Uma Visão da Lei do Jejum
Victor L. Brown
Como acontece com outras leis eternas, grandes bênçãos são condicionadas à observância da lei do jejum. A observância adequada dessa lei inclui vários elementos importantes, tais como jejuar com propósito, orar, comprometer-se a agir e consagrar. Em sua plenitude, a lei do jejum beneficia tanto os que jejuam quanto os que estão em necessidade. ¶
A importância dessa relação não pode ser demasiadamente enfatizada. Aquele que consagra seu jejum por meio de uma oferta generosa está, na verdade, provendo alimento, vestuário e abrigo aos pobres, e é santificado por seu sacrifício. ¶
O Presidente Spencer W. Kimball ampliou nossa visão sobre sermos generosos em nossas ofertas ao Senhor quando disse (e repetiu novamente esta manhã): ¶
"Às vezes temos sido um tanto mesquinhos, calculando que tomamos, no café da manhã, um ovo, que custa tantos centavos, e então damos isso ao Senhor. Penso que, quando somos abastados, como muitos de nós somos, devemos ser muitíssimo generosos. … ¶
"Penso que devemos ser muito generosos e dar, em vez do valor que economizamos com nossas duas refeições de jejum, talvez muito, muito mais — dez vezes mais, onde estivermos em condições de fazê-lo." (Conference Report, abril de 1974, p. 184.) ¶
Desde que o Presidente Kimball fez esse apelo, há três anos e meio, as doações de ofertas de jejum aumentaram substancialmente. Esses fundos sagrados têm abençoado muitos membros da Igreja em todas as partes do mundo. Aqueles que receberam certamente foram abençoados, mas os que deram o foram ainda mais. Quando damos generosamente ao Senhor, recebemos dele algo de maior valor do que nossa oferta. Quando guardamos seus mandamentos, "ele imediatamente nos abençoa." ([Mosias 2:24].) É impossível colocar o Senhor em nossa dívida. ¶
Há algum tempo, o Dr. James O. Mason, que estava associado a nós no Departamento de Serviços de Bem-Estar, visitava um dos países em desenvolvimento do mundo. Um adolescente lhe perguntou se ele poderia, por favor, levar um presente ao Presidente Kimball. O presente era um esboço que ele havia desenhado de um pavão com sua cauda em pleno leque. Fora feito com tanto cuidado — cada pena em seu lugar — em cores tão belas. Ao vermos aquilo, maravilhamo-nos com a arte do rapaz e perguntamos mais a respeito dele. Em resposta, o Dr. Mason nos entregou uma fotografia desse rapaz. Ele não tinha braços. Um defeito de nascença o deixara aleijado, e, ainda assim, ele desenvolvera seu talento artístico a ponto de desenhar aquela bela e intrincada obra, segurando os lápis entre os dedos dos pés. ¶
Perguntaram-nos se a Igreja tinha fundos que pudessem ser usados para prover-lhe membros artificiais. Garantimos ao presidente de missão que havia fundos, mas somente depois que a família tivesse feito tudo o que estivesse ao seu alcance. Quando tivemos a certeza de que a família havia cumprido os princípios dos Serviços de Bem-Estar, os fundos foram disponibilizados. ¶
Mais tarde recebemos outra fotografia, mostrando seus braços e mãos recém-adquiridos, com um relato de como ele estava orgulhoso de poder se vestir sozinho agora. Ele fora grandemente abençoado por aqueles que viveram a lei do jejum e foram generosos em suas ofertas. ¶
Reafirmamos o princípio de fazer uma oferta generosa como parte integrante do jejum mensal regular, e incentivamos a todos a aproveitar plenamente a oportunidade de estar em total harmonia com esse princípio. ¶
Além de prover os meios para cuidar dos pobres entre nós, o jejum é um princípio de poder que nos ajuda a alcançar individualmente propósitos justos em nossa vida. As escrituras contêm muitos relatos do poder do jejum. ¶
