Por Que Continuamos a Tolerar o Pecado?
Spencer W. Kimball
Amados irmãos e irmãs, estamos nos aproximando do encerramento desta conferência semestral, à qual assistimos e, espero, apreciamos. ¶
Há alguns anos, estabelecemos uma nova política. À medida que a Igreja crescia, tornando-se numerosa e alcançando lugares distantes, e reconhecendo o custo do transporte desde os confins da terra até esta conferência, reconhecendo também a limitação das instalações aqui mesmo — pois já havíamos preenchido este edifício havia muito tempo — decidimos levar as conferências ao povo. ¶
E assim, a primeira foi realizada em Manchester, na Inglaterra; a segunda foi realizada na Cidade do México, no México; no ano seguinte, fomos a Munique, na Alemanha; no ano passado, fomos a Estocolmo, na Suécia; e este ano estivemos em São Paulo, no Brasil, e em Buenos Aires, na Argentina, e nos estados da América do Sul. ¶
Ficamos muito satisfeitos com a recepção. Levamos um grupo das Autoridades Gerais e realizamos, para o povo local, uma conferência semelhante a esta. Sustentamos as autoridades da Igreja; demos a eles os benefícios que teriam recebido se tivessem vindo a esta conferência. ¶
Esperamos continuar este programa e ir a diferentes partes do mundo, levando as mensagens e mantendo contato próximo com o grande número de pessoas que se congregam nos confins da Igreja. ¶
Recentemente estivemos no Brasil e depois na Argentina em fins de semana consecutivos, e voltamos com o coração repleto de gratidão pelas atitudes, pelos espíritos e pelos testemunhos daquele bom povo que veio em grande número, com certo sacrifício, àqueles centros para ouvir o evangelho dos líderes da Igreja. ¶
Quando estivemos em São Paulo, no Brasil, anunciamos àquele povo que, sujeito à sua disposição e prontidão para ajudar, construiríamos um santo templo na América do Sul para todos os sul-americanos naquela ocasião. Esperamos que, em anos futuros, outros templos possam ser construídos para os que estão mais distantes. O povo recebeu o anúncio com gratidão e grande felicidade, com lágrimas de alegria e agradecimento. ¶
Eles têm vindo à medida que conseguem juntar os recursos para aquela longa viagem até os Estados Unidos. Têm vindo em grupos de dois, quatro e seis de cada vez, para receber suas investiduras no santo templo e serem selados a seus cônjuges e a suas famílias, e assim perceber que poderiam ter um templo perto de casa foi uma grande alegria para eles. ¶
Ao falarmos sobre o financiamento — e sempre damos ao povo local o privilégio de contribuir para ele, mas o corpo da Igreja, é claro, faz a maior contribuição — eles estavam ansiosos para fazê-lo. Ficaram felizes em prometer o que pudessem para a construção do templo. ¶
Recebi hoje de manhã um pequeno bilhete de um dos irmãos que passou muito tempo no Brasil, e ele disse: “Foi-me relatado que mais de 140 membros brasileiros já haviam reservado passagem para vir a esta conferência e ir ao templo. Depois que o senhor anunciou a construção de um templo no Brasil, 70 cancelaram sua passagem e prometeram a passagem para a construção do templo.” Isso chega a dezenas e dezenas de milhares de dólares, como vocês reconheceriam. ¶
Consideramos isso uma demonstração maravilhosa. Lamentamos que eles precisem esperar ainda mais por seus privilégios no templo; mas, para os jovens, o tempo não pesa tanto quanto para alguns de nós, os mais velhos. ¶
Durante esta conferência, vocês ouviram muitos testemunhos belos e sermões de grande força. Esperamos que a audiência que nos ouvia — que poderia chegar a milhões — tenha escutado com o coração puro e a mente receptiva, e que alguns deles desejem juntar-se a nós nesta grande congregação, que agora chega a milhões. ¶
Sabemos que isto é verdade. Testificamos isso a todo o mundo. Esperamos que eles deixem de lado quaisquer preconceitos ou equívocos que possam ter tido, e que venham para o rebanho de Jesus Cristo, onde ele é puro e imaculado. ¶
Durante esta conferência, os Irmãos falaram sobre muitos assuntos; e, no geral, cobriram muito bem os fundamentos do evangelho de Jesus Cristo. ¶
Enquanto participávamos de uma coletiva de imprensa há alguns dias, um dos jornalistas me perguntou: “Que situação existe hoje em nossa sociedade que lhe causa a maior preocupação?” Já havíamos discutido o problema do crescimento, pois estamos crescendo tão rapidamente que é um tanto difícil manter a liderança à frente do povo; mas estamos, graças a Deus, avançando. ¶
