Pulpit

Nossa Herança Inestimável

Ezra Taft Benson

Conferência Geral de Outubro de 1976·Friday Afternoon Session·1976-10-01

Humilde e gratamente permaneço diante de vós nesta tarde. Como presidente do Conselho dos Doze Apóstolos, quero que todos saibam que nós, como Quórum dos Doze, estamos satisfeitos e em pleno acordo com a ação tomada esta manhã ao ampliar o Primeiro Quórum dos Setenta e reorganizar o Primeiro Conselho dos Setenta.

Ao nos aproximarmos do fim da celebração do Bicentenário de nossa nação, é apropriado que consideremos nossa herança, nossa cidadania nesta grande nação e nossa condição de membros da igreja restaurada de Cristo.

Presto fervorosa homenagem aos antepassados que tornaram isso possível — os Pais Fundadores desta república e nossos pioneiros mórmons. Presto homenagem a seus atos de fidelidade, suas vidas nobres e suas duradouras lições de fé em Deus, coragem, diligência, autossuficiência e integridade.

Hoje estamos diante deles como beneficiários de sua herança inestimável, uma herança baseada na verdade de que a retidão produz as bênçãos de Deus.

Permitam-me, primeiramente, prestar honra aos fundadores de nossa amada república.

A Declaração de Independência, à qual esses grandes homens apuseram suas assinaturas, é muito mais que um documento político. Constitui um manifesto espiritual — revelação, se assim quiserem chamá-la — declarando, não apenas para esta nação, mas para todas as nações, a fonte dos direitos do homem. Néfi, profeta do Livro de Mórmon, previu, há mais de 2.300 anos, que esse acontecimento se daria. As colônias que ele viu romperiam com a Grã-Bretanha e "o poder do Senhor estava com [os colonos]", que foram "libertados das mãos de todas as outras nações, pelo poder de Deus". (1 Néfi 13:16, 19.)

A Declaração de Independência devia expor a justificativa moral de uma rebelião contra uma tradição política havia muito reconhecida — o direito divino dos reis. Estava em jogo a questão fundamental de saber se os direitos dos homens provinham de Deus ou se deviam ser outorgados pelos governos a seus súditos. Esse documento proclamava que todos os homens têm certos direitos inalienáveis. Em outras palavras, esses direitos vinham de Deus. Portanto, os colonos não eram rebeldes contra a autoridade política, mas um povo livre que apenas exercia seus direitos diante de um poder ofensivo e usurpador. Estavam, assim, moralmente justificados a fazer o que fizeram.

Por fim, o documento conclui com este juramento: "Para apoio desta Declaração, com firme confiança na proteção da divina Providência, empenhamos mutuamente uns aos outros nossas Vidas, nossas Fortunas e nossa sagrada Honra." (Itálico acrescentado.)

Quão profético haveria de ser esse juramento!

Cinquenta e seis homens assinaram o documento em 2 de agosto de 1776, ou, no caso de alguns, pouco depois. Empenharam suas vidas! — e pelo menos nove deles morreram em consequência da guerra. Se a Revolução tivesse fracassado, se sua luta tivesse sido em vão, teriam sido enforcados como traidores. Empenharam suas fortunas! — e pelo menos quinze cumpriram esse compromisso, apoiando o esforço de guerra. Empenharam sua honra sagrada! — o que ficou mais bem expresso na nobre declaração de John Adams. Disse ele: "Tudo o que tenho, e tudo o que sou, e tudo o que espero, nesta vida, estou agora pronto a arriscar; e termino como comecei: que eu viva ou morra, sobreviva ou pereça, estou a favor da Declaração. Este é meu sentimento vivo e, pela bênção de Deus, será meu sentimento moribundo: Independência, agora, e INDEPENDÊNCIA PARA SEMPRE." (Works of Daniel Webster, Boston: Little, Brown & Co., 1877, 17ª ed., 1:135.)

