Nossa Herança Inestimável
Ezra Taft Benson
Humilde e gratamente permaneço diante de vós nesta tarde. Como presidente do Conselho dos Doze Apóstolos, quero que todos saibam que nós, como Quórum dos Doze, estamos satisfeitos e em pleno acordo com a ação tomada esta manhã ao ampliar o Primeiro Quórum dos Setenta e reorganizar o Primeiro Conselho dos Setenta. ¶
Ao nos aproximarmos do fim da celebração do Bicentenário de nossa nação, é apropriado que consideremos nossa herança, nossa cidadania nesta grande nação e nossa condição de membros da igreja restaurada de Cristo. ¶
Presto fervorosa homenagem aos antepassados que tornaram isso possível — os Pais Fundadores desta república e nossos pioneiros mórmons. Presto homenagem a seus atos de fidelidade, suas vidas nobres e suas duradouras lições de fé em Deus, coragem, diligência, autossuficiência e integridade. ¶
Hoje estamos diante deles como beneficiários de sua herança inestimável, uma herança baseada na verdade de que a retidão produz as bênçãos de Deus. ¶
Permitam-me, primeiramente, prestar honra aos fundadores de nossa amada república. ¶
A Declaração de Independência, à qual esses grandes homens apuseram suas assinaturas, é muito mais que um documento político. Constitui um manifesto espiritual — revelação, se assim quiserem chamá-la — declarando, não apenas para esta nação, mas para todas as nações, a fonte dos direitos do homem. Néfi, profeta do Livro de Mórmon, previu, há mais de 2.300 anos, que esse acontecimento se daria. As colônias que ele viu romperiam com a Grã-Bretanha e "o poder do Senhor estava com [os colonos]", que foram "libertados das mãos de todas as outras nações, pelo poder de Deus". (1 Néfi 13:16, 19.) ¶
A Declaração de Independência devia expor a justificativa moral de uma rebelião contra uma tradição política havia muito reconhecida — o direito divino dos reis. Estava em jogo a questão fundamental de saber se os direitos dos homens provinham de Deus ou se deviam ser outorgados pelos governos a seus súditos. Esse documento proclamava que todos os homens têm certos direitos inalienáveis. Em outras palavras, esses direitos vinham de Deus. Portanto, os colonos não eram rebeldes contra a autoridade política, mas um povo livre que apenas exercia seus direitos diante de um poder ofensivo e usurpador. Estavam, assim, moralmente justificados a fazer o que fizeram. ¶
Por fim, o documento conclui com este juramento: "Para apoio desta Declaração, com firme confiança na proteção da divina Providência, empenhamos mutuamente uns aos outros nossas Vidas, nossas Fortunas e nossa sagrada Honra." (Itálico acrescentado.) ¶
Quão profético haveria de ser esse juramento! ¶
Cinquenta e seis homens assinaram o documento em 2 de agosto de 1776, ou, no caso de alguns, pouco depois. Empenharam suas vidas! — e pelo menos nove deles morreram em consequência da guerra. Se a Revolução tivesse fracassado, se sua luta tivesse sido em vão, teriam sido enforcados como traidores. Empenharam suas fortunas! — e pelo menos quinze cumpriram esse compromisso, apoiando o esforço de guerra. Empenharam sua honra sagrada! — o que ficou mais bem expresso na nobre declaração de John Adams. Disse ele: "Tudo o que tenho, e tudo o que sou, e tudo o que espero, nesta vida, estou agora pronto a arriscar; e termino como comecei: que eu viva ou morra, sobreviva ou pereça, estou a favor da Declaração. Este é meu sentimento vivo e, pela bênção de Deus, será meu sentimento moribundo: Independência, agora, e INDEPENDÊNCIA PARA SEMPRE." (Works of Daniel Webster, Boston: Little, Brown & Co., 1877, 17ª ed., 1:135.) ¶
