A Primária Enriquece a Vida das Crianças
David B. Haight
O Salvador, aproveitando cada preciosa oportunidade para ensinar seus seguidores, foi interpelado com uma pergunta provocante. Os discípulos se perguntavam qual seria o seu lugar. Um deles perguntou: "Quem é, pois, o maior no reino dos céus?" (Mateus 18:1.) O Senhor provavelmente estendeu a mão para uma das crianças pequenas no grupo que rodeava o Salvador e a trouxe para junto de si. "Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus." Em seguida acrescentou: "Portanto, qualquer que se humilhar como este menino, esse é o maior no reino dos céus." (Mateus 18:3–4.) ¶
Não terá o Salvador, neste episódio, exigido dos adultos que reencontrassem sua infância, que abandonassem a fraqueza ou o mal? Aquela fé infantil, tão amada, precisa ser recuperada. ¶
"E qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta, a mim me recebe." (Mateus 18:5.) ¶
Talvez ainda segurando a criança junto a si, ele disse: "Mas qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar." (Mateus 18:6.) Um preço bastante terrível está ligado à pureza das crianças pequenas; seus direitos à verdade e ao amor são direitos inalienáveis, não importa o que possa acontecer-lhes em anos posteriores. ¶
Em outubro passado, a Primária da Estaca Bountiful Utah incentivou as crianças a ganhar dinheiro para comprar exemplares do Livro de Mórmon — mas a pagar pelo livro com seu próprio trabalho, com dinheiro que elas mesmas ganhassem. ¶
Cada uma colocou sua fotografia e seu testemunho dentro da capa. Seiscentos e vinte exemplares do Livro de Mórmon com fotografias e testemunhos foram enviados a missões. ¶
Há poucos dias, uma daquelas crianças da Primária, a pequena Sarah Richards, recebeu esta carta da senhora Earl Mock, de Tucson, Arizona: ¶
"Querida Sarah, muito obrigada por nos enviar o Livro de Mórmon com sua fotografia por dentro. Você é uma menina muito bonita e muito gentil. Guardarei sempre o livro, sua fotografia e seu testemunho. ¶
"Acabei de terminar de ler o livro todo, e eu também acredito que é verdadeiro. Gostei muito e vou lê-lo muitas vezes mais. ¶
"Obrigada novamente, e que Deus a abençoe." ¶
A Primária. Como ela surgiu? Não terá o Senhor prometido aos santos em Kirtland que, se fossem pacientes e fiéis, todas as coisas cooperariam para o seu bem, e que, à medida que o evangelho se desdobrasse, eles seriam ensinados linha por linha, preceito por preceito? (Ver D&C 98:2, 3, 12.) ¶
A inspiração para uma classe de crianças veio a Aurelia Rogers, de Farmington, Utah, há cem anos. Havia a necessidade de ensinar às crianças os princípios do evangelho na linguagem das crianças, juntamente com boas maneiras e vestimenta apropriada. ¶
Em 1878, Farmington, Utah, era uma comunidade culta, com mais de 1.200 habitantes e uma bela capela de pedra. Tinham uma Sociedade de Socorro, uma Associação Literária dos Rapazes e uma Associação de Melhoramentos Mútuos das Moças, além de uma banda de metais. ¶
Mas, apesar de toda essa influência espiritual e cultural, Farmington, como outras comunidades, tinha seus problemas juvenis — meninos que ficavam fora até tarde da noite; a escuridão e as travessuras faziam dos meninos um desafio. ¶
O bispo John W. Hess, veterano do Batalhão Mórmon, convocou uma reunião de pais e os exortou a cuidar de seus filhos. Essas condições também preocupavam Aurelia Rogers. Ela refletiu e orou. ¶
Em março de 1878, Eliza R. Snow e outras irmãs assistiram a uma conferência da Sociedade de Socorro em Farmington. Aurelia Rogers escreveu mais tarde: ¶
"Depois da reunião, ... a caminho da estação, essas irmãs ... pararam em minha casa. ... O tema de nossa conversa foram os jovens, e o modo rude e descuidado de muitos dos rapazes e meninos. ... Fiz a pergunta: 'O que farão nossas moças para conseguir bons maridos, se este estado de coisas continuar? ... Não poderia haver uma organização para os meninos pequenos, e treiná-los para se tornarem homens melhores?'" (Aurelia S. Rogers, Life Sketches, Salt Lake City: George Q. Cannon and Sons Co., 1898, pp. 207–8.) ¶
Eliza R. Snow pareceu profundamente impressionada com a pergunta e indicou que falaria com os Irmãos. ¶
Brigham Young havia falecido poucos meses antes. Os Doze, com John Taylor como presidente do conselho, presidiam a Igreja. ¶
