O Fogo do Refinador
James E. Faust
Chegar a este púlpito é sempre uma responsabilidade muito humilhante. Busco a orientação do Espírito Santo e oro para que aquilo que tenho a dizer seja guiado pelo Espírito e repouse abundantemente sobre todos nós, para que vocês também possam compreender por meio desse espírito especial. ¶
Desejo falar nesta manhã a todos, mas especialmente àqueles que sentem ter tido mais provações, tristezas, espinhos e aguilhões do que podem suportar, e que, em sua adversidade, quase se afogam nas águas da amargura. Minha mensagem pretende ser de esperança, força e libertação. Falo do fogo do refinador. ¶
Há alguns anos, o Presidente David O. McKay relatou, deste púlpito, a experiência de alguns membros da companhia de carrinhos-de-mão de Martin. Muitos desses primeiros conversos haviam emigrado da Europa e eram pobres demais para comprar bois ou cavalos e uma carroça. Sua pobreza os obrigou a puxar, com sua própria força bruta, carrinhos-de-mão contendo todos os seus pertences através das planícies. O Presidente McKay relata um acontecimento ocorrido alguns anos depois desse êxodo heroico: "Um professor, ao ministrar uma aula, disse que jamais fora sensato tentar, ou mesmo permitir que eles [a companhia de carrinhos-de-mão de Martin] atravessassem as planícies naquelas condições. ¶
"[Segundo um membro da classe,] fazia-se uma crítica contundente à Igreja e a seus líderes por terem permitido que qualquer companhia de conversos se arriscasse a atravessar as planícies com não mais do que os suprimentos e a proteção que uma caravana de carrinhos-de-mão poderia oferecer. ¶
"Um velho no canto ... permaneceu em silêncio, ouvindo enquanto pôde suportar; então se levantou e disse coisas que ninguém que o ouviu jamais esquecerá. Seu rosto estava pálido de emoção, mas ele falava com calma, deliberadamente, mas com grande seriedade e sinceridade. ¶
"Em essência, [ele] disse: 'Peço-lhes que parem com essa crítica. Vocês estão discutindo um assunto sobre o qual nada sabem. Fatos históricos frios não significam nada aqui, pois não oferecem a interpretação adequada das questões envolvidas. Foi um erro enviar a Companhia de Carrinhos-de-Mão tão tarde na estação? Sim. Mas eu estava naquela companhia, e minha esposa estava nela, e a irmã Nellie Unthank, que vocês mencionaram, também estava lá. Sofremos além de tudo o que vocês podem imaginar, e muitos morreram de exposição e fome, mas alguma vez ouviram um sobrevivente daquela companhia proferir uma palavra de crítica? Nenhum membro daquela companhia jamais apostatou ou deixou a Igreja, porque cada um de nós saiu de lá com o conhecimento absoluto de que Deus vive, pois nos tornamos íntimos dele em nossas extremidades. ¶
"'Puxei meu carrinho-de-mão quando estava tão fraco e exausto pela doença e pela falta de alimento que mal conseguia colocar um pé adiante do outro. Eu olhava à frente e via um trecho de areia ou a encosta de uma colina, e dizia: só consigo ir até ali, e ali terei de desistir, pois não conseguirei puxar a carga através dele.'" Ele continua: "'Eu prosseguia até aquela areia e, quando a alcançava, o carrinho começava a me empurrar. Olhei para trás muitas vezes para ver quem estava empurrando meu carrinho, mas meus olhos não viam ninguém. Eu sabia, então, que os anjos de Deus estavam ali. ¶
"'Fiquei triste por ter escolhido vir de carrinho-de-mão? Não. Nem então, nem em nenhum momento de minha vida desde então. O preço que pagamos para nos tornarmos íntimos de Deus foi um privilégio a pagar, e sou grato por ter tido o privilégio de vir na Companhia de Carrinhos-de-Mão de Martin.'" (Relief Society Magazine, jan. de 1948, p. 8.) ¶
Eis, então, uma grande verdade. Na dor, na agonia e nos empreendimentos heroicos da vida, passamos por um fogo de refinador, e o insignificante e o sem importância em nossa vida podem se dissolver como escória e tornar nossa fé brilhante, íntegra e forte. Dessa forma, a imagem divina pode ser refletida a partir da alma. É parte do tributo purificador exigido de alguns para que se tornem íntimos de Deus. Nas agonias da vida, parecemos ouvir melhor os suaves e piedosos sussurros do Divino Pastor. ¶
