Uma ou Duas Vezes a Cada Mil Anos
Bruce R. McConkie
Uma ou duas vezes a cada mil anos — talvez uma dúzia de vezes desde que o homem mortal se tornou, do pó, uma alma vivente — ocorre um acontecimento de tão transcendente importância que nem o céu nem a terra jamais voltam a ser os mesmos. ¶
Uma ou duas vezes a cada vinte gerações, a mão vinda do céu aperta a mão na terra em perfeita comunhão, o drama divino se desenrola, e todo o curso dos acontecimentos mortais se transforma. ¶
De tempos em tempos, num jardim tranquilo, ou em meio aos fogos e trovões do Sinai, ou dentro de um sepulcro que não pode permanecer selado, ou num cenáculo — quase sempre longe do olhar dos homens e raramente conhecido por mais do que um punhado de pessoas — o Senhor intervém nos assuntos dos homens e manifesta Sua vontade quanto à salvação deles. ¶
Um desses acontecimentos ocorreu há seis milênios, num jardim plantado ao oriente, no Éden, quando o homem Adão e a mulher Eva caíram para que os homens pudessem existir. Outro desses acontecimentos alterou o curso da história quando um profeta idoso creu em Deus e construiu uma arca na qual ele e mais sete pessoas, dentre todos os habitantes da terra, foram salvos de uma sepultura nas águas. ¶
O mais transcendente de todos esses acontecimentos ocorreu num jardim chamado Getsêmani, fora dos muros de Jerusalém, quando o Cidadão Supremo do planeta Terra suou grandes gotas de sangue por todos os poros ao tomar sobre si, em agonia, os pecados de todos os homens, sob a condição do arrependimento. Ainda outro desses acontecimentos, destinado a afetar a vida e o ser de cada alma vivente, aconteceu no túmulo do arimateense, quando o espírito sem pecado do único homem perfeito retornou do paraíso de Deus para habitar novamente — desta vez em gloriosa imortalidade — o corpo trespassado e morto que outrora fora seu. ¶
Mas o acontecimento do qual desejamos falar mais particularmente, e que se equipara em importância às maiores verdades da religião revelada, é aquele que ocorreu num bosque de árvores perto de Palmyra, Nova York, num dia belo e claro do início da primavera de 1820. Teria sido em seis de abril? Talvez — pelo menos essa é a tradição. Mas seja como for, o que transpirou naquela ocasião estava destinado a afetar a salvação dos bilhões de filhos de nosso Pai que viveriam na terra a partir daquele dia até a grande cena final de encerramento, quando o Filho entregar o reino, imaculado, a Seu Pai. ¶
Em comparação com o que então ocorreu, a ordem do homem Moriâncumer ao monte Zerim: "Afasta-te", e ele se afastou; ou o decreto do homem Moisés ao Mar Vermelho: "Divide-te", e as águas se dividiram, congelando-se à direita e à esquerda; ou a ordem do homem Josué: "Sol, detém-te, e tu, lua, da mesma forma", e assim aconteceu — em comparação com o que sucedeu naquele bosque de árvores no oeste de Nova York, naquela manhã de primavera, coisas como essas se desvanecem numa obscura insignificância. ¶
Ao nos aproximarmos, com temor e reverência, no espírito de adoração e gratidão, do milagre enviado do céu naquela manhã radiante, examinemos primeiro o cenário em que os céus seriam rasgados e o milagre realizado. ¶
Aquele ano de graça, 1820, como os 1.400 anos que o precederam, foi um em que as trevas cobriam a terra e densa escuridão a mente do povo. Foi um dia de trevas espirituais e de tristeza, um dia de nuvens e espessa escuridão, como a alvorada que se espalha sobre os montes. Os anjos já não ministravam a seus semelhantes; a voz de Deus se calara, e o homem já não via a face de seu Criador; os dons, os sinais, os milagres e todas as dádivas especiais desfrutadas pelos santos de outrora já não eram a herança comum daqueles em cujo coração se plantara o zelo religioso. Não havia visões, não havia revelações, não havia rasgar dos céus; o Senhor não fazia chover retidão sobre um povo escolhido como fizera nos dias antigos. ¶
Os mortos não ressuscitavam, nem os olhos dos cegos se abriam, nem os ouvidos dos surdos se destapavam. Não havia administradores legais cujos atos fossem válidos na terra e no céu. Aquele evangelho pregado por Paulo, e pelo qual Pedro morreu, já não era proclamado dos púlpitos da cristandade. ¶
