O Caminho para Casa
Thomas S. Monson
Dominando as águas azul-celestes do famoso Mar da Galileia encontra-se um marco histórico: o Monte das Bem-Aventuranças. Como uma sentinela viva, com testemunho de testemunha ocular, esse amigo silencioso parece declarar: "Foi aqui que a maior pessoa que já viveu proferiu o maior sermão já dado — o Sermão da Montanha." ¶
Instintivamente, o visitante volta-se para o Evangelho de São Mateus e lê: "E Jesus, vendo as multidões, subiu a um monte, e assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos; E abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:" (Mateus 5:1–2.) Entre as verdades que ensinou estava esta solene declaração: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele; ¶
"Porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que o encontrem." (Mateus 7:13–14.) ¶
Eterna em sua aplicação, homens sábios têm, ao longo das gerações, procurado viver segundo essa simples declaração. ¶
Quando Jesus de Nazaré caminhou pessoalmente pelas veredas rochosas da Terra Santa, ele, como o Bom Pastor, mostrou a todos os que acreditassem como poderiam seguir aquele caminho estreito e entrar por aquela porta apertada para a vida eterna. "Vem, segue-me", convidou ele. "Eu sou o caminho." ¶
Não é de admirar que os homens esperassem pelo derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Era o evangelho de Jesus Cristo que deveria ser pregado, sua obra que deveria ser realizada, e seus apóstolos, à frente de sua igreja, a quem essa obra fora confiada. ¶
A história registra que a maioria dos homens, de fato, não veio a ele, nem seguiu o caminho que ensinou. O Senhor foi crucificado, os apóstolos foram mortos, a verdade foi rejeitada. A clara luz do dia da iluminação se esvaiu, e as sombras cada vez mais longas de uma noite escura envolveram a terra. ¶
Uma única palavra descreve o estado lamentável que prevalecia: apostasia. Gerações antes, Isaías havia profetizado: "Porque eis que as trevas cobrirão a terra, e a escuridão, os povos." (Isaías 60:2.) Amós predissera uma fome na terra: "Não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor." (Amós 8:11.) Não havia Pedro advertido sobre falsos mestres que trariam heresias condenáveis, e não havia Paulo predito que viria o tempo em que a sã doutrina não seria suportada? ¶
A Idade das Trevas da história parecia não ter fim. Não haveria término para essa noite blasfema? Teria um Pai amoroso esquecido a humanidade? Não enviaria ele mensageiros celestiais como nos dias antigos? ¶
Homens honestos, de coração anelante, arriscando a própria vida, procuraram estabelecer pontos de referência, para que pudessem encontrar o verdadeiro caminho. Despontava o dia da reforma, mas o caminho adiante era difícil. As perseguições seriam severas, o sacrifício pessoal, esmagador, e o custo, incalculável. Os reformadores eram como pioneiros abrindo trilhas no ermo, em desesperada busca daqueles pontos de referência perdidos que, sentiam eles, uma vez encontrados, conduziriam a humanidade de volta à verdade que Jesus ensinara. ¶
Quando John Wycliffe e outros concluíram a primeira tradução inglesa de toda a Bíblia a partir da Vulgata Latina, as autoridades eclesiásticas da época fizeram tudo o que podiam para destruí-la. As cópias tinham de ser escritas à mão e em segredo. A Bíblia era considerada um livro fechado, cuja leitura era proibida ao povo comum. Muitos seguidores de Wycliffe foram severamente castigados, e alguns queimados na fogueira. ¶
Martinho Lutero afirmou a supremacia da Bíblia. Seu estudo das escrituras levou-o a comparar as doutrinas e práticas da igreja com os ensinamentos das escrituras. Lutero defendeu a responsabilidade do indivíduo e os direitos da consciência individual, e o fez sob risco iminente de vida. Embora ameaçado e perseguido, declarou corajosamente: "Aqui estou, não posso agir de outra forma. Que Deus me ajude." ¶
Jan Huss, que denunciava sem temor a corrupção dentro da igreja, foi levado para fora da cidade a fim de ser queimado. Foi acorrentado pelo pescoço a uma estaca, e palha e lenha foram empilhadas ao redor de seu corpo até o queixo e aspergidas com resina; por fim, perguntaram-lhe se se retrataria. Quando as chamas se ergueram, ele cantou, mas o vento soprou o fogo em seu rosto, e sua voz emudeceu. ¶