Quão apropriado é que cantemos:

Ó bela por teus heróis provados

Na luta libertadora,

Que mais que a si amaram sua pátria,

E a misericórdia mais que a vida!

"America the Beautiful", Hinos, nº 126

Sabemos que os signatários da sagrada Declaração de Independência e os Pais Fundadores, com George Washington à frente, apareceram em lugares sagrados. O Apóstolo Wilford Woodruff era presidente do Templo de St. George na ocasião dessa aparição e testificou que os fundadores de nossa república lhe declararam o seguinte: "Lançamos o fundamento do governo que agora desfrutais, e dele jamais apostatamos, mas permanecemos fiéis a ele e fiéis a Deus." (Journal of Discourses, 19:229.)

Mais tarde, depois de se tornar Presidente da Igreja, o Presidente Woodruff declarou que "aqueles homens que lançaram o fundamento deste governo americano e assinaram a Declaração de Independência eram os melhores espíritos que o Deus dos céus pôde encontrar na face da terra. Eram espíritos escolhidos, não homens perversos. O General Washington e todos os homens que trabalharam com essa finalidade foram inspirados pelo Senhor." (Conference Report, abril de 1898, p. 89.)

Sim, agradeço a Deus pelos sacrifícios e esforços feitos por esses Pais Fundadores, cujos esforços nos trouxeram as bênçãos da liberdade política e da prosperidade econômica que hoje desfrutamos. Suas vidas devem lembrar-nos de que somos os abençoados beneficiários de uma liberdade conquistada por grandes sacrifícios de bens, reputação e vida.

Outros grandes e firmes homens que também empenharam suas vidas, bens e sua honra sagrada foram os pioneiros mórmons. Fizeram-no por convênio diante de Deus, ao se tornarem membros de Seu reino, "para servir de testemunhas de Deus em todos os momentos e em todas as coisas e em todos os lugares em que vos encontreis, … mesmo até a morte". (Mosias 18:9.)

Nossos antepassados mórmons empenharam suas vidas! — e não foram poucos os que as deram. Os seguintes lugares santificam a memória dos mártires dos últimos dias: Condado de Jackson; Crooked River (onde um dos Doze foi martirizado); Haun's Mill; Carthage; Nauvoo; e as sepulturas sem identificação ao longo da trilha mórmon. Deram suas fortunas! — e muitos, senão a maioria, perderam suas terras, seus lares e seus negócios. Deram sua honra sagrada! — isso por convênio com Deus.

Vieram para o oeste com a fé de que Deus "tornaria a estender pela segunda vez a mão" (2 Néfi 21:11) para restaurar a casa de Israel. Sabiam que faziam parte desse grande movimento. Estavam convertidos à verdade de que A Igreja de Jesus Cristo fora novamente restaurada na terra por meio de um Profeta dos últimos dias, Joseph Smith, e que, após seu martírio, as chaves do sacerdócio haviam continuado por meio do sucessor ordenado de Joseph, Brigham Young. Criam-se dirigidos por Deus e conduzidos por um profeta. Essa convicção inspirou seus sacrifícios.

Vieram — com fé e coragem indomáveis, após incrível sofrimento e adversidade. Vieram — com resistência, com confiança inspirada em dias melhores.

Sim, vieram — primeiro a caravana principal, com 143 homens, 3 mulheres e 2 crianças, em 24 de julho de 1847. A esse fluxo inicial de imigrantes seguiram-se centenas, depois milhares, todos em busca de um lar seguro. Sim, vieram e talharam um Éden no deserto. Sua terra prometida tornou-se nossos prósperos vales.

Hoje vivemos numa terra escolhida, sim, uma terra escolhida acima de todas as outras terras. Vivemos em meio a uma prosperidade sem limites — isso graças à herança que nossos antepassados nos legaram, uma herança de autossuficiência, iniciativa, diligência pessoal e fé em Deus, tudo num ambiente de liberdade.