Em suma, a apostasia reinava suprema; era universal, completa, penetrando tudo. A religião do humilde Nazareno não se encontrava em lugar algum. Todas as seitas, partidos e denominações haviam se desviado. Satanás se regozijava e seus anjos riam. Tais eram as condições sociais e religiosas daquele tempo. ¶
Mas, na sabedoria dAquele que tudo sabe, que reina supremo sobre a terra e o inferno, chegara a hora da restauração prometida. 1820 seria o ano em que o Grande Jeová começaria a restituição de todas as coisas faladas pela boca de todos os santos profetas desde o princípio do mundo. Os convênios feitos com Abraão, Isaque e Jacó a respeito de sua posteridade estavam prestes a se cumprir. ¶
Quando chega a época de plantar e colher, o senhor da vinha envia os lavradores necessários. A obra do Senhor entre os homens é realizada por homens; almas escolhidas e selecionadas tornam-se Seus servos. E assim, no tempo determinado, veio Joseph Smith Jr., o homem designado. Esse gigante espiritual, de quem agora se diz: "Joseph Smith, o Profeta e Vidente do Senhor, com exceção apenas de Jesus, fez mais pela salvação dos homens neste mundo do que qualquer outro homem que jamais viveu nele" (D&C 135:3) — esse profeta pré-ordenado veio para inaugurar a grande obra dos últimos dias do Senhor. ¶
Quando o Senhor precisou de um Enoque para edificar Sião, uma cidade de santidade, Enoque estava lá. Quando precisou de um Moisés para servir de grande legislador em Israel, Moisés estava lá. Quando chegou o tempo do Messias prometido dar a vida em resgate por muitos, o Grande Libertador estava lá. E graças a Deus, quando chegou a hora de inaugurar a dispensação da plenitude dos tempos, ali estava Joseph Smith, o poderoso profeta dos últimos dias. ¶
A ele o Senhor disse: "Os confins da terra indagarão por teu nome, e os tolos te terão em zombaria, e o inferno se enfurecerá contra ti; ¶
"Enquanto os puros de coração, os sábios, os nobres e os virtuosos buscarão constantemente conselho, autoridade e bênçãos de tua mão." (D&C 122:1–2.) ¶
Era 1820; o homem e a hora se uniram. A visão logo aconteceria, e as chamas ardentes da verdade do evangelho então consumiriam os espinhos e as ervas daninhas do sectarismo que sobrecarregavam a vinha do Senhor. ¶
Para preparar o dia da queima que estava para vir, um espírito de inquietação e preocupação religiosa varreu as áreas fronteiriças onde o futuro profeta do Senhor vivia em pacífica obscuridade. Os ministros de uma cristandade decadente exerciam seu ofício com valor fanático. Seus clamores se elevavam: "Eis aqui!" e "Eis ali!" (JS—H 1:5.) ¶
Cada pregador de religião empregava todo o seu poder de raciocínio e sofisma para conquistar conversos a seu sistema particular de salvação. Os sentimentos eram intensos; a amargura brotava em muitos corações. Uma "guerra de palavras e divergência de opiniões" espalhava rancor e divisão entre o povo. (JS—H 1:10.) Em meio a esses tempos de contenda, o futuro profeta de Deus frequentemente dizia a si mesmo: "Que deve ser feito? Quem, dentre todos esses grupos, está certo, ou estão todos igualmente errados? Se algum deles é correto, qual é, e como poderei sabê-lo?" (JS—H 1:10.) ¶
Foi nesse ponto crítico que a providência divina fez brilhar um raio de luz viva a partir da santa palavra de Deus, para iluminar o coração do atribulado buscador da verdade. ¶
Perscrutai as escrituras. Acumulai as verdades do evangelho. Desfrutai as palavras da vida eterna nesta vida, e tende esperança na glória imortal na vida vindoura. Lede, ponderai e orai sobre tudo o que os profetas escreveram. Esse é o caminho que o Senhor convida os homens a seguir no que diz respeito à Sua santa palavra. E foi por essa senda de progresso e esclarecimento que o jovem Joseph foi conduzido por aquela mão providencial que conhece o fim desde o princípio e governa com amor e misericórdia sobre todos os Seus filhos. ¶
O menino Joseph — então em seu décimo quinto ano de idade, e que apenas vinte e quatro anos depois morreria como mártir por causa daquilo que estava prestes a ver e do testemunho que dele prestaria — leu, no livro de Tiago, um versículo das escrituras destinado a ser o versículo mais influente já saído de uma pena profética. ¶
Moisés nos deu essa grande proclamação, que muitos creem ser a suprema escritura do Velho Testamento: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. ¶
"Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder." (Deuteronômio 6:4–5.) E Jesus, nosso Senhor, retomando as palavras de amor e serviço aqui proferidas, chamou-as o primeiro e grande mandamento. ¶
As palavras que a maioria das pessoas considera a maior expressão das escrituras dos tempos do Novo Testamento são: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:16.) ¶
É difícil exagerar a importância e a influência dessas passagens, e de outras semelhantes, na vida dos homens. E, no entanto, as palavras de Tiago que abriram a porta para a Primeira Visão, e que registram o caminho pelo qual todos os homens podem vir a conhecer o que Deus realizou nestes últimos dias — essas poucas palavras contêm a expressão mais influente que jamais saiu de lábios proféticos. Elas inauguraram a maior de todas as obras de Deus, a obra que, no devido tempo, cobrirá a terra de conversos. ¶
Estas são as palavras: "E se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, sem repreensão, e ser-lhe-á dada." (Tiago 1:5.) ¶
Palavras simples, fáceis, puras — palavras que prepararam o cenário para que todos os homens, em todas as épocas, conhecessem a mente e a vontade dAquele que os criou; palavras ditadas pelo Espírito Santo a um dos últimos profetas do Novo Testamento; palavras que penetrariam no coração do primeiro profeta dos últimos dias e seriam o meio de inaugurar a maior de todas as dispensações do evangelho! ¶
Faltas-te sabedoria, ó homem? Desejas saber qual de todas as igrejas está certa e a qual deverias te unir? Há em tua vida necessidade de mais conhecimento do que agora tens? Desejarias romper as barreiras do tempo e do espaço e contemplar as visões da eternidade? ¶
Então pede a Deus; busca a Sua face; confia em teu Criador; volta-te para Aquele que é a fonte da verdade e a fonte de toda retidão! ¶
Mas há uma condição associada, uma cláusula que deve acompanhar tuas súplicas. Tiago diz: "Porém peça-a com fé, não duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte. ¶
"Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa." (Tiago 1:6–7.) ¶
E assim, nesse ponto decisivo da história — enquanto o Espírito de Deus pairava sobre as trevas do mundo e os espíritos dos homens ainda não nascidos aguardavam o decreto "Haja luz" — o jovem Joseph foi guiado por Deus a ponderar aquelas palavras que inaugurariam a maior era de luz e verdade que já existiu sobre a terra. ¶
"Jamais uma passagem de escritura penetrou com mais poder no coração de um homem", diria mais tarde o jovem profeta, "do que essa, naquele momento, no meu. Pareceu entrar com grande força em cada fibra de meu coração. Refleti repetidamente sobre ela." (JS—H 1:12.) ¶
Tais são os caminhos de Deus e tal é a operação de Seu Santo Espírito. Com um poder que ninguém pode conhecer, senão aqueles cujas almas estão sintonizadas com o Infinito, as palavras de Tiago penetraram no coração do grande profeta dos últimos dias. ¶
A respeito da controvérsia religiosa que derramava veneno e confusão por toda aquela região, disse Joseph Smith: "Os religiosos das diferentes seitas interpretavam as mesmas passagens de escritura de maneira tão diferente, que destruíam toda a confiança na solução do problema [de qual igreja estava certa] através de uma consulta à Bíblia." (JS—H 1:12.) ¶
Ele precisava pedir a Deus, como todo homem deve fazer, e assim o fez. Caminhou uma curta distância de sua casa no campo até um lugar retirado, num bosque de árvores. Ali, sozinho, ajoelhou-se e orou, derramando a alma diante de seu Criador, oferecendo a Deus os desejos de seu coração. ¶
Essa foi a hora do destino e da esperança. Em meio à escuridão sombria da apostasia, uma luz haveria de brilhar. O decreto da criação, a grande proclamação — "Haja luz" — estava para ser emitido novamente. A luz do evangelho, a luz da Palavra Eterna, logo derramaria seus raios sobre toda a terra. ¶
Mas as grandes coisas não vêm facilmente; os acontecimentos que abalam a terra esbarram em montanhas de resistência. Há oposição em todas as coisas; toda pessoa que busca encontrar a igreja verdadeira vai de encontro aos caminhos do mundo. Joseph Smith não foi exceção. ¶