Quão apropriado é que cantemos: ¶
Ó bela por teus heróis provados ¶
Na luta libertadora, ¶
Que mais que a si amaram sua pátria, ¶
E a misericórdia mais que a vida! ¶
"America the Beautiful", Hinos, nº 126 ¶
Sabemos que os signatários da sagrada Declaração de Independência e os Pais Fundadores, com George Washington à frente, apareceram em lugares sagrados. O Apóstolo Wilford Woodruff era presidente do Templo de St. George na ocasião dessa aparição e testificou que os fundadores de nossa república lhe declararam o seguinte: "Lançamos o fundamento do governo que agora desfrutais, e dele jamais apostatamos, mas permanecemos fiéis a ele e fiéis a Deus." (Journal of Discourses, 19:229.) ¶
Mais tarde, depois de se tornar Presidente da Igreja, o Presidente Woodruff declarou que "aqueles homens que lançaram o fundamento deste governo americano e assinaram a Declaração de Independência eram os melhores espíritos que o Deus dos céus pôde encontrar na face da terra. Eram espíritos escolhidos, não homens perversos. O General Washington e todos os homens que trabalharam com essa finalidade foram inspirados pelo Senhor." (Conference Report, abril de 1898, p. 89.) ¶
Sim, agradeço a Deus pelos sacrifícios e esforços feitos por esses Pais Fundadores, cujos esforços nos trouxeram as bênçãos da liberdade política e da prosperidade econômica que hoje desfrutamos. Suas vidas devem lembrar-nos de que somos os abençoados beneficiários de uma liberdade conquistada por grandes sacrifícios de bens, reputação e vida. ¶
Outros grandes e firmes homens que também empenharam suas vidas, bens e sua honra sagrada foram os pioneiros mórmons. Fizeram-no por convênio diante de Deus, ao se tornarem membros de Seu reino, "para servir de testemunhas de Deus em todos os momentos e em todas as coisas e em todos os lugares em que vos encontreis, … mesmo até a morte". (Mosias 18:9.) ¶
Nossos antepassados mórmons empenharam suas vidas! — e não foram poucos os que as deram. Os seguintes lugares santificam a memória dos mártires dos últimos dias: Condado de Jackson; Crooked River (onde um dos Doze foi martirizado); Haun's Mill; Carthage; Nauvoo; e as sepulturas sem identificação ao longo da trilha mórmon. Deram suas fortunas! — e muitos, senão a maioria, perderam suas terras, seus lares e seus negócios. Deram sua honra sagrada! — isso por convênio com Deus. ¶
Vieram para o oeste com a fé de que Deus "tornaria a estender pela segunda vez a mão" (2 Néfi 21:11) para restaurar a casa de Israel. Sabiam que faziam parte desse grande movimento. Estavam convertidos à verdade de que A Igreja de Jesus Cristo fora novamente restaurada na terra por meio de um Profeta dos últimos dias, Joseph Smith, e que, após seu martírio, as chaves do sacerdócio haviam continuado por meio do sucessor ordenado de Joseph, Brigham Young. Criam-se dirigidos por Deus e conduzidos por um profeta. Essa convicção inspirou seus sacrifícios. ¶
Vieram — com fé e coragem indomáveis, após incrível sofrimento e adversidade. Vieram — com resistência, com confiança inspirada em dias melhores. ¶
Sim, vieram — primeiro a caravana principal, com 143 homens, 3 mulheres e 2 crianças, em 24 de julho de 1847. A esse fluxo inicial de imigrantes seguiram-se centenas, depois milhares, todos em busca de um lar seguro. Sim, vieram e talharam um Éden no deserto. Sua terra prometida tornou-se nossos prósperos vales. ¶
Hoje vivemos numa terra escolhida, sim, uma terra escolhida acima de todas as outras terras. Vivemos em meio a uma prosperidade sem limites — isso graças à herança que nossos antepassados nos legaram, uma herança de autossuficiência, iniciativa, diligência pessoal e fé em Deus, tudo num ambiente de liberdade. ¶
