Dignos de uma Boa Recomendação
N. Eldon Tanner
É agora meu privilégio e minha responsabilidade dirigir-me a vocês por apenas alguns minutos. Certamente apreciei — e espero que todos os rapazes e portadores do sacerdócio, onde quer que estejam, tenham apreciado e valorizado — os discursos que foram proferidos e esta bela música que ouvimos. ¶
Ao olhar para os que estão reunidos aqui esta noite, e pensar nos milhares que estão nos ouvindo, percebo que estou falando a líderes do sacerdócio, a portadores do sacerdócio e àqueles que assumirão posições de liderança no futuro. Aqueles que já são líderes hoje deveriam já ter se tornado homens de integridade, homens de caráter, homens cujos ideais e padrões são da mais alta qualidade, dignos de serem imitados por aqueles a quem lideram. Assim, esta noite, junto com os outros que se dirigiram a vocês, quero direcionar minhas palavras aos rapazes que subirão pelas fileiras do Sacerdócio Aarônico e que, com o tempo, assumirão os cargos que nós, os mais velhos, hoje ocupamos. Sim, sem dúvida um de vocês, um dia, estará aqui neste púlpito como uma das Autoridades Gerais da Igreja. Um de vocês pode até se tornar o Presidente, e certamente, à medida que permanecerem fiéis e verdadeiros e guardarem os mandamentos, todos vocês avançarão no reino de Deus. ¶
Que pensamento formidável! Como é necessário e importante que todos nós continuamente nos esforcemos para nos aprimorarmos e nos prepararmos para o dia em que um chamado possa vir para servirmos em uma posição nova ou de maior responsabilidade! Todo o propósito de nossa existência na mortalidade é edificar o reino de Deus e provar que somos dignos de voltar à Sua presença. Vocês estão aqui esta noite porque percebem essa responsabilidade e querem ser contados entre aqueles a quem o Senhor chamará de Seus. ¶
O que vocês precisam fazer que ainda não estão fazendo? Ao pensar nisso, e nos requisitos que precisamos cumprir para sermos servos capazes e proveitosos, parece que tudo se resume a sermos dignos de uma boa recomendação por parte de alguém em posição de autoridade. ¶
A Primeira Presidência e algumas outras Autoridades Gerais estão atualmente se preparando para uma série de conferências de área em localidades distantes onde temos membros da Igreja. Ao fazermos esses preparativos, é necessário que tenhamos passaportes, vistos ou cartões de turista, para satisfazer as exigências dos governos dos países que visitaremos. Essas credenciais precisam ser devidamente endossadas pelas respectivas autoridades envolvidas, e somente depois de cumprir todos os regulamentos podemos receber nossos documentos, que nos permitirão entrar nos países escolhidos. ¶
Não faz muito tempo, o Élder David Haight, do Conselho dos Doze, havia sido designado para uma conferência de estaca no México. Ao chegar à fronteira, percebeu que não estava com os documentos necessários que lhe permitiriam entrar no país. Apesar de seu apelo e da urgência de sua missão, as autoridades não tinham poder para admiti-lo sem as credenciais adequadas. Por isso, ele não pôde comparecer à conferência. ¶
O mesmo se dá com nosso progresso no sacerdócio. Precisamos ser devidamente recomendados e endossados por aqueles em posição de autoridade antes de podermos avançar de um ofício para outro, e não podemos receber a certificação ou a prova de nosso avanço sem sermos dignos, ou sem satisfazermos os requisitos. Assim será também quando quisermos entrar no reino dos céus, para nos reunirmos com aqueles que nos precederam, e vivermos eternamente com Deus, nosso Pai. ¶
É verdade que alguns cruzam clandestinamente a fronteira para outros países sem credenciais, mas, se e quando descobertos, são penalizados e deportados de acordo com a lei. Na Igreja, alguns que são culpados de transgressão mentirão para serem promovidos no sacerdócio, para saírem em missão ou para entrarem no templo. Mas o Senhor sabe, e eles não podem esperar desfrutar de Suas bênçãos. ¶
