Precisamos de Homens de Coragem
Marion G. Romney
Irmãos do sacerdócio, tenho em mente dizer-vos algumas coisas esta noite sobre a coragem. Existem diferentes tipos de coragem, dizem — a coragem física e a coragem moral. ¶
É minha experiência, contudo, que aquele que tem coragem moral, isto é, que é fiel a si mesmo, também possui coragem física. O grande Shakespeare, em sua peça Hamlet, faz com que sua personagem Polônio instrua o filho sobre muitos aspectos de sua conduta. E ele conclui uma declaração bastante longa com esta afirmação: ¶
Acima de tudo: sê fiel a ti mesmo, ¶
E disso se seguirá, como a noite ao dia, ¶
Que não poderás ser falso para com ninguém. ¶
Hamlet, 1, iii, 52–73 ¶
Todos nós temos consciência, e a consciência é a raiz da coragem moral. Uma pessoa verdadeiramente corajosa sempre obedecerá à sua consciência. Saber o que é certo e não o fazer é covardia. ¶
Em nossa literatura da Igreja encontramos muitos exemplos de grande coragem. Considerem, por exemplo, por um momento, o Profeta Joseph Smith. Quando ele contou ao ministro protestante de sua região sobre a Primeira Visão, foi recebido com desdém e zombaria. ¶
"Não obstante, era um fato," escreveu ele, "que eu tivera uma visão. … ¶
"Eu tinha realmente visto uma luz e, no meio dessa luz, dois Personagens; e eles realmente falaram comigo; e embora eu fosse odiado e perseguido por dizer que tivera uma visão, isso era verdade; e enquanto me perseguiam, injuriando-me e afirmando falsamente toda espécie de maldade contra mim por dizê-lo, fui levado a pensar em meu coração: Por que perseguir-me por contar a verdade? Tive realmente uma visão; e quem sou eu para opor-me a Deus, ou por que pensa o mundo fazer-me negar o que realmente vi? Porque eu tivera uma visão; eu sabia-o e sabia que Deus o sabia e não podia negá-la. …" (Joseph Smith—História 1:24–25.) ¶
O Profeta foi fiel a si mesmo não só em sua juventude, mas durante toda a sua vida. Dezoito anos depois da Primeira Visão, o Profeta e outros haviam sido "encerrados num tribunal frio, aberto e inacabado" por várias semanas. ¶
"Em uma daquelas noites tediosas [escreve Parley P. Pratt], estivemos deitados como que dormindo até passar a hora da meia-noite, e nossos ouvidos e corações tinham sido feridos, enquanto ouvíamos, por horas, os gracejos obscenos, os juramentos horrendos, as terríveis blasfêmias e a linguagem imunda de nossos guardas. … ¶
"Eu tinha escutado até ficar tão enojado, chocado, horrorizado e tão cheio do espírito de justiça indignada que mal podia conter-me de levantar-me e repreender os guardas; mas nada dissera a Joseph, nem a ninguém mais, embora estivesse deitado ao lado dele e soubesse que estava acordado. De repente, ele se levantou e falou com voz de trovão, ou como leão que ruge, proferindo, tanto quanto me recordo, as seguintes palavras: ¶
"'SILÊNCIO, demônios do abismo infernal. Em nome de Jesus Cristo eu vos repreendo e ordeno que vos calai; não viverei mais um minuto ouvindo essa linguagem. Cessai essa conversa, ou vós ou eu morreremos NESTE INSTANTE!' ¶
"Ele parou de falar. Ficou de pé, ereto, em terrível majestade. Acorrentado e sem arma alguma; calmo, sereno e digno como um anjo, ele olhou para os guardas trêmulos, cujas armas foram baixadas ou caíram ao chão; cujos joelhos batiam um no outro, e que, encolhendo-se a um canto, ou agachando-se a seus pés, imploravam seu perdão, e permaneceram quietos até a troca de guarda. ¶
"Já vi os ministros da justiça," continuou Parley, "vestidos com togas de magistrado, e criminosos julgados perante eles, enquanto a vida pendia de um fio, nos Tribunais da Inglaterra; testemunhei um Congresso em sessão solene para dar leis às nações; tentei conceber reis, cortes reais, tronos e coroas; e imperadores reunidos para decidir o destino de reinos; mas dignidade e majestade eu só vi uma vez, quando ali estava, acorrentado, à meia-noite, num calabouço de uma vila obscura do Missouri." (Autobiography of Parley P. Pratt, pp. 209–211. Itálico acrescentado.) ¶
