Dispostos a Receber
Marion D. Hanks
Naquele mesmo capítulo do livro de Moisés ao qual o Irmão Busche acabou de se referir, há uma conversa registrada que, para mim, é uma das mais instrutivas e ternas de toda a literatura. Enoque havia “edificado uma cidade que foi chamada Cidade da Santidade, sim, Sião”, a qual, “com o correr do tempo, foi arrebatada ao céu. … ¶
“E … o Deus do céu olhou o restante do povo [isto é, aqueles que não haviam sido arrebatados], e chorou” (Moisés 7:19, 21, 28). ¶
Então Enoque disse ao Senhor: “Como é que os céus choram e derramam suas lágrimas como a chuva sobre as montanhas? ¶
“… Como é que podes chorar, sendo que és santo e de toda eternidade para toda eternidade?” (Moisés 7:28–29). ¶
Enoque então lembrou a Deus a infinitude e a natureza contínua de suas criações, e de suas santas perfeições, glória e realizações, e disse: “Nada a não ser paz, justiça e verdade é a habitação de teu trono; e a misericórdia irá adiante de tua face e não terá fim; como é que podes chorar? ¶
“O Senhor disse a Enoque: Olha estes teus irmãos; eles são a obra de minhas próprias mãos e eu dei-lhes seu conhecimento no dia em que os criei; e no Jardim do Éden dei ao homem seu arbítrio; ¶
“E a teus irmãos disse eu, e também dei mandamento, que se amassem uns aos outros e que escolhessem a mim, seu Pai; mas eis que eles não têm afeição e odeiam seu próprio sangue. ¶
“… e todo o céu chorará sobre eles, sim, toda a obra de minhas mãos; portanto, não deverão os céus chorar, vendo que eles sofrerão?” (Moisés 7:31–33, 37; itálico acrescentado). ¶
Deus, de quem vêm todas as bênçãos, pediu a seus filhos apenas que se amassem uns aos outros e o escolhessem a ele, seu Pai. ¶
Mas, como em nossos dias, muitos não buscaram o Senhor nem tiveram amor uns pelos outros, e quando Deus previu o sofrimento que inevitavelmente resultaria desse rumo autoimposto e rebelde de pecado, ele chorou. Isso, disse ele a Enoque, era o que ele tinha por que chorar. ¶
Há muito tempo ouvi uma história importante que tem sido útil para mim. Não a vi por escrito e, portanto, não posso dar o devido crédito como gostaria. A história foi evidentemente elaborada de propósito para ensinar, de forma provocativa, princípios nos quais acredito. ¶
No portão
Ao longo de um período de tempo, três homens, como cada um de nós, em última análise, também fará, passaram da vida mortal para a imortalidade contínua. Cada um, ao fazer a transição, encontrou-se de imediato na presença de uma pessoa graciosa que os fez sentir-se à vontade e acalmou suas apreensões. ¶
Cada homem, por sua vez, viu-se respondendo a perguntas que de algum modo se formavam na mente e no coração, vitais acima de todas as demais considerações. “O que você pensa de Cristo? Qual é o seu relacionamento com ele? Você o conhece?” ¶
O primeiro homem respondeu com relutância, com certo constrangimento. Ele não havia sido, disse, alguém que participasse de atividade religiosa organizada. Parecia haver formalismo demais, hipocrisia demais, pouca religião verdadeira. Tampouco, por conta própria, havia buscado um relacionamento pessoal com o Senhor. Fora um bom marido e pai, um cidadão atuante, um homem íntegro, mas agora lhe ficava muito claro que havia perdido o propósito central de sua vida, que havia se distraído daquilo que deveria estar buscando. Com gratidão, foi recebido numa circunstância em que poderia começar a aprender o que precisava saber. ¶
O segundo homem teve uma entrevista mais breve. Percebendo rapidamente o significado das perguntas, respondeu logo. Ele havia sido, disse, um soldado de Cristo, um cruzado por ele nos negócios, um porta-voz por ele na indústria. Pareceu desanimado ao ser conduzido, depois de algum tempo, a uma circunstância em que também poderia começar a aprender o que precisava saber. ¶
O terceiro viajante chegou à presença de seu anfitrião com um esmagador senso de calor e admiração. Compreendendo as perguntas, olhando lacrimoso nos olhos amorosos daquele que estava junto ao portão, caiu de joelhos a seus pés e o adorou. ¶
