Pensamentos de Páscoa
Marion G. Romney
Meus amados irmãos e irmãs em toda parte, convido-os a suplicar ao Senhor em nosso favor enquanto lhes falo por alguns instantes, pois a mensagem que tenho é importante para toda alma vivente na Terra. ¶
Durante a atual época pascal, muito se tem dito sobre a ressurreição. Embora seja impossível apreender toda a significação da ressurreição, sua realidade nunca deveria estar distante de nossos pensamentos. ¶
Paulo, por implicação, identificou-a como um tema central do evangelho de Jesus Cristo quando escreveu aos coríntios: ¶
"Se só nesta vida esperamos em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens. ¶
"Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormem. ¶
"Porque, assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. ¶
"Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também em Cristo todos serão vivificados." (1 Coríntios 15:19–22.) ¶
Comecemos nossa consideração desta grande exposição pela frase "porque a morte veio por um homem." ¶
"Porque... por um homem." O que é o homem? A pergunta tem se repetido através dos tempos. ¶
Jó, em seu tormento, clamou: ¶
"Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas sobre ele o teu coração, ¶
"E cada manhã o visites, e cada momento o proves?" (Jó 7:17–18.) ¶
E ainda: "Que é o homem, para que seja puro? E o que nasce da mulher, para que seja justo?" (Jó 15:14.) ¶
O salmista ecoou: "Que é o homem mortal, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? ¶
"Pois pouco o fizeste menor do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste." (Salmos 8:4–5.) ¶
A resposta escriturística a essa pergunta vem firme e clara. O homem é um filho espiritual de Deus, revestido de um tabernáculo mortal de carne e ossos. Isso é revelado no relato de sua criação. O livro de Gênesis ensina que houve uma criação espiritual da Terra e de tudo o que nela seria colocado, inclusive o homem, cujo espírito Deus criou "à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou." (Gênesis 1:27.) ¶
"E [não apenas o homem, mas] toda planta do campo, antes que estivesse na terra, e toda erva do campo, antes que brotasse; porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para lavrar a terra. ¶
"Um vapor, porém, subia da terra e regava toda a face da terra. ¶
"E formou o Senhor Deus o homem [isto é, seu corpo físico] do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida [que era seu espírito]; e o homem foi feito alma vivente." (Gênesis 2:5–8.) ¶
Isso está em harmonia com a escritura moderna, que afirma que "o espírito e o corpo são a alma do homem." (D&C 88:15.) ¶
"... Porque a morte veio por um homem." O que é a morte? É a separação do corpo e do espírito. ¶
Adão e Eva, quando criados como almas viventes, foram dotados da faculdade de viver para sempre. Eram sem pecado, puros e santos, dignos de desfrutar — e de fato desfrutavam — da companhia de Deus, seu Pai. Com efeito, ele os visitava no Jardim do Éden e conversava com eles e os instruía. Essa instrução era necessária porque, em sua transição de espíritos para almas, as memórias de suas experiências passadas haviam sido apagadas. ¶
"De toda árvore do jardim comerás livremente", disse o Senhor a Adão no jardim. ¶
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás." (Gênesis 2:16–17.) ¶
O tempo não permitirá delinear os detalhes, mas o fato crucial é que Adão e Eva, contrariando as instruções, comeram do fruto proibido. Ao fazê-lo, ingeriram em seus corpos um alimento que neles operou tal mudança que, em tempo devido, seus corpos e seus espíritos se separaram; ou seja, suas almas morreram. ¶
Essa penalidade por infringir o mandamento passou por herança a toda a posteridade de Adão. Assim, "a morte veio por um homem." ¶
Quando a morte chega, como acontece a todos os homens, o corpo retorna à terra e o espírito retorna ao mundo espiritual. ¶
Separado de seu corpo pela morte, o espírito fica numa situação precária, que o profeta Jacó assim descreve: ¶
"Se a carne não mais se levantasse, nossos espíritos estariam à mercê daquele anjo que caiu da presença do Eterno Deus e tornou-se o diabo, para não mais se levantar. ¶
"E nosso espírito deveria tornar-se como ele e nós nos tornaríamos diabos, anjos de um diabo, a fim de sermos afastados da presença de nosso Deus e permanecermos com o pai das mentiras, em miséria, como ele mesmo." (2 Néfi 9:8–9.) ¶
A redenção da morte — isto é, a ressurreição — é, portanto, imperativa para a felicidade futura do homem. ¶
"Espírito e elemento, inseparavelmente ligados, recebem a plenitude da alegria; ¶
"E, quando separados, não pode o homem receber a plenitude da alegria." (D&C 93:33–34.) ¶