Certamente, o Profeta demonstrou aqui tanto grande coragem moral quanto física. ¶
Sua fidelidade a si mesmo e a seu Criador acabou por custar-lhe a vida. Também lhe assegurou a vida eterna e a exaltação. ¶
No Livro de Mórmon, aprendemos sobre a grande coragem de Néfi. Vocês se lembrarão de que, enquanto Leí e sua família estavam acampados no vale de Lemuel, o Senhor o instruiu a enviar seus filhos de volta a Jerusalém para obter de Labão os registros. Lamã e Lemuel murmuraram que era "uma coisa difícil" (1 Néfi 3:5), mas Néfi, o irmão mais novo, disse: "Eu irei e cumprirei as ordens do Senhor, porque sei que o Senhor nunca dá ordens aos filhos dos homens sem antes preparar um caminho pelo qual suas ordens possam ser cumpridas." (1 Néfi 3:7.) ¶
Bem, subiram a Jerusalém. Tiraram sortes. Lamã entrou. Labão o acusou de ser um ladrão e ameaçou matá-lo. ¶
Então ele voltou a seus irmãos sem as placas. Sabia que não conseguiria obtê-las, e provou isso. Disse que deveriam voltar a seu pai. Mas este jovem, Néfi, disse: "Assim como vive o Senhor e vivemos nós, não desceremos para o deserto onde está nosso pai até havermos cumprido o que o Senhor nos ordenou." (1 Néfi 3:15.) ¶
Então, por insistência de Néfi, foram à terra de sua herança, pegaram seu ouro, sua prata e outras coisas preciosas, e tentaram comprar os registros de Labão. ¶
E ele cobiçou as riquezas deles e enviou seus servos para tomá-las. E eles fugiram para salvar a vida, por alguma distância, para dentro do deserto, e se esconderam na cavidade de uma rocha. E ali "açoitaram-nos [a Néfi e Sam] com uma vara." (1 Néfi 3:28.) E veio um anjo e os repreendeu. E depois que o anjo partiu, Lamã e Lemuel murmuraram que era impossível conseguirem as placas, que Labão era "um homem poderoso e [podia] comandar cinquenta, sim, ele pode mesmo matar cinquenta; por que não a nós?" (1 Néfi 3:31), disseram a Néfi. ¶
Mas Néfi disse: "O Senhor... é mais poderoso que toda a terra. Então, por que não há de ser mais poderoso que Labão e seus cinquenta, sim, ou mesmo suas dezenas de milhares?" (1 Néfi 4:1.) ¶
Então eles seguiram Néfi de volta a Jerusalém. Néfi entrou e saiu com as placas. Grande foi a fé e a coragem de Néfi. ¶
Na época em que Leí e sua família deixaram Jerusalém, vivia na região outro jovem chamado Daniel, que haveria de demonstrar grande coragem durante sua vida. Em 597 a.C., apenas três anos depois de Leí partir, Daniel foi levado ao cativeiro da Babilônia por Nabucodonosor. Ele começou a demonstrar sua coragem logo após chegar lá, quando ele, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego se recusaram a "contaminar-se" com a carne e o vinho do rei. (Daniel 1:8.) Ou seja, recusou-se a violar a "Palavra de Sabedoria" tal como observada por seu povo naquela época, ainda que o rei tivesse ordenado que o fizessem. ¶
Ele demonstrou notável coragem quando, ao interpretar o sonho do rei, disse ao velho rei que era "o decreto do Altíssimo" (Daniel 4:24), e que ele, Nabucodonosor, seria expulso dentre os homens e viveria com os animais do campo, comendo "erva como os bois" durante sete anos "até que saibas que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens, e os dá a quem quer." (Daniel 4:25.) E então ele aconselhou o rei a "desfaz[er] os teus pecados... e as tuas iniquidades." (Daniel 4:27; vide Daniel 4:20, 22, 24–25, 27.) ¶
Vocês conseguem imaginar a coragem que foi necessária para que um escravo cativo falasse assim com o rei, cujo domínio, segundo o registro, chegava até "os confins da terra"? (Daniel 4:22.) Pois bem, foi isso que ele fez. E, por estranho que pareça, ele sobreviveu ao velho rei. ¶
Quando esse mesmo Daniel foi convocado por Belsazar, sucessor de Nabucodonosor, para interpretar a estranha escrita que o rei vira na parede, ele mostrou coragem semelhante. Disse a Belsazar que a escrita dizia: ¶
"Deus contou o teu reino, e deu cabo dele. ¶
"Pesado foste na balança, e foste achado em falta. ¶
"Dividido foi o teu reino, e deu-se aos medos e aos persas." (Daniel 5:26–28.) ¶