Ao longo de minha vida no governo, na indústria e na Igreja, tenho tido muitas pessoas que me pedem cartas de recomendação ou de referência para ajudá-las a conseguir emprego ou uma promoção. Também tenho tido líderes da indústria ou do governo que me pedem recomendações a respeito de certos indivíduos que estejam considerando para emprego. ¶
É sempre com sentimento de prazer e satisfação que posso responder que o indivíduo é digno de sua consideração, que ele é honesto, confiável, teve bom desempenho na escola, relaciona-se bem com as pessoas, é um trabalhador disposto, não procrastina, e é leal e digno de confiança. Nessas circunstâncias, acrescento que posso recomendá-lo sem nenhuma reserva, e afirmo que ele será um trunfo para a empresa. ¶
É com tristeza que respondo quando não posso recomendar um indivíduo sem reservas, por causa de algum traço indesejável de caráter ou de alguma qualidade que, em meu julgamento, o impediria de desempenhar a contento de seu empregador. Na verdade, costumo dizer que não estou em posição de responder por ele, ou simplesmente não respondo à consulta. É tão importante que eu seja honesto em minha carta de referência quanto que o futuro empregado seja um indivíduo honesto e íntegro. ¶
Ao escolher uma vocação, é preciso considerar quais são as próprias qualificações pessoais; ou seja, se alguém escolhe ser médico, além de possuir as qualidades que devem fazer parte do caráter de todo homem, tais como boa moral, honestidade, integridade, confiabilidade, etc., deve ser sensível ao bem-estar das pessoas e ingressar na profissão não apenas porque ela pode ser muito lucrativa, mas também porque está genuinamente preocupado e interessado em melhorar a saúde da humanidade. Um médico precisa ser alguém disposto a doar seu tempo a qualquer hora do dia ou da noite, sem pensar em seu próprio conforto e conveniência. ¶
Se alguém quiser ser piloto de avião, deve ser capaz de pensar e reagir com calma e clareza diante de acontecimentos imprevistos ou inesperados no desempenho de suas funções. Um advogado precisa da capacidade de expressar-se bem, tanto na palavra falada quanto na escrita. Um vendedor deve ter entusiasmo e ser capaz de relacionar-se bem com as pessoas; precisa ter a capacidade de convencer aqueles a quem está tentando converter a seu produto. Uma secretária ou recepcionista precisa ser capaz de guardar confidências e ajudar a criar um ambiente de amizade e prestatividade no escritório onde as pessoas aguardam por seus compromissos. ¶
Como vocês veem, para cada tipo de classificação de trabalho existem algumas qualificações básicas e algumas especializadas, necessárias para desempenhar o trabalho exigido com a maior eficiência. Durante toda a nossa vida devemos estar nos preparando com uma combinação das características essenciais para preenchermos nosso lugar na vida. ¶
Há alguns anos a Igreja distribuiu a nossos jovens uma série de pequenos cartões, com uma figura de um lado e uma mensagem do outro. A série se chamava "Seja Honesto Consigo Mesmo". Cito um deles, com o título "Você Consegue Passar Neste Teste?" ¶
"Eis uma sala de aula durante uma hora de exame. Os alunos não estão sendo vigiados — o professor confiou em sua honra. Exceto por sua própria consciência e pela desaprovação dos colegas, eles estão completamente livres para espiar aqueles livros de referência, ou olhar por cima dos ombros dos colegas em busca de respostas fáceis. O que farão? O que você faria? ¶
"Alguns críticos da juventude moderna afirmam que a cola nas escolas secundárias e nas faculdades está aumentando. Pior ainda, afirmam que é comum que colegas — que não colam — e alguns professores tolerem essa prática. Várias desculpas para a cola em sala de aula são oferecidas: ¶
"Nenhuma dessas razões é uma razão honesta; nenhuma resistirá ao teste do tempo e da consciência. Colar é desonesto onde quer que se encontre — sempre foi e sempre será. ¶