O Santo
Nas escrituras está escrito: ¶
“Ó … meus amados irmãos … o caminho para o homem é estreito, mas segue em linha reta adiante dele; e o guardião da porta é o Santo de Israel; e ele ali não usa servo algum, e não há qualquer outra passagem a não ser pela porta; porque ele não pode ser enganado, pois Senhor Deus é o seu nome” (2 Néfi 9:41). ¶
A salvação e a exaltação, acredito, não são questões de contabilidade celestial, mas sim da qualificação da alma que vem de se conhecer o Senhor. ¶
Dispostos a receber
Está também escrito que aquele que não observa as leis referentes às várias condições de oportunidade eterna não pode desfrutar as bênçãos desses reinos. Há aqueles que não desfrutarão as bênçãos de nenhum reino de glória, mas devem existir, diz o registro, num reino que não é de glória (ver D&C 88:22–24). E a respeito deles está escrito: ¶
“E os que restarem também serão vivificados; contudo, regressarão a seu próprio lugar para usufruir aquilo que estiverem dispostos a receber, porque não estavam dispostos a usufruir aquilo que poderiam ter recebido. ¶
“Pois de que vale a um homem ser-lhe conferida uma dádiva e não a receber? Eis que ele não se regozija no que lhe foi dado nem se regozija naquele que faz a doação” (D&C 88:32–33). ¶
Cada um de nós desfrutará todas as bênçãos de Deus que estivermos dispostos a receber. ¶
Mas como manifestamos essa disposição? Um profeta responde: “Pois como conhece um homem o mestre a quem não serviu e que lhe é estranho e que está longe dos pensamentos e desígnios de seu coração?” (Mosias 5:13). ¶
Nós o conhecemos e o escolhemos, e desfrutamos de suas bênçãos por meio de servi-lo, de nos qualificar para sua amizade, e mantendo-o sempre em nossos corações e mentes. Em nossas aflições, tateios e temores, voltamo-nos a ele em busca de conforto e apoio. Ele está sempre acessível àqueles que o buscam. ¶
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). ¶
“Eis que eu estou convosco”, disse ele, “todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28:20). ¶
“Não vos deixarei órfãos” (João 14:18). ¶
Ele compreende nossas fraquezas, pressões e problemas. Melhor do que qualquer outro, ele compreende como é sentir-se completamente só. ¶
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46). ¶
Amar uns aos outros
Mas, ao amá-lo e nos voltarmos a ele, também temos de viver seu mandamento de amarmos uns aos outros. Ele nos ensinou e mostrou os caminhos que devemos seguir. Quando retornou a Nazaré e entrou na sinagoga no dia de sábado, abriu o livro de Isaías e leu o que fora escrito 700 anos antes sobre seu ministério: ¶
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para pregar o evangelho aos pobres, enviou-me para curar os quebrantados de coração; para apregoar liberdade aos cativos e dar vista aos cegos; para pôr em liberdade os oprimidos” (Lucas 4:18). ¶
Na magnífica história do retorno do Rei, ele nos ensinou de modo inesquecível nossa responsabilidade para com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o enfermo e os que estão na prisão. “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mateus 25:40). ¶
Milênios antes, por meio de Isaías, foi delineado o curso de auxílio que ele esperava que seus filhos seguissem: ¶
“Que soltes as ligaduras da impiedade, … que desfaças as cordas do jugo, e que deixes livres os quebrantados, … que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desterrados, e vendo o nu, o cubras, … se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita” (Isaías 58:6, 7, 10). ¶
Nós sabemos, você e eu, que precisamos do Senhor. E ele deixou claro que também precisa de nós como instrumentos de seu amor para com seus outros filhos. ¶
Seus instrumentos
Uma menina que vivia num local para crianças desabrigadas causou desagrado a atendentes irritados por depositar um bilhete no galho de uma árvore que podia ser alcançado de fora da instituição. A pequena infratora, uma vez apanhada, foi rapidamente levada ao superintendente, que abriu o bilhete, que dizia: “A quem encontrar isto, eu te amo.” ¶
