Suas Últimas Horas
Howard W. Hunter
Há poucos anos menos de 2.000 anos, neste mesmo dia, os acontecimentos iniciais da semana mais importante da história da humanidade começaram a se desenrolar nos arredores de Jerusalém, perto da pequena aldeia de Betânia. Jesus de Nazaré, com um ministério de apenas três anos entre seus concidadãos, deixou a casa de seus amigos Maria, Marta e Lázaro e caminhou resolutamente em direção aos portões de Jerusalém. Alguns dos habitantes daquela cidade antiga o consideravam um blasfemo, um demônio, um transgressor da lei judaica. Outros criam que ele era um profeta, o Messias, o Filho do Deus vivo. Fossem quais fossem as opiniões, toda a Judeia conhecia esse homem que ensinava com poder e autoridade, embora não fosse nem escriba nem fariseu. ¶
"E a páscoa dos judeus estava próxima", registra João, "e muitos daquela região subiram a Jerusalém antes da páscoa, para se purificarem. ¶
"Buscavam, pois, a Jesus e diziam uns aos outros, estando no templo: Que vos parece? Não virá ele à festa?" (João 11:55–56.) ¶
A lei judaica exigia a presença de todos os homens adultos nesta, a mais sagrada das comemorações cerimoniais de Israel. Mas os membros do Sinédrio haviam jurado abertamente tirar a vida de Jesus, e muitos duvidavam da probabilidade de que ele comparecesse a uma reunião tão pública. ¶
A sensação de perigo para ele estava presente em toda parte, mas Jesus veio, sim, a Jerusalém para a festa da Páscoa, não com pompa e cerimônia, mas montado em um humilde jumento — símbolo de humildade e paz. Uma grande multidão saiu de Jerusalém para recebê-lo, espalhando ramos de palmeiras diante de seu caminho e clamando: "… Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor. …" (Mateus 21:9.) ¶
Mateus registra que "toda a cidade se agitou, dizendo: Quem é este? ¶
"E a multidão respondia: Este é Jesus, o profeta, de Nazaré da Galileia." (Mateus 21:10–11.) ¶
Para todos os que conheciam a lei, essa era a entrada triunfal do rei de Israel, havia muito predita pelos profetas e havia muito aguardada pela descendência de Israel. A multidão estava jubilosa e clamorosa; Jesus, régio e silencioso. De fato, ao aproximar-se dessa cidade tão favorecida por Deus, ele chorou por Jerusalém, dizendo: ¶
"Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos … te cercarão, e te sitiarão, e te apertarão de todos os lados, ¶
"E te derribarão por terra … ; e não deixarão em ti pedra sobre pedra." (Lucas 19:43–44.) ¶
Jesus também sabia de seu próprio destino iminente. Falou em parábolas do grão que precisa morrer para dar fruto, e de um filho escolhido, enviado pelo pai à vinha da família, apenas para ser morto como os servos do pai haviam sido mortos antes dele. Por vezes, o fardo parecia quase pesado demais para suportar. ¶
"Agora a minha alma está perturbada;" admitiu ele. "… Pai, salva-me desta hora: mas para isto vim a esta hora." (João 12:27.) Seu propósito único e seu compromisso inabalável em fazer a vontade de seu Pai o impeliram adiante. ¶
Conforme seu próprio futuro mortal se esmaecia, ele declarou serenamente: "Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas." (João 12:46.) Tais declarações uniam seus inimigos contra ele, mas ainda assim ele proclamou: "Porque eu não tenho falado de mim mesmo; porém o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar." (João 12:49.) ¶
Na esperança de apanhar Jesus em suas próprias palavras, alguns dos mais astutos de seus adversários formulavam perguntas de duplo sentido sobre a lei política e rabínica. Um grupo de fariseus e herodianos lhe fez uma pergunta das mais diabólicas: ¶
"… Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus. … ¶
"Dize-nos, pois, … é lícito pagar tributo a César, ou não?" (Mateus 22:16–17.) Se respondesse que sim, seria facilmente acusado de trair sua herança entre a descendência de Abraão, o próprio grupo que cambaleava sob a opressão da lei romana. Se respondesse que não, seria imediatamente detido como agitador político. Ele não respondeu nem uma coisa nem outra; em vez disso, pediu que lhe mostrassem uma moeda com a qual normalmente se pagava tal tributo. ¶