Se esses Pais Fundadores e antepassados pioneiros nos aconselhassem hoje segundo suas crenças fundamentais — tão manifestas em seus atos —, o que nos diriam? ¶
Primeiro: Aconselhar-nos-iam a ter fé em Deus. Foi por essa fé que ambos os grupos foram sustentados em suas privações, sacrifícios e sofrimentos. Depositaram sua confiança em Deus. Ele era sua defesa, seu refúgio e sua salvação. Sua fé talvez esteja mais bem expressa pelo fundador de nosso país, George Washington: ¶
"O sucesso que até agora tem acompanhado nossos esforços unidos devemo-lo à graciosa intervenção do Céu. E a essa intervenção atribuamos, com gratidão, o louvor da vitória e as bênçãos da paz." ("To the Executive of New Hampshire", 3 de novembro de 1789, Writings, 30:453.) ¶
Sim, foi essa fé em Deus que os sustentou em suas horas de extrema necessidade. Nós também precisaremos dessa mesma fé nos dias críticos que estão por vir. ¶
Segundo: Aconselhar-nos-iam a fortalecer nossos lares e laços familiares. Embora não possuíssem os confortos físicos que temos, deixaram à sua posteridade o legado de algo mais duradouro — um lar onde os pais estavam próximos de seus filhos, onde as devoções diárias, a oração familiar, a leitura das escrituras e o cantar de hinos eram coisas comuns. As famílias trabalhavam, adoravam, brincavam e oravam juntas. A noite familiar, hoje uma prática semanal entre os santos, era, para nossos antepassados pioneiros, quase um acontecimento noturno diário. ¶
Não podemos ver, em seus exemplos, as soluções para os problemas que ameaçam as famílias hoje? Se moldássemos nossos lares dessa forma, o divórcio seria, em grande parte, eliminado, as crianças seriam bem recebidas e orientadas, e o amor entre pais e filhos abundaria. Não haveria conflito de gerações. A unidade e a solidariedade familiares, coroadas de amor e felicidade, prevaleceriam. ¶
Terceiro: Aconselhar-nos-iam quanto à dignidade do trabalho, a praticar a economia e a sermos autossuficientes. A filosofia deles era a de que nem o mundo nem o governo devem a um homem seu pão. O homem é ordenado por Deus a viver do suor de seu próprio rosto, não do de outrem. No Primeiro Discurso Inaugural de Thomas Jefferson, ele nos aconselhou a favor de um governo sábio e frugal, um que "não tire da boca do trabalhador o pão que este ganhou." (Inaugural Addresses of the Presidents of the United States, U.S. Government Printing Office, 1961, p. 15.) ¶
Os Pais Fundadores estariam em pleno acordo com este conselho de Brigham Young, repetido hoje pelo Presidente Spencer W. Kimball: ¶
"Embelezai vossos jardins, vossas casas, vossas granjas; embelezai a cidade. Isso nos fará felizes e produzirá fartura." (Discourses of Brigham Young, comp. John A. Widtsoe, Deseret Book Co., ed. 1954, p. 302.) ¶
"Ser preguiçoso, esbanjador, indolente e ocioso … é iníquo." (Discourses, p. 303.) ¶
"Aprendei a sustentar-vos; armazenai grãos e farinha, e guardai-os para um dia de escassez." (Discourses, p. 293.) ¶
"Se não puderdes obter hoje tudo o que desejais, aprendei a passar sem isso." (Discourses, p. 293.) ¶
"Sede pontuais em tudo, e especialmente no pagamento de vossas dívidas." (Discourses, p. 303.) ¶
E, por fim: Esses nobres Fundadores e pioneiros — nossos benfeitores — aconselhar-nos-iam a preservar as liberdades que Deus nos concedeu. Sabiam que o fundamento desta nação era espiritual, que a fonte de todas as nossas bênçãos era Deus. Sabiam que esta nação só pode prosperar num ambiente de liberdade. ¶