Zwínglio, da Suíça, procurou, por meio de seus escritos e ensinamentos, repensar toda a doutrina cristã em termos coerentemente bíblicos. Sua declaração mais célebre emociona o coração: "Que importa isso? Podem matar o corpo, mas não a alma." ¶
E quem, hoje, não pode apreciar as palavras de John Knox? "Um homem com Deus está sempre em maioria." ¶
João Calvino, envelhecido prematuramente pela doença e pelos incessantes labores a que se dedicara, resumiu sua filosofia pessoal com a declaração: "Nossa sabedoria (...) consiste quase inteiramente em duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos." ¶
Outros poderiam de fato ser mencionados, mas um comentário sobre William Tyndale talvez baste. Tyndale sentia que o povo tinha o direito de conhecer o que lhe fora prometido nas escrituras. Àqueles que se opunham a seu trabalho de tradução, ele declarou: "Se Deus poupar minha vida, (...) farei com que um menino que conduz o arado saiba mais das escrituras do que tu." ¶
Tais foram os ensinamentos e as vidas dos grandes reformadores. Seus feitos foram heroicos, suas contribuições, numerosas, seus sacrifícios, grandes — mas eles não restauraram o evangelho de Jesus Cristo. ¶
A respeito dos reformadores, poder-se-ia perguntar: "Foi em vão o seu sacrifício? Foi inútil a sua luta?" Respondo com um retumbante "Não!" A Bíblia Sagrada estava agora ao alcance do povo. Cada homem podia encontrar melhor o seu caminho. Ah, se ao menos todos pudessem ler e todos pudessem compreender. Mas alguns podiam ler, e outros podiam ouvir; e todo homem tinha acesso a Deus por meio da oração. ¶
O tão aguardado dia da restauração realmente chegou. Mas revejamos esse acontecimento significativo na história do mundo, relembrando o testemunho do menino lavrador que se tornou profeta, a testemunha que ali esteve — o próprio Joseph Smith. ¶
Descrevendo sua experiência, Joseph disse: "Houve, no lugar onde morávamos, um alvoroço incomum por questões religiosas. (...) Generalizou-se (...) [criando] divisão entre o povo, clamando alguns 'Eis aqui!' e outros 'Eis ali!' ¶
"(...) eu estava um dia lendo a Epístola de Tiago, primeiro capítulo, versículo cinco, que diz: 'E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.' ¶
"Jamais uma passagem de escritura penetrou com mais poder no coração de um homem do que essa, naquele momento, no meu. Pareceu entrar com grande força em cada fibra de meu coração. Refleti repetidamente sobre ela, tendo consciência de que se alguém necessitava da sabedoria de Deus, era eu, pois eu não sabia como agir e, a menos que conseguisse obter mais sabedoria do que a que tinha então, nunca saberia; pois os religiosos das diferentes seitas (...) interpretavam as mesmas passagens de escritura de maneira tão diferente, que destruíam toda a confiança na solução do problema através de uma consulta à Bíblia. ¶
"Finalmente cheguei à conclusão de que teria de permanecer em trevas e confusão, ou fazer como Tiago aconselha, isto é, pedir a Deus. (...) ¶
"Assim, de acordo com essa minha determinação de pedir a Deus, retirei-me para o bosque a fim de fazer a tentativa. Foi na manhã de um belo e claro dia, no início da primavera de mil oitocentos e vinte. ¶
"(...) ajoelhei-me e comecei a oferecer a Deus os desejos do meu coração. (...) ¶
"Vi um pilar de luz exatamente acima de minha cabeça, mais brilhante que o sol, que descia gradualmente até cair sobre mim. ¶
"(...) Quando a luz pousou sobre mim, vi dois Personagens cujo esplendor e glória desafiam qualquer descrição, de pé no ar, acima de mim. Um deles falou-me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro — Este é Meu Filho Amado. Ouve-O!" (Joseph Smith—História 1:5–17.) ¶
O Pai e o Filho, Jesus Cristo, haviam aparecido a Joseph Smith. Chegara a manhã da dispensação da plenitude dos tempos, dissipando as trevas das longas gerações de noite espiritual. Como na criação, a luz substituiria as trevas; o dia seguir-se-ia à noite. ¶
Desde então até agora, a verdade tem estado e está disponível para nós. Como os filhos de Israel em tempos passados, os dias intermináveis de peregrinação agora podem terminar com nossa entrada em uma terra prometida pessoal. ¶