Ora, Deus, sendo onisciente, previu essa situação. Sabia que a morte passaria sobre todos os homens por causa de Adão ter participado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Sabia também que seria injusto que os homens sofressem para sempre por causa da morte, pela qual não eram responsáveis. Ele, portanto, providenciou a redenção da alma por meio da morte e ressurreição de Cristo. ¶
Sobre esse ponto, ele disse numa revelação moderna: "Ora, em verdade vos digo que por meio da redenção que foi feita por vós realiza-se a ressurreição dos mortos. ¶
"E o espírito e o corpo são a alma do homem. ¶
"E a ressurreição dos mortos é a redenção da alma. ¶
"E a redenção da alma realiza-se por meio daquele que vivifica todas as coisas" (D&C 88:14–17), isto é, por meio de Cristo. ¶
Ora, quem é Jesus Cristo, e como poderia ele realizar a ressurreição, quando nenhum outro homem, nem todos os homens juntos, poderiam fazê-lo? As escrituras respondem a essas perguntas. Deixam claro que a pessoa espiritual Jesus Cristo — assim como os espíritos de todos os homens — é o Filho de Deus, nosso Pai Eterno. Nesse aspecto, ele é semelhante a todos os outros homens. Difere, porém, de todos os outros homens pelo fato de que os corpos dos homens são gerados por homens mortais e, portanto, estão sujeitos à morte, sendo descendentes e herdeiros de Adão, ao passo que o corpo físico de Cristo foi gerado por Deus, nosso Pai Celestial — um ser imortal, não sujeito à morte. Cristo, portanto, herdou de seu Pai a faculdade de viver indefinidamente. Ele tinha poder sobre a vida e a morte, como testemunha sua própria declaração aos fariseus: ¶
"O bom pastor", disse ele, "dá a sua vida pelas ovelhas. ... ¶
"Eu sou o bom pastor, ... ¶
"... e dou a minha vida pelas ovelhas. ... ¶
"Por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida, para tornar a tomá-la. ¶
"Ninguém ma tira de mim, ... eu de mim mesmo a dou. Tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la." (João 10:11, 14–15, 17–18.) ¶
Visto que o homem — estando sujeito à morte — não poderia levantar seu próprio corpo da sepultura, Jesus veio à Terra e voluntariamente deu sua vida para expiar a queda de Adão, implementando assim o poder da ressurreição. ¶
A primeira evidência de sua vitória sobre a sepultura foi, naturalmente, sua própria ressurreição, a respeito de cuja realidade há muitas evidências. Ele foi visto e ouvido por Maria. (Ver João 20:11–17.) Encontrou-se com as mulheres a caminho de contar aos discípulos sobre o sepulcro vazio. A elas ele falou. "E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram." (Ver Mateus 28:9–10.) Caminhou e conversou com os dois discípulos a caminho de Emaús. (Ver Lucas 24:13–16, 28–32.) Apareceu a seus apóstolos pelo menos duas vezes, uma quando Tomé estava ausente e outra, uma semana depois, quando ele estava presente. Falou com eles, mostrou-lhes as mãos e os pés. A seu pedido, "apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel. ¶
"O que ele tomou, e comeu diante deles." (Ver Lucas 24:36–43 e João 20:26–29.) ¶
Ele recebeu os sete discípulos junto ao mar de Tiberíades. (João 21:1–22.) Em certa ocasião, foi visto por mais de 500 pessoas de uma só vez. (1 Coríntios 15:6.) "Foi visto por Cefas" (1 Coríntios 15:5), por Tiago (1 Coríntios 15:7) e por Paulo (1 Coríntios 15:8). No monte da Galileia, comissionou os "onze" a "ensinar todas as nações." (Ver Mateus 28:16–20.) ¶
Por fim, "ele os levou para fora, até... Betânia; e levantando as suas mãos, os abençoou, e... enquanto os abençoava, se apartou deles e foi elevado ao céu." (Lucas 24:50–51.) ¶
Após seu ministério pós-ressurreição na terra de Jerusalém, ele visitou e administrou entre os nefitas na América. ¶
Por mais maravilhoso e inspirador que seja o relato da ressurreição de Jesus, de igual significância é a certeza de que o poder da ressurreição, que ele implementou, haveria de ser, e é, universal. Tal é a promessa. ¶
E Mateus relata que "abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados, ¶
"E saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos." (Mateus 27:52–53.) ¶
O próprio Jesus, durante seu ministério mortal, havia dito: ¶
"A hora vem, em que todos os que estão em suas sepulturas ouvirão [minha] voz, ¶
"E sairão; os que fizeram o bem, para a ressurreição dos justos; e os que fizeram o mal, para a ressurreição dos injustos." (TJS, João 5:28–29.) ¶