"O primeiro a colar foi Satanás, 'o pai da mentira'. Ele tentou fraudar nossos espíritos pré-mortais de nosso direito de primogenitura ao arbítrio e ao progresso eterno. Satanás perdeu. Os que colam nunca vencem de verdade. ¶
"Quando alguém cola, seja recebendo ajuda para passar em uma prova escolar, seja por meio de formas mais flagrantes de desonestidade, ele engana a si mesmo em primeiro lugar. ¶
"Não o faça! Sempre, de todas as formas — seja honesto consigo mesmo." ¶
Este treinamento na honestidade começa no lar. Cada um de nós tem posses pessoais que são somente suas. Podemos e devemos compartilhar coisas como brinquedos e jogos, e nossos serviços uns aos outros; mas temos dinheiro, joias ou roupas que são propriedade pessoal de cada um e não devem ser tomadas sem o consentimento do dono. Uma criança que respeita essa honestidade no lar dificilmente violará esse princípio fora do lar. Por outro lado, a falta desse treinamento gera desrespeito pelos direitos e pela propriedade alheios. ¶
Percebo que os jovens de hoje estão sob muita pressão de influências externas e sentem que, para serem populares, precisam concordar com seus amigos em algumas coisas que vão contra seus próprios padrões pessoais. Mas eu lhes imploro que considerem as consequências de comprometer seus princípios, o que pode afetar adversamente toda a sua vida. ¶
À medida que uma criança amadurece e começa a trabalhar por dinheiro, seja para os pais, seja para os vizinhos, ela lidará honestamente e prestará um trabalho honesto pelos retornos que recebe. Frequentemente, o primeiro emprego de um jovem é como entregador de jornais. Inúmeros de nossos empresários bem-sucedidos hoje começaram nessa ocupação. Aprenderam a ser pontuais e confiáveis. Conheci um entregador de jornais que sempre entregava seus jornais no horário, independentemente do clima, e cuidava de suas cobranças de forma agradável, cortês e profissional. Ele tinha muitos clientes satisfeitos e não tinha dificuldade em conseguir novas assinaturas. Esse treinamento inicial o ajudou a se tornar um empresário de grande sucesso. ¶
Outro rapaz que conheci — e conheci vários assim — não entregava seus jornais no horário, confundia-se em suas cobranças, e a agência de jornais recebeu tantas reclamações a respeito dele que precisou substituí-lo. Não é o que trabalho fazemos, mas como o fazemos, que conta. ¶
Quando eu era presidente da TransCanada Pipelines, tínhamos um office-boy que fazia apenas o que lhe pedíamos. Ele esperava até ser chamado para fazer um recado, ou ficava parado esperando instruções, nunca se oferecendo para ajudar. À medida que a empresa cresceu e o trabalho se tornou maior do que ele conseguia lidar, contratamos outro rapaz, ainda mais jovem, que era atento e sempre buscava coisas extras para fazer, a fim de ser útil. Ele terminava um recado e então procurava, ou pedia, outra coisa para fazer. Em poucos meses, um dos departamentos o quis para um cargo de maior responsabilidade, e, dentro de dois anos, ele teve três promoções, aumentos de salário e mais responsabilidades. O outro rapaz permaneceu como office-boy. ¶
Lembro-me também de quando servi como chefe de escoteiros, e de notar as diferenças entre os rapazes. Alguns eram atentos e ansiosos por aprender, por guardar o Juramento e a Lei do Escoteiro, por servir e por aprender tudo o que pudessem sobre como se cuidar em quaisquer condições. Haveria muitas histórias para contar sobre escoteiros que salvaram a própria vida e a vida de outros, graças ao treinamento que receberam ao aproveitarem suas oportunidades. Havia outros escoteiros que faziam o mínimo possível e só se interessavam em ver quanta bobagem podiam fazer sem serem repreendidos. Eu sempre quis que os rapazes se divertissem, contanto que fossem honestos e confiáveis e estivessem decididos a guardar o Juramento e a Lei do Escoteiro e a concluir seu treinamento. ¶
