“Quando Te Converteres, Fortalece Teus Irmãos”
L. Tom Perry
Recentemente tive a oportunidade de voltar à escola, ao menos por um período de cinco dias. Fui convidado a participar de um curso de processamento de dados. Depois dos ajustes habituais para me condicionar novamente a uma situação de sala de aula, fiquei fascinado pelas mais recentes maravilhas desenvolvidas pela humanidade. Fiquei intrigado com um instrutor que digitava alguns símbolos num teclado e acessava um arquivo a 3.000 milhas de distância. Em apenas cinco segundos, ali estava a resposta, numa tela. ¶
Fomos apresentados a uma nova impressora de console, pequena, não do tipo grande e de alta velocidade. Em sua aparência normal, era muito semelhante às impressoras hoje encontradas no mercado, exceto pelo fato de que esta era muito mais eficiente do que qualquer outra com que eu já tivera contato antes. Quando a impressora começou a funcionar, operou normalmente, imprimindo da esquerda para a direita; mas depois, para economizar o tempo do retorno do carro, ela simplesmente descia uma linha e imprimia a linha seguinte ao contrário, da direita para a esquerda. Fiquei admirado com sua velocidade, sua precisão e os notáveis avanços que essa máquina apresentava em relação aos modelos anteriores. ¶
Ao examinar essa tecnologia mais recente da humanidade, meus pensamentos voltaram à minha primeira apresentação a uma máquina de escritório, quando eu era uma criança de cinco ou seis anos. Essa apresentação foi a uma velha máquina de somar, operada manualmente, que meu pai usava em suas funções administrativas de bispo. Pensei em que evolução maravilhosa ocorreu, durante minha vida, apenas no campo das máquinas comerciais. ¶
Naquele breve minuto, enquanto minha mente revia nosso progresso, senti também um impulso irresistível de olhar para a frente, percebendo quantos mais desenvolvimentos tecnológicos ainda estão por vir. Vi-me, mais uma vez, maravilhado com a arquitetura do Senhor, ao contemplar seus processos criativos. Aqui ele nos supriu com toda a matéria-prima para atender às nossas necessidades desde o princípio, a criação, até o fim, a celestialização da terra. ¶
É em momentos como este que penso naquela grande escritura que nosso profeta nos citou esta manhã: ¶
“Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.” (Salmos 24:1.) ¶
Sempre me interessou notar que, nas escrituras, quando o Senhor fala de retidão, nós o ouvimos declarar abundância, plenitude e fartura. A escassez e a carência não vêm dele, mas são causadas pelo homem, por não seguirmos suas instruções originais de “frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a: e dominai sobre [ela].” (Gênesis 1:28.) ¶
Ora, para maximizar nosso potencial, ele nos deu, desde o princípio, orientação sobre nosso comportamento enquanto peregrinamos aqui como mortais na terra. Pediu-nos, primeiro, que o amássemos, crendo em suas palavras, e, segundo, que amássemos nossos semelhantes o bastante para ajudá-los a alcançar um entendimento e um testemunho dele. Cristo, quando confrontado pelo doutor da lei com a pergunta “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?”, deu esta resposta: ¶
“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. ¶
“Este é o primeiro e grande mandamento. ¶
“E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. ¶
“Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” (Mateus 22:36–40.) ¶
Dessa resposta de nosso Salvador, obtemos o conhecimento dos dois grandes mandamentos fundamentais. Gostaria de reafirmá-los a vocês, no esforço de que possamos apreciá-los e compreendê-los melhor. ¶
O primeiro pode ser ilustrado por uma experiência ocorrida entre um pai e seu filho, registrada no Livro de Mórmon. Alma era sumo sacerdote do povo e viveu neste continente menos de 150 anos antes da época do Salvador. Deve ter sido um pai que tinha grande amor por seu filho, pois lhe deu seu próprio nome. Mas, ao chegar à idade adulta, Alma, o Jovem, afastou-se dos ensinamentos de seu pai. As escrituras registram: ¶
“Tornou-se um homem muito iníquo e idólatra. E era um homem de muitas palavras e lisonjeava muito o povo; portanto, fez com que muitos do povo agissem segundo suas iniquidades.” (Mosias 27:8.) ¶