A restauração do evangelho dissipa a escuridão descrita em nossa época pelo notável educador Robert Gordon Sproul. Ele observara as igrejas da América e declarou: ¶
"Temos (...) o espetáculo peculiar de uma nação que, em medida imperfeita mas ainda assim considerável, pratica o cristianismo sem crer ativamente no cristianismo. Pede-se-nos que nos voltemos para a igreja em busca de esclarecimento, mas, ao fazê-lo, descobrimos que a voz da igreja não é inspirada. A voz da igreja hoje, constatamos, é o eco de nossas próprias vozes. E o resultado dessa experiência, já manifesto, é o desencanto. Só há uma saída para essa espiral. A saída é o som de uma voz — não a nossa voz, mas uma voz que provém de algo que não somos nós mesmos, em cuja existência não podemos deixar de crer. É a tarefa terrena dos pastores ouvir essa voz, fazer com que a ouçamos e dizer-nos o que ela diz. Se não conseguem ouvi-la, ou se deixam de nos transmiti-la, nós, como leigos, estamos completamente perdidos. Sem ela, não somos mais capazes de salvar o mundo do que fomos capazes de criá-lo, em primeiro lugar." (Vital Speeches, 1º de setembro de 1940, p. 701.) ¶
Talvez o célebre Winston Churchill tenha declarado, melhor do que ninguém, a necessidade premente do mundo. Disse ele: "Tive talvez uma experiência de vida mais longa que quase todos, e nunca refleti sobre uma situação que exigisse mais paciência, serenidade, coragem e perseverança do que a que se descortina diante de nós hoje: a necessidade de um profeta." ¶
Hoje ouvimos falar o profeta de Deus — o próprio Presidente Spencer W. Kimball. Hoje, deste púlpito, vai um convite a pessoas de todo o mundo: Deixai o vosso caminho errante, viajante cansado. Vinde ao evangelho de Jesus Cristo. Vinde a esse celestial refúgio chamado lar. Aqui descobrireis a verdade. Aqui aprendereis a realidade da Trindade, o consolo do plano de salvação, a santidade do convênio do casamento, o poder da oração pessoal. Vinde para casa! ¶
Desde a juventude, muitos de nós talvez se lembrem da história de um menino muito pequeno que foi raptado de seus pais e de seu lar e levado para uma aldeia situada longe dali. Nessas condições, o menino cresceu até a juventude sem conhecer seus verdadeiros pais ou seu lar terreno. Em seu coração, surgiu um anseio de voltar àquela aldeia chamada lar. ¶
Mas onde encontraria o lar? Onde descobriria sua mãe e seu pai? Ah, se ao menos pudesse lembrar-se sequer de seus nomes, sua tarefa seria menos desesperadora. Desesperadamente, procurava recordar ao menos um vislumbre de sua infância. ¶
Como um lampejo de inspiração, lembrou-se do som de um sino que, da torre no alto da igreja da aldeia, repicava suas boas-vindas todas as manhãs de domingo. De aldeia em aldeia, o jovem vagou, sempre à escuta daquele sino familiar. Alguns sinos eram semelhantes, outros bem diferentes do som que ele recordava. ¶
Por fim, o jovem cansado deteve-se, certa manhã de domingo, diante da igreja de uma cidade comum. Escutou atentamente enquanto o sino começava a repicar. O som era familiar. Não se parecia com nenhum outro que já ouvira, exceto aquele sino que repicava na memória de seus dias de infância. Sim, era o mesmo sino. Seu toque era verdadeiro. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Seu coração alegrou-se de contentamento. Sua alma transbordou de gratidão. O jovem ajoelhou-se, olhou para cima, além da torre do sino — em direção ao céu — e, numa oração de gratidão, sussurrou: "Graças a Deus. Estou em casa." ¶
Como o repicar de um sino relembrado será a verdade do evangelho de Jesus Cristo para a alma daquele que busca com sinceridade. Muitos de vós tendes viajado longamente em uma busca pessoal por aquilo que soa verdadeiro. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias vos dirige um sincero apelo. Abri vossas portas aos missionários. Abri vossas mentes à palavra de Deus. Abri vossos corações, e até mesmo vossas almas, ao som daquela voz mansa e delicada que testifica da verdade. Como prometeu o profeta Isaías: "E os teus ouvidos ouvirão a palavra... dizendo: Este é o caminho, andai nele." (Isaías 30:21.) Então, como o menino de quem falei, também vós, de joelhos, direis a vosso Deus e meu: "Estou em casa!" ¶
Que essa seja a bênção de todos, oro em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