Se esses Pais Fundadores e antepassados pioneiros nos aconselhassem hoje segundo suas crenças fundamentais — tão manifestas em seus atos —, o que nos diriam?

Primeiro: Aconselhar-nos-iam a ter fé em Deus. Foi por essa fé que ambos os grupos foram sustentados em suas privações, sacrifícios e sofrimentos. Depositaram sua confiança em Deus. Ele era sua defesa, seu refúgio e sua salvação. Sua fé talvez esteja mais bem expressa pelo fundador de nosso país, George Washington:

"O sucesso que até agora tem acompanhado nossos esforços unidos devemo-lo à graciosa intervenção do Céu. E a essa intervenção atribuamos, com gratidão, o louvor da vitória e as bênçãos da paz." ("To the Executive of New Hampshire", 3 de novembro de 1789, Writings, 30:453.)

Sim, foi essa fé em Deus que os sustentou em suas horas de extrema necessidade. Nós também precisaremos dessa mesma fé nos dias críticos que estão por vir.

Segundo: Aconselhar-nos-iam a fortalecer nossos lares e laços familiares. Embora não possuíssem os confortos físicos que temos, deixaram à sua posteridade o legado de algo mais duradouro — um lar onde os pais estavam próximos de seus filhos, onde as devoções diárias, a oração familiar, a leitura das escrituras e o cantar de hinos eram coisas comuns. As famílias trabalhavam, adoravam, brincavam e oravam juntas. A noite familiar, hoje uma prática semanal entre os santos, era, para nossos antepassados pioneiros, quase um acontecimento noturno diário.

Não podemos ver, em seus exemplos, as soluções para os problemas que ameaçam as famílias hoje? Se moldássemos nossos lares dessa forma, o divórcio seria, em grande parte, eliminado, as crianças seriam bem recebidas e orientadas, e o amor entre pais e filhos abundaria. Não haveria conflito de gerações. A unidade e a solidariedade familiares, coroadas de amor e felicidade, prevaleceriam.

Terceiro: Aconselhar-nos-iam quanto à dignidade do trabalho, a praticar a economia e a sermos autossuficientes. A filosofia deles era a de que nem o mundo nem o governo devem a um homem seu pão. O homem é ordenado por Deus a viver do suor de seu próprio rosto, não do de outrem. No Primeiro Discurso Inaugural de Thomas Jefferson, ele nos aconselhou a favor de um governo sábio e frugal, um que "não tire da boca do trabalhador o pão que este ganhou." (Inaugural Addresses of the Presidents of the United States, U.S. Government Printing Office, 1961, p. 15.)

Os Pais Fundadores estariam em pleno acordo com este conselho de Brigham Young, repetido hoje pelo Presidente Spencer W. Kimball:

"Embelezai vossos jardins, vossas casas, vossas granjas; embelezai a cidade. Isso nos fará felizes e produzirá fartura." (Discourses of Brigham Young, comp. John A. Widtsoe, Deseret Book Co., ed. 1954, p. 302.)

"Ser preguiçoso, esbanjador, indolente e ocioso … é iníquo." (Discourses, p. 303.)

"Aprendei a sustentar-vos; armazenai grãos e farinha, e guardai-os para um dia de escassez." (Discourses, p. 293.)

"Se não puderdes obter hoje tudo o que desejais, aprendei a passar sem isso." (Discourses, p. 293.)

"Sede pontuais em tudo, e especialmente no pagamento de vossas dívidas." (Discourses, p. 303.)

E, por fim: Esses nobres Fundadores e pioneiros — nossos benfeitores — aconselhar-nos-iam a preservar as liberdades que Deus nos concedeu. Sabiam que o fundamento desta nação era espiritual, que a fonte de todas as nossas bênçãos era Deus. Sabiam que esta nação só pode prosperar num ambiente de liberdade.