Ao refletir rapidamente sobre esse assunto, procurei responder à pergunta, e me lembrei da época em que a liderança mundial estava baseada na Assíria e na Babilônia. Lembrei-me da história do Velho Testamento sobre Belsazar — mencionada pelo Presidente Romney na reunião do sacerdócio de ontem à noite — filho e sucessor do famoso Nabucodonosor, rei da Babilônia, sendo ele o último rei reinante antes da conquista de Ciro, o Grande. Lembramo-nos dos furtos ímpios de Nabucodonosor, quando profanou o sagrado templo de Salomão em Jerusalém e retirou daquele templo muitos utensílios preciosos e valiosos. Notei que o rei Belsazar deu um grande banquete, com mil de seus nobres. Ele bebeu vinho diante dos mil e com os mil. Alimentar mil pessoas em um banquete é um esforço hercúleo. ¶
Não satisfeito com o furto dos vasos de ouro e prata que seu pai havia retirado do santo templo, já dedicado ao Senhor para Seus propósitos, Belsazar tomou os vasos roubados, encheu-os de bebida forte e convidou para seus aposentos não apenas os mil de seus nobres, mas também seus príncipes, suas esposas e suas concubinas. Seus convidados comeram e beberam, provavelmente fizeram brindes aos deuses de ouro, aos deuses de prata, aos deuses de bronze, aos deuses de ferro, aos deuses de madeira e aos deuses de pedra. (Vide Daniel 5:1–4.) ¶
Perguntei-me se a história estaria se repetindo, ao ponderar e refletir sobre a condição de nosso próprio mundo hoje e sua permissividade. Ao ler os meios de comunicação hoje, creio ver algumas semelhanças marcantes e assustadoras entre as duas épocas. Leio sobre grandes banquetes em muitos lugares, sobre muitos líderes comunitários, líderes sociais e pessoas ilustres em grande número. Leio sobre os nobres locais e suas esposas e suas amantes. Leio sobre sua bebedeira e sua embriaguez, seus excessos e suas imoralidades — sua vergonha — e então sussurro para mim mesmo: “A história está se repetindo.” ¶
Canso-me de discutir demasiadamente a questão da situação moral em nosso mundo. Mas leio em Doutrina e Convênios onde o Senhor disse: “Não pregues coisa alguma a esta geração, a não ser arrependimento; guarda meus mandamentos e ajuda a trazer à luz minha obra, de acordo com meus mandamentos.” (D&C 6:9.) ¶
Então disse ele: “E quão grande é sua alegria pela alma que se arrepende! ¶
“Portanto, sois chamados para clamar arrependimento a este povo.” (D&C 18:13–14.) Enquanto os primeiros santos se dirigiam ao Missouri, a palavra do Senhor veio aos líderes: ¶
“Que preguem pelo caminho e prestem testemunho da verdade em todos os lugares, chamando ao arrependimento os ricos, os nobres e os plebeus e os pobres. ¶
“E que edifiquem igrejas, se os habitantes da Terra se arrependerem.” (D&C 58:47–48.) ¶
E assim, hoje, penso, temo, que é o dia do arrependimento — um dia para que as pessoas façam um balanço de suas situações e mudem suas vidas onde isso for necessário. ¶
O mandamento veio aos líderes nestes dias, assim como veio diretamente do Senhor a Simão Pedro nos dias antigos: “Portanto, dou-vos mandamento de vos dirigirdes a esse povo e dizer, como meu apóstolo da antiguidade, cujo nome era Pedro.” (D&C 49:11.) Constato que o apóstolo Pedro constantemente exortava o povo a purificar sua vida e a arrepender-se de suas transgressões. ¶
“Amados”, disse ele, “admoesto-vos, como peregrinos e forasteiros, a que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma; ¶
“Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós virem.” (1 Pedro 2:11–12.) ¶
Leio sobre a prática comum de associações entre homens e mulheres que não são cônjuges; e afirmam, alta e repetidamente, que o casamento já não é necessário. E, aparentemente, quase sem vergonha, vivem juntos em uma parceria sexual sem casamento. Será que Deus mudou suas leis? Ou terá o homem, mesquinho, irresponsável e presunçoso, ousado mudar as leis de Deus? O pecado era de ontem? Reinava o diabo no coração dos homens apenas em um passado distante? ¶