Erguendo a moeda diante de seus acusadores, ele perguntou: "De quem é esta imagem e esta inscrição?" É claro, responderam como qualquer criança na rua poderia responder: "De César." Com essa única pergunta, ele havia assumido o comando do confronto. Devolveu a moeda dizendo: "… Dai, pois, a César o que é de César" (Mateus 22:20–21), como quem diz: "O nome e o retrato do homem estão na moeda. Certamente ela lhe pertence. Tende a bondade de devolvê-la a seu legítimo dono." ¶
Brilhantemente, ele havia destruído a artimanha de seus opressores, mas essa nunca fora sua verdadeira missão ou seu verdadeiro desejo. Estes, também, eram filhos de Deus. Estes, também, estavam entre aqueles que ele viera salvar. Ele temia por eles e os amava mesmo em sua malícia. Ao se afastarem, ele acrescentou um apelo: "… e [dai] a Deus o que é de Deus." Assim como a moeda trazia a imagem de César, também estes e todos os homens traziam a imagem de Deus, seu Pai Celestial. Haviam sido criados por ele à semelhança de sua imagem, e Jesus haveria de proporcionar-lhes um caminho para que a ele retornassem. No entanto, "ouvindo eles isto, maravilharam-se e, deixando-o, se retiraram." (Mateus 22:21–22.) ¶
Pouco depois, um doutor da lei lhe armou uma cilada teológica, dizendo: "Mestre, qual é o grande mandamento na lei?" (Mateus 22:36.) Os estudiosos da lei haviam dividido, subdividido e classificado o código mosaico original de modo tão minucioso que algumas partes da lei pareciam estar em direta oposição a outras. Mas Jesus não se deixaria paralisar pelos jotas e til de um debate legal. Em um só golpe, ele penetrou o cerne da lei e integrou aquelas várias partes em seu único e grande todo: "… Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. ¶
"Este é o primeiro e grande mandamento. ¶
"E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Mateus 22:37–39.) ¶
Mais uma vez, Jesus transformara uma pergunta cheia de veneno, inveja e engano técnico em uma resposta de amor, compaixão e elevada visão. ¶
Conforme as horas finais de sua missão terrena se aproximavam, Jesus se afastou das multidões e buscou apenas fortalecer seus discípulos. Advertiu-os sobre o que estava por vir. Falou da destruição de Jerusalém e da aflição e apostasia que precederiam seu retorno à terra nos últimos dias. Falou de um senhor que, após longo tempo em terra distante, viria acertar contas com seus servos, cada um segundo sua capacidade e os talentos que lhe foram dados para investir em uma causa digna. Falou de um pastor que separaria suas ovelhas dos bodes, sendo as primeiras aqueles seguidores que deram de comer ao faminto, de beber ao sedento, vestimenta ao nu e atenção ao aflito. Falou de virgens que participavam de um casamento, algumas das quais tinham azeite suficiente para aparar suas lâmpadas, enquanto outras viram sua escassa provisão esgotar-se porque o noivo tardou mais do que supunham. Assim, Jesus ensinou seus discípulos a vigiar e orar; ensinou-lhes, contudo, que a vigilância em oração não exige ansiedade insone e preocupação com o futuro, mas sim a atenção quieta e constante aos deveres do presente. ¶
Conforme se aproximava a hora do sacrifício, Jesus se retirou com seus doze apóstolos para a paz e privacidade de um cenáculo. Ali, o Mestre buscou fortalecer suas testemunhas especiais contra as ciladas do maligno, depondo sua veste exterior, cingindo-se com uma toalha e lavando os pés dos apóstolos. ¶
Esse magnífico gesto de amor e união foi um prelúdio adequado à refeição pascal que se seguiu. Desde a época em que os primogênitos dos filhos fiéis de Israel haviam sido "poupados" na destruição trazida sobre o Egito pela intransigência de Faraó, a refeição da Páscoa, com todos os seus emblemas e gestos simbólicos, vinha sendo fielmente observada pelas famílias de Israel. Quão apropriado foi que, durante a observância desse antigo convênio de proteção, Jesus instituísse os emblemas do novo convênio de segurança — os emblemas de seu próprio corpo e sangue. Ao tomar o pão e parti-lo, e tomar o cálice e abençoá-lo, ele se apresentava como o Cordeiro de Deus que proporcionaria alimento espiritual e salvação eterna. ¶