"Apoderou-se de mim uma força que me dominou por completo", disse ele, "e teve sobre mim influência tão assombrosa que travou-me a língua, de modo que eu não podia falar. Uma densa escuridão formou-se ao meu redor, e pareceu-me, por um momento, que eu estava condenado a uma destruição súbita." (JS—H 1:15.) ¶
Tais são os caminhos de Satanás que, quando o Deus do céu procura enviar ao mundo a maior luz de todas as eras, as forças do mal se opõem a ela com a mais profunda escuridão e iniquidade de seu reino tenebroso. Lúcifer, nosso inimigo comum, combateu a restauração prometida assim como agora combate a restauração já realizada. ¶
"Mas usando todas as minhas forças para clamar a Deus que me livrasse do poder desse inimigo que me subjugara", continua o Profeta, "e no momento exato em que eu estava prestes a sucumbir ao desespero e abandonar-me à destruição — não a uma ruína imaginária, mas ao poder de algum ser real do mundo invisível, que possuía uma força tão assombrosa como eu jamais sentira em qualquer ser — exatamente nesse momento de grande alarme, vi um pilar de luz bem acima de minha cabeça." (JS—H 1:16.) ¶
Então os céus se abriram e o véu se rasgou; os céus, há muito como bronze, derramaram chuvas de bênçãos; nascia a era da luz, da verdade, da revelação, dos milagres e da salvação. ¶
O lugar, a hora, a necessidade, o homem e o destino divino uniram-se para inaugurar a grande obra de Deus dos últimos dias. Os céus não estremeceram, nem a terra tremeu. Não foi um acontecimento anunciado pelos trovões e nuvens do Sinai, mas um padronizado segundo a calma serenidade e paz presentes diante de um túmulo aberto, quando Maria Madalena proferiu o reverente clamor "Raboni" ao Senhor ressuscitado. ¶
Essa foi a ocasião em que a maior visão já concedida ao homem, da qual temos registro, rompeu a penumbra da solene escuridão. Os deuses de outrora se revelaram novamente. ¶
"Vi um pilar de luz exatamente acima de minha cabeça, mais brilhante que o sol, que descia gradualmente até cair sobre mim", disse o Profeta. (JS—H 1:16.) ¶
"Assim que apareceu, senti-me livre do inimigo que me sujeitava. Quando a luz pousou sobre mim, vi dois Personagens cujo esplendor e glória desafiam qualquer descrição, pairando no ar, acima de mim. Um deles falou-me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro: Este é Meu Filho Amado. Ouve-O!" (JS—H 1:17.) ¶
Grande Deus nos céus acima — que maravilhas agora contemplamos! Os céus se rasgam; o véu se abre; os Criadores do universo descem; o Pai e o Filho, ambos, falam ao homem mortal. A voz de Deus é ouvida novamente: Ele não está morto; Ele vive e fala; ouvimos Suas palavras como eram ouvidas nos dias antigos. ¶
"Meu objetivo ao dirigir-me ao Senhor", diz nosso jovem suplicante, "era saber qual de todas as seitas estava certa, a fim de saber a qual me unir. Portanto, tão logo me controlei o suficiente para poder falar, perguntei aos Personagens que estavam na luz acima de mim qual de todas as seitas estava certa — e a qual eu deveria me unir. ¶
"Foi-me respondido que não me unisse a qualquer delas, pois estavam todas erradas; e o Personagem que se dirigia a mim disse que todos os seus credos eram uma abominação a Sua vista; que aqueles religiosos eram todos corruptos, pois: 'eles se aproximam de mim com os lábios, mas seu coração está longe de mim; ensinam como doutrina os mandamentos de homens, tendo aparência de religiosidade, mas negam o seu poder.'" (JS—H 1:18–19.) ¶
Uma ou duas vezes a cada mil anos, uma nova porta se abre, pela qual todos os homens devem entrar se quiserem obter paz nesta vida e ser herdeiros da vida eterna nos reinos vindouros. ¶
Uma ou duas vezes a cada vinte gerações, uma nova era desponta: a luz vinda do oriente começa a expulsar a escuridão da terra dos corações dos homens. ¶
De tempos em tempos, num bosque tranquilo, longe do olhar dos homens, o céu e a terra compartilham um momento de intimidade, e nenhum dos dois jamais volta a ser o mesmo. Tal momento ocorreu naquela bela e clara manhã da primavera de 1820, num bosque de árvores perto de Palmyra, Nova York. ¶
O homem perguntou e Deus respondeu. ¶
Joseph Smith viu o Pai e o Filho. ¶
Estas coisas eu sei e delas testifico. Em nome do Senhor Jesus Cristo, que é o Filho, e de quem somos testemunhas. Amém. ¶