família da fé" ([D&C 121:45]). Que possamos ser encontrados no meio deles é minha oração, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