Depois que seu pai tentou diligentemente mudar os caminhos de Alma, o Jovem, e não obteve êxito, ele [Alma] foi ao Senhor e pediu que Alma [seu filho] recebesse um sinal, para que pudesse conhecer o erro de suas ações e lhe fosse mostrado o caminho certo a seguir. Um acontecimento muito notável ocorreu na vida de Alma, o Jovem, pois um anjo se apresentou diante dele e o chamou ao arrependimento. ¶
Terminada essa grande visão, Alma caiu por terra, tamanho foi seu espanto. Ficou mudo, sem poder falar, e fraco, sem poder ficar em pé. Os que estavam com ele o carregaram e o depuseram, indefeso, diante de seu pai. E seu pai regozijou-se com o que havia acontecido, pois sabia que era pelo poder do Senhor. Reuniu, então, os sacerdotes e pediu que jejuassem e orassem com ele por dois dias e duas noites, a fim de que Alma recuperasse as forças. Suas orações foram atendidas; Alma recuperou-se, pôs-se de pé diante deles e começou a falar-lhes, exortando-os a ter bom ânimo, e disse: ¶
“Arrependi-me de meus pecados e o Senhor redimiu-me; eis que nasci do Espírito. ¶
“E o Senhor disse-me: Não te admires de que toda a humanidade, sim, homens e mulheres, toda nação, tribo, língua e povo tenham de nascer de novo; sim, nascer de Deus, serem mudados de seu estado carnal e decaído para um estado de retidão, sendo redimidos por Deus, tornando-se seus filhos e filhas; ¶
“E tornam-se, assim, novas criaturas; e a menos que façam isto [a advertência], não poderão de modo algum herdar o reino de Deus.” (Mosias 27:24–26.) ¶
As palavras de Alma tornaram-se, para cada um de nós, um testemunho do que deve ocorrer em nossa vida, se quisermos encontrar a experiência recompensadora e plena de sermos convertidos aos caminhos do Senhor. ¶
Ora, a conversão não é um fim, mas o começo de uma nova maneira de viver. Permitam-me usar, novamente, o exemplo de outra personagem forte das escrituras, para ilustrar o segundo grande mandamento sobre o que deve seguir-se à conversão. O Novo Testamento nos fala de alguém que esteve entre os primeiros a seguir o Salvador em seu ministério terreno. As escrituras registram: ¶
“E Jesus, andando junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores. ¶
“E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. ¶
“Então eles, deixando logo as redes, seguiram-no.” (Mateus 4:18–20.) ¶
Ora, pescar, para Pedro, representava sua riqueza ou sua capacidade de obter as coisas do mundo. Notem que, desde o início, Pedro foi chamado a escolher entre as coisas do mundo e as exigências de Deus. Pedro teve uma oportunidade de conversão como poucos homens que já viveram na terra tiveram, por causa de sua convivência com o Salvador. As escrituras registram o grande testemunho que lhe foi dado quando ele, com Tiago e João, foi levado a um monte alto, à parte do resto do mundo: “E [o Salvador] transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz.” (Mateus 17:2.) ¶
Mesmo depois de um testemunho tão notável, vemos o Salvador lembrando constantemente a Pedro de seus compromissos e responsabilidades: ¶
“Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; ¶
“Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos.” (Lucas 22:31–32.) ¶
Pedro teve, então, o privilégio de testemunhar a maior de todas as manifestações dadas pelo Salvador à humanidade, pois testemunhou a dor da crucificação e, depois, teve o privilégio de ver o Senhor ressuscitado. Mas, mesmo depois de testemunhar a ressurreição, parece que Pedro ainda não havia compreendido o real significado de sua conversão. Depois da gloriosa experiência de ver o Salvador ressuscitado, quando os discípulos ficaram novamente sozinhos, pois o Salvador havia ascendido dentre eles, os primeiros pensamentos de Pedro foram voltar novamente às coisas do mundo. ¶
E disse àqueles que estavam com ele: “Vou pescar. Disseram-lhe eles: Também nós vamos contigo. Foram, e subiram logo para o barco, e naquela noite nada apanharam. ¶
“Mas, sendo já manhã, Jesus se apresentou na praia, porém os discípulos não reconheceram que era [o Salvador]. ¶
“Disse-lhes, pois, Jesus: Filhos, tendes alguma coisa de comer? Responderam-lhe: Não. ¶
“E ele lhes disse: Lançai a rede para o lado direito do barco, e achareis. Lançaram-na, pois, e já não a podiam tirar, pela multidão dos peixes.” (João 21:3–6.) ¶