Lembro-me muito bem de um dos chefes escoteiros na Inglaterra que, quando estava no exército durante a guerra, tinha a responsabilidade de selecionar soldados para missões altamente confidenciais. Ele dizia que sempre ficava feliz quando encontrava um homem que fora um bom escoteiro e que podia levantar a mão em esquadria, com três dedos estendidos, e dizer que guardara a Lei e a Promessa do Escoteiro. Disse que não hesitava em recomendar um homem nessas condições, pois sabia que podia contar com ele, e sabia então que era digno de confiança. Disse que nunca fora decepcionado por um homem assim. ¶
Deixem-me dar-lhes um exemplo de como é importante colocar as coisas mais importantes em primeiro lugar, se quiserem ter sucesso na vida. Quando menino, fui criado numa fazenda, onde permaneci até sair para estudar. Eu tinha observado como um fazendeiro de um lado da estrada era muito bem-sucedido, enquanto outro do lado oposto era quase um fracasso como fazendeiro. O que fazia a diferença? Recebiam a mesma quantidade de sol e de chuva. Plantavam o mesmo tipo de semente. Mas um tinha colheitas belas e fartas, enquanto o outro não tinha colheita alguma, ou tinha uma colheita fraca. ¶
Observei que o fazendeiro bem-sucedido trabalhava em seu ofício. Ele fazia a aração, a gradagem, o preparo do solo, a semeadura e a colheita na estação certa e no momento certo, enquanto seu vizinho procrastinava, ou saía para caçar e pescar enquanto ainda havia trabalho a fazer. Precisamos aprender a estabelecer nossas prioridades corretamente. Ninguém pode ter sucesso em sua área de trabalho, a menos que trabalhe nela na estação certa e brinque na estação certa. ¶
O trabalho é um grande antídoto para muitas coisas. Na parede de uma sala de espera de um conhecido instituto neurológico, há um cartão pendurado, destinado não aos doentes, mas aos que gozam de saúde: ¶
"Se você é pobre, trabalhe. Se você é rico, trabalhe. Se você está sobrecarregado de responsabilidades aparentemente injustas, trabalhe. ¶
"Se você é feliz, continue a trabalhar; a ociosidade dá espaço a dúvidas e temores. Se a tristeza o domina, e os entes queridos parecem não ser verdadeiros, trabalhe. Se vierem decepções, trabalhe. ¶
"Se a fé vacila e a razão falha, apenas trabalhe. Quando os sonhos se despedaçam e as esperanças parecem mortas — trabalhe. Trabalhe como se sua vida estivesse em perigo; na verdade, está. ¶
"Não importa o que o aflige, trabalhe. Trabalhe fielmente, e trabalhe com fé. O trabalho é o maior remédio material disponível. O trabalho curará tanto as aflições mentais quanto as físicas." ¶
Agora, rapazes, se vocês me pedissem ajuda para conseguir emprego, que tipo de recomendação eu poderia dar por vocês? Eu seria capaz de dizer que vocês foram completamente honestos, confiáveis e honrados em todas as suas relações? Ou eu teria que dizer que vocês corresponderam a algumas dessas coisas, mas que eram preguiçosos, ou não tinham tido bom desempenho na escola, ou que não seguiam instruções, ou que eram encrenqueiros, ou desleais, ou qualquer outra coisa que os tornasse um empregado indesejável? ¶
Se é tão importante ser altamente recomendado, ou ter referências adequadas, para conseguir emprego, quanto mais importante é vivermos dignos de uma boa ou satisfatória recomendação de nossas autoridades da Igreja, para que possamos progredir nos vários ofícios e funções do sacerdócio e, por fim, obter admissão no reino dos céus. ¶
Como portadores do sacerdócio, devemos saber que Deus é nosso Pai; que Seu Filho, Jesus Cristo, é nosso Salvador; que, por meio de Seu sacrifício expiatório, podemos ser ressuscitados e, seguindo Seus ensinamentos, obter a vida eterna; que, por meio da revelação, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi estabelecida; que Spencer W. Kimball é um profeta de Deus e Presidente da igreja de Jesus Cristo; e que o sacerdócio que possuímos é o poder de Deus, delegado a nós para agirmos em Seu nome. ¶
Que possamos esforçar-nos todos os dias para viver dignos, em todos os sentidos, deste grande privilégio e desta bênção, é o que humildemente rogo, em nome do Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