Considerem a grande lição de jejum ensinada por Alma, que abriu mão da cadeira de juiz para fazer a obra do Senhor. Após grande sucesso espiritual em várias cidades, Alma viajou para a cidade de Amonia, onde, relatam as escrituras, "Satanás apoderara-se dos corações dos habitantes", e "não quiseram dar ouvidos às palavras de Alma." ([Alma 8:9].) ¶
Alma trabalhou muito no espírito e lutou com Deus em poderosa oração. Contudo, o povo o insultou, cuspiu nele e o expulsou de sua cidade. (Ver [Alma 8:13].) ¶
Enquanto se afastava da cidade, Alma foi ao encontro de um anjo do Senhor, que o instruiu a retornar a Amonia para chamar o povo ao arrependimento. Alma seguiu as instruções do anjo. Ele relata que, dessa vez, jejuou por muitos dias antes de reentrar na cidade. (Ver [Alma 8:26].) ¶
Seu jejum foi quase imediatamente recompensado. Ele descobriu que forças justas haviam estado trabalhando, preparando o caminho diante dele. Ao entrar novamente na cidade, encontrou um homem, aparentemente um estranho, a quem perguntou: "Darás algo de comer a um humilde servo de Deus?" A resposta do estranho foi: "Sei que és um santo profeta de Deus, porque és o homem de quem um anjo, numa visão, disse: Tu o receberás. Portanto, vem comigo para minha casa e repartirei contigo o meu alimento." ([Alma 8:19–20].) ¶
Esse era Amuleque, que fora especialmente preparado para receber um profeta de Deus e que compartilharia de sua obra. Como resultado de seu jejum, Alma foi assegurado pelo Senhor, por meio do testemunho de Amuleque, de que as forças celestiais estavam prosperando seus esforços, e ele foi preenchido com o espírito da obra do Senhor. Alma encerrou seu jejum, e então ele e Amuleque realizaram uma obra maravilhosa, que resultou na retirada dos justos de Amonia. O restante da cidade, ficando sem desculpa, foi encontrado na plena maturidade da iniquidade e foi destruído. ¶
A maior lição já ensinada a respeito do jejum foi ensinada pelo próprio Salvador. Em São Lucas, lemos: ¶
"… sendo por quarenta dias tentado pelo diabo. E naqueles dias não comeu coisa alguma; e, terminados eles, teve fome. ¶
"E disse-lhe o diabo: Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão. ¶
"E Jesus lhe respondeu, dizendo: Escrito está que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra de Deus." ([Lucas 4:2–4].) ¶
Depois disso, o Diabo usou toda a sua astúcia para tentar o Salvador a abandonar sua missão. Sua resposta, registrada novamente em São Lucas: "Vai-te, Satanás; porque está escrito: Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a ele servirás." ([Lucas 4:8].) ¶
"E acabando o diabo toda a tentação, ausentou-se dele por algum tempo. ¶
"Então, pelo poder do Espírito, voltou Jesus para a Galileia." ([Lucas 4:13–14].) ¶
Esses poderosos exemplos de como viver a lei do jejum ensinam algumas lições básicas. Primeiro, é necessário haver um propósito associado ao jejum. O próprio Salvador usou o jejum para obter força interior e poder espiritual durante uma parte crucial de seu ministério. A lei do jejum pode, da mesma forma, nos abençoar em tempos de tentação e estresse, se estivermos dispostos a vivê-la. ¶
Alma jejuou para obter a força e a sabedoria necessárias para realizar uma missão em que acabara de fracassar. Ele sabia que precisava de ajuda divina se quisesse ter sucesso. Depois que Alma jejuou com o propósito de realizar sua missão, o Senhor interveio e grande poder lhe foi dado. Essa mesma bênção está disponível para nós, se apenas a aproveitarmos. ¶
Orar com um propósito é muito importante para se viver essa lei. Não basta simplesmente se abster de duas refeições consecutivas, seja o jejum o jejum mensal regular, seja outro, particular. Há muitos propósitos adequados para o jejum. Alguns são: ¶
- Vencer as tentações de Satanás, como fez o Salvador:
"Porventura não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as cordas do jugo, e que deixes livres os quebrantados, e despedaces todo o jugo?" ([Isaías 58:6].) ¶
- Ajudar os pobres e necessitados.
"Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desterrados, e vendo o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?" ([Isaías 58:7].) ¶
- Alcançar sucesso na vida:
"Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante da tua face, e a glória do Senhor será a tua retaguarda." ([Isaías 58:8].) ¶
- Humilhar-nos e nos preparar para nos comunicar com o Senhor:
Novamente em Isaías lemos: "Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui; se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar vaidade; ¶
"E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita, então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia: ¶
"E o Senhor te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial de águas, cujas águas nunca faltam." ([Isaías 58:9–11].) ¶
Jejuar e orar é uma experiência positiva. É uma forma de adoração especialmente recomendada pelo Senhor. Ao jejuarmos com oração, demonstramos nosso profundo propósito, comprometemo-nos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, e entregamos o resultado ao Senhor. ¶
O compromisso de agir é a chave para exercer qualquer princípio do evangelho. Devemos realmente fazer o que os princípios exigem. Fazer, em conjunto com o jejum e a oração, é em si mesmo uma oração de fé. O princípio de fazer é uma das grandes mensagens das escrituras. Alma pregou com poder depois de jejuar e orar. O Salvador, fortalecido pelo jejum, rejeitou cada proposta de Satanás e o repreendeu. ¶
Quando jejuamos, devemos trabalhar de maneiras apropriadas para fazer tudo o que pudermos a fim de realizar o propósito de nosso jejum. O jejum é mais eficaz quando fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Frequentemente, esse compromisso envolve a disposição de mudar, de deixar de lado sentimentos e atitudes que se interpõem em nosso caminho, de perdoar, de ser forte, de fazer sacrifícios, de dedicar energia à nossa meta justa. ¶
Em conclusão, permitam-me ler uma mensagem dada pelo Presidente Harold B. Lee há trinta e seis anos, nesta mesma conferência: ¶
"Tenho tido dificuldade em compreender como um povo que não é capaz de se sacrificar a ponto de pagar um décimo de seus rendimentos anualmente e se abster de duas refeições no primeiro domingo do mês, dando isso como oferta para o cuidado dos necessitados, tenho dificuldade em compreender como podemos crer que muitos de nosso povo estejam mais de dez por cento prontos para a Ordem Unida. … ¶
"Chegamos, sim, a um dia em que 'o caminho do Senhor', como ele o descreveu, seria aplicado, quando os pobres seriam exaltados, ou em outras palavras, estimulados ao sucesso e ao orgulho próprio, e enaltecidos porque os ricos foram rebaixados, ou em outras palavras, porque os ricos foram feitos humildes e dispostos a dar de seus bens, seu tempo, seu talento, sua sabedoria e seu exemplo, para que os pobres pudessem assim ser guiados e orientados. Tenho visto o trabalho em equipe e a cooperação crescerem, e tenho visto o sacerdócio ocupar seu lugar, abençoando esta Igreja, temporal e espiritualmente, de maneira muito gloriosa. ¶
"Também estou convencido de que vós e eu não estaremos preparados para viver a lei celestial, em preparação para a Segunda Vinda, se não formos capazes de viver a lei do dízimo, pagar nossas ofertas de jejum e subscrever de todo o coração ao funcionamento do Plano de Bem-Estar no momento presente." (Conference Report, outubro de 1941, pp. 112–14.) ¶
Creio que todas as evidências que temos nos dizem que mais de nosso povo está preparado hoje para esse grande evento do que estava preparado trinta e seis anos atrás. E, no entanto, ainda há muitos despreparados. ¶
Que nós, os oficiais do Sacerdócio e da Sociedade de Socorro da Igreja em todo o mundo, mostremos a nosso povo o caminho, para que todos possam estar preparados para viver a lei superior quando o Senhor assim o indicar, oro em nome do Senhor Jesus Cristo. Amém. ¶