Em toda vida surgem dias dolorosos e desesperadores de adversidade e provações. Parece haver uma medida plena de angústia, tristeza e, muitas vezes, desgosto para todos, inclusive para aqueles que buscam sinceramente fazer o certo e ser fiéis. Os espinhos que picam, que se cravam na carne, que ferem, muitas vezes transformam vidas que parecem despojadas de significado e esperança. Essa transformação ocorre por meio de um processo de refinamento que, com frequência, parece cruel e árduo. Dessa forma, a alma pode se tornar como barro macio nas mãos do Mestre, na construção de vidas de fé, utilidade, beleza e força. Para alguns, o fogo do refinador causa a perda da crença e da fé em Deus, mas aqueles que possuem uma perspectiva eterna compreendem que esse refinamento é parte do processo de aperfeiçoamento. ¶
Em nossas extremidades, é possível nascer de novo, nascer outra vez, ser renovados de coração e de espírito. Deixamos de seguir a correnteza da multidão e passamos a desfrutar da promessa de Isaías de renovar as forças e "subir com asas como águias" (Isaías 40:31). ¶
A prova da fé de alguém precede o testemunho, pois Morôni testificou: "Não recebeis testemunho senão depois da prova de vossa fé" (Éter 12:6). Essa prova de fé pode se tornar uma experiência inestimável. Declarou Pedro: "Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é posto à prova pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo" (1 Pedro 1:7). As provações e adversidades podem ser preparatórias para o novo nascimento. ¶
Um novo nascimento a partir da adversidade espiritual nos faz tornar novas criaturas. Do livro de Mosias aprendemos que toda a humanidade precisa nascer de novo — nascer de Deus, ser mudada, redimida e elevada — para se tornar filhos e filhas de Deus. (Ver Mosias 27:24–27.) ¶
O Presidente Marion G. Romney, falando em nome do Senhor, disse a respeito desse poder maravilhoso: "O efeito sobre a vida de cada pessoa é igualmente semelhante. Nenhuma pessoa cuja alma seja iluminada pelo Espírito ardente de Deus pode permanecer passiva neste mundo de pecado e densas trevas. Ela é impelida por um impulso irresistível a capacitar-se para ser um agente ativo de Deus, promovendo a retidão e libertando a vida e a mente dos homens da escravidão do pecado." (In Conference Report, 4 de outubro de 1941, p. 89.) ¶
Os sentimentos de ser renascido foram expressos por Parley P. Pratt da seguinte forma: ¶
"Se eu tivesse sido incumbido de virar o mundo de cabeça para baixo, de escavar uma montanha, de ir até os confins da terra ou atravessar os desertos da Arábia, teria sido mais fácil do que ter tentado descansar enquanto o Sacerdócio estava sobre mim. Recebi a santa unção, e jamais poderei descansar até que o último inimigo seja vencido, a morte seja destruída e a verdade reine triunfante." (Journal of Discourses, 1:15.) ¶
Infelizmente, algumas de nossas maiores tribulações resultam de nossa própria tolice e fraqueza, e ocorrem por causa de nosso próprio descuido ou transgressão. Central para resolver esses problemas é a grande necessidade de voltar ao caminho certo e, se necessário, empreender cada um dos passos para um arrependimento pleno e completo. Por meio desse grande princípio, muitas coisas podem se tornar totalmente corretas e tudo pode melhorar. Podemos buscar ajuda em outras pessoas. A quem podemos recorrer? O Élder Orson F. Whitney fez e respondeu a essa pergunta: "A quem recorremos, em dias de tristeza e desastre, em busca de ajuda e consolo? ... São homens e mulheres que sofreram e que, a partir de sua experiência no sofrimento, trazem à tona as riquezas de sua compaixão e condolências como uma bênção para aqueles que agora estão necessitados. Poderiam eles fazer isso se eles próprios não tivessem sofrido? ¶
"... Não é este o propósito de Deus ao fazer com que seus filhos sofram? Ele quer que eles se tornem mais parecidos com ele. Deus sofreu muito mais do que o homem jamais sofreu ou jamais sofrerá, e é, portanto, a grande fonte de compaixão e consolo." (Improvement Era, nov. de 1918, p. 7.) ¶
Isaías, antes do nascimento do Salvador, referiu-se a ele como "homem de dores" (Isaías 53:3). Falando de si mesmo em Doutrina e Convênios, o Salvador disse: ¶
"Sofrimento que fez com que eu, Deus, o mais grandioso de todos, tremesse de dor e sangrasse por todos os poros; e sofresse, tanto no corpo como no espírito — e desejasse não ter de beber a amarga taça e recuar —" (D&C 19:18). ¶
Alguns tendem a sentir que suas aflições são um castigo. Roy Doxey afirma: ¶
"O Profeta Joseph Smith ensinou que é uma ideia falsa acreditar que os santos escaparão de todos os juízos — doença, pestilência, guerra, etc. — dos últimos dias; consequentemente, é um princípio profano dizer que essas adversidades se devem à transgressão. ... ¶
