Quem Perderá a Colheita?
Marvin J. Ashton
Hoje, em muitos lugares do mundo, é tempo de colheita. As safras estão sendo recolhidas para uso e benefício de toda a humanidade. Além de ser um momento apropriado para todos nós agradecermos, o tempo da colheita deveria ser um período de contemplação pessoal, avaliação e planejamento. Na agricultura, ou simplesmente na vida cotidiana, o que contribui para uma colheita bem-sucedida? O que podemos fazer para garantir melhores safras e produção? Por outro lado, o que poderia nos levar a perder a colheita? ¶
No décimo terceiro capítulo de Mateus, por meio da parábola do semeador, o Salvador aponta as condições que causam a perda da safra. Ele responde à pergunta: "Quem perderá a colheita?" Suas advertências e observações têm valor. Os mesmos lugares pedregosos estão conosco hoje; e, a menos que estejamos atentos, nossa colheita pessoal pode se perder. ¶
"Eis que o semeador saiu a semear. ¶
"E quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na; ¶
"E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda; ¶
"Mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz. ¶
"Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta." (Mateus 13:3–6, 23.) ¶
A promessa da colheita existe para aqueles que recebem a semente em boa terra e estabelecem raízes fortes. ¶
Permitam-me compartilhar com vocês quatro condições prevalecentes no horizonte de hoje que podem nos fazer perder a colheita. ¶
- Relutância em aceitar qualidades humanas. Quando Jesus havia ensinado com tamanha sabedoria, discernimento e habilidade profundos, alguns dos que estavam mais próximos dele ficaram maravilhados com suas capacidades e milagres surpreendentes, e disseram: "De onde veio a este a sabedoria, e estas maravilhas?
"Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria? … ¶
"e não estão entre nós todas as suas irmãs?" (Mateus 13:54–56; itálico acrescentado.) Ficaram poderosamente impressionados, até maravilhados, com suas palavras e obras, mas tinham dificuldade em aceitar a fonte. "Não é este o filho do carpinteiro? … e não estão entre nós todas as suas irmãs?" ¶
Hoje, alguns estão semeando em lugares pedregosos porque também eles duvidam da autoridade daqueles que dão conselho e direção. Há uma tendência, por parte de alguns, de ignorar, criticar ou se rebelar porque não conseguem aceitar o sistema humano de entrega. Alguns não aceitarão Jesus Cristo como o Salvador porque estão esperando por um Príncipe da Paz que não seja tão humano quanto Jesus de Nazaré. Perguntas como "Não é este o filho do carpinteiro?", "Não é este o que nasceu numa manjedoura?", "Pode vir alguma … boa de Nazaré?" (João 1:46) são evidências da fraqueza dos homens que não estão dispostos a aceitar as qualidades humanas daqueles que são chamados e levantados para dar direção e conselho. ¶
Nós também não devemos nos deixar enganar por céticos que usariam as mesmas táticas, plantando espinhos para destruir a colheita. Como podemos evitar a perda da safra nessa área de preocupação? Não permitindo que nossas raízes sequem sob os ventos e tempestades de: "Não é este o que foi criado no Arizona?" "Não é este o que veio do Canadá?" "Não é este o que nasceu no México?" "Buscar conselho com nosso novo bispo? Não é ele o que mora logo ali na rua?" ¶
Lemos em Mateus: ¶
"E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua pátria e na sua casa. ¶
"E não fez ali muitas maravilhas, por causa da incredulidade deles." (Mateus 13:57–58; itálico acrescentado.) ¶
O conceito de que "não há profeta sem honra, senão na sua pátria e na sua casa" foi uma tragédia para aquele povo galileu. Pouco depois disso, Jesus deixou Nazaré e o ministério galileu para concentrar a maior parte de seus esforços na parte sul do país, mais próxima de Jerusalém. Pensem nos milagres, manifestações e curas de corpo e alma que essas pessoas poderiam ter desfrutado se sua fé tivesse sido suficiente para aceitar as grandes obras de sua fé. Mas ele os deixou, para nunca mais realmente retornar. ¶
Infelizmente, penso que vemos isso ao nosso redor hoje. Alguém que caminha e conversa diariamente e desfruta da presença de um Joseph Smith ou de um Spencer W. Kimball, mas que ainda assim é essencialmente desprovido de fé, pode ter grande dificuldade em aceitá-los como profetas. Lembro-me de o Presidente Harold B. Lee contar a história de um homem muito proeminente de Nova York que não conseguia aceitar Joseph Smith como profeta porque ele era "muito próximo de mim" ("The Place of the Prophet, Seer, and Revelator", discurso ao corpo docente de seminário e instituto de religião, Universidade Brigham Young, 8 de julho de 1964, p. 2). ¶
Perderemos a colheita porque não conseguimos aceitar direção, revelação ou conselho de alguém que simplesmente mora na rua ao lado, na ala ou na estaca? Rejeitaremos a liderança do homem da Igreja que é humano, com fragilidades, e que tem familiares que também podem ser bastante humanos? ¶
Enquanto lutamos com uma atitude de "Não é este o filho do carpinteiro?", podemos estar perdendo a verdade, o caminho e a colheita final. Jesus não foi aceito como o Filho Unigênito de Deus porque milhares preferiram reconhecê-lo apenas como "o filho de Maria". ¶
O valor e o significado de um Presidente Joseph Fielding Smith, Brigham Young ou Joseph Smith não são medidos por sua estatura física, suas vestimentas ou sua imagem pública. Quer as verdades eternas tenham sido ensinadas por alguém que habitava perto do Mar da Galileia ou por alguém que vivia no norte do estado de Nova York, o tamanho, a origem, a imagem ou a popularidade dos mestres não podem diminuir o valor das verdades que compartilharam. ¶
A segurança pode ser garantida para nós se "cremos em tudo o que Deus revelou, em tudo o que Ele revela agora, e cremos que Ele ainda revelará muitas coisas grandiosas e importantes relativas ao Reino de Deus" (Regras de Fé 1:9). Permitam-me acrescentar que essas revelações virão por meio de pessoas — mesmo dos profetas com qualidades humanas. ¶
- Relutância em aceitar mudanças. Se somos incapazes de aceitar mudanças, na linguagem da parábola do semeador, somos aqueles que não têm raiz.
"Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e chegada a angústia e a perseguição por causa da palavra, logo se ofende" (Mateus 13:21). ¶
Se nossas raízes são profundas, receberemos de bom grado a revelação contínua, a mudança e a direção. Desenvolveremos a capacidade de aceitar desobrigações, chamados e novos desafios com entusiasmo. Estaremos ocupados demais para nos ofendermos. Seremos grandes demais para nos magoarmos. Serviremos onde quer que sejamos chamados com dedicação ansiosa. Aceitaremos as pessoas pelo que são e pelo que podem e vêm a se tornar. A mudança não apenas fará nossas raízes penetrarem mais fundo, mas as fará crescer em solo novo e fértil. ¶
Há alguns anos, uma jovem mãe de meu conhecimento compartilhou este episódio de sua vida. Ela havia sido ativa nas atividades juvenis da ala por vários anos e, naquele momento, era presidente das Moças. O presidente da estaca telefonou um dia e pediu que ela se reunisse com a presidência da estaca no domingo seguinte à tarde. Com ansiedade na voz e lágrimas quase à flor da pele, ela foi até o marido e disse: "Tenho medo de que queiram me chamar para um cargo na estaca. Não quero um cargo na estaca. Eu amo a ala. Amo os jovens da ala. Amo minhas conselheiras. Amo meu trabalho. Não quero mudar." ¶
Seu marido disse: "Por favor, vá e veja o que eles querem. Vou apoiá-la em qualquer chamado." ¶
Seus temores se confirmaram. Ela foi chamada para ser presidente das Moças da estaca. Mais tarde, o presidente da estaca lhe disse que, depois que ela relutantemente aceitou o chamado, nunca tinha visto uma pessoa sair de seu escritório com um semblante mais abatido. ¶
Por mais de seis anos, ela, com as mesmas irmãs como conselheiras, cuidou do trabalho da estaca com as Moças. "Aqueles foram alguns dos melhores anos de serviço para mim", disse ela. "Meus horizontes se ampliaram. Conheci líderes maravilhosos e jovens extraordinários em nossa estaca. Tive até experiências de liderança com outras excelentes líderes em todo o vale. Mais tarde, veio a oportunidade de servir num conselho geral. Estremeço ao pensar no que eu teria perdido se tivesse recusado a mudança de chamado." ¶
Nosso Pai Celestial sabe do que precisamos. A mudança pode ser difícil. A mudança pode causar medo. Mas a mudança na direção certa é um processo de crescimento. Cada novo chamado, cada nova experiência dentro da estrutura do evangelho, se cumprida com o melhor de nossa capacidade, acrescenta novas forças. ¶
A resistência e o ressentimento diante da mudança, de novos chamados, de novas oportunidades são lugares pedregosos que podem impedir que nossas raízes no evangelho se aprofundem e se fortaleçam. ¶
Foi Theodore I. Rubin quem sabiamente disse: "Se permitirmos, a vida produz experiências infinitas que exigem mudança. Se você estiver motivado e disposto a lutar, poderá mudar e crescer enquanto viver. Esse é o desafio, a dor e a alegria de ser humano." ¶
Às vezes, somos imprudentes e até cruéis em nossa relutância em aceitar a mudança nos outros. Recentemente, soube de um homem que criou sua família e desenvolveu sua vida profissional numa pequena cidade do interior. Ele não estava isento de problemas, mas era um bom homem, de grande coração, que amava o Senhor e o evangelho. No entanto, em algumas vizinhanças, erros, mesmo pequenos, não são logo esquecidos; e ele nunca parecia ter "permissão" para crescer, florescer, desenvolver-se e transformar-se no que poderia ser. ¶
Como missionário servindo no exterior, ele deu uma contribuição notável. O presidente da missão disse que ele fez mais para transpor o abismo cultural entre os dois países do que qualquer outro adulto americano conseguira fazer. Contudo, quando sua missão terminou, ele voltou para a pequena cidade; e, sem malícia ou má intenção, mas com o peso insistente da memória, seus vizinhos não o convidaram nem o deixaram ser o homem em que havia se tornado, mas pareciam bastante dispostos a vê-lo como o homem menos atraente de um período anterior. ¶
Por causa dessas expectativas, ele completou os últimos anos de sua vida bem menos feliz, bem menos envolvido e certamente bem menos produtivo para o reino do que fora naquele único período glorioso em que as pessoas, numa nova terra e num tempo diferente, permitiram-lhe mudar e ser o que realmente queria ser e, em seu coração, realmente era. ¶