Os filhos de Deus precisam ser amados, e ter alguém para amar. ¶
Mas está escrito: “Não amemos de palavra, nem de língua, mas por obras e em verdade” (1 João 3:18). ¶
“Não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus” (Efésios 6:6). ¶
No sermão que Amuleque pregou, ao qual o Irmão Busche se referiu, incentivando a oração e a fé, foi acrescentado este convite: ¶
“E agora, meus amados irmãos, eis que vos digo que não penseis que isto é tudo; porque depois de haverdes feito todas estas coisas, se negardes ajuda aos necessitados e aos nus e não visitardes os doentes e aflitos nem repartirdes o vosso sustento, se o tendes, com os que necessitam — digo-vos, se não fizerdes qualquer destas coisas, eis que vossa oração é vã e de nada vos vale, e sois como os hipócritas que negam a fé” (Alma 34:28). ¶
A poetisa expressou isso de outra forma: ¶
O amor não é tudo: não é comida nem bebida, ¶
Nem sono, nem um teto contra a chuva; ¶
Nem mesmo um mastro flutuante para os que se afogam. ¶
(Edna St. Vincent Millay, Collected Poems, ed. Norma Millay, New York: Harper and Row, 1956, p. 659). ¶
Falamos do amor de Cristo, que é maior que a fé, maior que a esperança; que se expressa em sacrifício, em serviço, em doação. ¶
Ora, alguns dos que precisam de nosso amor estão bem perto, outros estão distantes. Alguns destes últimos estão chegando às nossas comunidades para nos lembrar de que um grande número de pessoas deslocadas agora está, e cada vez mais estará, necessitando de ajuda em toda a terra. Ouvimos um pouco a respeito da tragédia dos boat people. No entanto, o problema dos famintos, dos desabrigados, dos desesperançados, dos pobres e dos excluídos vai além de qualquer coisa que a maioria de nós consiga compreender. ¶
Bem perto
Há outros mais próximos que lutam com problemas com os quais também devemos nos preocupar. Grandes esforços organizados de bem-estar institucional e de serviço social estão em andamento, graças ao Senhor, mas eles têm o propósito de complementar nossa preocupação individual pelos estrangeiros que estão entre nós, residentes ou de passagem, pelos desgarrados, pelos idosos e pelos enfermos. ¶
Os viúvos e divorciados também sofrem um deslocamento devastador, muitas vezes sozinhos e frequentemente necessitando de incentivo e ajuda. Pais de coração partido, que realmente se esforçaram, mas cujos filhos escolheram outro caminho, ficam angustiados e muitas vezes encontram pouco consolo em sermões ou no sucesso alheio. O número de famílias monoparentais aumenta, cada uma representando necessidades especiais que não são compreendidas por aqueles que não as vivenciaram. ¶
Temos o testemunho das escrituras de que o Senhor Deus chora quando não o escolhemos ou não amamos verdadeiramente uns aos outros. A circunstância mais triste que qualquer um de nós pode conceber, de fato o único mal que, em última análise, pode realmente nos prejudicar, é não escolhê-lo e, assim, sermos separados dele. Mas a tragédia companheira — que também traz sofrimento que o faz chorar — é falhar em nosso afeto uns pelos outros, afeto expresso em esforços altruístas para prestar o serviço cristão a que o Presidente Kimball se referiu três vezes nesta manhã, serviço cristão ao faminto, ao nu, ao oprimido, aos excluídos, à viúva, ao órfão, ao aflito, ao de coração partido, ao ferido, ao abandonado, ao idoso, ao enfermo e ao encarcerado. ¶
Escolhê-lo — e amar
Temos dois grandes desafios, você e eu, e o desafio nunca termina enquanto houver fôlego: escolhê-lo e amar uns aos outros. Então poderemos ter certeza de que o conheceremos neste mundo e, finalmente, naquele reino que não é deste mundo, onde “Deus está com os homens, e habitará com eles, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. ¶
“E Deus enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:3–4). ¶
Que Deus nos abençoe para que possamos passar na prova, em nome de Jesus Cristo, amém. ¶