Aqueles intrépidos antepassados sabiam que sua retidão era o ingrediente indispensável da liberdade, que esse era o maior legado que poderiam transmitir às gerações futuras. Aconselhar-nos-iam a preservar essa liberdade por meio de uma retidão vigilante. A retidão é sempre medida pelo fato de uma nação ou um indivíduo guardar os mandamentos de Deus. ¶
No escritório externo do Conselho dos Doze há um quadro pintado pelo artista de Utah Arnold Friberg, retratando George Washington, o Pai de Nossa Pátria, ajoelhado em Valley Forge. Esse quadro simboliza a fé de nossos antepassados. Gostaria que estivesse em cada lar americano. ¶
Na década de 1940, quando servia como diretor executivo do National Council of Farmer Cooperatives em Washington, D.C., vi num Hotel Hilton um cartaz retratando o Tio Sam, representando a América, ajoelhado em humildade e oração. Sob o cartaz havia a inscrição: "Não posto de joelhos ali pelo martelo e a foice, mas livre, responsável e confiantemente. … Não precisamos temer nada nem ninguém, senão a Deus." ¶
Essa imagem permaneceu em minha memória desde então: a América de joelhos, em reconhecimento de que todas as nossas bênçãos vêm de Deus! A América de joelhos, por desejo de servir ao Deus desta terra, guardando Seus mandamentos! A América de joelhos, não levada a isso pela capitulação a algum governo despótico, mas de joelhos livre, voluntária e gratamente! Este é o remédio soberano para todos os nossos problemas e para a preservação de nossas liberdades. ¶
Sim, esses valorosos patriotas e pioneiros nos deixaram uma grande herança. Estamos preparados para fazer o que fizeram? Empenharemos nossas vidas, nossos bens, nossa honra sagrada pelas gerações futuras e pela edificação do reino de Deus na terra? ¶
Ouçamos o desafio feito a nós — seus descendentes e beneficiários — na dedicação do Monumento This Is the Place, na foz de Emigration Canyon, em 24 de julho de 1947, pelo Presidente J. Reuben Clark Jr.: ¶
"Poderemos guardar e preservar o que eles realizaram? Transmitiremos a nossos filhos a herança que nos deixaram, ou a dissiparemos levianamente? Temos nós sua fé, sua bravura, sua coragem; poderíamos suportar suas dificuldades e sofrimentos, fazer seus sacrifícios, arcar com suas provações, suas tristezas, suas tragédias, crer nas coisas simples que sabiam ser verdadeiras, ter a fé simples que operou milagres para eles, seguir, sem vacilar nem cair pelo caminho, onde nossos líderes avançam, enfrentar a calúnia e o escárnio de uma crença impopular? Poderemos fazer os milhares de pequenas e grandes coisas que os tornaram os heroicos edificadores de uma grande Igreja, de uma grande comunidade?" ¶
Não deve haver dúvida quanto à nossa tarefa hoje. Se realmente prezamos a herança que recebemos, devemos manter as mesmas virtudes e o mesmo caráter de nossos firmes antepassados — fé em Deus, coragem, diligência, economia, autossuficiência e integridade. Temos a obrigação de preservar o que aqueles que empenharam suas vidas, suas fortunas e sua honra sagrada deram às gerações futuras. Nossa oportunidade e obrigação de fazê-lo estão claramente diante de nós. ¶
Como um de vós, encarregado da responsabilidade de proteger e perpetuar essa nobre herança, permaneço hoje de cabeça inclinada e coração transbordante de gratidão. Que possamos começar a pagar essa dívida preservando e fortalecendo essa herança em nossa própria vida, na vida de nossos filhos, dos filhos deles e das gerações ainda por nascer. Em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