Em pouco tempo, o bispo Hess recebeu aprovação para uma nova organização de crianças. O bispo Hess perguntou a Aurelia Rogers se ela estaria disposta a presidir tal organização. Ela estava disposta. ¶
Aurelia escreveu que, ao contemplar a possibilidade de uma organização para os meninos, "pareceu arder um fogo dentro de mim. ... Surgiu então em minha mente a pergunta: não poderia haver uma organização para os meninos pequenos, na qual lhes fosse ensinado tudo o que é bom, e como se comportar?" (Rogers, p. 207.) ¶
Até aquele momento, as meninas jamais haviam sido mencionadas, mas Aurelia sentiu que a classe não estaria completa sem elas. Sugeriu-se o nome Primária, como "a primeira" ou "original". ¶
Em 11 de agosto de 1878, Aurelia Spencer Rogers foi apartada pelo bispo Hess para presidir aquela primeira Associação Primária. Por sugestão dele, Aurelia Rogers e suas novas conselheiras, Louisa Haight e Helen Miller, visitaram todos os lares para obter os nomes das crianças e verificar se os pais estavam dispostos a enviá-las à Primária. Após essa cuidadosa preparação, 115 meninos e 100 meninas compareceram à capela de pedra em 25 de agosto de 1878, para a primeira reunião. Os cidadãos que passavam pela capela naquele dia memorável ouviram as vozes das crianças cantando: ¶
Em nosso amado Deseret, ¶
Onde os santos de Deus se reuniram, ¶
Há uma multidão de crianças ao redor; ¶
Elas são generosas e corajosas, ¶
Têm almas preciosas a salvar, ¶
Devem escutar e obedecer ao som do evangelho. ¶
Ouçam! ouçam! ouçam a música das crianças, ¶
Vozes de crianças, quão doces, ¶
Quando, em inocência e amor, ¶
Como os anjos lá do alto, ¶
Elas se reúnem com corações felizes e rostos alegres. ¶
(Sing with Me, B-24.) ¶
Hoje a Igreja honra uma fiel e distinta pioneira. Aurelia Spencer Rogers — uma filha da adversidade, da provação, da determinação e do amor, que construiu sua fé acontecimento por acontecimento, desafio por desafio. E quanto aos seus primeiros anos? ¶
Orson Spencer e seus seis filhos, órfãos de mãe, atravessaram de balsa o rio Missouri e se mudaram apressadamente para sua cabana de toras inacabada em Winter Quarters. A mãe deles morrera pouco depois de a família partir para Nauvoo. Era preciso deixar a família instalada antes que o pai partisse para a Inglaterra — ele fora chamado pelo presidente Brigham Young para publicar um jornal para a Igreja. ¶
Orson Spencer havia treinado Ellen, com apenas quatorze anos, e Aurelia, com apenas doze, para serem pai e mãe dos quatro filhos mais novos. Ele comprou oito vacas para que houvesse bastante leite para beber e o suficiente para vender. Havia também um cavalo, a ser vendido se necessário para comprar suprimentos. ¶
Aquele inverno foi longo, frio e solitário. Muitas pessoas morreram em Winter Quarters. Aurelia escreveu em seu diário: "Passamos bem a primeira parte do inverno. ... Nosso cavalo e todas as nossas vacas, menos uma, haviam morrido, de modo que não tínhamos leite nem manteiga; nossas provisões também ... estavam quase esgotadas. ... Sofremos de verdade por falta de comida; parte do tempo não tínhamos nada além de farinha de milho, que misturávamos com água e assávamos numa chapa. Muitas noites fui para a cama sem jantar, tendo de esperar até sentir fome suficiente para comer nossa pobre refeição." (Rogers, pp. 48, 50–51.) ¶
Certo dia, o presidente Brigham Young visitou a cabana de um só cômodo dos Spencer e a encontrou arrumada, e as crianças limpas. O pai delas estava ausente havia um ano. Os santos começavam a se preparar para iniciar sua jornada rumo ao oeste. ¶
As crianças informaram ao presidente Young que o pai delas escrevia com frequência, fazendo sugestões sobre o que deveriam vestir, como pentear o cabelo, o que fazer se adoecessem e como cuidar umas das outras. Depois de ler a última carta do pai delas, o presidente Young disse-lhes que tinha um assunto muito importante para elas considerarem. Ele perguntou: "O que vocês diriam se seu pai permanecesse na Inglaterra pelo menos mais um ano? Precisamos dele lá." ¶
As crianças se entreolharam e esperaram que Ellen falasse, já que era a mais velha. "Se assim for considerado melhor", disse Ellen calmamente, "gostaríamos que fosse assim, pois queremos fazer o que for melhor." (Rogers, p. 87.) ¶