"O Presidente Joseph F. Smith ensinou que é um pensamento débil acreditar que a doença e a aflição que nos sobrevêm sejam atribuíveis à misericórdia ou ao desagrado de Deus." (The Doctrine and Covenants Speaks, Salt Lake City: Deseret Book Co., 1970, vol. 2, p. 373.) ¶
Paulo entendeu isso perfeitamente. Ao referir-se ao Salvador, disse: ¶
"Ainda que era Filho, todavia aprendeu a obediência pelas coisas que padeceu; ¶
"E tendo ele sido aperfeiçoado, veio a ser o autor da eterna salvação para todos os que lhe obedecem." (Hebreus 5:8–9.) ¶
Para alguns, o sofrimento é extraordinário. ¶
Stillman Pond era membro do Segundo Quórum dos Setenta em Nauvoo. Foi um dos primeiros conversos à Igreja, vindo de Hubbardston, Massachusetts. Como outros, ele, sua esposa, Maria, e seus filhos foram perseguidos e expulsos de Nauvoo. Em setembro de 1846, tornaram-se parte da grande migração para o oeste. O início do inverno daquele ano trouxe dificuldades extremas, incluindo malária, cólera e tuberculose. A família foi acometida pelas três doenças. ¶
Maria contraiu tuberculose, e todas as crianças foram acometidas pela malária. Três das crianças morreram enquanto avançavam pelas primeiras neves. Stillman as sepultou nas planícies. A condição de Maria piorou por causa da dor, do sofrimento e da febre da malária. Ela já não conseguia caminhar. Enfraquecida e adoentada, deu à luz gêmeos. Foram chamados Joseph e Hyrum, e ambos morreram poucos dias depois. ¶
A família de Stillman Pond chegou a Winter Quarters e, como muitas outras famílias, sofreu amargamente vivendo em uma tenda. A morte das cinco crianças na travessia das planícies até Winter Quarters foi apenas o início. ¶
O diário de Horace K. e Helen Mar Whitney confirma o seguinte a respeito de mais quatro filhos de Stillman Pond que morreram: ¶
"Na quarta-feira, dia 2 de dezembro de 1846, Laura Jane Pond, com 14 anos de idade, ... morreu de calafrios e febre." Dois dias depois, na "sexta-feira, dia 4 de dezembro de 1846, Harriet M. Pond, com 11 anos de idade, ... morreu de calafrios." Três dias depois, na "segunda-feira, dia 7 de dezembro de 1846, Abigail A. Pond, com 18 anos de idade, ... morreu de calafrios." Apenas cinco semanas depois, na "sexta-feira, dia 15 de janeiro de 1847, Lyman Pond, com 6 anos de idade, ... morreu de calafrios e febre." Quatro meses depois, em 17 de maio de 1847, sua esposa Maria Davis Pond também morreu. Na travessia das planícies, Stillman Pond perdeu nove filhos e uma esposa. Tornou-se um notável colonizador em Utah e chegou a presidente sênior do trigésimo quinto Quórum dos Setenta. (Ver Leon Y. e H. Ray Pond, comps., "Stillman Pond, a Biographical Sketch," em Sterling Forsyth Histories, datilografado, Church Historical Dept. Archives, pp. 4–5.) ¶
Tendo perdido esses nove filhos e sua esposa na travessia das planícies, Stillman Pond não perdeu a fé. Ele não desistiu. Ele seguiu em frente. Ele pagou um preço, como muitos outros antes e depois dele, para se tornar íntimo de Deus. ¶
O Divino Pastor tem uma mensagem de esperança, força e libertação para todos. Se não houvesse noite, não apreciaríamos o dia, nem poderíamos ver as estrelas e a vastidão dos céus. Precisamos provar do amargo com o doce. Há um propósito divino nas adversidades que enfrentamos todos os dias. Elas preparam, purgam, purificam e, assim, abençoam. ¶
Quando colhemos as rosas, muitas vezes descobrimos que não podemos evitar os espinhos que brotam do mesmo caule. ¶
Do fogo do refinador pode vir uma libertação gloriosa. Pode ser um nobre e duradouro renascimento. O preço para se tornar íntimo de Deus terá sido pago. Pode vir uma paz sagrada. Haverá um despertar de recursos internos adormecidos. Um manto reconfortante de retidão será colocado ao nosso redor para nos proteger e nos manter aquecidos espiritualmente. A autopiedade desaparecerá à medida que contarmos nossas bênçãos. ¶
Desejo agora concluir testificando a respeito de Jesus como o Cristo e o Divino Redentor. Ele vive! Suas são as doces palavras da vida eterna. Ele é o Filho do Deus Vivo. Esta é sua sagrada obra e glória. Esta é sua igreja. É verdadeira. Sou muito grato por este conhecimento sagrado. É meu estimado privilégio e dever assim testificar, o que faço humildemente. No sagrado nome do Senhor Jesus Cristo, amém. ¶