Abraão sabia que as cidades da planície — Sodoma e Gomorra e outros lugares — eram cidades más, habitadas por gente ímpia e sem Deus, que dizia, como Caim: “Quem é o Senhor, para que eu deva conhecê-lo?” (Moisés 5:16.) Ele sabia que a destruição daquelas cidades era iminente; mas, em sua compaixão pelo próximo, implorou e suplicou ao Senhor: “Se porventura houver cinquenta justos na cidade”, poupará os demais da cidade? (Vide Gênesis 18:24.) Concedida essa súplica, Abraão voltou a orar para que as cidades fossem salvas se 45 fossem encontrados, ou 40, ou 30, ou 20, ou até dez, mas, aparentemente, não puderam ser encontrados sequer dez, naquelas cidades viciosas, que fossem justos. (Vide Gênesis 18:24–32.) ¶
O mal continuou. O pecado estava profundamente arraigado demais. Riam e zombavam da ideia de uma destruição. As transgressões pelas quais Sodoma aparentemente era conhecida continuaram. De fato, o povo quis abusar dos puros varões angelicais que haviam visto entrar na cidade. Os homens perversos pressionaram e teriam arrombado as portas para chegar até eles. (Vide Gênesis 19:4–11.) ¶
Tudo o que podia ser feito por Abraão para salvar a cidade foi feito, mas ela havia se tornado tão depravada e desenfreada que salvá-la era impossível. ¶
“Então o Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do Senhor desde os céus; ¶
“E derrubou aquelas cidades, e toda aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e o que nascia da terra.” (Gênesis 19:24–25.) ¶
Mais uma vez vemos a história se repetindo. Quando vemos a pornografia, as práticas adúlteras, a homossexualidade desenfreada, a licenciosidade e a permissividade de uma proporção aparentemente crescente do povo, dizemos que os dias de Satanás retornaram, e a história parece se repetir. ¶
Quando vemos a depravação de numerosas pessoas de nossa própria sociedade, em sua determinação de impor às pessoas apresentações vulgares, comunicações imundas, práticas antinaturais, perguntamo-nos: terá Satanás estendido sua mão perversa e má para atrair às suas fileiras o povo desta terra? Não temos ainda pessoas boas suficientes para erradicar o mal que ameaça nosso mundo? Por que continuamos a transigir com o mal, e por que continuamos a tolerar o pecado? ¶
Recentemente, deparei-me com uma declaração da Primeira Presidência da Igreja de outra época, cerca de seis presidentes atrás, e gostaria de ter lido muitas das linhas dessa declaração, pois ela nos traz à mente que Deus é o mesmo ontem, hoje e para sempre; e os mandamentos que ele deu aos primeiros profetas em outros milênios, e aos profetas nos dias do Salvador, e aos profetas de nossos dias, trazem à nossa mente, plena e conclusivamente, que Deus é o mesmo ontem, hoje e para sempre. ¶
Não acreditamos no “situacionismo”; não concordamos com aqueles que pensam que esta é uma época diferente, que este é um tempo diferente, que estas pessoas são mais esclarecidas, que aquilo era para os tempos antigos. O Senhor sempre se aterá às suas declarações dadas através dos tempos, e esperará que os homens respeitem a si mesmos, respeitem suas esposas, e que as esposas respeitem seus maridos, e respeitem suas famílias, e vivam retamente, como ele repetiu milhares de vezes através dos tempos. ¶
E assim, enquanto falava com a imprensa, esse pensamento me veio à mente. O que podemos fazer que ainda não estamos fazendo? Até onde podemos ir? Que mudanças podemos fazer que garantam a retidão neste mundo? Porque, se não o fizermos, parece que a destruição poderá vir, como veio para os babilônios, ou como veio, de forma um pouco diferente, para Sodoma e Gomorra e outras cidades. ¶
Por isso, sentimos isso muito profundamente; e é por essa razão que continuamos a pregar sobre o assunto; por que advertimos nossos filhos e os ensinamos; por que advertimos nossos jovens; por que advertimos nossos casais a deixar que o casamento seja uma situação bela e santificada. ¶
Agora, meus irmãos e irmãs, ao encerrarmos esta conferência, esperamos que voltem para seus lares com uma espiritualidade renovada, em maior grau, e que levem a suas famílias, a seus amigos, a suas alas, estacas e ramos os testemunhos que receberam e os bons sentimentos que vieram a seus corações ao ouvirem os Irmãos falarem e testificarem. ¶
Quero encerrar com meu testemunho. Sei que Deus vive. Sei que Jesus Cristo vive. Sei que ele ama. Sei que ele inspira. Sei que ele nos guia. E sei que ele nos ama. Sei que ele pode amar, ou pode sentir-se profundamente magoado, ao ver-nos desviar do caminho que ele traçou tão claramente e tornou tão reto. ¶
E presto este testemunho a vocês em nome de Jesus Cristo, nosso Mestre. Amém. ¶