Mais Alegria e Regozijo
Marion D. Hanks
O poeta me forneceu um verso que bastará por hoje, embora haja muito mais que eu gostaria de dizer. "Não cessaremos de explorar," escreveu ele, "e o fim de toda a nossa exploração/Será chegarmos aonde começamos/E conhecer o lugar pela primeira vez." ¶
Volto novamente à obra dos Setenta com maior capacidade de apreciar o significado e a santidade de um chamado que o Senhor, na revelação, descreve em termos de "testemunhas especiais." (D&C 107:25.) Não poderia haver comissão mais sagrada. ¶
Em seu grande sermão desta manhã, o Élder Hunter remeteu-nos às citações do Salvador em Sua resposta a Lúcifer, extraídas de escrituras que, em Seus dias, já eram antigas. ¶
"Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás" (Mateus 5:21), disse Ele. "Mas eu vos digo …" (Mateus 5:22), e então Ele ampliou a questão; falou de assuntos que os ouvintes reconheciam aplicarem-se a eles. Provavelmente não haviam sido culpados de matar, mas será que haviam se irado contra um irmão sem motivo? "Foi dito aos antigos: Não cometerás adultério" (Mateus 5:27). Mas será que Seus ouvintes haviam ofendido a Deus ao alimentar esse pecado em seus próprios corações? ¶
"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente: ¶
"Eu vos digo, porém, que não resistais ao homem mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra." (Mateus 5:38–39.) Fora dito antigamente que se deveria amar o próximo e odiar o inimigo, mas Cristo disse que o discípulo deve amar os inimigos, abençoar os que o amaldiçoam, fazer o bem e orar por aqueles que o odeiam ou o maltratam. (Ver Mateus 5:43–44.) ¶
Há ações que são claramente más, e destas o verdadeiro cristão não deve participar. Mas a obrigação é maior do que isso. "Que fazeis de mais?" (Mateus 5:47) era a Sua pergunta. ¶
Pensei nisso certa vez, sentado com uma pessoa exemplar que havia sido injustiçada e que, em sua angústia e ira, acabara também por agir de forma errada. Seus pecados foram sérios, pessoas inocentes haviam sofrido, e o caminho de volta era difícil. Mas isso já havia passado. Em contrição e humilhação, ela seguira o caminho até o pleno perdão, e o recebera. Havia nela uma serenidade de espírito e uma doce irradiação de paz que me fizeram lembrar as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho perdido, e a linguagem nelas usada a respeito da alegria e do regozijo no céu por "um pecador que se arrepende." (Lucas 15:7.) ¶
Eu disse: "Você realmente compreende a alegria e o regozijo no céu, não compreende?" ¶
"Sim," ela disse com um sorriso caloroso. Então, sem acusar nem condenar: "Irmão Hanks, por que não há mais regozijo na ala em que vivo?" ¶
Tenho ponderado essa pergunta em minha mente e em meu coração. ¶
Paulo escreveu a respeito de alguém assim: "Antes, pelo contrário, deveis perdoar-lhe e consolá-lo, para que o tal não seja de modo algum devorado por demasiada tristeza. ¶
"Pelo que rogo-vos que confirmeis para com ele o vosso amor." (2 Coríntios 2:7–8.) ¶
O Senhor espera mais do discípulo do que uma resposta comum à necessidade, à oportunidade, ao mandamento. Ele espera mais humildade, mais atenção, mais arrependimento, mais misericórdia, mais perdão e fé, mais serviço e sacrifício. ¶
Ele ensinou essa lição muitas vezes, de muitas maneiras. O samaritano da parábola compreendeu algo que o sacerdote e o levita pareciam não saber: onde há uma necessidade, eu, pessoalmente, tenho a responsabilidade de ajudar. De pouco adianta perguntar quem é meu próximo; eu sou o próximo do meu próximo que está em necessidade. (Ver Lucas 10:30–37.) ¶
Em outra parábola, o publicano desprezado compreendeu o que o fariseu autojustificado não estava disposto a aprender: que cada um de nós precisa da misericórdia de Deus e a receberá, e será exaltado, se verdadeiramente nos humilharmos diante da santidade de Deus e fizermos a Sua vontade. Aquele cuja obediência ou humildade é mais para a plateia do que para Deus, que busca exaltar a si mesmo e não ao Salvador, não é aceitável diante Dele e será humilhado. (Ver Lucas 18:10–14.) ¶
Fui tocado pelo significado pessoal de tudo isso outra noite, quando nos sentamos com um grupo de deficientes mentais e suas famílias e amigos. Ponderei quanta força, tempo e fé do Senhor foram dedicados a ajudar os deficientes! Os enfermos, os cegos, os coxos, os leprosos, os perdidos, os perturbados emocional, mental ou espiritualmente — a esses Ele abençoou. Não é de admirar que Joseph Smith tenha dito: "Todas as mentes e espíritos que Deus já enviou ao mundo são suscetíveis de expansão." (Teachings of the Prophet Joseph Smith, p. 354.) ¶
Veio a mim com força a certeza de que Deus espera que Seus filhos deficientes recebam a oportunidade dessa expansão, e que Seus discípulos aceitarão a grande responsabilidade de zelar para que a recebam. "Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo." (Gálatas 6:2.) ¶