Daniel não apenas leu a mensagem, mas, antes disso, teve a coragem de dizer a Belsazar que ele próprio trouxera esse juízo sobre si por suas transgressões. Disse-lhe ainda que um de seus pecados fora a profanação dos vasos que seu pai, Nabucodonosor, trouxera do templo em Jerusalém, e que outro fora levantar-se "contra o Senhor do céu." (Daniel 5:23; vide Daniel 5.) O registro diz: "naquela mesma noite... foi morto Belsazar, rei dos caldeus." (Daniel 5:30.) ¶
Dario, o medo que assumiu o reino, dividiu-o em cento e vinte províncias, e pôs um príncipe sobre cada uma das províncias, e sobre os príncipes colocou três presidentes, "do qual Daniel era o primeiro." (Daniel 6:2.) ¶
Nessa posição, Daniel teve ocasião de demonstrar sua coragem diante de grande perigo. Os outros "presidentes e príncipes procuravam achar ocasião contra Daniel." Tinham inveja dele, e não conseguiam encontrar nada contra ele. ¶
"Então disseram aqueles homens: Nunca acharemos ocasião alguma contra esse Daniel, se não a acharmos contra ele na lei do seu Deus. ¶
"Então aqueles presidentes e príncipes se reuniram e foram ao rei... e [o induziram] a fazer um firme decreto: que qualquer que, no espaço de trinta dias, fizer uma petição a qualquer deus, ou a qualquer homem, e não a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões." ¶
Ora, quando Daniel soube disso, foi imediatamente para sua casa; e havia em seu quarto janelas abertas para que pudessem ver para dentro, e ele se ajoelhou em seu quarto e "três vezes ao dia se pôs de joelhos, e orou, e deu graças diante do seu Deus, como antes costumava fazer." (Vide Daniel 6:4–7, 10.) ¶
Suponho que ninguém questionará o fato de que, sendo assim fiel a si mesmo e a seu Deus, Daniel demonstrou grande fé e coragem. ¶
Bem, não preciso ler o restante; vocês sabem o que se seguiu. Sabem que ele foi lançado na cova dos leões porque o rei não pôde mudar a lei dos medos e dos persas, e que o Senhor fechou a boca dos leões para salvar Daniel. ¶
Nem todos os atos de coragem trazem recompensas tão espetaculares. Mas todos eles trazem paz e contentamento; assim como a covardia, no final, sempre traz arrependimento e remorso. ¶
Sei disso por experiência própria. Lembro-me de quando eu era um menino de 15 anos e havíamos sido expulsos do México durante a revolução. Meus pais foram para Los Angeles, vindos de El Paso, Texas. Ali arranjei um emprego entre um grupo de pessoas que odiavam os mórmons, e não lhes disse que eu era mórmon. Algum tempo depois, o Presidente Joseph F. Smith veio a Los Angeles e jantou com meus pais — um jantar muito humilde; lembro-me de que era bem escasso. Ele pôs a mão sobre minha cabeça e disse: "Meu filho, nunca tenhas vergonha de seres mórmon." ¶
Vocês sabem, tenho me afligido todos os meus dias por não ter tido a coragem de enfrentar aqueles homens obscenos. ¶
Lembro-me de outra ocasião, quando eu estava na Austrália em missão. Fui visitar as Cavernas de Jenolan — cavernas maravilhosas e espetaculares. E, enquanto andávamos por elas, o guia disse: "Se alguns de vocês saírem e ficarem de pé naquela rocha ali e cantarem uma canção, isso demonstrará a capacidade desta caverna." ¶
Pois bem, o Espírito me disse: "Vai até lá e canta 'Ó Meu Pai'." Hesitei, e o grupo seguiu adiante. Perdi a oportunidade. Nunca me senti bem por causa disso. A única coisa que já me fez sentir que o Senhor me havia perdoado foi quando ouvi o Presidente McKay dizer: "Certa vez fui inspirado a fazer determinada coisa quando estava no campo missionário, e não o fiz." Ele disse: "Desde então sempre me arrependi disso." Disse ele: "Nunca deixem de responder aos sussurros do Espírito. Vivam de modo a poderem recebê-lo, e então tenham a coragem de fazer o que ele instrui." ¶
Como portadores do sacerdócio, resolvamos, irmãos, todos nós, jovens e idosos, desenvolver a coragem de sermos fiéis a nós mesmos e a nosso Criador em todas as coisas de nossa vida. ¶
Que Deus nos abençoe para esse fim, oro em nome de Jesus. Amém. ¶