Aqueles intrépidos antepassados sabiam que sua retidão era o ingrediente indispensável da liberdade, que esse era o maior legado que poderiam transmitir às gerações futuras. Aconselhar-nos-iam a preservar essa liberdade por meio de uma retidão vigilante. A retidão é sempre medida pelo fato de uma nação ou um indivíduo guardar os mandamentos de Deus.

No escritório externo do Conselho dos Doze há um quadro pintado pelo artista de Utah Arnold Friberg, retratando George Washington, o Pai de Nossa Pátria, ajoelhado em Valley Forge. Esse quadro simboliza a fé de nossos antepassados. Gostaria que estivesse em cada lar americano.

Na década de 1940, quando servia como diretor executivo do National Council of Farmer Cooperatives em Washington, D.C., vi num Hotel Hilton um cartaz retratando o Tio Sam, representando a América, ajoelhado em humildade e oração. Sob o cartaz havia a inscrição: "Não posto de joelhos ali pelo martelo e a foice, mas livre, responsável e confiantemente. … Não precisamos temer nada nem ninguém, senão a Deus."

Essa imagem permaneceu em minha memória desde então: a América de joelhos, em reconhecimento de que todas as nossas bênçãos vêm de Deus! A América de joelhos, por desejo de servir ao Deus desta terra, guardando Seus mandamentos! A América de joelhos, não levada a isso pela capitulação a algum governo despótico, mas de joelhos livre, voluntária e gratamente! Este é o remédio soberano para todos os nossos problemas e para a preservação de nossas liberdades.

Sim, esses valorosos patriotas e pioneiros nos deixaram uma grande herança. Estamos preparados para fazer o que fizeram? Empenharemos nossas vidas, nossos bens, nossa honra sagrada pelas gerações futuras e pela edificação do reino de Deus na terra?

Ouçamos o desafio feito a nós — seus descendentes e beneficiários — na dedicação do Monumento This Is the Place, na foz de Emigration Canyon, em 24 de julho de 1947, pelo Presidente J. Reuben Clark Jr.:

"Poderemos guardar e preservar o que eles realizaram? Transmitiremos a nossos filhos a herança que nos deixaram, ou a dissiparemos levianamente? Temos nós sua fé, sua bravura, sua coragem; poderíamos suportar suas dificuldades e sofrimentos, fazer seus sacrifícios, arcar com suas provações, suas tristezas, suas tragédias, crer nas coisas simples que sabiam ser verdadeiras, ter a fé simples que operou milagres para eles, seguir, sem vacilar nem cair pelo caminho, onde nossos líderes avançam, enfrentar a calúnia e o escárnio de uma crença impopular? Poderemos fazer os milhares de pequenas e grandes coisas que os tornaram os heroicos edificadores de uma grande Igreja, de uma grande comunidade?"

Não deve haver dúvida quanto à nossa tarefa hoje. Se realmente prezamos a herança que recebemos, devemos manter as mesmas virtudes e o mesmo caráter de nossos firmes antepassados — fé em Deus, coragem, diligência, economia, autossuficiência e integridade. Temos a obrigação de preservar o que aqueles que empenharam suas vidas, suas fortunas e sua honra sagrada deram às gerações futuras. Nossa oportunidade e obrigação de fazê-lo estão claramente diante de nós.

Como um de vós, encarregado da responsabilidade de proteger e perpetuar essa nobre herança, permaneço hoje de cabeça inclinada e coração transbordante de gratidão. Que possamos começar a pagar essa dívida preservando e fortalecendo essa herança em nossa própria vida, na vida de nossos filhos, dos filhos deles e das gerações ainda por nascer. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

Como citar este discursoEzra Taft Benson, “Nossa Herança Inestimável”, Conferência Geral de Outubro de 1976, Friday Afternoon Session (1976-10-01). Pulpit Vault, 1976-10-benson-our-priceless-heritage. Tradução desta edição, por método de glossário, churchofjesuschrist.org.Pulpit Vault, edição de 23 de setembro de 2026 (commit 4bdc6ac627).