Permitam-me compartilhar mais um exemplo. Um amigo meu estudou com um rapaz que não teve muita vida familiar e para quem o evangelho, na época, não significava tanto quanto viria a significar depois. Ele bebia um pouco e farreava um pouco; mas depois, ao se mudar de sua cidade natal, tornou-se muito ativo na Igreja. Seu único sonho era voltar para sua cidade natal e abrir um negócio, o que tentou fazer. Mas, infelizmente, assim como o outro homem, as pessoas da comunidade insistiram em tratá-lo como ele havia sido, não como o que havia se tornado. Por fim, ele se mudou e está indo notavelmente bem nos negócios e na Igreja. Recentemente, expressou ao meu amigo o quão profundamente decepcionado ficou por seus antigos amigos e conterrâneos não o terem deixado "voltar para casa", mesmo em sentido evangélico. ¶
- Relutância em seguir instruções. Estes são os que podem perder a colheita porque não serão obedientes. "Ouvindo, não ouvem nem compreendem" é a descrição que a parábola do semeador usa para descrever aqueles que caem nesse terreno vulnerável (Mateus 13:13).
"E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram, e sufocaram-na" (Mateus 13:7). Nós também cairemos entre espinhos e seremos afastados de nossas bênçãos prometidas se falharmos na obediência. ¶
Fiquei muito impressionado, há alguns dias, ao ouvir um élder reativado e entusiasmado dizer: "Estou de volta à Igreja e ativo hoje porque meu presidente do quórum de élderes veio me visitar quando eu não queria ser visto, e me amou quando eu não queria ser amado." Eis um presidente do quórum de élderes cumprindo obedientemente seu trabalho como deveria ser feito. ¶
Às vezes, quando somos convidados a ser obedientes, não sabemos o porquê, exceto que o Senhor o ordenou. Em 1 Néfi 9:5, lemos: "Ordenou-me, portanto, o Senhor que fizesse estas placas para um sábio propósito seu, o qual me é desconhecido." Néfi seguiu as instruções mesmo sem compreender plenamente o sábio propósito. Sua obediência resultou em bênçãos para a humanidade em todo o mundo. Ao não obedecermos a nossos líderes atuais, plantamos nossas sementes em lugares pedregosos e podemos perder a colheita. ¶
- Relutância em ser totalmente comprometido. A parábola do semeador se referiria a estes como os que não têm profundidade. São aqueles sem compromisso ou testemunho. São os que seriam membros por conveniência. Alguns testemunhos brotam rapidamente e florescem por um tempo, até que o calor chegue ou um lugar pedregoso seja encontrado. Então começa o ressecamento.
"E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda" (Mateus 13:5; itálico acrescentado). ¶
Testemunhos profundos e duradouros crescem e se fortalecem à medida que são nutridos diariamente. Aumentam à medida que são compartilhados. Testemunhos significativos têm raízes plantadas em solo fértil. O sol, a chuva e até as tempestades os tornam mais fortes e mais duráveis. À medida que os eventos da vida cotidiana nos atingem, alguns testemunhos murcham sob o calor das ocorrências diárias. As raízes são rasas, os testemunhos desaparecem, e não há colheita. ¶
Busquemos ser totalmente comprometidos. Assim, não cairemos em lugares pedregosos, não murcharemos, nem nos desviaremos dos caminhos da segurança e da felicidade. Aqueles que servem com total dedicação onde quer que sejam chamados não murcham, não secam, não vacilam, nem vagueiam. Suas raízes são profundas e firmemente plantadas nos solos férteis do reino. A colheita é desfrutada a cada dia que passa, à medida que servem. ¶
Não percamos a colheita. Se perdermos a colheita, o que perdemos? Perdemos os prazeres diários de crescimento e desenvolvimento que vêm de realizar nossas tarefas dentro da estrutura do evangelho. Perdemos a satisfação de cumprir tarefas difíceis e servir melhor. ¶
Acima de tudo, perdemos o dom do crescimento e progresso eternos. Que possamos evitar os lugares pedregosos de (1) relutância em aceitar qualidades humanas, (2) relutância em aceitar mudanças, (3) relutância em seguir instruções, e (4) relutância em ser totalmente comprometidos. Ao fazer isso, poderemos estabelecer raízes profundas e fortes e, assim, colher a colheita que nosso Pai Celestial deseja para todos os seus filhos. Por isso oro, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