Durante seu ministério pós-ressurreição na América, ele enfatizou essa verdade vital da ressurreição universal ao instruir seus discípulos nefitas a inserir em seus registros, o que eles haviam deixado de fazer, a profecia de Samuel a respeito da ressurreição de outros e de seu cumprimento. A declaração omitida a que ele se referia era que um dos sinais que seriam dados aos nefitas de sua crucificação era que "muitos sepulcros se abririam e entregariam muitos de seus mortos; e muitos santos apareceriam a muitos." (Helamã 14:25.) ¶
Ora, seus discípulos nefitas disseram: "Sim, Senhor, Samuel profetizou de acordo com tuas palavras e todas elas se cumpriram." (3 Néfi 23:10.) ¶
João, o Revelador, conclui o relato de sua visão da ressurreição, que ocorrerá no início do Milênio — que agora não está muito distante —, dizendo: ¶
"E viveram [aqueles que ressuscitaram na ressurreição que precede o Milênio — eles viveram] e reinaram com Cristo mil anos. ¶
"Mas os outros mortos não reviveram até que os mil anos se acabaram." (Apocalipse 20:4–5.) ¶
Naquele momento, ele acrescentou: ¶
"E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus; ... ¶
"E o mar deu os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia." (Apocalipse 20:12–13.) ¶
Amuleque, falando a Zeezrom, disse: ¶
"A morte de Cristo desatará as ligaduras dessa morte temporal, para que todos se levantem dessa morte temporal. ¶
"O espírito e o corpo serão novamente reunidos em sua perfeita forma; os membros e juntas serão restaurados à sua devida estrutura, ... ¶
"Esta [ressurreição] acontecerá com todos, tanto velhos como jovens, tanto escravos como livres, tanto homens como mulheres, tanto iníquos como justos." (Alma 11:42–44.) ¶
Desta maneira se cumprirá a declaração de Paulo: ¶
"Porque, assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. ¶
"Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também em Cristo todos serão vivificados. ¶
"Mas cada um por sua ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda." (1 Coríntios 15:21–23.) ¶
A alma do homem está, assim, assegurada da imortalidade. Cristo cumpriu a primeira parte de sua "obra e... glória [que ele declarou a Moisés ser] — levar a efeito a imortalidade e [a] vida eterna do homem." (Moisés 1:39.) ¶
Grande é a dívida que devemos a nosso Redentor por nossa ressurreição. Mas essa não é a meta final. Alcançar a imortalidade é um pré-requisito para, mas não é necessariamente o mesmo que alcançar a vida eterna. Imortalidade denota extensão de vida — sem morte. Vida eterna denota qualidade de vida — a qualidade de vida que Deus desfruta. ¶
Há três reinos, de diferentes graus de glória, no mundo vindouro. O telestial — que é o mais baixo; o terrestre — o intermediário; e o celestial — a glória desfrutada pela Divindade. Cada reino de glória é governado por lei. ¶
Os homens serão julgados no mundo espiritual e recompensados de acordo com suas obras. Na ressurreição, seus corpos serão vivificados pela glória do reino cujas leis obedeceram durante esta vida temporal e mortal. (Ver D&C 88:17–32.) ¶
O evangelho de Jesus Cristo, tal como revelado e ensinado pelos profetas desde Adão até o meridiano dos tempos, tal como ensinado e demonstrado por Jesus durante seu ministério mortal, e tal como restaurado nesta, a dispensação da plenitude dos tempos — evangelho que hoje é ensinado e administrado com autoridade em todo o mundo por A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias —, é a lei celestial tal como se aplica aos homens, almas humanas na mortalidade. ¶
A obediência a essa lei é um pré-requisito para a ressurreição com um corpo celestial. Grande será a glória daqueles que a alcançarem, e tristes, na verdade, serão os que não a alcançarem. O Profeta Joseph Smith, em observações feitas num funeral, disse que "a decepção das esperanças e expectativas na ressurreição seria indescritivelmente terrível." (History of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints [História de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias], 6:51.) ¶
Muitas dessas leis foram apresentadas e discutidas nesta conferência, e outras ainda o serão. Que possamos dar ouvidos a elas e obedecê-las. ¶
Em conclusão, agora presto meu testemunho pessoal da veracidade destas coisas que declarei. Sei, pelo espírito do Espírito Santo, que são verdadeiras. Jesus vive; ele é o Filho de Deus. Veio à Terra como o Unigênito do Pai. Venceu a morte, ressuscitou seu próprio corpo da sepultura e implementou o poder da ressurreição para todos os homens. ¶
Sei que, por meio de seu sofrimento em Getsêmani e durante sua crucificação, ele realizou o meio pelo qual, mediante o arrependimento e a obediência às leis de seu evangelho, poderemos ser levantados não apenas à imortalidade, mas também à vida eterna, que é o maior de todos os dons de Deus. A isso presto solene testemunho no sagrado nome de Jesus Cristo, nosso Redentor. Amém. ¶