Com o novo convênio veio um novo mandamento. Jesus disse que seus discípulos deveriam "amar-se uns aos outros; como eu vos amei. … ¶
"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." (João 13:34–35.) ¶
Até o fim mesmo de sua vida mortal, Jesus demonstrava a grandeza de seu espírito e a magnitude de sua força. Ele não estava, mesmo àquela hora tardia, egoisticamente absorto em suas próprias dores ou contemplando a dor iminente. Estava ansiosamente atento às necessidades presentes e futuras de seus amados seguidores. Sabia que a segurança deles, individualmente e como igreja, residia apenas no amor incondicional de uns pelos outros. Parece que todas as suas energias estavam voltadas para as necessidades deles, ensinando assim pelo exemplo o que ensinava pelo preceito. Deu-lhes palavras de conforto, de mandamento e de advertência. ¶
"Não se turbe o vosso coração," disse ele, pois percebia o medo e a tristeza deles. "Na casa de meu Pai há muitas moradas. … Vou preparar-vos lugar. … Eu sou o caminho, e a verdade e a vida. … Tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei. … Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre. … Não vos deixarei órfãos: virei a vós. … Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. … Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros." (Vide João 14; 15. Passim.) ¶
Naquela noite das noites, quando o pequeno grupo se aproximava do Jardim do Getsêmani, Jesus poderia ter pedido a seus apóstolos que orassem por ele, para fortalecê-lo para a tarefa indizível que estava por vir. Mas, em vez disso, Jesus orou por eles e por aqueles que fossem semelhantes a eles: ¶
"Não rogo que os tires do mundo," registra João, que ali estava para ouvi-lo, "mas [rogo] que os guardes do … mal. … Eles não são do mundo. … Santifica-os na tua verdade. … E rogo, não somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim: para que todos sejam um; como tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós: para que o mundo creia que tu me enviaste." (João 17. Passim.) ¶
Tendo oferecido aquela magnífica oração intercessória, Jesus prosseguiu para enfrentar sozinho sua angústia de corpo e espírito. Um apóstolo moderno do Senhor Jesus Cristo escreveu: ¶
"A agonia de Cristo no jardim é insondável para a mente finita, tanto quanto à intensidade quanto à causa. … Naquela hora de angústia, Cristo enfrentou e venceu todos os horrores que Satanás … pôde infligir. … ¶
"De algum modo, real e terrivelmente concreto, embora incompreensível para o homem, o Salvador tomou sobre si o fardo dos pecados da humanidade, desde Adão até o fim do mundo." (James E. Talmage, Jesus the Christ, Deseret Book Co., 1962, p. 613.) ¶
Dali, foi apenas questão de horas até que ele fosse falsamente acusado, ilegalmente julgado e injustamente crucificado. Ele fez o que nenhum outro jamais fez — ressuscitou ao terceiro dia de seu próprio túmulo, um túmulo mais uma vez repleto da luz e da vida do mundo, e ascendeu a seu Pai. Jesus de Nazaré era agora Jesus, o Cristo; havia vencido a morte. ¶
Em contraste com a pressa e os afazeres atarefados de nossos dias, sua vida foi de simplicidade. Viveu em circunstâncias humildes. Não se cercou dos orgulhosos e poderosos da terra, mas dos pobres, dos humildes e daqueles de condição modesta. Não havia nada de complicado em sua vida ou em seu ensinamento. As palavras que proferiu se relacionam a pessoas de todas as condições — a todos os que o ouviram em seus dias e a todos os que o ouvirão hoje. ¶
A história bem suporta o encargo de fornecer ampla evidência de sua morte. Tão certo quanto sei que ele morreu, tenho a tranquila, porém firme certeza de que ele vive hoje — o Salvador de toda pessoa que já nasceu ou que ainda há de nascer sobre esta terra. Ao entrarmos agora na antiga semana da Páscoa, que possamos pensar no Cristo ressuscitado, o Filho vivo do Deus vivo. Que, em seu nome, unamos nossos corações, amemo-nos uns aos outros e guardemos seus mandamentos é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém. ¶