Todas as outras crianças concordaram. Lembraram-se de que o pai havia certa vez escrito: "Ainda que ele nos mate, confiaremos nele, e tudo dará certo." (Rogers, p. 62.) ¶
Elas tinham fé em seu pai, em seu conselho e em seu Pai Celestial. Na primavera de 1848, os filhos de Spencer, com determinação e corações gratos, mudaram-se para o oeste com os santos. ¶
Durante os dois anos de ausência do pai, as seis crianças passaram por muitas provações — atravessaram as planícies rumo ao Vale do Lago Salgado, viveram no antigo forte, depois se mudaram para uma casa de adobe de um só cômodo. Parentes e amigos zelavam por elas, mas a responsabilidade recaía sobre as duas filhas mais velhas, Ellen e Aurelia. ¶
Por fim, Orson Spencer, o ex-ministro batista da Nova Inglaterra, foi recebido em casa em meio a um coro de gritos, abraços e beijos de sua heroica família. Ele foi nomeado reitor da nova Universidade de Deseret. A filha Aurelia foi aluna dele apenas por algum tempo, pois havia conhecido e se apaixonado por Thomas Rogers, um jovem carroceiro, ao atravessar as planícies. Casaram-se e montaram residência numa cabana de toras em Farmington. Ali, no sopé do Wasatch, com vista para o Grande Lago Salgado, Aurelia Spencer Rogers passou o resto da vida. Ali deu à luz doze filhos, sepultando cinco deles ainda bebês. À medida que seus filhos cresciam, ela se preocupava cada vez mais com a falta de atividades sadias durante a semana — a origem da Primária. ¶
Aurelia Rogers foi filha do fogo do refinador. O conselho de Mosias de "não permitir que vossos filhos passem fome ou fiquem nus, ... transgridam as leis de Deus, ... mas ... ensiná-los a andar nos caminhos da verdade, ... amar-se uns aos outros e servir-se uns aos outros" fazia parte de sua vida. (Mosias 4:14–15.) ¶
Desses humildes começos numa pequena cidade mórmon surgiu uma preocupação mundial pelas crianças. Cada fase e aspecto de nosso programa da Primária está em harmonia com os ensinamentos de Cristo. Sadio recreio, virtude, cultura, serviço e amor uns pelos outros acrescentam força e propósito à Primária que homenageamos ao encerrar seus primeiros cem anos. ¶
Quando a Primária começou, não havia livros de lições nem esboços. As crianças eram ensinadas a obediência, a fé em Deus, a oração, a pontualidade, as boas maneiras e a Palavra de Sabedoria. Aurelia deve ter tirado forças da leitura: "Portanto, não vos canseis de fazer o bem, porque estais lançando o alicerce de uma grande obra. E de pequenas coisas provém aquilo que é grande." (D&C 64:33.) ¶
A Primária continuará a cumprir seu objetivo de enriquecer a vida das crianças — abençoando não somente a vida individual delas, mas também a vida de suas famílias e amigos. Toda criança precisa saber que tem um Pai Celestial que a ama, desenvolver fé em Jesus Cristo e desejar viver o evangelho Dele, de modo a enfrentar as pressões e os problemas do mundo de hoje. A Primária pertence às crianças. Aurelia escreveu: "Por que se permitiria que qualquer coisa viesse antes do mais sagrado dever da paternidade, o de zelar pelo bem-estar espiritual dos filhos? — eis a pergunta que pesava em minha mente." (Rogers, p. 206.) ¶
Embora a responsabilidade da Primária seja imensa, o desafio dos pais é ainda maior. Além dos programas nocivos da televisão, há drogas, abuso infantil, aceitação de atos violentos e pornografia infantil. Pesquisas indicam que as crianças americanas assistem à televisão metade de suas horas de vigília. Aos doze anos, já terão assistido à destruição violenta de 18.000 seres humanos. Aos doze anos, já terão passado 10.720 horas diante da televisão e apenas 352 horas na Primária, se tivessem frequência perfeita. ¶
Hoje não honramos apenas Aurelia Rogers, mas também todos os líderes e professores da Primária que, durante os primeiros cem anos, nos formaram. O lema dela era: ¶
"Nossos filhos são nossas joias. ¶
Contamos bem o custo. ¶
Que os anjos sempre os guardem, ¶
E nenhuma criança se perca." ¶
(Rogers, p. iii.) ¶
Que nós, como pais e líderes espirituais, sejamos abençoados a compreender o que o Mestre quis dizer quando afirmou: "Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus." (Mateus 18:3.) Em nome de Jesus Cristo, amém. ¶