"Que fazeis de mais?" ¶
Em toda a extensão das escrituras, a expectativa mais elevada é expressa pelo Senhor e por Seus apóstolos: Crede, arrependei-vos, obedecei às ordenanças, andai na luz do Espírito, perseverai na fé — sim! Mas também: manifestai vosso discipulado em civilidade, em gentileza e terna compaixão, em bondade e consideração, em paciência e tolerância e recusa em condenar, em perdão e misericórdia. ¶
No livro de Romanos lemos que os discípulos são exortados a "amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal". "Chorai com os que choram." "Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens." "Andemos honestamente." "Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem." (Ver Romanos 12; 13.) ¶
"A ninguém devais coisa alguma, senão o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei. ¶
"Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não darás falso testemunho; não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo." (Romanos 13:8–9.) ¶
Há muitos discípulos verdadeiros que "fazem mais" do que alguns de nós. Penso numa senhora exemplar, nascida com um corpo severamente deficiente e um espírito maravilhosamente generoso e gracioso, que, ao receber uma honraria por suas contribuições especiais a outras pessoas com deficiência, falou de um episódio de sua infância. Colegas de brincadeira a haviam chamado por apelidos que faziam alusão à sua condição física e lhe causaram dor e lágrimas. Quando chegou em casa, o pai a segurou no colo, em seus braços grandes e fortes, e chorou com ela ao explicar que já esperava aquele dia, que seria um dia crucial para ela, e que poderia ser uma oportunidade se ela aprendesse a lição que poderia tornar sua vida frutífera e feliz. "Querida," disse ele, "o que as crianças disseram sobre você é verdade, mas não foi justo nem gentil. Você realmente tem uma corcunda nas costas e outros problemas sérios. Mas isso não é culpa sua. Não é culpa de seus pais, nem do Pai Celestial. É uma daquelas coisas que acontecem neste mundo ainda imperfeito. O que os meninos e as meninas disseram é verdade, mas não foi justo nem gentil. Se, por toda a sua vida, você se esforçar para ser mais justa e mais gentil com os outros do que alguns deles às vezes forem com você, então você será feliz, e sua vida será plena e útil." ¶
"Isso," ela disse, "é o que tenho procurado fazer — apenas ser mais justa e gentil com os outros do que alguns deles às vezes foram comigo." ¶
Pierre Teilhard de Chardin escreveu: "Chegará o dia em que, depois de dominarmos o éter, os ventos, as marés e a gravitação, dominaremos para Deus as energias do amor, e nesse dia, pela segunda vez na história do mundo, o homem terá descoberto o fogo." (Em Toward the Future.) ¶
Em Watchers of the Skies, de Alfred Noyes, há uma conversa entre um amigo do sábio astrônomo Tycho Brahe e um rei que acaba de saber que a terra se move, que é uma "bola lançada ao céu", e que, apreensivo, pergunta: "Se a terra se move tão levemente, que será do meu reino? Ó, que coisa há agora que permaneça segura?" "Nada," foi a resposta, "neste mundo, senão o amor. Tudo o mais é matéria de sonho e não há de perdurar." (Alfred Noyes, The Torch-Bearers — Watchers of the Sky, Nova York: Frederick A. Stokes Company, 1922, p. 75.) ¶
Toda a lei está compreendida nisto: que amemos a Deus e uns aos outros. ¶
Na conclusão de Júlio César, de Shakespeare, há uma frase digna de meditação. Bruto, com a vida próxima do fim, contempla o corpo de Cássio e diz: "Amigos, devo mais lágrimas a este morto do que me vereis derramar." Depois: "Encontrarei tempo, Cássio, encontrarei tempo." (Ato 5, Cena 3.) ¶
Todos nós, tenho certeza, encontraremos tempo para derramar nossas lágrimas. Pode ser em tristeza e lamento por não termos correspondido mais de perto ao padrão da expectativa do Senhor em nossa preocupação e compaixão uns pelos outros — por, ao aprendermos e falarmos tanto a respeito Dele, nunca termos sido verdadeiramente impregnados pelo calor de Seu coração amoroso, nunca termos realmente sido Seus discípulos naquilo que tanto significava para Ele. ¶
Nossas lágrimas serão lágrimas de alegria e regozijo se, de alguma forma, em meio a toda a exortação e admoestação, toda a busca e a procura e o ir e vir apressado, tivermos começado a compreender o que Ele quis dizer quando nos perguntou: "Que fazeis de mais?" — e, por isso, tivermos elevado nossas vidas a uma maior preocupação uns pelos outros, a mais perdão, consolo e confirmação de nosso amor para com a alma que sofre, a mais honestidade e diligência, a mais justiça e bondade, e a mais alegria e regozijo na ala em que vivemos quando um filho ou filha amado volta para casa novamente. ¶
Que Deus conceda que assim seja. Em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