Aqui o Salvador ensina a Pedro uma grande lição. As coisas de Deus estão acima das coisas do homem. O Senhor tem poder para suprir os peixes, as coisas do mundo, mas elas são secundárias em relação à sua obra. ¶
Por fim, a grande lição da missão do Salvador é ensinada a Pedro enquanto jantam juntos: ¶
“Disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. Disse-lhe ele: Apascenta os meus cordeiros.” (João 21:15.) ¶
Depois, a pergunta pela segunda e terceira vez. E, por fim, Pedro, entristecido, respondeu ao Senhor: “Tu sabes todas as coisas; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21:17.) ¶
Finalmente, Pedro compreendeu: “quando te converteres” — uma condição traz consigo a responsabilidade de fazer algo com essa conversão, de apascentar as ovelhas do Salvador. O verdadeiro valor de nosso compromisso, por meio de nossa conversão, está em traduzi-lo em ação, quando algo resulta daquilo que ocorreu por conhecermos o Senhor. ¶
Na vida de muitos de nossos grandes líderes da Igreja nesta dispensação, temos visto esse processo de conversão traduzido num poderoso desejo de fortalecer a vida dos irmãos. Um exemplo que sempre me impressionou é a história de John Taylor. ¶
O evangelho foi apresentado pela primeira vez ao irmão Taylor e sua família em Toronto, no Canadá, pelo élder Parley P. Pratt, em abril de 1836. Naquela época, John Taylor exercia o ministério religioso e investigou muito cuidadosamente os ensinamentos do élder Pratt. Ele anotou oito sermões pregados pelo élder Pratt e os comparou com a Bíblia, para ver se encontrava algo contrário às escrituras. Fez de sua investigação da Igreja uma ocupação regular por três semanas, e então ficou satisfeito e foi batizado. ¶
Cerca de um ano depois, John Taylor visitou Kirtland, em Ohio. A sombria apostasia pairava sobre a cidade e, infelizmente, essa dissensão havia afetado Parley P. Pratt, ao voltar de sua missão no Canadá. O élder Pratt tentou mostrar ao irmão Taylor por que julgava que o Profeta Joseph estava em erro. A isso, John Taylor respondeu com firmeza: ¶
“Estou surpreso de ouvir você falar assim, irmão Parley. Antes de deixar o Canadá, você deu um forte testemunho de que Joseph Smith é profeta de Deus e de que é verdadeira a obra que ele inaugurou; e disse que sabia dessas coisas por revelação e pelo dom do Espírito Santo. Você me fez um encargo severo, no sentido de que, ainda que você ou um anjo do Céu viesse declarar qualquer outra coisa, eu não deveria acreditar. ¶
Ora, irmão Parley, não é o homem que estou seguindo, mas o Senhor. Os princípios que você me ensinou me conduziram a Ele; e agora tenho o mesmo testemunho do qual você então se regozijava. Se a obra era verdadeira seis meses atrás, é verdadeira hoje; se Joseph era profeta então, é profeta agora.” (B. H. Roberts, Life of John Taylor, Bookcraft, 1963, pp. 39–40.) ¶
Parley P. Pratt viu o erro de seus caminhos, foi fortalecido e foi ao Profeta Joseph com lágrimas nos olhos, pediu perdão e reafirmou sua lealdade ao profeta-líder da Igreja. Verdadeiramente, as palavras de um John Taylor convertido tiveram um efeito inspirador na vida do irmão Parley P. Pratt. ¶
“E tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos.” (Lucas 22:32.) ¶
Toda a abundância, plenitude e fartura desta terra nos foram dadas por Deus para serem desfrutadas em retidão. Espera-se, por sua vez, que o amemos; que nos convertamos a ele e a seus caminhos e apascentemos suas ovelhas; que nos multipliquemos, enchamos a terra e fortaleçamos nossos irmãos. Oro para que todos possamos captar a visão do que significa a conversão e concentrar nosso serviço no esforço de edificar o reino de Deus aqui na terra; que possamos ser comparados a Alma, a Pedro ou ao Presidente John Taylor, e aos outros grandes profetas e líderes da Igreja ao longo das dispensações do tempo, que vislumbraram sua obra maravilhosa e passaram a dedicar suas vidas a seus propósitos. ¶
Permitam-me acrescentar meu testemunho a esta conferência de que Deus vive, de que Jesus é o Salvador deste mundo, de que Spencer W. Kimball, que conduz esta sessão da conferência aqui hoje, é um profeta. Pensem nisso — um profeta do Senhor na terra hoje! Permitam-me dar este testemunho como o sei, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